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O Independência
Belga, que não nos acusará de um excesso de benevolência a
respeito das crenças Espíritas, narrou o fato seguinte, que
vários outros jornais repetiram, e que reproduzimos, por nossa
vez, com todas as reservas, não tendo ocasião para constatar-lhe
a realidade.
“Seja porque nossa
imaginação inventa e habita um mundo de almas ao lado e acima de
nós, seja porque o mundo no qual estamos, vivemos e nos movemos,
existe realmente, é fora de dúvida, para mim pelo menos, que
inexplicáveis acidentes se produzem, os quais provocam a ciência
e desafiam a razão”.
“Na guerra da
Criméia, durante uma dessas noites tristes e lentas, que se
prestam maravilhosamente à melancolia, ao pesadelo, a todas as
nostalgias do céu e da Terra, um jovem oficial, de repente, se
levantou, saiu de sua tenda, foi procurar um dos seus camaradas
e lhe disse”:
- Acabo de receber
a visita de minha prima, da senhorita T...
- Tu sonhas.
- Não. Ela entrou,
pálida, sorridente e roçando apenas o solo muito duro, muito
grosseiro pata seus pés delicados. Olhou-me, depois que sua voz
doce bruscamente me despertou, e ela me disse: “Tu tardas muito!
Preste atenção! Algumas vezes se morre da guerra sem ir à
guerra!” Quis falar-lhe, erguer-me, correr para ela; ela recuou!
E colocando um dedo sobre os lábios: “Silêncio, disse-me, tenha
coragem e paciência, nós nos reveremos!” Ah! Meu amigo, ela
estava muito pálida, e estou certo de que está doente, que me
chama.
- Tu dormes todo
desperto, és louco, replicou o amigo.
- É possível, mas,
então, o que é esse movimento do meu coração que a evoca e que
me faz vê-la?
“Os dois jovens
conversaram e, pela madrugada, o amigo reconduziu à sua tenda o
oficial visionário, quando este estremeceu de repente”.
- Ei-la, meu
amigo; ei-la, disse, ela está diante de minha tenda... Ela me
faz sinal de que me faltam fé e confiança.
“O amigo,
evidentemente, não via nada. Fez o melhor para consolar seu
camarada. O dia apareceu, e com o dia as ocupações bastante
sérias para que não fosse mais questão os fantasmas da noite.
Mas, por uma precaução muito razoável, no dia seguinte, uma
carta partiu para a França, pedindo, instantaneamente, novidades
da Senhorita T... Alguns dias depois, respondia-se que a
Senhorita T... estava bastante e seriamente doente, e que se o
jovem oficial pudesse obter uma licença, pensava-se que a sua
visão teria o melhor efeito”.
“Pedir uma licença
no momento das mais rudes fadigas, talvez à véspera de um ataque
decisivo, e fazer valer medos sentimentais, não era preciso
sonhar muito com isso. Todavia, creio lembrar-me que a licença
foi pedida e obtida, e que o jovem oficial ia partir para a
França, quando teve ainda uma visão. Aquela era assustadora. A
Senhorita T... veio, pálida e muda, insinuar-se uma noite em sua
tenda e lhe mostrou o longo vestido branco que trajava. O jovem
oficial não duvidou, um só instante, que sua noiva não estivesse
morta; ele estendeu a mão, tomou uma de suas pistolas e fez
saltar os miolos”.
“Com efeito, na
mesma noite, à mesma hora, a Senhorita T... dera o último
suspiro”.
“Essa visão era o
resultado do magnetismo? Disso nada sei. Era da loucura? Eu o
quero muito. Mas era alguma coisa que escapa aos gracejos dos
ignorantes, mais malsãos ainda, dos sábios”.
“Quanto à
autenticidade desse fato, eu a garanto. Interrogai os oficiais
que passaram esse longo inverno na Criméia, e não serão poucos
os que vos contarão fenômenos de pressentimento, de visão, de
miragem da pátria e de parentes, análogos ao que acabo de
dizer-vos”.
“Que é necessário
disso concluir? Nada. A não ser que termine minha
correspondência de um modo lúgubre, e que saiba talvez o meio de
dormir sem saber magnetizar”.
“THÉCEL”.
Assim como
dissemos no começo, não pudemos constatar a autenticidade do
fato; mas o que podemos garantir é a sua possibilidade. Os
exemplos averiguados, antigos e recentes, de advertências de
além-túmulo, são tão numerosos, que este nada tem de mais
extraordinário que aqueles dos quais muitas pessoas, dignas de
fé, foram testemunhas. Puderam parecer sobrenaturais em outros
tempos; mas hoje que sua causa é conhecida e psicologicamente
explicada, graças à teoria espírita, nada têm que escape às leis
da Natureza. Não lhe apresentaremos senão uma só nota, é que, se
esse oficial conhecesse o Espiritismo, saberia que o meio de
reencontrar sua noiva não era o de se matar, porque essa ação
pode dela distanciá-lo por um tempo bem mais longo do que aquele
que tivesse passado na Terra. O Espiritismo ter-lhe-ia dito, por
outro lado, que uma morte gloriosa, no campo de batalha,
ser-lhe-ia mais proveitosa do que a que se deu voluntariamente,
por um ato de fraqueza.
Eis um outro fato
de advertência de além-túmulo, reportado pela “Gazette d´Arad”,
Hungria, do mês de novembro de 1858:
“Dois irmãos
israelitas, de Gyek (Hungria), foram a Grosswardien, conduzirem,
num pensionato, suas duas filhas com a idade de 14 anos. Durante
a noite que se seguiu à sua partida, uma outra filha de um
deles, com a idade de 10 anos, e que ficara em casa, despertou
em sobressalto, e contou, chorando, à sua mãe, que viu em sonho
seu pai e seu tio, cercados de vários camponeses que queriam
fazer-lhes mal”.
“De inicio, sua
mãe não teve em nenhuma conta as suas palavras; mas vendo que
não conseguiu acalmar a sua criança, levou-a à casa do chefe do
lugar; esta contou-lhe de novo seu sonho, acrescentando que
havia reconhecido dois de seus vizinhos entre os camponeses, e
que o acontecimento se passara na orla de uma floresta”.
“O chefe do lugar
enviou imediatamente ao domicilio dos dois camponeses que, com
efeito, estavam ausentes; depois, a fim de se assegurar da
verdade, expediu na direção indicada outros emissários, que
encontraram cinco cadáveres nos confins de um bosque. Eram os
dois pais, com as duas filhas e o cocheiro que os conduzira; os
cadáveres foram lançados num braseiro para torná-los
irreconhecíveis. Logo a policia começou as investigações; ela
deteve os dois camponeses designados no momento em que
procuravam trocar várias cédulas sujas de sangue. Uma vez na
prisão, confessaram seu crime, dizendo que reconheciam o dedo de
Deus na pronta descoberta do crime.
Allan Kardec
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