O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
A Biblioteca de New York

Autor:
Allan Kardec

Fonte:
Revista Espírita
Maio de 1860

HISTÓRICO

     

Leu-se no Courrier des États-Unis:

Um jornal de New York publicou um fato bastante curioso, do qual um certo número de pessoas já tinha conhecimento, e sobre o qual, há alguns dias, consagravam-se comentários muito divertidos. Os espiritualistas nele viam mais um exemplo de manifestações do outro mundo. As pessoas sensatas não vão procurar-lhe a explicação tão longe, e reconhecem claramente os sintomas de uma alucinação. É a opinião do próprio doutor Cogswell, o herói da aventura.

O doutor Cogswell é bibliotecário chefe da Astor Library. O devotamento que leva no remate de um catálogo completo da biblioteca, freqüentemente fá-lo tomar, para o seu trabalho, as horas que deveria consagrar ao sono, e assim é que tem ocasião de visitar sozinho, à noite, as salas onde tantos volumes estão alinhados nas prateleiras.

Há cerca de quinze dias, ele passava assim, castiçal à mão, pelas onze horas da noite, diante de um canto cheio de livros, quando, para sua grande surpresa, percebeu um homem bem posto que parecia examinar com cuidado os títulos dos volumes. Imaginou, de inicio, estar em contacto com um ladrão, recuou e examinou atentamente o desconhecido. Sua surpresa tornou-se mais viva ainda quando reconheceu, no noturno visitante, o doutor*** que vivera na vizinhança de Lafayette-Place, mas que está morto e enterrado há seis meses.

O Sr. Cogswell não crê muito em aparições e com elas se atemoriza ainda menos. Todavia, acreditou dever tratar o fantasma com considerações, e elevando a voz: Doutor, disse-lhe, como ocorre que vós que, quando vivo, provavelmente jamais viestes a esta biblioteca, a visitas assim depois de sua morte? O fantasma, perturbado na sua contemplação, olhou o bibliotecário com olhos ternos e desapareceu sem responder.

- Singular alucinação, se disse o Senhor Cogswell. Terei, sem dúvida, comido alguma coisa indigesta no meu jantar.

Retornou ao seu trabalho, depois foi deitar-se e dormir tranqüilamente. No dia seguinte, na mesma hora, teve vontade de visitar ainda a biblioteca. No mesmo lugar da véspera, encontrou o mesmo fantasma, dirigiu-lhe as mesmas palavras e obteve o mesmo resultado.

- Eis que é curioso, pensou, é necessário que eu volte amanhã.

Mas antes de voltar, o senhor Cogswell examinou as prateleiras que pareceu interessar vivamente ao fantasma, e, por uma singular coincidência, reconheceu que estavam todas carregadas de obras antigas e modernas de necromancia. No dia seguinte, portanto, quando, pela terceira vez, reencontrou o doutor defunto, variou sua frase e lhe disse: “Eis a terceira vez que vos reencontro, doutor. Dizei-me, pois, se algum desses livros perturba o vosso repouso, para que eu o faça retirar da coleção”. O fantasma não respondeu mais desta vez do que nas outras, mas desapareceu definitivamente, e o perseverante bibliotecário retornou na mesma hora e no mesmo lugar, várias noites seguintes, sem aí reencontrá-lo.

Entretanto, aconselhado por amigos aos quais contou a história, e médicos que consultara, decidiu repousar um pouco e fazer uma viagem de algumas semanas até Charlestown, antes de retomar a tarefa longa e paciente que se impôs, e cujas fadigas, sem dúvida, causaram a alucinação que acabamos de contar.

Nota: Faremos sobre esse artigo uma primeira observação, é a sem cerimônia com a qual aqueles que não crêem nos Espíritos se atribuem o monopólio do bom senso. “Os espiritualistas, diz o autor, vêem neste fato um exemplo a mais de manifestações do outro mundo; as pessoas sensatas não vão procurar-lhe a explicação tão longe, e aí reconhecem claramente os sintomas de uma alucinação”. Assim, da parte desse autor, não há pessoas sensatas senão aquelas que pensam como ele; todas as outras não têm o senso comum, fossem mesmo doutores, que o Espiritismo os conta aos milhares. Estranha modéstia, em verdade, que aquele que tem por máxima: Ninguém tem razão senão nós e nossos amigos!

Estamos ainda para ver uma definição clara e precisa, uma explicação fisiológica da alucinação; mas à falta de explicação há um sentido ligado a essa palavra; no pensamento daqueles que a empregam, ela significa ilusão; ora, quem diz ilusão diz ausência de realidade; segundo eles, é uma imagem puramente fantástica, produzida pela imaginação, sob o império de uma superexcitação cerebral. Não negamos que assim possa ser em certos casos; a questão é saber se todos os fatos do mesmo gênero estão nas condições idênticas. Examinando aquele que narramos acima, parece-nos que o doutor Cogswell era perfeitamente calmo, assim como ele mesmo declara, e que nenhuma causa fisiológica ou moral viera perturbar seu cérebro. De outro lado, admitindo nele uma ilusão momentânea, ficaria ainda por explicar como essa ilusão se produziu vários dias seguidos, à mesma hora, e com as mesmas circunstâncias; não está aí o caráter da alucinação propriamente dita. Se uma causa material desconhecida impressionou seu cérebro no primeiro dia, é evidente que essa causa cessou ao cabo de alguns instantes, quando a aparição desapareceu; como então reproduziu-se identicamente três dias seguidos, com 24 horas de intervalo? O que é lamentável é que o autor do artigo negligenciou de fazê-lo, porque ele deve, sem dúvida, ter excelentes razões, uma vez que faz parte das pessoas sensatas.

Convenhamos, todavia, que, no fato acima mencionado, não há nenhuma prova positiva de realidade, e que, a rigor, poder-se-ia admitir que a mesma aberração dos sentidos pudera se reproduzir; mas é a mesma coisa quando as aparições são acompanhadas de circunstâncias de alguma sorte materiais? Por exemplo, quando pessoas, não em sonho, mas perfeitamente despertas, vêem parentes ou amigos ausentes, com os quais não sonham de nenhum modo, aparecer-lhes no momento de sua morte, que vêm anunciar, pode-se dizer que esse seja um efeito da imaginação? Se o fato da morte não fosse real, haveria incontestavelmente ilusão; mas quando o acontecimento vem confirmar a previsão, e o caso é muito freqüente, como não admitir outra coisa que uma simples fantasmagoria? Se ainda o fato fosse único, ou mesmo raro, poder-se-ia crer num jogo do acaso; mas como o dissemos, os exemplos são inumeráveis e perfeitamente averiguados. Que os alucinacionistas queiram bem delas nos dar uma explicação categórica, e, então, veremos se suas razões são mais probantes que as nossas. Quereríamos, sobretudo, que nos provassem a impossibilidade material que a alma, se, todavia eles, que são sensatos por excelência, admitem que temos uma alma sobrevivendo ao corpo, que provassem, dizemos, que essa alma, que deve estar em alguma parte, não pode estar ao nosso redor, nos ver, nos ouvir, e, desde então, comunicar-se conosco.