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A Revista Espírita acaba de
completar o seu primeiro ano e nos sentimos feliz em anunciar
que, d’ora em diante, sua existência se acha assegurada por um
número de assinantes que aumenta dia-a-dia, e que sua publicação
continuará. Os testemunhos de simpatia que de toda a parte
recebemos, o sufrágio dos homens mais eminentes pelo saber e
pela posição social são para nós um encorajamento na tarefa
laboriosa que empreendemos. Recebam aqui, pois, aqueles que nos
ajudaram na realização de nossa obra, o testemunho de nossa
gratidão.
Se não tivéssemos encontrado
nem contradições nem críticas, estaríamos ante um fato inaudito
nos fastos da publicidade, principalmente por se tratar da
emissão de idéias tão novas. Se, entretanto, de algo nos devemos
admirar é de as ter encontrado tão poucas, em comparação com os
sinais de aprovação, que nos tem sido dados, muito menos, sem
dúvida, ao mérito de escritor, que à atração do próprio assunto
tratado e ao crédito que dia a dia, conquista nas mais altas
camadas da sociedade; devemos também – e disto estamos
convencidos – a dignidade que sempre temos conservado perante os
nossos adversários, deixando que o público julgue entre a
moderação, de uma parte e a inconveniência da outra.
O Espiritismo marcha a passos
gigantescos pelo mundo inteiro. Diariamente une alguns
dissidentes pela força das coisas e, se, de nosso lado, podemos
lançar alguns gramas na balança desse grande movimento, que se
opera e que marcará a nossa época como uma era nova, não será
irritando e mesmo atacando de frente aqueles mesmos que
desejamos atrair, mas será pelo raciocínio e não pelas injúrias
que nos faremos escutar. A tal respeito dão-nos os Espíritos
Superiores, que nos assistem, preceito e exemplo. Seria indigno
de uma doutrina, que não prega senão o amor e a benevolência,
descer à arena do personalismo. Deixamos essa tarefa aos que a
não a compreendem. Nada, pois, nos desviaria da linha que temos
seguido, da calma e do sangue-frio, que não cessamos de manter
no exame raciocinado de todas as questões, de vez que sabemos
que assim conquistaremos mais partidários sérios do Espiritismo
do que pela aspereza e pela acrimônia. Na introdução com que
abrimos o primeiro número traçamos o plano que nos propúnhamos
seguir: citar os fatos, mas também analisá-los e submetê-los ao
escalpelo da observação; apreciá-las e deduzir-lhes as
conseqüências. A principio, toda a atenção se concentrou nos
fenômenos materiais, que então alimentavam a curiosidade
pública; mas esta tem o seu tempo e, uma vez satisfeita,
perde-se-lhe o interesse, assim como a criança que abandona um
brinquedo. Então os Espíritos nos dizem: Este é o primeiro
período; em breve passará, para dar lugar a idéias mais
elevadas. Novos fatos revelar-se-ão, marcando um novo período –
o filosófico – e a Doutrina crescerá em pouco tempo, como a
criança que deixa o seu berço. Não vos inquieteis com as
zombarias, pois zombarão dos próprios zombeteiros e amanhã
encontrareis defensores zelosos entre os mais ardorosos
adversários de hoje. Deus quer que seja assim e nós somos
encarregados de executar a sua vontade. A má vontade de alguns
homens não prevalecerá contra ela. O orgulho daquele que quer
saber mais que Deus será abatido.
Efetivamente estamos longe das
mesas girantes, que já não divertem, porque tudo cansa. Só não
nos cansamos daquilo que fala ao nosso entendimento; e o
Espiritismo voga a velas pandas em seu segundo período. Todos
compreenderam que é uma ciência que se funda, toda uma
filosofia, toda uma nova ordem de idéias. Era preciso acompanhar
esse movimento, para ele contribuir, sob pena de sermos em breve
ultrapassados, nos fecharmos nos estreitos, nos fecharmos nos
estreitos limites e num boletim anedótico. Elevando-se ao plano
de uma doutrina filosófica, o Espiritismo conquistou inúmeros
aderentes, mesmo entre aqueles que jamais presenciaram um fato
material. É porque o homem aprecia aquilo que lhe fala à razão,
aquilo de que se pode dar conta, que ele encontra na filosofia
espírita algo mais que um divertimento, alguma coisa que em si
enche o vazio pungente da incerteza. Penetrando no mundo
extracorporal por via da observação, quisemos por aí fazer
entrar os nossos leitores e fazê-los compreender. Cabe-lhes
dizer se atingimos o nosso objetivo.
Prosseguiremos em nossa tarefa
no ano que se vai iniciar e que, tudo o prenuncia, será fecundo.
Novos fatos de uma ordem estranha surgem neste momento e
revelam-nos novos mistérios. Registrá-lo-emos cuidadosamente e
neles procuraremos a luz com tanta perseverança quanto no
passado, porque tudo pressagia que o Espiritismo vai entrar numa
nova fase mais grandiosa e ainda mais sublime.
Allan Kardec
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