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Conhece-se a
lógica dos adversários do Espiritismo. O resumo seguinte,
tirado de um artigo com a assinatura de David (de Thiais),
fornece um bom modelo:
Amigo leitor,
como eu, deveis ter no escritório uma pequena brochura do Sr.
Boreau, de Niort, com o título de "Como e por que me
tornei Espírita", in-8o., com fac-simile de autógrafo da
escrita direta de um Espírito familiar.
É a mais curiosa das histórias, a de um homem sincero,
convicto, amante das coisas elevadas, mas que deífica suas
ilusões e incessantemente corre após os sonhos, crendo apanhar
a realidade. Perseguindo com Jeanne, a sonâmbula, um tesouro
enterrado num antigo campo de batalha da Vandée, encontra, em
vez do ouro prometido, Espíritos barulhentos, malévolos,
temíveis, que quase matam de terror a sua companheira e o fazem
vítima dolorosas angústias. Súbito ele se torna Espírita,
como se as aparições que o obsidiam para ele renovassem os
milagres da lâmpada maravilhosa e, ao mesmo tempo, lhe
prodigalizassem todos os bens do corpo e da alma.
É preciso que
a ficção seja uma das maiores necessidades do gênio humano,
para que semelhantes crenças sejam possíveis.
Há aí gênios farsistas, que zombam; Espíritos cruéis, que
ameaçam e batem; Espíritos grosseiros, com a boca cheia de
injúrias e a gente se pergunta o que aqui vêm fazer, desde que
a morte não os depurou em seus cadinhos terríveis.
Aí também se
satisfazem com dísticos e quadrinhas de um bom anjo, que não
trouxe do céu os segredos de sua poesia, tanto uma idéia
preconcebida nos leva longe no caminho das ilusões.
Em matéria de
Espiritismo, o Sr. Boreau tem a fé do carvoeiro; vai até a
amar os que o batem e o molestam. Nada temos a dizer quanto a
isto, tanto mais quanto sua brochura contém páginas tão
divertidas e prova que pode privar-se facilmente dos Espíritos
exteriores, desde que o seu lhe deve bastar muito bem. Diremos
apenas que os fatos que relata não datam de ontem.
Recorde-se
ainda a emoção que empolgou a cidade de Poitiers, quando a
casa da Rue Saint-Paul fez ouvir, o ano passado, sua formidável
artilharia. Uma longa procissão de curiosos rodou durante oito
dias em volta dessa casa assombrada pelo demônio; a policia ali
estabeleceu o seu quartel general e cada um gozou o vôo dos
Espíritos para ter a sorte de surpreender os segredos do outro
mundo; mas só viram fogo. Os Espíritos só se revelam aos
crentes, fazendo todo o barulho do mundo(Revista Espírita de
Fevereiro, março e maio de 1864).
Coisa estranha,
leitor! Essas paragens parecem ter o monopólio desta raça
barulhenta e zombeteira.
Gorre, célebre
médico alemão, morto em 1836, ensina no Tomo III de sua "Mystique",
segundo diz Guillaume d"Auvergne, morto em 1249, bispo de
Paris, que pelo mesmo tempo, um Espírito batedor se havia
introduzido numa casa do dito bairro de São Paulo, em Poitiers,
e que atirava pedras e quebrava os vidros.
Pierre Mamoris,
professor de teologia em nossa universidade, autor do "Flagellum
Maleficorum", conta o que se passava, em 1447, à Rue
Saint-Paul, numa casa onde certo Espírito, entregando-se às
suas evoluções ordinárias, lançava pedras, mexia os móveis,
quebrava os vidros, até batia nas pessoas, mas de leve, sem que
fosse possível descobrir como é que procedia.
Conta-se que na
ocasião Jean Delorme, então cura de Saint-Paul, homem de muita
instrução e grande probidade, veio, acompanhado de algumas
pessoas, visitar o teatro desses estranhos fatos e, munido de
velas bentas e acesas, água benta e água gregoriana, percorreu
todos os aposentos da casa, aspergindo-os e exorcizando-os. Mas
todos os exorcismos foram impotentes; nenhum diabo se mostrou.
Contudo, a partir daquele momento, o maligno Espírito deixou de
se manifestar.
Assim, há
alguns séculos de distância, os mesmos fenômenos espíritas
se repetem três vezes na mesma cidade e no mesmo bairro. Mas,
que concluir disto? Absolutamente nada. Com efeito, não há
qualquer conseqüência importante a tirar de um ruído vão, de
brincadeiras pueris, por vezes lamentáveis que, evidentemente,
não podem ser atribuídas aos Espíritos, corpos imponderáveis
que, planando sobre o mundo, devem escapar às enfermidades
humanas, aproximando-se da luz e da bondade de Deus.
Aliás esta questão não está em discussão. Cada um é livre
de escolher os seus Espíritos e os adorar a sua maneira,
emprestar-lhes uma virtude, um poder, m caráter conforme às
suas aspirações. Somente preferimos aos gênios um tanto
materiais da escola moderna às criações nascidas da poesia
dos dias antigos e que, marchando fraternalmente como homens nos
limites dos dois mundos, lhes davam tão docemente a mão, para
os aproximar das fontes da vida imortal e da felicidade sem fim.
Nenhum
Espírito batedor valerá mesmo para nós essas adoráveis
imagens pintadas pelo gênio de Ossian sobre as nuvens vaporosas
do Norte, e cujas harpas melancólicas ainda fazem fremir tão
bem as mais intimas fibras do coração. Quando a alma se evola,
tem o cuidado de aliviar suas asas e repele tudo quanto as possa
tornar pesadas.
Devemos
agradecer ao autor deste artigo, por nos haver dado a conhecer
esse fato notável, que ignorávamos, do mesmo fenômeno
reproduzido, há séculos, na mesma localidade. Ele não podia
melhor servir à nossa causa, sem o suspeitar, porque desta
repetição ele pretende tirar um argumento contra as
manifestações. Parece-nos que em boa lógica, quando um fato
é único e isolado não se pode deduzir conseqüência
absoluta, pois pode ser devido a uma causa acidental, ao passo
que, quando se renova em condições idênticas, é que depende
de uma causa constante, isto é, de uma lei. Buscar essa lei é
dever de todos os observadores sérios, pois pode conduzir a
importantes descobertas.
Que, mau grado
a duração, o caráter especial e as circunstâncias
acessórias dos ruídos de Poitiers, algumas pessoas tenham
persistido em os atribuir à malevolência, compreende-se até
certo ponto. Mas, então, se é pela terceira vez que se renovam
à mesma rua e à séculos de distancia, há, por certo,
matéria para reflexão, porque, se há mal-intencionados, é
muito improvável que em tão longo intervalo tenham escolhido
precisamente o mesmo lugar para teatro de suas ações.
Entretanto, que concluir disto? Diz o autor: "Absolutamente
nada." Assim, por isso que um fato, em várias
repetições, emociona toda uma população, não há qualquer
conseqüência a dele tirar! Lógica realmente singular!
"São ruídos vãos, divertimentos pueris, que
evidentemente não podem ser atribuídos aos Espíritos, corpos
imponderáveis que, planando sobre o mundo, devem escapar às
enfermidades humanas, aproximando-se incessantemente da luz e da
bondade de Deus." Então o Sr. David crê nos Espíritos,
pois descreve os seus atributos com tanta precisão. Onde bebeu
tais conhecimentos? Quem lhe disse que os Espíritos tais quais
ele os imagina? Estudou-os para assim resolver a questão? Diz
que "devem escapar às enfermidades humanas;" às
enfermidades corporais, sem dúvida; mas às enfermidades morais
é o mesmo? Então ele crê que o homem perverso, o assassino, o
bandido, o mais vil dos malfeitores e ele estarão no mesmo
nível quando forem Espíritos? De que lhes terá servido ser
honestos em vida, desde que, após a morte, se-lo-ão como se o
tivessem sido? Desde que os Espíritos se aproximam
incessantemente da luz e da bondade de Deus, o que é mais
verdadeiro do que talvez creia o autor, então houve um tempo em
que estava longe porque, para se aproximar de um objetivo é
preciso ter estado distante. Onde o ponto de partida? Não pode
ser senão o oposto à perfeição, isto é, a imperfeição.
Seguramente não são Espíritos perfeitos que se divertem com
semelhantes coisas. Mas se os há imperfeitos, que há de
admirável que cometam malícias? Por isso que planam sobre o
mundo segue-se que dele não se possam aproximar? Seria
supérfluo levar mais longe esta refutação. Os argumentos de
nossos adversários, todos mais ou menos da mesma força, não
nos teriam levado a transcrever este artigo, se não fosse o
precioso documento que encerra, pelo que novamente agradecemos
ao autor.
Fonte: Revista
Espírita de Maio de 1864.
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