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“O maior amigo da
verdade – escreveu Colton – é o tempo; seu maior inimigo, o
preconceito, e sua constante companheira, a humildade”. O
pensamento do obscuro escritor aplica-se com extraordinária
propriedade ao estudo que o Barão de Guldenstubbé intitulou “La
Realité des Espirits”. O tempo confirmou a verdade que ele
pesquisou e o preconceito foi seu inimigo, porque ele recusou a
companhia da humildade ao demonstrar o fenômeno da escrita
direta.
Fascinado pela
espetaculosidade do seu achado, concluiu que havia descoberto a
verdade absoluta:
- Somente a
escrita direta do mundo póstumo nos revela a realidade do mundo
invisível, de onde promanam as revelações religiosas e os
milagres.
A primeira edição
do livro é de 1857, ano em que Allan Kardec também publicou “O
Livro dos Espíritos”, nove anos após o mundo espiritual ter
desencadeado o processo da revelação moderna com os
acontecimentos de Hydesville, nos Estados Unidos. É certo,
porém, que o fenômeno por si mesmo não constitui uma filosofia;
ele a suporta, fornece os dados, apresenta fatos sobre os quais
o homem constrói suas inferências e conclusões. O fenômeno não
conclui por nós; ele é. Quando o encontramos, ele nos puxa pela
manga e nos diz: “Olhe para mim!”., mas não nos impõe que
fiquemos com ele ou que o levemos conosco; podemos livremente
continuar seguindo pelos caminhos da ignorância. Nunca vimos
isso de maneira tão dramática senão quando o movimento espírita
“deslanchou”, do lado de cá da vida, sob o comando dos nossos
amigos invisíveis. A mais ampla gama de fenômenos insólitos foi
distribuída a todos. Quem quis ver, viu, mas só os que tinham
olhos de ver foram capazes de incorporar as conseqüências e
implicações ao acervo íntimo da experiência, desdobrando novos
horizontes para o futuro. Foram maioria os que apenas viram e
passara adiante, sacudindo da manga do casaco o importuno que
chamava atenção para si mesmo.
E foi assim que a
América do Norte, fonte das mais avançadas técnicas de
publicidade, acostumada a estupefazer a cada momento a opinião
pública com os acontecimentos do dia-a-dia, perdeu a
oportunidade de contar a história mais emocionante do século, ou
seja, a grande descoberta de que o homem é um ser imortal.
Hannen Swaffer, o grande jornalista inglês, jamais entendeu a
atitude reservada e até negativa da imprensa diante dos fatos
espíritas, que ele sempre considerou um dos grandes temas
jornalísticos da nossa época.
Muitos foram,
pois, os que ignoraram a verdade; muitos outros viram-na
parcialmente e tentaram transformá-la em verdade pessoal,
conservando-a numa redoma, como se temessem o contágio externo,
quando, na realidade, a verdade somente tem sentido quando serve
ao contexto geral da vida. Foram raros os que confiaram no
tempo, examinaram a verdade sem preconceitos e acolheram-na com
humildade. Kardec é um destes e, por algum tempo, seria o único.
O Barão de
Guldenstubbé ficou a meio-termo. Reconheceu a força da verdade,
mas não conseguiu estudá-la sem preconceitos e com humildade.
Sua obra é um trabalho de considerável erudição histórica,
seriedade na pesquisa e aceitação dos postulados cristãos. Seu
conhecimento da Bíblia – Antigo e Novo Testamento – é bastante
seguro. Logo nas primeiras páginas do seu livro escreve isto:
- Certamente, o
número dos espiritualistas não é ainda considerável, mas que
esse lamentável contratempo não vos desencoraje demais,
Senhores; o Cristo, mestre de todos nós, não disse estas
palavras eternamente consoladoras: “Se dois ou três se reunirem
em meu nome, estarei entre eles?”.
Aí mesmo, nessa
introdução, cita Joel, que preconizou que o espírito do Senhor
derramar-se-ia sobre toda a carne. Finalmente, lembra a imortal
Epistola aos Corintios, do amado Apóstolo dos Gentios:
- “Onde está, ó
morte, o teu aguilhão? Onde está, ó morte, tua vitória?”.
Esse versículo,
aliás, foi escrito em grego, por um Espírito não identificado,
em 4 de outubro de 1865, na presença do Conde d´Ourches e do Dr.
Georgii, e aparece em “fac-simile” no livro do Barão, num
conjunto de 30 textos, desenhos e símbolos colhidos diretamente.
Vejamos, porém,
metodicamente o livro.
*
As experiências
relatadas começaram em 13 de agosto de 1856, quando o autor
observou, pela primeira vez, o fenômeno da escrita direta.
A época era
dominada pelas idéias positivistas e talvez por isso o título da
obra seja encimado pela expressão “Pneumatologie Positive”. A
edição que serve a estes comentários é de 1889 (o livro foi
originariamente adquirido na Livraria da FEB).
A introdução é
longa e bem documentada com a citação de muitos dos que
testemunharam os fenômenos e dos suportes bíblicos que tenham
conexão com o assunto. Diz o autor que mais de duas mil
experiências foram feitas, e mais de 500 pessoas a elas
assistiram.
Depois de
mencionar cerca de 30 das 500 que ele diz terem testemunhado os
experimentos, o Barão acrescenta, caracteristicamente
hiperbólico, que mencionou apenas os “mais ilustres”, pois se
fosse listar as pessoas também distintas que presenciaram seus
labores a relação “iria ao infinito”.
Muito modestamente, afirma que:
- “É precisamente
na aplicação do método experimental aos fenômenos maravilhosos
que reside a originalidade e o valor desta descoberta, que não
tem precedentes nos anais da humanidade, pois, até agora, os
milagres não têm podido ser repetidos: era preciso contentar-se
para provar sua realidade como com o testemunho dos que os
presenciaram”. (os destaques são meus.)
Contudo, tem
observações judiciosas, como esta:
- “O absurdo temor
aos demônios tornou os padres e teólogos ortodoxos inaptos a
combater, pela via experimental, os materialistas e incrédulos.
Esta demonofobia tornou-se, infelizmente, em nossa época,
verdadeira demonolatria”.
Isso vale até
hoje, especialmente quando se atenta para o notável surto de
grupos que cultivam a magia negra, a feitiçaria e a demonologia.
Ou esta outra
afirmativa, tão ponderada:
- “A essência do
espiritualismo consiste, de fato, na convicção íntima de que o
mundo sobrenatural das causas invisíveis, do qual a alma do
homem faz parte, tem estreitas e contínuas ligações com o mundo
material de efeitos visíveis, graças ao governo universal da
Providência. Daí, as manifestações contínuas e permanentes do
mundo invisível na história da humanidade; daí os milagres que,
longe de derrogar as leis da natureza, não são mais do que uma
condição necessária à organização do universo, esse livro
imenso, que nem os serafins mais elevados conseguiram ler até
agora. Os milagres somente manifestam o poder do espírito sobre
a matéria, suspendendo, até certo limite, os efeitos de suas
forças inertes”.
O texto traduzido, cujo trecho sobre o milagre está impresso em
itálicos, é legítimo e seria aceito pela Doutrina Espírita, a
não ser a expressão sobrenatural, cuja conotação Kardec recusou,
com razões inteiramente válidas.
Dessa maneira, o
Barão é um verdadeiro espírita sem Espiritismo. Prega a moral
cristã, busca para a fenomenologia o apoio da ciência, demonstra
a sobrevivência do Espírito, está convencido da realidade da
reencarnação, mantém boas relações de comunicaçao com o mundo
dos desencarnados e crê firmemente na existência de Deus, como
poder supremo, criador e sustentáculo do Universo. Mas, não lhe
falem do Espiritismo; sua palavra é espiritualismo.
Acha ele também
que demonstrou muita coragem e audácia ao ousar a publicação,
“em pleno século dezenove, de um livro tão misterioso e
estranho”.
Sempre muito
seguro do seu papel de inovador, escreve pouco adiante que
“acredita ter lançado os primeiros fundamentos da ciência
positiva do espiritualismo, ao estabelecer a crença nos
Espíritos do mundo invisível em bases inabaláveis”. (Destaque no
original.).
Uma pergunta
parece caber a esta altura, e quase a estou ouvindo do leitor.
Teria o Barão conhecido a obra de Kardec? E esta outra: Se a
conheceu, qual a sua opinião sobre ela?
Sim, o autor
conheceu a obra do Codificador. Sua opinião? Aí vai: num longo
período em que analisa, com extrema severidade, o papel da
Igreja nos seus vários Concílios, na formação da descrença, do
materialismo e da demonolatria, conclui ele, mal-humorado e
profundamente injusto:
- “Certamente, o
catecismo do Espiritismo de Allan Kardec, essa paródia vulgar do
Espiritualismo experimental, tem maia valor do que as
elucubrações absurdas dos Concílios da Igreja Católica”.
E continua:
- “Pelo menos o
Credo do Espiritismo estabelece nitidamente a unidade da
Divindade, as manifestações e revelações das almas dos mortos,
que progridem ao infinito do ponto de vista intelectual e moral,
sem jamais alcançarem a perfeição absoluta da Majestade Divina,
sem se absorverem ou se perderem no seio do Ser absoluto, fonte
e base eternas da vida do Universo, e centro da luz intelectual
e moral. Daí o progresso rápido dos espíritas, a despeito de não
fornecerem nenhuma prova palpável do discernimento e da
identidade dos Espíritos dos mortos; por causa da sua ignorância
quanto às verdadeiras condições das experiências espiritualistas
da Magia, da Teurgia e da Necromancia; por causa de suas
evocações dos mortos, prostituídas a toda hora e por qualquer
motivo; por causa, enfim, da sua falta de senso crítico; por
causa da leviandade ao construir credos com base em ditados
mediúnicos incoerentes, sem que possam demonstrar a presença dos
Espíritos ou sua influência de maneira alguma”.
E, julgando ter
liquidado de uma vez por todas com o Espiritismo e com Kardec,
não volta mais a falar desses assuntos em todo o seu livro.
Pobre Barão! Somente seus métodos são validos, somente suas
doutrinas são autênticas, somente suas descobertas têm valor.
Partiu, assim, do pressuposto de que nada havia de útil na obra
de Kardec, porque não a julgou suficientemente demonstrada do
ponto de vista experimental. Ignorou ou desconheceu o fato de
que Kardec procurou enfatizar o aspecto filosófico-religioso da
realidade espiritual. Seria fácil para o Codificador
apresentar=-se em público com um acervo de fenômenos espíritas,
coletados ao longo de seus contatos com seu amigos
desencarnados, mas a humanidade precisava de interpretações, de
conclusões, de um corpo doutrinário coerente de que os fatos
fossem o suporte e não um simples relato de testemunhos
insólitos. E por isso é que a obra do Barão caiu no vazio de sua
própria vangloria, e a de Kardec suportou o teste do tempo. Não
quer isso dizer, evidentemente, que o estudo do Barão de
Guldenstubbé não tenha mérito algum; é trabalho sério e de
grande utilidade, como apoio da realidade espiritual, mas, ao
contrário do que ele pensou, seu livro foi uma das contribuições
à busca do homem pelo conhecimento de si mesmo, mas não alcançou
o gabarito que ele lhe atribui, de um trabalho revolucionário
que serviria de alicerce a um novo renascimento espiritual.
Um pouco de
humildade não teria feito mal ao Barão, e teria feito muito bem
à sua obra, que, por certo, tem valor.
*
O livro está
dividido em duas partes, com 25 capítulos.
Na primeira parte,
após a dedicatória e a introdução, estuda o autor o
espiritualismo na Antiguidade e depois do Cristo. Em seguida,
examina a fenomenologia que envolve o Decálogo que, a ser ver, é
uma mensagem em escrita direta do próprio Deus. Em apoio de sua
tese, cita várias passagens do Êxodo – 24:12, 31:18, 32:15 e 16.
e 34:28 – e Deuteronômio – 4:13, 5:22. 9, 10, 10:1 a 5. E,
conclui:
- Essas passagens
dos livros de Moisés bastam para provar a escrita direta do
Decálogo do Eterno.
É possível que a
mensagem contida no Decálogo tenha sido recebida por escrita
direta. Não há duvida de que seja mediúnica, pois Moisés teve
que voltar ao isolamento da montanha para receber de novo a
comunicaçao, depois que, num acesso de cólera, quebrou as lousas
que continham a primeira versão. Se fosse trabalho próprio, ele
o teria reconstituído. É inaceitável, porém, que o próprio Deus
a tenha escrito diretamente. Seria, portanto, uma comunicaçao
psicográfica ou de escrita direta ou ditada por um mensageiro
espiritual de elevadíssima hierarquia, pois o autor intelectual
do Decálogo produziu uma obra de intemporal beleza e valor.
A seguir, examina
o Barão o famoso e histórico fenômeno de escrita direta – esta
sim – na parede do salão onde se realizava o banquete de
Baltazar, na Babilônia, e que o profeta Daniel interpretou
corretamente.
O episódio vem
narrado no capítulo 5 do livro de Daniel, no Antigo Testamento.
Quando os vasos
pilhados por Nabucodonosor ao tempo de Jerusalém foram
profanados no festim, diz a narrativa bíblica:
- Prontamente
apareceram os dedos de mão humana que se puseram a escrever, por
trás do candelabro, na cal da parede do palácio real, e o rei
viu a mão que escrevia.
O capítulo 5 trata
da estátua falante de Mennon, não evidentemente como fenômeno de
escrita direta, mas como outra forma de manifestação direta do
mundo invisível, enquanto o capítulo 6 cuida dos lugares
“assombrados” ou fatídicos, lembrando, com muita propriedade,
que o respeito universal pelos mortos e pelos túmulos e o culto
dos ancestrais constitui eloqüente evidência em favor das
crenças nitidamente espiritualistas dos povos da Antiguidade.
É no capítulo 7,
no entanto, que está o cerne do livro do Barão de Guldenstubbé.
O capítulo intitula-se “Fenômenos de escrita direta dos
Espíritos, verificados em presença de testemunhas, de agosto de
1856 até 30 de novembro de 1872”.
Aqui, apresenta o
autor um conselho: devemos despojar-nos de todos os interesses e
de todos os preconceitos terrestres, a fim de que todos os
Espíritos possam comunicar-nos seus pensamentos; e continua:
- O amor, a
sabedoria, a pureza da alma devem substituir as paixões
terrestres. É preciso que as experiências espiritualistas sejam
envolvidas em recolhimento r4eligioso, que a música eleve e
rejubile os corações, a fim de que os Espíritos possam
participar da harmonia das almas e repetir no céu os acordes da
Terra. É preciso que a rivalidade seja banida dos círculos
fraternos, a fim de não manchar a beleza das almas onde os anjos
não devem encontrar sombra à luz que aí vêm depositar. Foi dessa
maneira que o autor conseguiu obter o belo fenômeno da escrita
direta dos Espíritos.
Informa, a seguir,
que, durante dez anos, se ocupou do magnetismo, que sempre
julgou ser precursor do espiritualismo, e que nunca “partilhou
dos erros da sociedade do mesmerismo de Paris, que desejou fazer
do magnetismo uma ciência natural e física, baseada num pretenso
fluido de que nunca se provou a realidade”.
O Barão
experimentou também com a mediunidade psicográfica,
apresentando, ao fim do livro, mais de uma centena e meia de
“pensamentos dos Espíritos” que mantinham relações com ele e sua
irmã e companheira de estudos.
Está convencido de
que nenhum fenômeno é tão probante da realidade espiritual como
o da escrita direta, por ser “direito, inteligente e material a
um só tempo, independente da nossa vontade e da nossa
imaginação”.
Realmente,
trata-se de um belo e autêntico fenômeno, mas não nos parece
justo tratá-lo de maneira tão radical, à exclusão de toda a
fenomenologia mediúnica. É evidente, porém, a honestidade de
propósitos do autor. Diz ele que, durante muito tempo, buscou
uma prova inteligente e palpável da realidade do mundo
espiritual, a fim de poder demonstrar, de modo irrefutável, a
sobrevivência da alma e que jamais cessou de “dirigir preces
ardentes ao Eterno”, pedindo-lhe indicar um meio infalível de
reafirmar a fé na imortalidade da alma.
- “O Eterno –
escreve a seguir -, cuja misericórdia é infinita, atendeu
amplamente a esta modesta prece. Um belo dia, era primeiro de
agosto de 1856, acudiu ao autor a idéia de verificar se os
Espíritos poderiam escrever diretamente sem intermediação de um
médium”. (Destaque no original).
Partia do
pressuposto de que tanto o Decálogo quanto a mensagem a Baltazar
na antiga Babilônia foram produzidos diretamente. Cabe-nos aqui
um reparo, pois, a nosso ver, mesmo a escrita chamada direta
exige o concurso de um médium e, nos seus experimentos,
provavelmente o próprio Barão funcionasse, ainda que
inconscientemente, como intermediário entre os dois mundos.
Aliás, em outro ponto da sua obra, ele menciona o fato de que a
presença de uma de suas habituais testemunhas – O Príncipe
Shakowskoy – facilitava enormemente a obtenção dos escritos,
“por se ter revelado excelente médium para as escritas diretas”.
Voltemos, porém, à
sua narrativa. No dia 1º. de agosto de 1856 colocou um papel em
branco e um lápis apontado numa caixa fechada a chave, a qual
manteve permanentemente em seu poder, nada dizendo da sua
tentativa a ninguém. Esperou doze dias em vão, sem encontrar o
menor traço do lápis no papel; a 13 de agosto, porém, teve a
feliz surpresa de encontrar “certos caracteres misteriosos”
traçados no papel. Nesse mesmo dia, experimentou ainda dez
vezes, com intervalos de 30 minutos e, em todas as vezes, obteve
“completo êxito”.
No dia seguinte,
14 de agosto, experimentou cerca de vinte vezes, deixando a
caixa aberta, sem perdê-la de vista. Viu, então, formarem-se
palavras de uma mensagem em língua estoniana, sem que o lápis
fosse movimentado. Foi a partir dessa experiência que ele
dispensou o lápis; limitava-se a colocar uma folha de papel
sobre a mesa ou ao pé de estátuas antigas, sarcófagos, urnas,
etc., no Louvre, em Saint-Denis, na Igreja de Santo Estevão e em
inúmeros outros lugares. Levou suas experiências aos cemitérios
parisienses, observando, porém, que nem ele nem os Espíritos
gostavam muito dessas tentativas nos cemitérios, pois “a maior
parte dos Espíritos prefere os lugares onde viveram durante a
existência terrena aos locais onde repousam seus despojos
mortais”, o que é verdadeiro.
Convencido da
autenticidade do fenômeno, em mais de três dezenas de
experiências, o Barão resolveu demonstrá-lo a alguns amigos. Seu
primeiro convidado foi o Conde d´Ourches, que também “havia
consagrado sua vida inteira à magia e ao espiritualismo”.
Reunidos após seis sessões sem resultado, às onze horas da noite
de 16 de Agosto, o Conde viu, pela primeira vez, o fenômeno
realizar-se diante de seus olhos. O Espírito manifestante
confessava a fidelidade ao Cristo. O Barão conclui, um tanto
ingenuamente, que isso deveria confundir os ortodoxos
demonófobos. O fato é que o simples fato de um Espírito declarar
que é fiel ao Cristo não quer dizer que o seja; pode ser um
tremendo mistificador, e somente seu procedimento, sua linguagem
e seus propósitos, revelados numa convivência mais extensa,
observada com acentuada dose de espírito crítico, nos poderá
assegurar ou não sua autenticidade.
Enfim, as
experiências do Barão tiveram prosseguimento nos locais já
citados e, mais, ao pé dos monumentos a Pascal, Racine e outros,
ou no cemitério de Montmartre, ou no Palácio de Versalhes, ou em
Saint-Cloud.
Experimentando em
separado, sem a presença do Barão de Guldenstubbé, o Conde
d´Ourches também obteve exemplares de escrita direta. Um desses
documentos, segundo informa o Barão, era uma mensagem da mãe do
Conde, desencarnada há cerca de vinte anos.
Entre 1856 e 1869,
o Barão realizou mais de duas mil experiências na presença de
inúmeras testemunhas dignas de fé, franceses e estrangeiros.
Em seguida, espraia-se o autor por várias páginas, nas quais
comenta as críticas elogiosas ou não à primeira edição de sua
obra.
A seguir, no mesmo
capítulo, pois o autor não tem uma boa metodologia para expor as
suas idéias, volta à apreciação do fenômeno em si, na tentativa
de responder à questão de saber-se de que maneira os Espíritos
produzem o fenômeno.
Acha o Barão que
os seres desencarnados agem diretamente sobre a matéria, tal
como os encarnados.
- “Durante as
primeiras semanas – continua ele -, a partir do dia em que
descobri a escrita direta, as mesas sobre as quais os Espíritos
escreveram deslocaram-se sozinhas e vieram juntar-se ao autor em
outro cômodo, após haverem atravessado, às vezes, várias peças;
as mesas caminhavam ora lentamente, ora com rapidez espantosa; o
autor, por várias vezes, barrou-lhes o caminho por meio de
cadeiras, mas elas contornavam os obstáculos e seguiam na mesma
direção. O autor viu mesmo, duas vezes, uma pequena mesa de um
só pé, sobre a qual os Espíritos costumavam escrever (em sua
presença), transportada pelo ar de um lado do cômodo para
outro”.
Como se vê,
ocorriam na casa do Barão nítidos fenômenos de efeitos físicos,
com deslocamento e levitação de móveis. A própria escrita direta
é, também, um fenômeno de efeito físico e, se não havia na
residência do Barão outra pessoa com a tão poderosa faculdade
mediúnica – detalhe que ele não esclarece -, é claro que o
próprio Barão seria o médium das suas experiências, a julgar
pelos seus relatos.
A maior parte dos
escritos traçados pelos Espíritos durante o ano de 1856 parecia
ser feita a lápis, o que o Barão atribui ao fato de ter começado
suas experiências colocando o lápis junto à folha de papel em
branco. Mais tarde, porém, segundo conta, o material de que se
utilizavam os Espíritos era uma substância avermelhada
semelhante ao “cimento romano”. De outras vezes, os caracteres
pareciam ter sido traçados com tinta vermelha ou lápis da mesma
cor, e, às vezes, eram gravados em branco sobre o branco do
papel, apenas com uma diferença sensível de intensidade. O
material semelhante ao cimento, e que não continha a substância
plúmbea do lápis, ocorreu, principalmente, em algumas igrejas em
Londres, Paris e Dieppe. Algumas figuras mágicas e cabalísticas,
obtidas entre 1859 e 1861, foram traçadas com giz branco, azul e
vermelho. Formavam-se rapidamente, durante segundos. Algumas
vezes desapareciam dentro de três ou cinco minutos, enquanto, de
outras, duravam um dia ou dois. A maior parte desses desenhos
misteriosos ligava-se a hieróglifos egípcios ou caracteres
sírio-caldeus ou hebraicos.
Mensagens mais
longas dadas por Espíritos familiares – parentes e amigos do
autor – eram, com freqüência, escritas em tinta azul ou preta.
Nessas comunicações, que o autor chama de epístolas, dialogavam
os presentes com os Espíritos, que lhes traziam conselhos,
recomendações e avisos importantes, bem como consolo em momentos
críticos da existência de cada um, quando mais se fazia
necessária a assistência dos bons amigos desencarnados.
*
Terminada a
exposição da fenomenologia propriamente dita, e que ocupa apenas
vinte páginas de seu livro, no capítulo 7, o autor encerra a
primeira parte e passa à segunda, onde retoma o assunto da
fenomenologia mediúnica na Antiguidade, sobre a qual dispõe de
enorme acervo de informações. Esta parte do livro é, certamente,
útil ao pesquisador, mas pouco atrativo oferece ao leitor comum.
Após a transcrição
dos “pensamentos” dos Espíritos, o autor apresenta suas
conclusões. Afirma ter provado (palavra em itálico), a realidade
do mundo sobrenatural dos Espíritos, pelos processos
experimentais. E que para substanciar suas pesquisas, recorreu,
na segunda parte do livro, às fontes antigas que trazem “a
opinião de quarenta séculos, durante os quais o testemunho quase
unânime confirma a realidade do mundo invisível dos Espíritos
puros, donde emanam as revelações e os ensinos morais”.
Acha que acaba de
lançar os fundamentos do Espiritualismo, ou “Pneumatologia
positiva”, e que não vem longe a hora da derrota definitiva do
materialismo. Afirma a autenticidade e o valor da Bíblia como
documento eloqüente dessa crença tão antiga.
Encerra o seu
trabalho manifestando sua gratidão a Deus “por se ter dignado
confiar à humanidade um excelente meio de combater o gênio do
mal”. Por fim, uma prece, tirada, versículo por versículo, do
belo texto do Eclesiastes, capítulo 36.
Em encarte, no
final do livro, 30 espécimes de escrita direta, contendo
assinaturas atribuídas a Augusto, Júlio César, Maria Antonieta,
Mary Stuart, Abelardo, Platão e outros.
*
Em suma, a
contribuição do Barão de Guldenstubbé é importante, e sem dúvida
que foi um livro corajoso para a sua época, como também foi
imensamente corajoso “O Livro dos Espíritos”, no mesmo ano de
1857. É preciso reconhecer, não obstante, que a obra do Barão
não é tão importante quanto ele pensou que fosse, julgando-a
iniciadora de uma nova fase na evolução do pensamento.
Faltou-lhe modéstia. Seu estudo, valioso, por certo, insere-se
num contexto muito amplo, ao qual ele trouxe sua parcela; não
mais que isso. Seus preconceitos contra o Espiritismo, que viu
nascer e crescer em paralelo com suas pesquisas, impediram-no de
ver uma realidade tão importante quanto a que procurou
demonstrar: a de que sua tarefa se integrava no movimento global
desencadeado pelo mundo espiritual. Não era para colocar-se à
margem dele, como revelação particular concedida por
generosidade divina a um escolhido privilegiado. Nosso esforço
pessoal nunca é isolado, pois vivemos num universo inteiramente
solidário, construindo nossa evolução na experiência alheia que
se incorpora lentamente à nossa. Não inventamos nem criamos
coisas; apenas as descobrimos. Elas já existiam antes de nós e
continuarão a existir pelos tempos afora. É bom saber que aqui e
ali, numa ou noutra vida, o Senhor concede-nos a oportunidade
maravilhosa de servir nos escalões mais humildes da sua seara.
Não procuremos, no entanto, transformar nossa modestíssima
participação numa ressonante projeção pessoal, que não merecemos
e para a qual não estamos preparados.
O querido Barão
teve todos os elementos de que precisava para um bom trabalho e
o realizou bem, embasando na fenomenologia mediúnica a crença na
imortalidade da alma e conjugando-a com a moral evangélica.
Recusou-se, porém, a admitir qualquer associação ostensiva com a
equipe espiritual que lançava na Terra o movimento de libertação
das almas. Não importa. Sua colaboração é válida, e, por isso,
os Espíritos lhe deram o apoio de que precisava. Muitas vezes
estamos unidos por laços invisíveis e permanentes no mundo
espiritual, e é só enquanto andamos por aqui, mergulhados atrás
do denso véu da carne, que nos esquecemos disso.
Não importa,
repetimos. De outra vez, voltaremos mais humildes, compreendendo
melhor a nossa modesta posição de operários de uma equipe
dirigida por amigos dos quais não somos dignos de desatar os
cordões de suas sandálias luminosas.
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