O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
O Tempo, o Preconceiro e a Humildade

Autor:
Hermínio C. Miranda

Fonte:
Livro: Nas Fronteiras do Além

HISTÓRICO

   

“O maior amigo da verdade – escreveu Colton – é o tempo; seu maior inimigo, o preconceito, e sua constante companheira, a humildade”. O pensamento do obscuro escritor aplica-se com extraordinária propriedade ao estudo que o Barão de Guldenstubbé intitulou “La Realité des Espirits”. O tempo confirmou a verdade que ele pesquisou e o preconceito foi seu inimigo, porque ele recusou a companhia da humildade ao demonstrar o fenômeno da escrita direta.

Fascinado pela espetaculosidade do seu achado, concluiu que havia descoberto a verdade absoluta:

- Somente a escrita direta do mundo póstumo nos revela a realidade do mundo invisível, de onde promanam as revelações religiosas e os milagres.

A primeira edição do livro é de 1857, ano em que Allan Kardec também publicou “O Livro dos Espíritos”, nove anos após o mundo espiritual ter desencadeado o processo da revelação moderna com os acontecimentos de Hydesville, nos Estados Unidos. É certo, porém, que o fenômeno por si mesmo não constitui uma filosofia; ele a suporta, fornece os dados, apresenta fatos sobre os quais o homem constrói suas inferências e conclusões. O fenômeno não conclui por nós; ele é. Quando o encontramos, ele nos puxa pela manga e nos diz: “Olhe para mim!”., mas não nos impõe que fiquemos com ele ou que o levemos conosco; podemos livremente continuar seguindo pelos caminhos da ignorância. Nunca vimos isso de maneira tão dramática senão quando o movimento espírita “deslanchou”, do lado de cá da vida, sob o comando dos nossos amigos invisíveis. A mais ampla gama de fenômenos insólitos foi distribuída a todos. Quem quis ver, viu, mas só os que tinham olhos de ver foram capazes de incorporar as conseqüências e implicações ao acervo íntimo da experiência, desdobrando novos horizontes para o futuro. Foram maioria os que apenas viram e passara adiante, sacudindo da manga do casaco o importuno que chamava atenção para si mesmo.

E foi assim que a América do Norte, fonte das mais avançadas técnicas de publicidade, acostumada a estupefazer a cada momento a opinião pública com os acontecimentos do dia-a-dia, perdeu a oportunidade de contar a história mais emocionante do século, ou seja, a grande descoberta de que o homem é um ser imortal. Hannen Swaffer, o grande jornalista inglês, jamais entendeu a atitude reservada e até negativa da imprensa diante dos fatos espíritas, que ele sempre considerou um dos grandes temas jornalísticos da nossa época.

Muitos foram, pois, os que ignoraram a verdade; muitos outros viram-na parcialmente e tentaram transformá-la em verdade pessoal, conservando-a numa redoma, como se temessem o contágio externo, quando, na realidade, a verdade somente tem sentido quando serve ao contexto geral da vida. Foram raros os que confiaram no tempo, examinaram a verdade sem preconceitos e acolheram-na com humildade. Kardec é um destes e, por algum tempo, seria o único.

O Barão de Guldenstubbé ficou a meio-termo. Reconheceu a força da verdade, mas não conseguiu estudá-la sem preconceitos e com humildade. Sua obra é um trabalho de considerável erudição histórica, seriedade na pesquisa e aceitação dos postulados cristãos. Seu conhecimento da Bíblia – Antigo e Novo Testamento – é bastante seguro. Logo nas primeiras páginas do seu livro escreve isto:

- Certamente, o número dos espiritualistas não é ainda considerável, mas que esse lamentável contratempo não vos desencoraje demais, Senhores; o Cristo, mestre de todos nós, não disse estas palavras eternamente consoladoras: “Se dois ou três se reunirem em meu nome, estarei entre eles?”.

Aí mesmo, nessa introdução, cita Joel, que preconizou que o espírito do Senhor derramar-se-ia sobre toda a carne. Finalmente, lembra a imortal Epistola aos Corintios, do amado Apóstolo dos Gentios:

- “Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó morte, tua vitória?”.

Esse versículo, aliás, foi escrito em grego, por um Espírito não identificado, em 4 de outubro de 1865, na presença do Conde d´Ourches e do Dr. Georgii, e aparece em “fac-simile” no livro do Barão, num conjunto de 30 textos, desenhos e símbolos colhidos diretamente.

Vejamos, porém, metodicamente o livro.

*

As experiências relatadas começaram em 13 de agosto de 1856, quando o autor observou, pela primeira vez, o fenômeno da escrita direta.

A época era dominada pelas idéias positivistas e talvez por isso o título da obra seja encimado pela expressão “Pneumatologie Positive”. A edição que serve a estes comentários é de 1889 (o livro foi originariamente adquirido na Livraria da FEB).

A introdução é longa e bem documentada com a citação de muitos dos que testemunharam os fenômenos e dos suportes bíblicos que tenham conexão com o assunto. Diz o autor que mais de duas mil experiências foram feitas, e mais de 500 pessoas a elas assistiram.

Depois de mencionar cerca de 30 das 500 que ele diz terem testemunhado os experimentos, o Barão acrescenta, caracteristicamente hiperbólico, que mencionou apenas os “mais ilustres”, pois se fosse listar as pessoas também distintas que presenciaram seus labores a relação “iria ao infinito”.
Muito modestamente, afirma que:

- “É precisamente na aplicação do método experimental aos fenômenos maravilhosos que reside a originalidade e o valor desta descoberta, que não tem precedentes nos anais da humanidade, pois, até agora, os milagres não têm podido ser repetidos: era preciso contentar-se para provar sua realidade como com o testemunho dos que os presenciaram”. (os destaques são meus.)

Contudo, tem observações judiciosas, como esta:

- “O absurdo temor aos demônios tornou os padres e teólogos ortodoxos inaptos a combater, pela via experimental, os materialistas e incrédulos. Esta demonofobia tornou-se, infelizmente, em nossa época, verdadeira demonolatria”.

Isso vale até hoje, especialmente quando se atenta para o notável surto de grupos que cultivam a magia negra, a feitiçaria e a demonologia.

Ou esta outra afirmativa, tão ponderada:

- “A essência do espiritualismo consiste, de fato, na convicção íntima de que o mundo sobrenatural das causas invisíveis, do qual a alma do homem faz parte, tem estreitas e contínuas ligações com o mundo material de efeitos visíveis, graças ao governo universal da Providência. Daí, as manifestações contínuas e permanentes do mundo invisível na história da humanidade; daí os milagres que, longe de derrogar as leis da natureza, não são mais do que uma condição necessária à organização do universo, esse livro imenso, que nem os serafins mais elevados conseguiram ler até agora. Os milagres somente manifestam o poder do espírito sobre a matéria, suspendendo, até certo limite, os efeitos de suas forças inertes”.
O texto traduzido, cujo trecho sobre o milagre está impresso em itálicos, é legítimo e seria aceito pela Doutrina Espírita, a não ser a expressão sobrenatural, cuja conotação Kardec recusou, com razões inteiramente válidas.

Dessa maneira, o Barão é um verdadeiro espírita sem Espiritismo. Prega a moral cristã, busca para a fenomenologia o apoio da ciência, demonstra a sobrevivência do Espírito, está convencido da realidade da reencarnação, mantém boas relações de comunicaçao com o mundo dos desencarnados e crê firmemente na existência de Deus, como poder supremo, criador e sustentáculo do Universo. Mas, não lhe falem do Espiritismo; sua palavra é espiritualismo.

Acha ele também que demonstrou muita coragem e audácia ao ousar a publicação, “em pleno século dezenove, de um livro tão misterioso e estranho”.

Sempre muito seguro do seu papel de inovador, escreve pouco adiante que “acredita ter lançado os primeiros fundamentos da ciência positiva do espiritualismo, ao estabelecer a crença nos Espíritos do mundo invisível em bases inabaláveis”. (Destaque no original.).

Uma pergunta parece caber a esta altura, e quase a estou ouvindo do leitor. Teria o Barão conhecido a obra de Kardec? E esta outra: Se a conheceu, qual a sua opinião sobre ela?

Sim, o autor conheceu a obra do Codificador. Sua opinião? Aí vai: num longo período em que analisa, com extrema severidade, o papel da Igreja nos seus vários Concílios, na formação da descrença, do materialismo e da demonolatria, conclui ele, mal-humorado e profundamente injusto:

- “Certamente, o catecismo do Espiritismo de Allan Kardec, essa paródia vulgar do Espiritualismo experimental, tem maia valor do que as elucubrações absurdas dos Concílios da Igreja Católica”.

E continua:

- “Pelo menos o Credo do Espiritismo estabelece nitidamente a unidade da Divindade, as manifestações e revelações das almas dos mortos, que progridem ao infinito do ponto de vista intelectual e moral, sem jamais alcançarem a perfeição absoluta da Majestade Divina, sem se absorverem ou se perderem no seio do Ser absoluto, fonte e base eternas da vida do Universo, e centro da luz intelectual e moral. Daí o progresso rápido dos espíritas, a despeito de não fornecerem nenhuma prova palpável do discernimento e da identidade dos Espíritos dos mortos; por causa da sua ignorância quanto às verdadeiras condições das experiências espiritualistas da Magia, da Teurgia e da Necromancia; por causa de suas evocações dos mortos, prostituídas a toda hora e por qualquer motivo; por causa, enfim, da sua falta de senso crítico; por causa da leviandade ao construir credos com base em ditados mediúnicos incoerentes, sem que possam demonstrar a presença dos Espíritos ou sua influência de maneira alguma”.

E, julgando ter liquidado de uma vez por todas com o Espiritismo e com Kardec, não volta mais a falar desses assuntos em todo o seu livro. Pobre Barão! Somente seus métodos são validos, somente suas doutrinas são autênticas, somente suas descobertas têm valor. Partiu, assim, do pressuposto de que nada havia de útil na obra de Kardec, porque não a julgou suficientemente demonstrada do ponto de vista experimental. Ignorou ou desconheceu o fato de que Kardec procurou enfatizar o aspecto filosófico-religioso da realidade espiritual. Seria fácil para o Codificador apresentar=-se em público com um acervo de fenômenos espíritas, coletados ao longo de seus contatos com seu amigos desencarnados, mas a humanidade precisava de interpretações, de conclusões, de um corpo doutrinário coerente de que os fatos fossem o suporte e não um simples relato de testemunhos insólitos. E por isso é que a obra do Barão caiu no vazio de sua própria vangloria, e a de Kardec suportou o teste do tempo. Não quer isso dizer, evidentemente, que o estudo do Barão de Guldenstubbé não tenha mérito algum; é trabalho sério e de grande utilidade, como apoio da realidade espiritual, mas, ao contrário do que ele pensou, seu livro foi uma das contribuições à busca do homem pelo conhecimento de si mesmo, mas não alcançou o gabarito que ele lhe atribui, de um trabalho revolucionário que serviria de alicerce a um novo renascimento espiritual.

Um pouco de humildade não teria feito mal ao Barão, e teria feito muito bem à sua obra, que, por certo, tem valor.

*

O livro está dividido em duas partes, com 25 capítulos.

Na primeira parte, após a dedicatória e a introdução, estuda o autor o espiritualismo na Antiguidade e depois do Cristo. Em seguida, examina a fenomenologia que envolve o Decálogo que, a ser ver, é uma mensagem em escrita direta do próprio Deus. Em apoio de sua tese, cita várias passagens do Êxodo – 24:12, 31:18, 32:15 e 16. e 34:28 – e Deuteronômio – 4:13, 5:22. 9, 10, 10:1 a 5. E, conclui:

- Essas passagens dos livros de Moisés bastam para provar a escrita direta do Decálogo do Eterno.

É possível que a mensagem contida no Decálogo tenha sido recebida por escrita direta. Não há duvida de que seja mediúnica, pois Moisés teve que voltar ao isolamento da montanha para receber de novo a comunicaçao, depois que, num acesso de cólera, quebrou as lousas que continham a primeira versão. Se fosse trabalho próprio, ele o teria reconstituído. É inaceitável, porém, que o próprio Deus a tenha escrito diretamente. Seria, portanto, uma comunicaçao psicográfica ou de escrita direta ou ditada por um mensageiro espiritual de elevadíssima hierarquia, pois o autor intelectual do Decálogo produziu uma obra de intemporal beleza e valor.

A seguir, examina o Barão o famoso e histórico fenômeno de escrita direta – esta sim – na parede do salão onde se realizava o banquete de Baltazar, na Babilônia, e que o profeta Daniel interpretou corretamente.

O episódio vem narrado no capítulo 5 do livro de Daniel, no Antigo Testamento.

Quando os vasos pilhados por Nabucodonosor ao tempo de Jerusalém foram profanados no festim, diz a narrativa bíblica:

- Prontamente apareceram os dedos de mão humana que se puseram a escrever, por trás do candelabro, na cal da parede do palácio real, e o rei viu a mão que escrevia.

O capítulo 5 trata da estátua falante de Mennon, não evidentemente como fenômeno de escrita direta, mas como outra forma de manifestação direta do mundo invisível, enquanto o capítulo 6 cuida dos lugares “assombrados” ou fatídicos, lembrando, com muita propriedade, que o respeito universal pelos mortos e pelos túmulos e o culto dos ancestrais constitui eloqüente evidência em favor das crenças nitidamente espiritualistas dos povos da Antiguidade.

É no capítulo 7, no entanto, que está o cerne do livro do Barão de Guldenstubbé. O capítulo intitula-se “Fenômenos de escrita direta dos Espíritos, verificados em presença de testemunhas, de agosto de 1856 até 30 de novembro de 1872”.

Aqui, apresenta o autor um conselho: devemos despojar-nos de todos os interesses e de todos os preconceitos terrestres, a fim de que todos os Espíritos possam comunicar-nos seus pensamentos; e continua:

- O amor, a sabedoria, a pureza da alma devem substituir as paixões terrestres. É preciso que as experiências espiritualistas sejam envolvidas em recolhimento r4eligioso, que a música eleve e rejubile os corações, a fim de que os Espíritos possam participar da harmonia das almas e repetir no céu os acordes da Terra. É preciso que a rivalidade seja banida dos círculos fraternos, a fim de não manchar a beleza das almas onde os anjos não devem encontrar sombra à luz que aí vêm depositar. Foi dessa maneira que o autor conseguiu obter o belo fenômeno da escrita direta dos Espíritos.

Informa, a seguir, que, durante dez anos, se ocupou do magnetismo, que sempre julgou ser precursor do espiritualismo, e que nunca “partilhou dos erros da sociedade do mesmerismo de Paris, que desejou fazer do magnetismo uma ciência natural e física, baseada num pretenso fluido de que nunca se provou a realidade”.

O Barão experimentou também com a mediunidade psicográfica, apresentando, ao fim do livro, mais de uma centena e meia de “pensamentos dos Espíritos” que mantinham relações com ele e sua irmã e companheira de estudos.

Está convencido de que nenhum fenômeno é tão probante da realidade espiritual como o da escrita direta, por ser “direito, inteligente e material a um só tempo, independente da nossa vontade e da nossa imaginação”.

Realmente, trata-se de um belo e autêntico fenômeno, mas não nos parece justo tratá-lo de maneira tão radical, à exclusão de toda a fenomenologia mediúnica. É evidente, porém, a honestidade de propósitos do autor. Diz ele que, durante muito tempo, buscou uma prova inteligente e palpável da realidade do mundo espiritual, a fim de poder demonstrar, de modo irrefutável, a sobrevivência da alma e que jamais cessou de “dirigir preces ardentes ao Eterno”, pedindo-lhe indicar um meio infalível de reafirmar a fé na imortalidade da alma.

- “O Eterno – escreve a seguir -, cuja misericórdia é infinita, atendeu amplamente a esta modesta prece. Um belo dia, era primeiro de agosto de 1856, acudiu ao autor a idéia de verificar se os Espíritos poderiam escrever diretamente sem intermediação de um médium”. (Destaque no original).

Partia do pressuposto de que tanto o Decálogo quanto a mensagem a Baltazar na antiga Babilônia foram produzidos diretamente. Cabe-nos aqui um reparo, pois, a nosso ver, mesmo a escrita chamada direta exige o concurso de um médium e, nos seus experimentos, provavelmente o próprio Barão funcionasse, ainda que inconscientemente, como intermediário entre os dois mundos. Aliás, em outro ponto da sua obra, ele menciona o fato de que a presença de uma de suas habituais testemunhas – O Príncipe Shakowskoy – facilitava enormemente a obtenção dos escritos, “por se ter revelado excelente médium para as escritas diretas”.

Voltemos, porém, à sua narrativa. No dia 1º. de agosto de 1856 colocou um papel em branco e um lápis apontado numa caixa fechada a chave, a qual manteve permanentemente em seu poder, nada dizendo da sua tentativa a ninguém. Esperou doze dias em vão, sem encontrar o menor traço do lápis no papel; a 13 de agosto, porém, teve a feliz surpresa de encontrar “certos caracteres misteriosos” traçados no papel. Nesse mesmo dia, experimentou ainda dez vezes, com intervalos de 30 minutos e, em todas as vezes, obteve “completo êxito”.

No dia seguinte, 14 de agosto, experimentou cerca de vinte vezes, deixando a caixa aberta, sem perdê-la de vista. Viu, então, formarem-se palavras de uma mensagem em língua estoniana, sem que o lápis fosse movimentado. Foi a partir dessa experiência que ele dispensou o lápis; limitava-se a colocar uma folha de papel sobre a mesa ou ao pé de estátuas antigas, sarcófagos, urnas, etc., no Louvre, em Saint-Denis, na Igreja de Santo Estevão e em inúmeros outros lugares. Levou suas experiências aos cemitérios parisienses, observando, porém, que nem ele nem os Espíritos gostavam muito dessas tentativas nos cemitérios, pois “a maior parte dos Espíritos prefere os lugares onde viveram durante a existência terrena aos locais onde repousam seus despojos mortais”, o que é verdadeiro.

Convencido da autenticidade do fenômeno, em mais de três dezenas de experiências, o Barão resolveu demonstrá-lo a alguns amigos. Seu primeiro convidado foi o Conde d´Ourches, que também “havia consagrado sua vida inteira à magia e ao espiritualismo”. Reunidos após seis sessões sem resultado, às onze horas da noite de 16 de Agosto, o Conde viu, pela primeira vez, o fenômeno realizar-se diante de seus olhos. O Espírito manifestante confessava a fidelidade ao Cristo. O Barão conclui, um tanto ingenuamente, que isso deveria confundir os ortodoxos demonófobos. O fato é que o simples fato de um Espírito declarar que é fiel ao Cristo não quer dizer que o seja; pode ser um tremendo mistificador, e somente seu procedimento, sua linguagem e seus propósitos, revelados numa convivência mais extensa, observada com acentuada dose de espírito crítico, nos poderá assegurar ou não sua autenticidade.

Enfim, as experiências do Barão tiveram prosseguimento nos locais já citados e, mais, ao pé dos monumentos a Pascal, Racine e outros, ou no cemitério de Montmartre, ou no Palácio de Versalhes, ou em Saint-Cloud.

Experimentando em separado, sem a presença do Barão de Guldenstubbé, o Conde d´Ourches também obteve exemplares de escrita direta. Um desses documentos, segundo informa o Barão, era uma mensagem da mãe do Conde, desencarnada há cerca de vinte anos.

Entre 1856 e 1869, o Barão realizou mais de duas mil experiências na presença de inúmeras testemunhas dignas de fé, franceses e estrangeiros.
Em seguida, espraia-se o autor por várias páginas, nas quais comenta as críticas elogiosas ou não à primeira edição de sua obra.

A seguir, no mesmo capítulo, pois o autor não tem uma boa metodologia para expor as suas idéias, volta à apreciação do fenômeno em si, na tentativa de responder à questão de saber-se de que maneira os Espíritos produzem o fenômeno.

Acha o Barão que os seres desencarnados agem diretamente sobre a matéria, tal como os encarnados.

- “Durante as primeiras semanas – continua ele -, a partir do dia em que descobri a escrita direta, as mesas sobre as quais os Espíritos escreveram deslocaram-se sozinhas e vieram juntar-se ao autor em outro cômodo, após haverem atravessado, às vezes, várias peças; as mesas caminhavam ora lentamente, ora com rapidez espantosa; o autor, por várias vezes, barrou-lhes o caminho por meio de cadeiras, mas elas contornavam os obstáculos e seguiam na mesma direção. O autor viu mesmo, duas vezes, uma pequena mesa de um só pé, sobre a qual os Espíritos costumavam escrever (em sua presença), transportada pelo ar de um lado do cômodo para outro”.

Como se vê, ocorriam na casa do Barão nítidos fenômenos de efeitos físicos, com deslocamento e levitação de móveis. A própria escrita direta é, também, um fenômeno de efeito físico e, se não havia na residência do Barão outra pessoa com a tão poderosa faculdade mediúnica – detalhe que ele não esclarece -, é claro que o próprio Barão seria o médium das suas experiências, a julgar pelos seus relatos.

A maior parte dos escritos traçados pelos Espíritos durante o ano de 1856 parecia ser feita a lápis, o que o Barão atribui ao fato de ter começado suas experiências colocando o lápis junto à folha de papel em branco. Mais tarde, porém, segundo conta, o material de que se utilizavam os Espíritos era uma substância avermelhada semelhante ao “cimento romano”. De outras vezes, os caracteres pareciam ter sido traçados com tinta vermelha ou lápis da mesma cor, e, às vezes, eram gravados em branco sobre o branco do papel, apenas com uma diferença sensível de intensidade. O material semelhante ao cimento, e que não continha a substância plúmbea do lápis, ocorreu, principalmente, em algumas igrejas em Londres, Paris e Dieppe. Algumas figuras mágicas e cabalísticas, obtidas entre 1859 e 1861, foram traçadas com giz branco, azul e vermelho. Formavam-se rapidamente, durante segundos. Algumas vezes desapareciam dentro de três ou cinco minutos, enquanto, de outras, duravam um dia ou dois. A maior parte desses desenhos misteriosos ligava-se a hieróglifos egípcios ou caracteres sírio-caldeus ou hebraicos.

Mensagens mais longas dadas por Espíritos familiares – parentes e amigos do autor – eram, com freqüência, escritas em tinta azul ou preta. Nessas comunicações, que o autor chama de epístolas, dialogavam os presentes com os Espíritos, que lhes traziam conselhos, recomendações e avisos importantes, bem como consolo em momentos críticos da existência de cada um, quando mais se fazia necessária a assistência dos bons amigos desencarnados.

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Terminada a exposição da fenomenologia propriamente dita, e que ocupa apenas vinte páginas de seu livro, no capítulo 7, o autor encerra a primeira parte e passa à segunda, onde retoma o assunto da fenomenologia mediúnica na Antiguidade, sobre a qual dispõe de enorme acervo de informações. Esta parte do livro é, certamente, útil ao pesquisador, mas pouco atrativo oferece ao leitor comum.

Após a transcrição dos “pensamentos” dos Espíritos, o autor apresenta suas conclusões. Afirma ter provado (palavra em itálico), a realidade do mundo sobrenatural dos Espíritos, pelos processos experimentais. E que para substanciar suas pesquisas, recorreu, na segunda parte do livro, às fontes antigas que trazem “a opinião de quarenta séculos, durante os quais o testemunho quase unânime confirma a realidade do mundo invisível dos Espíritos puros, donde emanam as revelações e os ensinos morais”.

Acha que acaba de lançar os fundamentos do Espiritualismo, ou “Pneumatologia positiva”, e que não vem longe a hora da derrota definitiva do materialismo. Afirma a autenticidade e o valor da Bíblia como documento eloqüente dessa crença tão antiga.

Encerra o seu trabalho manifestando sua gratidão a Deus “por se ter dignado confiar à humanidade um excelente meio de combater o gênio do mal”. Por fim, uma prece, tirada, versículo por versículo, do belo texto do Eclesiastes, capítulo 36.

Em encarte, no final do livro, 30 espécimes de escrita direta, contendo assinaturas atribuídas a Augusto, Júlio César, Maria Antonieta, Mary Stuart, Abelardo, Platão e outros.

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Em suma, a contribuição do Barão de Guldenstubbé é importante, e sem dúvida que foi um livro corajoso para a sua época, como também foi imensamente corajoso “O Livro dos Espíritos”, no mesmo ano de 1857. É preciso reconhecer, não obstante, que a obra do Barão não é tão importante quanto ele pensou que fosse, julgando-a iniciadora de uma nova fase na evolução do pensamento. Faltou-lhe modéstia. Seu estudo, valioso, por certo, insere-se num contexto muito amplo, ao qual ele trouxe sua parcela; não mais que isso. Seus preconceitos contra o Espiritismo, que viu nascer e crescer em paralelo com suas pesquisas, impediram-no de ver uma realidade tão importante quanto a que procurou demonstrar: a de que sua tarefa se integrava no movimento global desencadeado pelo mundo espiritual. Não era para colocar-se à margem dele, como revelação particular concedida por generosidade divina a um escolhido privilegiado. Nosso esforço pessoal nunca é isolado, pois vivemos num universo inteiramente solidário, construindo nossa evolução na experiência alheia que se incorpora lentamente à nossa. Não inventamos nem criamos coisas; apenas as descobrimos. Elas já existiam antes de nós e continuarão a existir pelos tempos afora. É bom saber que aqui e ali, numa ou noutra vida, o Senhor concede-nos a oportunidade maravilhosa de servir nos escalões mais humildes da sua seara. Não procuremos, no entanto, transformar nossa modestíssima participação numa ressonante projeção pessoal, que não merecemos e para a qual não estamos preparados.

O querido Barão teve todos os elementos de que precisava para um bom trabalho e o realizou bem, embasando na fenomenologia mediúnica a crença na imortalidade da alma e conjugando-a com a moral evangélica. Recusou-se, porém, a admitir qualquer associação ostensiva com a equipe espiritual que lançava na Terra o movimento de libertação das almas. Não importa. Sua colaboração é válida, e, por isso, os Espíritos lhe deram o apoio de que precisava. Muitas vezes estamos unidos por laços invisíveis e permanentes no mundo espiritual, e é só enquanto andamos por aqui, mergulhados atrás do denso véu da carne, que nos esquecemos disso.

Não importa, repetimos. De outra vez, voltaremos mais humildes, compreendendo melhor a nossa modesta posição de operários de uma equipe dirigida por amigos dos quais não somos dignos de desatar os cordões de suas sandálias luminosas.