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Enfraquecendo dia a dia a
saúde do Sr. Allan Kardec, por força dos excessivos trabalhos
a que não pode bastar, vejo-me na necessidade de lhe repetir
novamente o que já disse muitas vezes: Necessitais de repouso;
as forças humanas têm limites, que o vosso desejo de ver
progredir o ensino muitas vezes vos leva a infringir; estais
errado porque, assim agindo, não apressareis a marcha da
doutrina, mas arruinais a vossa saúde e vos pondes na
impossibilidade material de acabar a tarefa que viestes
desempenhar aqui em baixo. Vossa
doença atual não é senão o resultado de um gasto incessante
de forças vitais, que não deixa à reparação o tempo de se
refazer e um aquecimento do sangue produzido pela absoluta falta
de repouso. Nós vos
sustentamos, sem dúvida, mas com a condição de não
desfazerdes o que fazemos. De
que serve correr? Não
vos disseram muitas vezes que cada coisa viria a seu tempo e que
os Espíritos prepostos ao movimento das idéias saberiam fazer
surgir circunstâncias favoráveis quando chegasse o momento de
agir?
Quando cada espírita
recolhe suas forças para a luta, pensais que seja vosso dever
esgotar as vossas? - Não.
Em tudo deveis dar o exemplo e o vosso lugar será na
estacada, ao momento do perigo. Que
faríeis se vosso corpo enfraquecido não mais permitisse ao
vosso espírito servir-se das armas que a experiência e a
revelação vos puseram nas mãos?
- Crede-me, deixai para mais tarde as grandes obras
destinadas a completar a obra esboçada em vossas primeiras
publicações; vossos trabalhos correntes e algumas pequenas
brochuras urgentes têm com que absorver o vosso tempo e devem
ser os únicos objetos de vossas preocupações atuais.
Não vos falo apenas em
meu nome: sou aqui delegado de todos esses Espíritos que
contribuíram tão poderosamente para a propagação do
ensinamento por suas sábias instruções.
Eles vos dizem, por meu intermédio, que essa demora, que
julgais prejudicial ao futuro da doutrina, é uma medida necessária
sob mais de um ponto de vista, já porque certas questões não
estão ainda completamente elucidadas, já para preparar os espíritos
a melhor as assimilar. É
preciso que outros tenham preparado o terreno, que certas
teorias tenham provado a sua insuficiência e cavado um vazio
maior. Numa palavra, o
momento não é oportuno; poupai-vos, pois, porque quando for
tempo, todo o vosso vigor de corpo e de espírito vos será
necessário. Até
aqui o Espiritismo foi objeto de muitas diatribes; levantou
muitas tempestades! Credes
que todo o movimento será amainado, todos os ódios serão
acalmados e reduzidos à impotência?
Desiludi-vos; o cadinho depurador ainda não lançou
todas as impurezas; o futuro vos guarda outras provas e as últimas
crises não serão menos penosas para suportar.
Sei que vossa posição
particular vos suscita uma porção de trabalhos secundários,
que absorvem a melhor parte do vosso tempo.
As perguntas de toda sorte vos fatigam e considerais um
dever respondê-las tanto quanto possível.
Farei aqui o que sem dúvida não ousaríeis fazer vós
mesmos: dirigindo-me à generalidade dos espíritas, eu lhes
pedirei, no interesse do próprio Espiritismo, que vos poupem
toda sobrecarga de trabalho de natureza a absorver instantes que
deveis consagrar quase que exclusivamente à conclusão da obra.
Se vossa correspondência com isto sofre um pouco, o
ensinamento lucrará. Às
vezes é necessário sacrificar satisfações particulares ao
interesse geral. É
uma medida urgente, que todos os adeptos sinceros saberão
compreender e aprovar.
A imensa correspondência
que recebeis é para vós uma fonte preciosa de documentos e
informações; ela vos esclarece quanto à marcha verdadeira e
os progressos reais da doutrina; é um termômetro imparcial; vós
aí tendes, por outro lado, satisfações morais que, mais de
uma vez, sustentavam a vossa coragem, vendo a adesão que vossas
idéias encontram em todos os pontos do globo.
Neste ponto, a superabundância é um bem e não um
inconveniente, mas com a condição de secundar os vossos
trabalhos, e não os entravar, vos criando um excesso de ocupações.
Dr. Demeure
Bom senhor Demeure, eu vos
agradeço os sábios conselhos.
Graças à resolução que tomei de me fazer ajudar,
salvo nos casos excepcionais, a correspondência ordinária
pouco sofre agora e não sofrerá mais no futuro.
Mas que fazer com este atraso de mais de quinhentas
cartas que, a despeito de minha boa vontade, não consigo por em
dia?
Allan Kardec
É preciso, como se diz em
linguagem comercial, passa-las em bloco a conta de lucros e
perdas. Anunciando
esta medida na Revista, vossos correspondentes saberão o que
fazer; compreenderão a necessidade e a encontrarão sobretudo
justificada pelos conselhos que precedem.
Repito que seria impossível que as coisas continuassem
assim por mais tempo. Tudo
sofreria com isto: a vossa saúde e a doutrina.
Caso necessário, é preciso saber fazer sacrifícios.
Tranqüilo, de agora em diante, sobre este ponto,
podereis vos dar mais livremente aos vossos trabalhos obrigatórios.
Eis o que vos aconselha aquele que será sempre vosso
amigo devotado.
Demeure
Atendendo a este sábio
conselho, rogamos aos nossos correspondentes com os quais há
muito estamos em atraso, recebam as nossas desculpas e o nosso
pesar por não ter podido responder em detalhe, e como teríamos
desejado, às suas bondosas cartas.
Receberão aqui, coletivamente, a expressão de nossos
sentimentos fraternos.
Kardec
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