O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
Terrível Argumento contra o Espiritismo
História de um Pequeno Jumento

Autor:
Allan Kardec

Fonte:
Revista  Espírita
Maio de 1863

HISTÓRICO

   

Num sermão pregado ultimamente contra o Espiritismo, pois foi dada a palavra de ordem de o perseguir em toda a linha, bem como seus partidários, o orador, querendo dar um golpe mortal, contou a seguinte anedota:

“Há três semanas uma senhora perdeu o marido.  Apresentou-se um médium para lhe propor uma conversa com o defunto e, talvez, vê-lo.  A visão não se deu, mas o defunto explicou à sua mulher, pela mão do médium, que não foi julgado digno de entrar no repouso dos bem aventurados, e que se viu obrigado a reencarnar imediatamente para expiar os pecados.  Adivinhem onde?  A um quilômetro dali em casa de um moleiro, na pessoa de um pequeno jumento, surrado a chicotadas.  Julgai da dor da pobre senhora, que corre ao moleiro, abraça o humilde animal e se propõe a comprá-lo.  O moleiro foi duro no preço, mas, enfim, cedeu ante um bom saco de moedas; e, desde quinze dias,  ocupa um cômodo especial na casa da senhora, cercado de cuidados jamais desfrutados por seus semelhantes, desde que a Deus aprouve criar esta raça estimável.”

Duvidamos que o auditório se tenha convencido da história; mas, ao que sabemos por testemunhas auriculares, é que a maioria achou que ela ficaria melhor num folhetim gaiato do que no púlpito, tanto pelo fundo quanto pelas expressões.  Sem duvida o orador ignorava que o Espiritismo ensina, sem equívoco, que a alma ou Espírito não pode animar o corpo de um animal (Livro dos Espíritos, Questões 118, 612 e 613).

O que ainda mais nos admira é o ridículo lançado sobre a dor em geral, com a ajuda de um conto alegre e em termos que não brilham pela dignidade.  Além disso, é de ver um sacerdote tratar assim, um tanto livremente, a obra de Deus por estas palavras pouco reverentes: “desde que a Deus aprouve criar esta raça estimável.”  O assunto é tanto pior escolhido para fazer espírito, quanto poderia objetar-se que tudo é respeitável na obra de Deus e que Jesus não se sentiu desonrado por entrar em Jerusalém montado num indivíduo daquela raça.

Faça-se um paralelo do quadro burlesco da dor daquela suposta viúva com o da viúva verdadeira cujo relato demos nesta mesma edição, e diga qual dos dois é mais edificante, mais marcado de verdadeiro sentimento religioso e de respeito à Divindade; enfim, qual o que estaria melhor colocado no púlpito da verdade.

Admitamos o fato que contastes, senhor pregador, isto é, não a reencarnação num jumento, mas a credulidade da viúva em tal encarnação; como castigo, que lhe teríeis dado em substituição?  As chamas eternas do inferno, perspectiva ainda menos consoladora, porque essa mulher viúva certamente teria respondido:  “Prefiro saber que meu marido está na pele de um jumento do que sendo queimado por toda a eternidade.”