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Um dos nossos
assinantes nos comunicou uma carta de um de seus amigos, da qual
extraímos a passagem seguinte:
Pedistes a minha
opinião, ou antes, a minha crença na presença ou não, junto a
nós, das almas daqueles que amamos. Pedistes, também, algumas
explicações quanto à minha convicção de que as nossas almas
mudam bastante rapidamente de envoltório.
Dir-vos-ei, por
ridículo que isso possa parecer, que a minha convicção sincera é
ter sido assassinado durante os massacres de São Bartolomeu. Eu
era bem criança quando essa recordação veio ferir a minha
imaginação. Mais tarde, quando li essa triste página da nossa
história, pareceu-me que muitos desses detalhes me eram
conhecidos, e creio ainda que se a velha Paris pudesse ser
reconstruída, eu reconheceria essa sombria alameda onde,
fugindo, senti o frio de três golpes de punhal pelas costas. Há
detalhes dessa cena sanguinolenta que estão na minha memória, e
que nunca desapareceram. Por que eu tinha essa convicção antes
de saber o que era a São Bartolomeu? Por que, lendo o relato do
massacre, eu disse a mim: foi o meu sonho, aquele desagradável
sonho que tive em criança, e cuja lembrança ficou-me tão vivaz?
Por que, quando quis consultar a minha lembrança, forçar o meu
pensamento fiquei como o pobre louco ao qual surgiu uma idéia, e
que parece lutar para encontrar de novo a sua razão? Por que?
Disso não sei nada. Achar-me-eis ridículo, sem dúvida, mas com
isso não guardarei menos a minha lembrança, a minha convicção.
Se vos dissesse
que tinha sete anos quando um sonho me veio, e ele era tal: Eu
tinha vinte anos, era jovem, bem posto, penso que era rico. Vim
bater em duelo, e fui morto. Se vos dissesse que essa salvação
que se faz nas armas antes de bater-se, eu a fiz a primeira vez
que tive um florete na mão. Se vos dissesse que cada preliminar,
mais ou menos graciosa, que a educação ou a civilização
colocaram na arte de se matar, era-me conhecida antes da minha
educação nas armas, dir-me-eis, sem dúvida, que sou louco ou
maníaco; talvez muito, mas parece-me às vezes que um clarão fura
esse nevoeiro, e tenho a convicção de que a lembrança do passado
se restabelece na minha alma.
Se me perguntardes
se creio na simpatia das almas, no seu poder de se colocar em
contato elas mesmas, apesar da distância, apesar da morte, eu
vos responderei: Sim, este sim será pronunciado com toda força
da minha convicção. Ocorreu-me encontrar-me a vinte e cinco
léguas de Lima, depois de oitenta dias de viagem, e despertar
todo em pranto com uma verdadeira dor do coração; uma tristeza
mortal se apoderou de mim, todo o dia. Consignei este fato em
meu diário. Em hora semelhante, na mesma noite, meu irmão foi
atingido por um ataque de apoplexia que comprometeu gravemente a
sua vida. Confrontei o dia, o instante, tudo estava exato. Eis
um fato; as pessoas existem, dir-me-eis que sou louco.
Eu não li nenhum
autor tratando de semelhante assunto; fa-lo-ei em meu retorno;
talvez essa leitura derramará um pouco de luz em mim.
O senhor V..., o
autor desta carta, é oficial da marinha e atualmente em viagem.
Poderia ser interessante ver se, evocando-o, confirmaria as suas
lembranças, mas haveria a impossibilidade de preveni-lo quanto à
nossa intenção, e por outro lado, em razão de seu estado,
poderia ser difícil encontrar um momento propício.Todavia, nos
foi dito para chamar o seu anjo guardião quando quiséssemos
evocá-lo, e que ele nos diria se poderíamos fazê-lo.
1. Evocação do
anjo guardião do senhor V... - R. Atendo ao vosso chamado.
2. Conheceis o
motivo que nos faz desejar evocar o vosso protegido; trata-se,
não de satisfazer uma vã curiosidade, mas de constatar, se isso
for possível, um fato interessante para a ciência espírita, o da
lembrança de sua precedente existência. -R. Compreendo o vosso
desejo, mas no momento seu Espírito não está livre, está ocupado
ativamente pelo seu corpo e numa inquietação moral que o impede
de estar em repouso.
3. Está ainda no
mar? R. - Está em terra; mas eu poderia responder a algumas de
vossas perguntas, uma vez que aquela alma sempre esteve confiada
à minha guarda.
4. Uma vez que
sois bastante bom para responder-nos, perguntaremos se a
lembrança que ele acreditou ter conservado de sua morte numa
precedente existência é uma ilusão? R. - É uma intuição muito
real; essa pessoa estava bem na Terra nessa época.
5. Por qual razão
essa lembrança é mais precisa para ele que para outras pessoas?
Há nisso uma causa fisiológica ou uma utilidade particular para
ele? R. - Essas lembranças vivazes são muito raras; ela se
prende um pouco ao gênero de morte que a impressionou, de tal
modo que está, por assim dizer, encarnado em sua alma.
Entretanto, muitas outras pessoas tiveram mortes também
terríveis, e a lembrança não lhes permaneceu; Deus não permite
isso senão raramente.
6. Desde essa
morte, quando da São Bartolomeu, ele teve outras existências? R.
- Não.
7. Que idade tinha
quando foi morto? R. - Uns trinta anos.
8. Pode-se saber o
que ele era? R. - Estava ligado à casa de Coligny.
9. Se pudéssemos
evocá-lo, a ele mesmo, teríamos perguntado se se lembra o nome
da rua onde foi assassinado, a fim de ver-se, colocando-se sobre
os lugares, quando viera a Paris, a lembrança da cena seria
ainda mais precisa? R. - Foi na encruzilhada Bucy.
10. A casa onde
foi morto ainda existe? R. - Não; ela foi reconstruída.
11. No mesmo
objetivo, teríamos perguntado se se lembra do nome que tinha? R.
- Seu nome não é conhecido na história, porque era simples
soldado. Chamava-se Gaston Vincent.
12. Seu amigo,
aqui presente, desejaria saber se ele recebeu a sua carta? R. -
Não, ainda.
13. Éreis seu anjo
guardião nessa época? R. - Sim, então e agora.
Nota. Os céticos,
piores brincalhões do que sérios, poderiam dizer que o seu anjo
guardião guardou-o mal, e perguntar por que não desviou a mão
que o atingiu. Embora uma semelhante pergunta mereça apenas uma
resposta, algumas palavras a este respeito talvez não sejam
inúteis.
Diremos primeiro
que, uma vez que está na natureza do homem morrer, não está no
poder de nenhum anjo guardião o opor-se ao curso das leis da
Natureza, de outro modo não haveria razão para que não
impedissem a morte natural tão bem quanto a morte acidental; em
segundo lugar, estando no destino de cada um o instante e o
gênero da morte, é necessário que esse destino se cumpra.
Diremos, enfim, que os Espíritos não encaram a morte como nós; a
verdadeira vida é a vida do Espírito, das quais as diversas
existências corpóreas não são senão episódios; o corpo é um
envoltório que o Espírito reveste momentaneamente, e que deixa
como o faz com uma roupa quando está usada ou dilacerada; pouco
importa, pois, que se morra um pouco mais cedo ou um pouco mais
tarde, de um modo ou de outro, uma vez que, em definitivo, é
necessário sempre ali chegar, e que essa morte, longe de causar
um prejuízo ao Espírito, pode ser-lhe mais útil, segundo a
maneira pela qual se cumpra; é o prisioneiro que deixa a sua
prisão temporária para gozar da liberdade eterna. Pode ser,
pois, que o fim trágico de Gaston Vincent tenha sido uma coisa
útil para ele como Espírito, o que seu anjo guardião compreende
melhor do que nós, porque um não vê senão o presente, ao passo
que o outro vê o futuro. Os Espíritos arrebatados deste mundo
por uma morte prematura, na flor da idade, freqüentemente nos
responderam que era um favor de Deus, que assim os preservara
dos males aos quais, sem isto, estariam expostos.
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