O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
O Perispírito Descrito em 1805

Autor:
Allan Kardec

Fonte:
Revista  Espírita
Janeiro de 1865

HISTÓRICO

   

Sob o título de: "Aparição real de minha mulher após sua morte - Chemnitz, 1804" - o doutor Woetzel publicou um livro que causou grande sensação nos primeiros anos deste século. O autor foi atacado em diversos escritos; sobretudo Wieland o leva a ridículo na "Euthanasia." Durante uma doença de sua mulher, Woetzel tinha pedido a esta que se lhe mostrasse após sua morte. Ela lhe fez a promessa, mas, um pouco mais tarde, a seu pedido, seu marido a desligou da mesma. Contudo, algumas semanas depois de sua morte, um vento violento pareceu soprar no quarto, embora estivesse fechado; a luz quase se extinguiu; uma pequena janela na alcova abriu-se e, com a fraca claridade reinante, Woetzel viu a forma de sua mulher que lhe disse em voz doce: "Carlos, sou imortal; um dia nos reveremos." A aparição e as palavras consoladoras se renovaram mais tarde, uma segunda vez. A mulher mostrou-se de vestido branco, com o aspecto que tinha antes de morrer. Um cão que não se tinha mexido à primeira aparição, agitou-se e descreveu um círculo, como em redor de uma pessoa conhecida.

Na segunda obra sobre o mesmo assunto (Leipzig, 1805), o autor fala de convites que lhe teriam sido dirigidos para desmentir todo o assunto, "porque do contrário os cientistas seriam forçados a renunciar ao que, até então, tinham julgado como opiniões verdadeiras e justas, e porque a superstição aí encontraria um alimento." Mas ele já havia pedido ao conselho da Universidade de Leipzig que lhe permitisse depositar, a respeito, um juramento jurídico. O autor desenvolve sua teoria: segundo ele "a alma, depois da morte, seria envolvida por um corpo etéreo, luminoso, por meio do qual poderia tornar-se visível; poderia usar outras vestimentas, por cima desse envoltório luminoso; a aparição não tinha agido sobre o seu sentido interior, mas unicamente sobre os sentidos exteriores."

Como se vê, a esta explicação só falta a palavra "perispírito." Contudo, Woetzel está errado quando crê que a aparição só atua nos sentidos exteriores, e não sobre o sentido interior. Sabe-se, hoje, que é o contrário que se dá. Mas talvez tivesse ele querido dizer que estava perfeitamente desperto, e não em estado de sonho, o que, provavelmente, lhe teria feito pensar que havia percebido a aparição apenas pela visão corporal, desde que nem conhecia as propriedades do fluído perispiritual, nem o mecanismo da "visão espiritual."

Aliás, lendo-se a obra científica do Sr. Pezzani, sobre a "Pluralidade das Existências", tem-se a prova que o conhecimento do corpo espiritual remonta à mais alta antiguidade, e que apenas o nome de perispírito é moderno. São Paulo o descreveu na I Cor., Cap.XV. Woetzel o reconheceu apenas pela força do raciocínio. Tendo-o estudado nos numerosos fatos que observou, o Espiritismo lhe descreveu as propriedades e deduziu as leis de sua formação e de suas manifestações.

Quanto ao que se refere ao cão, isto nada tem de surpreendente. Diversos fatos parecem provar que certos animais sentem a presença dos Espíritos. Na "Revista Espírita" de junho de 1860 citamos um exemplo, que tem notável analogia com o de Woetzel. Não está mesmo provado positivamente que não os possam ver. Nada haveria de impossível que, em certas circunstâncias, por exemplo, os cavalos que se amedrontam e obstinadamente se recusam a avançar sem motivo conhecido sofram o efeito de uma influência oculta.

Obs.: Extraído da obra alemã: “Os Fenômenos Místicos da Vida Humana”, por Maximilien Perty, professor na Universidade de Berne – Leipzig e Heidelberg, 1861