O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
Prestidigitação

Autor:
Carlos Imbassahy

Fonte:
Livro: O Espiritismo à Luz dos Fatos

HISTÓRICO

   

É, de fato, demonstração patente de irreflexão e ignorância invocar a arte dos ilusionistas para explicar fenômenos espíritas, como diz Forthuny.

Quando o médium Guzyk se submeteu à inspeção do Instituto Metapsíquico Internacional e produziu admiráveis fenômenos supra normais, um grupo seleto de intelectuais franceses, entre os quais se achavam grandes notabilidades científicas do país, firmou um abaixo assinado, denominado o Relatório dos 34, onde os signatários concluíam pela autenticidade irrefragável dos fatos que tinham testemunhado e submetido à mais rigorosa experimentação.

Tal relatório, como é de ver, dado o valor dos que o subscreveram, produziu, nuns, profunda emoção e, noutros, grande azáfama. Sobressaltaram-se os adversários dos estudos psíquicos e não faltaram os que, sem nada haver presenciado, inquinassem logo de fraude tudo aquilo. Os leigos opinaram pelo embuste; Dir-se-ia que uma faísca lhes jorrou do entendimento, e eles vieram explicar logo o de que se tratava; a coisa se resumia nem mais nem mesmo do que nisso: - “prestidigitação”. Tal qualìssimamente a opinião que linhas atrás acabamos de ver expendida: tudo jogo de mãos, e talvez de pés. E aquela descoberta teve um reforço considerável: é que saiu a campo para roborá-la o prestidigitador Dickson. Este, com admiração geral, declarou pela imprensa que não havia fenômeno nenhum extraordinário, senão truques, que ele reproduziria. Falava um perito!

Dir-se-ia Davy redivivo na ousadia de Dickson.

Esta afirmativa de um prestidigitador animou, incentivou, desencadeou a campanha dos negativistas, e Dickson, envaidecido pelos aplausos, chegou a lançar um desafio pelo “Le Matin” de 9 de junho de 1932, onde se comprometia a reproduzir os fenômenos fabricados por Guzik.

É fácil de calcular o regozijo que o cartel provocou. Era a desmoralização dos 34, do Instituto da Metapsiquica, do Espiritismo... Foi grande a celeuma. Os jornais reproduziram o desafio. Os opositores inscreviam o fracasso nos seus canhenhos. Já se mandava dizer para todo mundo que o prestidigitador tal reproduzira, à maravilha, todos os fenômenos que se atribuíam a uma causa fora do comum; que o Instituto embuchava; que os psiquistas se alarmavam...

Foi quando o Dr. Stephen Chauvet, provavelmente com a paciência esgotada por tanta farromba, apanhou a luva. Escreveu ele à imprensa dizendo que aceitava o repto. O Dr. Gustavo Geley, diretor do Instituto, de plena aquiescência com o seu colega, dirigiu, então, oficialmente ao “Matin”, a seguinte carta:

Sr. Redator Chefe:

Em resposta ao artigo intitulado – Uma declaração do Prof. Dickson – aparecida no “Matin” de 9 de junho, pedimos-lhe a fineza de inserir em seu jornal a nota seguinte: - O Instituto Metapsíquico se associa ao desafio lançado pelo Dr. Stephen Chauvet ao prestidigitador Dickson e oferece por seu turno uma soma de 10.000 francos, não só ao Sr. Dickson como a qualquer prestidigitador que conseguir reproduzir, sem o concurso de um médium, a nas mesmas condições de “controle” do I. M.., os fenômenos constantes da relação assinada por 34 nomes eminentes e publicadas in extenso pelo “Matin” de 7 de junho.

O I.M.I. entregará a soma de 10.000 francos ao presidente do júri. Se o prestidigitador conseguir realizar as condições do desafio, retomará os seus 10.000 francos depositados e ficará com a plena propriedade dos 10.000 francos do Instituto. No caso contrário, o Instituto retirará, apenas, os seus 10.000 francos e os do pretisdigitador serão entregues ao “Matin”, em proveito dos laboratórios.

O prestidigitador será submetido exatamente à mesma fiscalização que o nosso médium. Ele virá ao Instituto, será despido e examinado por dois dos signatários do relatório, revestido de um pijama sem bolsos, fornecido por nós.

Só nesse momento entrará na sala de sessões; será seguro pelas mãos; seus pulsos serão presos aos pulsos de dois fiscalizadores por uma fita curta, duplamente chumbada; seus pés e suas pernas serão imobilizados.

Como nas sessões do I.M., serão os assistentes ligados uns aos outros por cadeados e cadeias, que prenderão mão a mão, em torno de uma mesa; todas as portas e aberturas serão fechadas antes de começar a sessão e seladas por meio de cintas de papel, revestidas das assinaturas dos presentes.

Nessas condições, o prestidigitador deverá reproduzir os fenômenos de Guzik: - deslocamentos amplos de uma cadeira ou mesa colocados a 1m, 50 atrás de si; toques feitos na cabeça e nas costas dos fiscalizadores; fenômenos luminosos a distância.

Diz o adágio jurídico que pertence ao acusador fazer a prova. O Sr. Dickson, em nome da prestidigitação, acusa; nós lhe oferecemos, a ele ou à qualquer prestidigitador, provar o fundamento da acusação.

Receba, Sr. Redator Chefe, a segurança...

Pelo Instituto Metapsiquico Internacional,

O Diretor.

Gustavo Geley.


Como se lê, o que o diretor do Instituto oferecia ao prestidigitador pela quantia de 10.000 francos, era reproduzir os fenômenos de Guzik, tais como este os fazia, com o “controle” exercido pelo Instituto, isto é, o prestidigitador deveria sujeitar-se à fiscalização a que Guzik se sujeitara.

Ótima oportunidade para que o mágico demonstrasse o ilusionismo da fenomenologia psíquica; como o convite fora feito ao Dickson, em particular e aos mágicos em geral, a oportunidade era otímissima para que dela se aproveitassem todos os Herédias, para que dela lançassem mão todos os que proclamam a fácil imitação dos processos espíritas.

Tiveram os apologistas da prestidigitação algum conhecimento de como se houveram os mágicos imitadores?...

Pois se não sabem, sabemos nós: - O Dickson não apareceu no Instituto. Nem o Dickson, nem o Herédia, nem nenhum outro. A abstenção foi completa.

*

Não se trata de um caso isolado, nem seria a primeira vez que um ilusionista, chamado à prova, depois de assegurar as suas habilidades em matéria de imitação psíquica, se veria na contingência de tingir-se, ao lhe imporem as condições de “controle” estabelecidas para os médiuns.

Nessa questão de desafios, os mágicos não têm sido de grande felicidade. Aqui se desconhece o alvoroço que os fatos do Psiquismo têm causado no terreno da mágica, os ciúmes que têm provocado, a celeuma daí advinda, as discussões, as controvérsias, os cartéis, e os conseqüentes desastres para os imitadores. Dir-se-ia mesmo que o insucesso parece acompanhar-lhes os passos. Não há, de memória de homem, um prestidigitador que se tenha saído feliz, quando se mete a reptar um médium verdadeiro ou a demonstra-lhe os truques.