O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
Uma Questão de Prioridade

Autor:
Allan Kardec

Fonte:
Revista Espírita
Dezembro de 1858

HISTÓRICO

     

O Sr. Ch. Renard, nosso assinante de Rambouillet, dirigiu-nos a seguinte carta:

 

“Senhor e digno confrade em Espiritismo. Leio, ou melhor, devoro com indizível satisfação os números de vossa Revista, à medida que os recebo. Isto não é de admirar de minha parte, de vez que meus pais eram adivinhos, de geração em geração. Uma de minhas tetravós tinha até sido condenada à fogueira, como contumaz no crime de Vauldrie e freqüentadora de sabbat. E só evitou a fogueira refugiando-se em casa de uma das irmãs, abadessa de religiosas enclausuradas. Por isto herdei algumas migalhas de ciências ocultas, o que me não impediu de passar pela crença no materialismo, se crença aí existe, e pelo cepticismo. Enfim, fatigado, doente de negação, as obras do célebre extático Swedenborg trouxeram-me à verdade e ao bem. Tornando-me também extático, convenci-me ad vivum das verdades que os Espíritos materializados do nosso globo não podem compreender”.

“Tive comunicações de toda sorte: fenômenos de visibilidade, de tangibilidade, de transporte de objetos perdidos, etc. Teria o bom irmão a gentileza de publicar a nota que segue num dos seus próximos números? Não é uma questão de amor-próprio, mas de minha condição de francês”.

“Por vezes as pequenas causas produzem grandes efeitos. Por volta de 1840 eu tinha travado relações com o Senhor Cahagnet, torneiro e entalhador, que viera a Rambouillet por motivo de saúde. Este operário de alta classe pela inteligência, foi por mim apreciado e iniciado no magnetismo humano. Um dia eu lhe disse: Tenho quase certeza de que um sonâmbulo lúcido é apto a ver as almas dos mortos e com elas entrar em conversação. Ele ficou admirado. Induzi-o a fazer tal experiência quando contasse com um sonâmbulo lúcido. Ele teve êxito e publicou um primeiro volume de experiências necromânticas, seguido de outros volumes e brochuras que na América foram traduzidos com o titulo de Telégrafo Celeste. Depois o extático Davis publicou suas visões ou excursões pelo mundo espírita. Sobre as desmaterializados Franklin fez pesquisas que chegaram a manifestações e comunicações mais fáceis que outrora. As primeiras pessoas que ele mediunizou nos Estados Unidos foram a viúva Fox e suas duas filhas. Há uma coincidência muito notável entre este nome e o meu, pois o vocábulo inglês fox significa raposa (renard)”.

“De há muito que os Espíritos me haviam dito que era possível a comunicação com Espíritos de outros globos, dos quais seriam recebidos desenhos e descrições. Eu expus o assunto ao Sr. Cahagnet, mas ele não foi mais longe do que o nosso satélite.”

 

“Sou, etc”.

Ch. Renard.

 

  

Observação: O problema de prioridade, em matéria de Espiritismo, é, inquestionavelmente, de segunda ordem. Mas não é menos notável que, desde a importação dos fenômenos americanos, uma porção de fatos autênticos, ignorados do público, revelaram a produção de fenômenos semelhantes, tanto na França, quanto em outros países da Europa, em época contemporânea ou anterior. É de nosso conhecimento que muitas pessoas se ocupavam de comunicações espíritas muito antes de se cogitar de mesas girantes e disso temos provas com data certa. Parece que o Senhor Renard está neste número e que, segundo ele, os ensaios não teriam sido estranhos aos que se fazem na América. Registramos a sua observação como interessante para a história do Espiritismo e para provar mais uma vez que esta ciência tem raízes no mundo inteiro, o que tira aos que lhe queiram opor uma barreira qualquer possibilidade de êxito. Se o abafam aqui, ele renascerá mais vivo em cem outros lugares, exatamente no momento em que, já não sendo mais possível a dúvida, ele há de tomar um lugar entre as crenças comuns. Então, bom grado ou mau grado, seus adversários terão que tomar o seu partido.

Allan Kardec