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É, de fato,
demonstração patente de irreflexão e ignorância invocar a arte
dos ilusionistas para explicar fenômenos espíritas, como diz
Forthuny.
Quando o médium
Guzyk se submeteu à inspeção do Instituto Metapsíquico
Internacional e produziu admiráveis fenômenos supra normais, um
grupo seleto de intelectuais franceses, entre os quais se
achavam grandes notabilidades científicas do país, firmou um
abaixo assinado, denominado o Relatório dos 34, onde os
signatários concluíam pela autenticidade irrefragável dos fatos
que tinham testemunhado e submetido à mais rigorosa
experimentação.
Tal relatório,
como é de ver, dado o valor dos que o subscreveram, produziu,
nuns, profunda emoção e, noutros, grande azáfama.
Sobressaltaram-se os adversários dos estudos psíquicos e não
faltaram os que, sem nada haver presenciado, inquinassem logo de
fraude tudo aquilo. Os leigos opinaram pelo embuste; Dir-se-ia
que uma faísca lhes jorrou do entendimento, e eles vieram
explicar logo o de que se tratava; a coisa se resumia nem mais
nem mesmo do que nisso: - “prestidigitação”. Tal qualìssimamente
a opinião que linhas atrás acabamos de ver expendida: tudo jogo
de mãos, e talvez de pés. E aquela descoberta teve um reforço
considerável: é que saiu a campo para roborá-la o
prestidigitador Dickson. Este, com admiração geral, declarou
pela imprensa que não havia fenômeno nenhum extraordinário,
senão truques, que ele reproduziria. Falava um perito!
Dir-se-ia Davy
redivivo na ousadia de Dickson.
Esta afirmativa de
um prestidigitador animou, incentivou, desencadeou a campanha
dos negativistas, e Dickson, envaidecido pelos aplausos, chegou
a lançar um desafio pelo “Le Matin” de 9 de junho de 1932, onde
se comprometia a reproduzir os fenômenos fabricados por Guzik.
É fácil de
calcular o regozijo que o cartel provocou. Era a desmoralização
dos 34, do Instituto da Metapsiquica, do Espiritismo... Foi
grande a celeuma. Os jornais reproduziram o desafio. Os
opositores inscreviam o fracasso nos seus canhenhos. Já se
mandava dizer para todo mundo que o prestidigitador tal
reproduzira, à maravilha, todos os fenômenos que se atribuíam a
uma causa fora do comum; que o Instituto embuchava; que os
psiquistas se alarmavam...
Foi quando o Dr.
Stephen Chauvet, provavelmente com a paciência esgotada por
tanta farromba, apanhou a luva. Escreveu ele à imprensa dizendo
que aceitava o repto. O Dr. Gustavo Geley, diretor do Instituto,
de plena aquiescência com o seu colega, dirigiu, então,
oficialmente ao “Matin”, a seguinte carta:
Sr. Redator Chefe:
Em resposta ao
artigo intitulado – Uma declaração do Prof. Dickson – aparecida
no “Matin” de 9 de junho, pedimos-lhe a fineza de inserir em seu
jornal a nota seguinte: - O Instituto Metapsíquico se associa ao
desafio lançado pelo Dr. Stephen Chauvet ao prestidigitador
Dickson e oferece por seu turno uma soma de 10.000 francos, não
só ao Sr. Dickson como a qualquer prestidigitador que conseguir
reproduzir, sem o concurso de um médium, a nas mesmas condições
de “controle” do I. M.., os fenômenos constantes da relação
assinada por 34 nomes eminentes e publicadas in extenso pelo
“Matin” de 7 de junho.
O I.M.I. entregará
a soma de 10.000 francos ao presidente do júri. Se o
prestidigitador conseguir realizar as condições do desafio,
retomará os seus 10.000 francos depositados e ficará com a plena
propriedade dos 10.000 francos do Instituto. No caso contrário,
o Instituto retirará, apenas, os seus 10.000 francos e os do
pretisdigitador serão entregues ao “Matin”, em proveito dos
laboratórios.
O prestidigitador
será submetido exatamente à mesma fiscalização que o nosso
médium. Ele virá ao Instituto, será despido e examinado por dois
dos signatários do relatório, revestido de um pijama sem bolsos,
fornecido por nós.
Só nesse momento
entrará na sala de sessões; será seguro pelas mãos; seus pulsos
serão presos aos pulsos de dois fiscalizadores por uma fita
curta, duplamente chumbada; seus pés e suas pernas serão
imobilizados.
Como nas sessões
do I.M., serão os assistentes ligados uns aos outros por
cadeados e cadeias, que prenderão mão a mão, em torno de uma
mesa; todas as portas e aberturas serão fechadas antes de
começar a sessão e seladas por meio de cintas de papel,
revestidas das assinaturas dos presentes.
Nessas condições,
o prestidigitador deverá reproduzir os fenômenos de Guzik: -
deslocamentos amplos de uma cadeira ou mesa colocados a 1m, 50
atrás de si; toques feitos na cabeça e nas costas dos
fiscalizadores; fenômenos luminosos a distância.
Diz o adágio
jurídico que pertence ao acusador fazer a prova. O Sr. Dickson,
em nome da prestidigitação, acusa; nós lhe oferecemos, a ele ou
à qualquer prestidigitador, provar o fundamento da acusação.
Receba, Sr.
Redator Chefe, a segurança...
Pelo Instituto
Metapsiquico Internacional,
O Diretor.
Gustavo Geley.
Como se lê, o que
o diretor do Instituto oferecia ao prestidigitador pela quantia
de 10.000 francos, era reproduzir os fenômenos de Guzik, tais
como este os fazia, com o “controle” exercido pelo Instituto,
isto é, o prestidigitador deveria sujeitar-se à fiscalização a
que Guzik se sujeitara.
Ótima oportunidade
para que o mágico demonstrasse o ilusionismo da fenomenologia
psíquica; como o convite fora feito ao Dickson, em particular e
aos mágicos em geral, a oportunidade era otímissima para que
dela se aproveitassem todos os Herédias, para que dela lançassem
mão todos os que proclamam a fácil imitação dos processos
espíritas.
Tiveram os
apologistas da prestidigitação algum conhecimento de como se
houveram os mágicos imitadores?...
Pois se não sabem,
sabemos nós: - O Dickson não apareceu no Instituto. Nem o
Dickson, nem o Herédia, nem nenhum outro. A abstenção foi
completa.
*
Não se trata de um
caso isolado, nem seria a primeira vez que um ilusionista,
chamado à prova, depois de assegurar as suas habilidades em
matéria de imitação psíquica, se veria na contingência de
tingir-se, ao lhe imporem as condições de “controle”
estabelecidas para os médiuns.
Nessa questão de
desafios, os mágicos não têm sido de grande felicidade. Aqui se
desconhece o alvoroço que os fatos do Psiquismo têm causado no
terreno da mágica, os ciúmes que têm provocado, a celeuma daí
advinda, as discussões, as controvérsias, os cartéis, e os
conseqüentes desastres para os imitadores. Dir-se-ia mesmo que o
insucesso parece acompanhar-lhes os passos. Não há, de memória
de homem, um prestidigitador que se tenha saído feliz, quando se
mete a reptar um médium verdadeiro ou a demonstra-lhe os
truques.
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