O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
O Episódio de Hydelsville

Autor:
Pedro Franco Barbosa

Fonte:
Primórdios do Espiritismo

HISTÓRICO

 

Hydelsville, vilarejo situado próximo da cidade de Rochester, no condado de Wayne, no Estado de Nova York, nos Estados Unidos, passou à História como o berço do Novo Espiritualismo, ou seja, o Espiritismo dos povos de língua inglesa.

Numa tosca cabana, residia uma família protestante composta de John Fox, sua mulher Margareth e as filhas menores Margareth e Catherine (Kate), cabana na qual moraram, antes deles, os esposos Bell e sua criada Lucrecia Pelves.

Nessa modesta residência se verificaram fatos estranhos, que alarmaram seus moradores e toda a vizinhança: ruídos, pancadas, batidas, punham todos em desassossego.  Ninguém descobria sua origem.

As filhas do casal Fox, e ainda a mais velha, Lia, casada, eram médiuns.  Kate, de onze anos, no dia 31 de março de 1848, quando as pancadas (em inglês chamadas raps) se tornaram mais persistentes e fortes, resolveu desafiar o mistério, travando-se um diálogo com o que todos julgavam fosse o diabo:

_“Senhor Pé-Rachado, faça o que eu faço, batendo palmas”.

Imediatamente se ouviram pancadas, em número igual ao das palmas.  A Sra. Margareth, animada, disse, por sua vez:

_”Agora faça exatamente como eu. Conte um, dois, três, quatro”.

Logo, se fizeram ouvir as pancadas correspondentes.

-“É um espírito?”, perguntou em seguida. “Se for, dê duas batidas”.

A resposta afirmativa, não se fez esperar:

-“Se for um espírito assassinado, dê duas batidas.  Foi assassinado nesta casa?”.

Duas pancadas estrepitosas se fizeram ouvir.

Estabelecera-se assim, naquele memorável 31 de março de 1848, a telegrafia espiritual e hoje, em Lily Dale, no Estado de Nova York, a tosca cabana é admirada como relíquia histórica e uma placa assinala a data considerada como a do nascimento do Novo Espiritualismo.

Um vizinho dos Fox, de nome Duesler, usando o alfabeto para obter respostas mais rápidas, conseguiu saber o nome do assassino (o Sr. Bell), o móvel do crime (o roubo do dinheiro e coisas do assassinado, um mascate de nome Charles B. Rosma), o local do crime (o quarto leste da casa), a data (havia 5 anos, à meia-noite de uma terça-feira ) e o modo como se dera o crime( a golpes de faca de açougueiro na garganta, sendo o corpo levado para a adega ).

Graças ao depoimento de Lucrecia Pelves, criada dos Bell, desceram à adega, onde cavaram, encontrando tábuas, alcatrão, cal e cabelos humanos, bem como utensílios do mascate.  Seu corpo, todavia, só apareceu em 1904 (56 anos depois), quando uma parede da casa ruiu, assustando crianças que brincavam perto e deixando a descoberto o esqueleto do morto, inclusive uma lata, de seu uso, hoje ainda guardada em Hydelsville.

Assim, os fatos vieram confirmar a estranha denúncia de um morto, que saía das trevas para relatar a ação criminosa de que fora vítima, havia anos.

Entretanto, é preciso considerar o episódio em suas verdadeiras finalidades, porque inúmeros crimes semelhantes se dão e nem por isso as vítimas os denunciam de modo semelhante.  Nem a finalidade da comunicação era a punição do culpado (que disso se encarregam, sempre, as leis divinas), porque à pergunta sobre se o assassino podia ser punido pela lei, se podia ser levado ao Tribunal, nenhuma resposta foi dada.

“É para unir a Humanidade e convencer as mentes céticas da imortalidade da alma”, disseram os Espíritos; era de fato o início de um movimento de caráter quase universal, tendente a despertar a Humanidade para a vida espiritual, que seria revelada, pouco depois, pela Codificação da Doutrina Espírita, tarefa gigantesca a ser realizada pelo grande missionário Allan Kardec.

“Era como uma nuvem psíquica, descendo do alto e mostrando-se nas pessoas suscetíveis”, escreve A. Conan Doyle, em sua “História do Espiritismo”, porquanto os fatos insólitos, os raps, produzidos pelos Espíritos batedores, se multiplicavam, despertando consciências através de mensagens apropriadas.

Grande número de adeptos das novas crenças fizeram realizar em Rochester, na Sala Coríntia (Corinthian Hall), a primeira reunião pública para exame e debate dos fatos, nomeando-se comissões para investigar sua veracidade.  Nada menos de três tiveram de os confirmar.  Figuras notáveis dos Estados Unidos reconheceram a autenticidade dos fenômenos que honestamente não podiam negar: o Governador Tallmadge e o Juiz Edmonds, cuja filha Laura se tornou depois médium notável de xenoglossia (Mediunidade Poliglota).

Entretanto, a reação das trevas foi grande, graças, sobretudo, ao meio intolerante em que se davam os fenômenos, numa sociedade de protestantes e numa época de obscuridade.  As irmãs Fox, certa vez, quase foram linchadas no teatro, que tiveram de deixar às escondidas.

Muito sofreram os médiuns, por meio dos quais, como sabemos, realizam-se os fenômenos e as irmãs Fox não constituíram exceção.

Contudo, diz o Prof. José Jorge, no opúsculo “Dos raps de Hydelsville até Allan Kardec”:

“Cumpre consignar aqui a envergadura moral do casal Fox que, contrariados e perseguidos pela Igreja Metodista a que pertenciam, preferiram de lá ser expulsos, a negar os fenômenos espíritas, ou a abdicar da verdade de que foram testemunhas”.

Como queriam os Espíritos, o acontecimento repercutiria na Europa, despertando as consciências e, ao lado dos fenômenos das “Mesas Girantes”, prepararia o advento do Espiritismo.