O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
Sermão sobre o Progresso

Autor:
Allan Kardec

Fonte:
Revista Espírita
Abril de 1865

HISTÓRICO

   

Escrevem-nos de Montauban:

Nestes dias passou-se em nossa cidade um fato que impressionou diversamente a população. Um pregador protestante, o sr. Rewile, capelão do rei da Holanda, num discurso pronunciado perante duas mil pessoas, se afirmou claramente partidário das idéias novas. Sentimo-nos felizes ao ouvir, por primeira vez, estas sublimes verdades proclamadas do alto do púlpito cristão, e desenvolvidas com um talento e uma eloqüência de primeira linha. É preciso que tenha sido belo, pois os fanáticos se apressaram em lhe dar o título de anticristo. Lamento não poder transmitir o sermão inteiro, mas tentarei analisar algumas passagens.

“O orador tinha tomado como texto: Não vim destruir a Lei e os Profetas, mas dar-lhes confirmação. Amai-vos de todo o vosso coração, de toda a vossa alma, de todo o vosso entendimento, e ao próximo como a vós mesmos.”

“Segundo o sr. Rewile, a missão do Cristo entre os homens foi uma missão de caridade e de espiritualidade; sua doutrina parecia, pois, estar em oposição à dos judeus, cujo princípio era: “Observância estrita da lei”, princípio que geraria o egoísmo. Mas a palavra confirmar explica essa contradição aparente, porque significa completar, tornar mais perfeita. Ora, substituir o egoísmo pela caridade e o culto da matéria pela espiritualidade, era cumprir, completar a lei. Em vão o Cristo tentou fazer essa nação romper as cadeias da matéria, levantando o seu pensamento e fazendo-a encarar seu destino mais alto. Jamais pôde ela compreender a profundeza de sua moral. Assim, quando quis atacar os abusos de toda sorte, as práticas exteriores e suavizar os rigores da lei moisaica, foi acusado e covardemente condenado. Os judeus esperavam um Messias conquistador que, armado de um cetro de ferro, deveria dar-lhes em partilha o poder temporal e não compreendiam o que havia de grande, de sublime naquele que, com um frágil caniço na mão, vinha trazer à Humanidade, como dádiva de sua força espiritual, a lei do amor e da caridade.”

“Mas os desígnios de Deus sempre se realizam, mau grado todas as resistências; e se os judeus, como obreiros de má-vontade, recusaram-se a trabalhar na vinha, nem por isso a Humanidade marchou e marchará, arrastando em sua passagem tudo o que constitui obstáculo para chegar ao progresso. Sob pena de fracasso, a Igreja cristã deve seguir esta marcha ascendente porque a Humanidade não foi feita para a Igreja, mas a Igreja para a Humanidade. Infeliz de quem resistisse, pois seria triturado como poeira pela mão do progresso. O passado não deve responder pelo futuro?”

“Que os filhos do século dezenove, contrariamente à conduta dos judeus antigos, compreendam e realizem esta obra! Já não  experimentam esse frêmito involuntário, que agita todas as inteligências de escol e que as impele espontaneamente para a conquista das idéias de espiritualidade, garantia única de felicidade? Porque, sem espiritualidade, há apenas a matéria e sem liberdade não há apenas escravidão? Porque, então, resistir por mais tempo a esses nobres impulsos da alma e atribuir ao demônio esses novos sinais dos tempos modernos?  Porque, antes,  não ver  aí as inspirações dos mensageiros celestes de um Deus de amor e de caridade, anunciando-nos a renovação da Humanidade? “

“Que a Igreja cristã volte ao Espírito. Com efeito, que é a Igreja sem o Espírito, senão um cadáver, um verdadeiro cadáver na acepção da palavra?... Quem tiver ouvidos que ouça! A verdadeira Igreja, nestes dias críticos, tem o direito de contar com seus filhos... Vamos, de pé e à obra! Que cada um faça o seu dever. Deus o quer! Deus o quer”

“Se o Cristo veio para confirmar, isto é, para completar a lei pela prática do amor de Deus e dos homens, é que considerava este preceito como resumindo a perfeição humana. A lei de amor de Deus e dos homens é, como resumindo a perfeição humana. A lei de amor de Deus e dos homens é, como ensina o próprio Cristo, uma lei de primeira ordem, à qual estão subordinadas todas as outras.”

“É, pois, necessário praticá-la na sua mais larga acepção, a fim de se aproximar dele e, conseqüentemente, de Deus, do qual foi a mais alta expressão na Terra.”

“Para amar a Deus é preciso amar a verdade, o belo e o bem; é necessário sentir-se transportado interiormente para esses atributos da perfeição moral; mas, também, é preciso amar a seus irmãos, seus semelhantes, em que Deus se reflete no que há de verdade, de belo e de bem.”

“Por que o Cristo amou a Humanidade até dar a vida por ela? Porque, sendo também a mais alta expressão da perfeição humana, sentiu no mais alto grau os efeitos dessa lei de amor de Deus e dos homens, e teve que a praticar de maneira sublime... Praticar a caridade, amar, é marchar a passos largos na via da verdade, do belo, do bem; é ir para Deus! Amar é viver; é ir para a imortalidade!”

Segundo estou informado, o sr. Rewille teria abordado com sucesso a questão das manifestações, em duas conferencias para os alunos da Faculdade.  Teria respondido vitoriosamente a todas as objeções. Lamento não ter podido ouvi-lo nesta circunstância tão importante.

Observação: - Bem tinham dito os Espíritos que o Espiritismo iria encontrar defensores nas próprias fileiras adversárias. Um tal discurso na boca de um ministro da religião e pronunciado do alto do púlpito, é um acontecimento sério. Esperemos ver outros, porque o exemplo da coragem de opinião é contagioso. As idéias novas não tardarão mais a encontrar campeões confessos na alta ciência, na literatura e na imprensa; aí já têm mais simpatias do que se crê. Só o primeiro passo é que custa. Até hoje, pode dizer-se, com exceção dos órgãos especiais do Espiritismo, que não se dirigem à massa do público indiferente, só os nossos adversários têm a palavra, e Deus sabe se a usaram! Agora trava-se a luta. Que dirão quando virem nomes justamente honrados e estimados, saindo de suas fileiras, para tomar abertamente nas mãos a bandeira da doutrina? Está dito que tudo se cumprirá.