|
O
episódio seguinte é tirado do relato publicado pelo jornal
“la Liberte”, de uma viagem do Sr. Hugo à Holanda, na província
de Zelândia. O artigo se acha no número de 6 de novembro de
1867.
“Acabávamos
de entrar na cidade; eu tinha os olhos erguidos, e chamava a
atenção de Stevens, meu vizinho de banco no carro, para o
pitoresco recorte dentado de uma sucessão de telhados
hispano-flamengos, quando, por sua vez, ele me tocou no ombro, e
me fez sinal para olhar o que se passava no cais”.
“Uma
multidão barulhenta de homens, mulheres e crianças cercava
Victor Hugo; descendo da viatura, escoltado pelas autoridades da
cidade, ele avançava, com um ar simplesmente de emoção, a
cabeça descoberta, com dois ramalhetes nas mãos e duas meninas
de vestido branco ao seu lado”.
“Eram
as duas meninas que acabavam de lhe oferecer as flores”.
“Que
dizeis, por esse tempo de visitas coroadas de ovações
artificiais ou oficiais, desta entrada singularmente triunfal de
um homem universalmente popular, que chega de improviso a um país
perdido, cuja existência nem mesmo suspeitava, e que aí se
encontra muito naturalmente em seus Estados? Quem teria podido
fazer o poeta prever que essa cidadezinha desconhecida, cuja
silhueta tinha considerado de longe e com curiosidade, era a sua
boa cidade de Ziéricsée?”
“Ao
jantar, o Sr. Van Maenen disse a Victor Hugo:
-
Sabeis quem são as duas lindas meninas que vos
ofereceram flores?
-
Não.
-
São as filhas de um ressurecto”.
“Isto
exigia uma explicação, e o capitão nos contou a seguinte
aventura estranha: Isto fora há cerca de um mês; uma tarde, ao
crepúsculo, uma viatura onde estavam um homem e um menino
entrava na cidade.”
“É
preciso dizer que pouco antes esse homem havia perdido a esposa
e um dos filhos, com que
ficara muito triste.”
“Posto
que ainda tivesse duas meninas e o menino, o qual estava com ele
nesse momento, não se havia consolado e vivia na melancolia.”
“Naquela
tarde sua viatura seguia por uma dessas calçadas de aterro e
abruptas, que são, à direita e à esquerda, ladeadas por um
fosso de água estagnada e às vezes profunda.”
“De
súbito o cavalo, sem dúvida mal dirigido através da bruma da
tarde, bruscamente perdeu o equilíbrio e rolou do alto da
talude para o fosso, arrastando consigo o carro, o homem e a
criança.”
“Houve
nesse grupo de seres precipitados um momento de angústia
horrorosa, de que ninguém foi testemunha, e um esforço obscuro
e desesperado para a salvação. Mas a absorção se fez com a
confusão da queda, e tudo desapareceu na cloaca, que se fechou
com a espessa lentidão da lama.”
“Só
o menino que, como milagre, ficou fora do fosso, gritava e
chamava lamentavelmente, agitando os bracinhos; dois camponeses,
que atravessavam um campo de flores, a alguma distância,
ouviram os gritos e acorreram.”
“Retiraram
o menino, que gritava: meu papá! Meu papá! Eu quero o meu papá!”
“
- E onde está o teu papá?”
“
- Lá, dizia o menino, mostrando o fosso”.
“Os
dois camponeses compreenderam e puseram-se ao trabalho; ao cabo
de quinze minutos retiraram a viatura quebrada. Depois de meia
hora tiraram o cavalo morto. O pequeno gritava sempre e pedia o
pai.”
“Enfim,
após novos esforços, do mesmo buraco do fosso, pescaram e
trouxeram para fora da água algo inerte e fétido, que estava
inteiramente negro e coberto de lodo: era o cadáver do pai”.
“Tudo
isto tinha levado cerca de uma hora. O desespero do menino
redobrava; não queria que seu pai estivesse morto. Entretanto,
os camponeses o julgavam bem morto. Mas como o menino lhes
suplicasse e se agarrasse a eles, tentaram para acalmar o menino
o que se faz sempre em tais casos na região:
puseram-se a rolar o afogado no campo de garança.”
“Rolaram-no,
assim, um bom quarto de hora. Nada mudou; rolaram-no ainda. A
mesma imobilidade. O pequeno acompanhava, chorando; recomeçaram
uma terceira vez e, já iam renunciar, quando lhes pareceu que o
cadáver movia o braço. Continuaram. O outro braço se agitou.
O corpo inteiro deu sinais de vida e o “morto” começou a
ressuscitar lentamente”.
“Isto
é extraordinário, pois não! Então! Eis o que é ainda mais
imprevisto: o homem suspirou lentamente, voltando a vida e
gritou com desespero: “Ah! Meu Deus! Que foi que fizestes? Eu
estava tão bem onde estava! Estava com minha mulher, com meu
filho. Tinham vindo a mim e eu a eles. Eu os via, estava no céu,
estava na luz. Ah! Meu Deus! quer foi que fizeste? Não estou
mais morto!”
“O
homem que assim falava acabara de passar uma hora no lodo. Tinha
o braço quebrado e contusões graves”.
“Levaram-no
para a cidade, e apenas acabava de se curar, acrescentou o sr. Van
Maenen, acabando de nos contar esta historia.”
“O
Sr. Victor Hugo, que tinha ficado silencioso durante a narração,
disse, há dois enigmas nesta história: o enigma do corpo e o
da alma. Não me encarrego de explicar o primeiro, nem dizer
como pode um homem ficar sumido durante uma hora numa cloaca sem
que se siga a morte. A asfixia, cremos, ainda é um fenômeno
mal conhecido. Mas o que compreendo é a lamentação dessa
alma. Que! Ela já tinha saído da vida terrena, desta sombra,
deste corpo sujo, desses lábios negros, desse fosso negro! Ela
tinha começado a evasão encantadora. Através da lama, ela
tinha chegado à superfície da cloaca e aí, ligada ainda por
uma última pena de sua asa a este horrível último suspiro
estrangulado no pântano, ela já respirava silenciosamente a
fresca inefável de fora da vida. Ele já podia voar para os
seus amores perdidos e atingir e erguer-se até a criança”.
“De
repente, a semi-fugida se arrepia; sente que o laço terrestre
em vez de se romper inteiramente, se reata, em vez de subir na
luz, desce bruscamente na noite e ela, a alma, teve de entrar
violentamente no cadáver. Então ela solta um grito terrível.”
“O
que disto resulta para mim, acrescentou Victor Hugo, é que a
alma pode ficar um certo tempo acima do corpo, em estado
flutuante, já não sendo mais prisioneira e ainda não estando
liberta.”
“Esse
estado flutuante é a agonia, é a letargia. O estertor é a
alma que se lança fora, e que se sacode arquejante, até que se
quebre o fio vaporoso
do último sopro.”
“Parece-me
que a vejo. Ela luta, escapa-se um pouco dos lábios; neles
entra, escapa-se de novo, depois dá um grande golpe e ei-la que
voa de um jato e desaparece no azul imenso.”
“Está
livre. Mas algumas vezes também o agonizante volta à vida; então
a alma desesperada volta ao agonizante. O sonho por vezes nos á
a sensação dessas estranhas idas e vindas da prisioneira. Os
sonhos são alguns passos quotidianos da alma fora de nós. Até
que tenha completado seu tempo no corpo, a alma faz, cada noite,
no nosso sono, o giro no pátio do sonho.”
Paul
de La Miltière.
O
fato em si mesmo é eminentemente espírita, como se vê. Mas se
existe algo de mais espírita ainda, é a explicação dada pelo
Sr. Victor Hugo. Dir-se-ia tirada textualmente da doutrina. Aliás,
não é a primeira vez que ele se exprime nesse sentido.
Lembra-se do encantador discurso que ele pronunciou, há cerca
de três anos, no túmulo da jovem Emily Putron. Certamente o
mais convicto espírita não falaria de outro modo. A tais
pensamentos não falta absolutamente senão a palavra.; mas que
importa a palavra, se as idéias se acreditam! Por seu nome
autorizado, o sr. Victor Hugo é um dos seus vulgarizadores. E
contudo, os que os aclamam em sua boca ridicularizam o
Espiritismo, nova prova de que não sabem em que este consiste.
Se o soubessem, não trataria a mesma idéia de loucura em uns,
e de verdade sublime em outros,
Allan
Kardec.
|