O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
Um Drama Íntimo

Autor:
Allan Kardec

Fonte:
Revista Espírita
Fevereiro de 1864

HISTÓRICO

   

O Monde Illustré de 7 de Fevereiro de 1863 conta o drama de família que comoveu, a justo título, a sociedade de Florença.  O autor assim começa a sua narração:

Eis a história.  Ele era um velho de setenta e dois anos; ela, uma jovem de vinte.  Haviam casado há três anos... Não vos revolteis!  O velho conde, originário de Viterbo, era absolutamente sem família, o que é estranho para um milionário!  Amália não era sem família, mas antes sem milhões!  Para compensar as coisas, quase a tendo visto nascer, sabendo-a de bom coração e de um espírito encantador, ele tinha dito à mãe:  “Deixa-me paternalmente casar com Amália; durante alguns anos ele cuidará de mim e depois...” 

Fez-se o casamento.  Amália compreende os seus deveres; cerca o velho dos mais assíduos cuidados e lhe sacrifica todos os prazeres de sua idade.  Tendo o conde ficado cego e semi-paralítico, ela passava as mais longas horas do dia a lhe fazer companhia, a fazer leitura, a lhe contar tudo o que podia distraí-lo e o encantar.  “Como sois boa, minha cara filha!” exclamava ele muitas vezes, tomando-lhe as mãos e atraindo-a para depor sobre sua fronte o casto e doce beijo do enternecimento e do reconhecimento.

Um dia, entretanto, ele percebeu que Amália se afasta de sua pessoa; que, posto sempre assídua e cheia de solicitude, ela parece temer sentar-se a seu pé.  Uma suspeita atravessa seu espírito.  Uma noite, quando ela fazia leitura, ele lhe toma o braço, a atrai, enlaça-lhe a cintura; então, soltando um grito terrível, cai esgotado de emoção e de cólera aos pés da jovem!  Amália perde a cabeça; lança-se para a escada, atinge o andar superior, precipita-se pela janela e cai estatelada.  O velho sobreviveu apenas seis horas a esta catástrofe.

Perguntarão que relação pode ter esta história com o Espiritismo?  Vê-se aí a intervenção de alguns espíritos brincalhões?  Essas relações estão nas deduções que o Espiritismo ensina a tirar das coisas aparentemente mais vulgares da vida.  Quando o céptico ou o indiferente não vê num fato senão um motivo para a ironia, ou passa ao lado sem notar, o Espírito o observa e dele tira instrução, remontando às causas providenciais, sondando-lhes as conseqüências para a vida futura, conforme os exemplos que as relações de além-túmulo lhe oferecem, da justiça de Deus.  No fato acima relatado, em vez de simples anedota alegre, entre o velho e a jovem, vê duas vitimas.  Ora, como o interesse pelos infelizes não para no ocaso da vida presente, mas os segue na vida futura, na qual tem fé, ele pergunta se aí não há um duplo castigo para uma dupla falta e se ambos não foram punidos por onde pecaram?  Vê um suicídio, e como sabe que esse crime será sempre punido, ele se pergunta qual o grau de responsabilidade em que incorre o que o cometeu.

Vós que pensais que o Espiritismo só se ocupa de duendes, de aparições fantásticas, de mesas girantes e de Espíritos batedores, se vos désseis ao trabalho de o estudar, saberíeis que ele toca em todas as questões morais.  Esses Espíritos que vos parecem tão visíveis, e que, entretanto, não passam de almas dos homens, dão a quem observa as suas manifestações a prova de que ele próprio é Espírito, momentaneamente, ligado a um corpo; vê na morte não o fim da vida, mas a porta da prisão que se abre ao prisioneiro para o restituir à liberdade.  Aprende que as vicissitudes da vida corpórea são as conseqüências de suas próprias imperfeições, isto é, das expiações pelo passado e pelo, e provações para o futuro.  Daí naturalmente conduzido a não ver o cego acaso nos acontecimentos, mas a mão da Providência.  Para ele a sentença: “A cada um segundo as suas obras”, não só acha a sua aplicação no além-túmulo, mas também mesmo na terra.  Eis porque tudo o que se passa em redor de si tem o seu valor, sua razão de ser; ele o estuda para dele tirar proveito e regular sua conduta com vistas ao futuro, que para ele é uma realidade demonstrada.  Remontando às causas das desgraças que o afligem, aprendem a não mais acusar, por isto, a sorte ou a fatalidade, mas a si mesmo.

Não tendo esta digressão outro objetivo senão mostrar que o Espiritismo se ocupa de algo mais que de Espíritos batedores, voltemos ao assunto.  Desde que o fato foi tornado público, é permitido apreciá-lo, tanto mais quando não designamos ninguém nominalmente.

Si se examinar a coisa do ponto de vista puramente mundano, em maioria não verão nele senão a conseqüência muito natural de uma união desproporcionada e atirarão no velho a pedra do ridículo como oração fúnebre; outros acusarão de ingratidão a jovem senhora que enganou a confiança do homem generoso que queria enriquecê-la.  Mas ela tem para o espírita um lado mais sério, pois aí busca um ensinamento.  Então não perguntaremos se, na ação do velho não havia mais egoísmo que generosidade ao encadear uma moça, quase criança, à sua caducidade, pelos laços indissolúveis que podiam conduzi-la à idade em que se deve antes pensar na retirada do que em gozar do mundo?  Se, impondo-lhe esse duro sacrifício, não era faze-la pagar bem caro a fortuna que lhe prometera?  Não há verdadeira generosidade sem desinteresse.  Quanto à senhora, ela não podia aceitar esses laços senão com a perspectiva de os ver quebrados em breve, pois nenhum motivo de afeição a ligava ao velho.  Havia, pois, calculo de ambos os lados, e esse calculo foi frustrado; Deus não permitiu que nem um, nem outro o aproveitassem: a um infringiu a desilusão, ao outro a vergonha, que os mataram a ambos.

Resta a responsabilidade do suicídio, que jamais fica impune, mas que, muitas vezes, encontra circunstâncias atenuantes.  A mãe da jovem, para a encorajar a aceitá-lo, havia dito: “Com esta grande fortuna farás a felicidade do homem pobre que amares; à espera, honra e respeita esse grande coração que quis fazer-te sua herdeira, durante o que lhe resta da vida”.  Era tomá-la pelo lado sensível.  Mas, para gozar dos benefícios desse grande coração, que teria sido grande de outro modo se a tivesse dotado sem interesse, era preciso especular sobre a duração de sua vida.  A moça errou ao ceder, mas a mãe errou mais em excitá-la e é esta que incorrerá na maior parte da responsabilidade do suicídio da filha.  Assim, aquele que se mata para escapar à miséria é culpado da falta de coragem e de resignação, mas muito mais culpado ainda pelos exemplos que põe aos nossos olhos e aos daqueles que estudam  o mundo invisível.  Quanto à mãe, sua punição começa nesta vida, a princípio pela morte horrível da filha, cuja imagem talvez venha persegui-la e enchê-la de remorsos, depois pela inutilidade do sacrifício que provocou, porque o marido morto seis horas depois de sua mulher, toda a sua fortuna vai para os colaterais afastados, e ela nenhum proveito terá.

Os jornais estão cheios de casos de todos os gêneros, louváveis ou censuráveis, que podem oferecer, como este, que acabamos de referir, assunto para estudos morais e sérios; é para os espíritas uma mina inesgotável de observações e instruções.  O Espiritismo lhes dá os meios de aí descobrir o que se passa desapercebido para os indiferentes e ainda mais para o céptico que, geralmente, aí não vê senão o fato mais ou menos picante, sem lhe procurar nem as causas, nem as conseqüências.  Para os grupos é um elemento fecundo de trabalho, no qual os Espíritos protetores não deixarão de os ajudar, dando a sua apreciação.