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Rogamos aos nossos
leitores consentirem em se reportarem ao nosso artigo, do mês
último, sobre os médiuns especiais; compreender-se-á melhor as
informações que vamos dar sobre a Senhorita Désirée Godu, cuja
faculdade oferece um caráter de especialidade dos mais notáveis.
Há oito anos mais ou menos, ela passou sucessivamente por todas
as fases da mediunidade; de início médium de efeitos físicos
muito poderoso, tornou-se alternativamente médium vidente,
audiente, falante, escrevente, e finalmente todas as faculdades
se concentraram para a cura dos enfermos, que esta parecia ser a
sua missão, missão que cumpre com devotamento e uma abnegação
sem limites. Deixemos falar a testemunha ocular, o Senhor
Pierre, preceptor em Lorient, que nos transmitiu estes detalhes
em resposta às perguntas que lhe dirigimos:
“A Senhorita
Désirée Godu, pessoa jovem de vinte e cinco anos, pertence a uma
família muito honrada, respeitável e respeitada de Lorient; seu
pai é um antigo militar, cavaleiro da Legião de Honra, e sua
mãe, mulher paciente e laboriosa, ajuda o melhor que pode sua
filha em sua penosa, mas sublime missão. Eis quase seis anos que
esta família patriarcal faz esmolas dos remédios prescritos e,
frequentemente, de tudo o que é necessário aos tratamentos, aos
ricos como aos pobres que a ela se dirigem. Suas relações com os
Espíritos começaram na época das mesas girantes; ela morava
então em Lorient, e durante vários meses não se falava senão das
maravilhas operadas pela Senhorita Godu sobre as mesas, sempre
complacentes e dóceis sob suas mãos. Era um favor o ser admitido
em sua casa nas sessões da mesa, e ali não ia quem quisesse;
simples e modesta, ela não procura se pôr em evidência;
entretanto, como bem o pensais, a malignidade não a poupou”.
“O próprio Cristo
foi achincalhado, embora não fizesse senão o bem e não ensinasse
senão o bem; deve-se admirar de se encontrar ainda fariseus,
então que há ainda homens que não crêem em nada? É a sorte de
todos aqueles que mostram uma superioridade qualquer, de ser
alvo dos ataques da mediocridade invejosa e ciumenta; nada lhe
custa para tombar aquele que eleva sua cabeça acima do vulgo,
nem mesmo o veneno da calúnia: o hipócrita desmascarado jamais
perdoa. Mas Deus é justo, e quanto mais o homem de bem for
maltratado, mais estrondosa será a sua reabilitação, e mais
humilhante será a vergonha de seus inimigos: a posteridade o
vingará”.
“A espera de sua
verdadeira missão que, diz-se, deve começar em dois anos, o
Espírito que a guia lhe propôs a de curar todas as espécies de
enfermidades, o que ela aceitou. Para se comunicar, ele se serve
agora de seus órgãos, e frequentemente, apesar dela, no lugar
das batidas insípidas das mesas. Quando é o Espírito que fala, o
som da voz não é mais o mesmo; os lábios não se movimentam”.
“A Senhorita Godu
não recebeu senão uma instrução vulgar, mas o principal de sua
educação não devia ser a obra de homens. Quando ela consentiu em
tornar-se médium curadora, o Espírito procedeu metodicamente à
sua instrução, sem que ela visse outra coisa senão mãos. Um
misterioso personagem colocava-lhe sob os olhos livros, gravuras
ou desenhos, e lhe explicava todo o organismo do corpo humano,
as propriedades das plantas, os efeitos da eletricidade, etc.
Ela não é sonâmbula; ninguém a adormece; é toda desperta, e bem
desperta, que penetra seus enfermos com o seu olhar; o Espírito
indica-lhe os remédios que, o mais frequentemente, ela mesma
prepara e aplica, cuidando e tratando as feridas mais
repugnantes com o devotamento de uma irmã de caridade. Começa-se
por dar-lhe a composição de certos ungüentos que curam em poucos
dias os panarícios e feridas de pouca gravidade, e isso com o
objetivo de habituá-la, pouco a pouco, sem muita repugnância,
com todas as horríveis e repelentes misérias que deverão se
exibir sob seus olhos, e colocar a fineza e a delicadeza de seus
sentidos às mais rudes provas. Que não se imagine nela encontrar
um ser sofredor, débil e medíocre; ela goza do mens sana in
corpore sano em toda a sua plenitude; longe de cuidar de seus
doentes por intermediário, é ela que mete a mão em tudo, e basta
a tudo, graças à sua robusta constituição. Ela sabe inspirar,
aos seus enfermos, uma confiança sem limites, e encontra em seu
coração consolações para todas as dores, sob sua mão remédios
para todos os males. Ela é um caráter naturalmente alegre e
jovial. Pois bem! Sua alegria é contagiosa como a fé que a
anima, e age instantaneamente sobre os doentes. Ali vi muitos
saírem com os olhos cheios de lágrimas de admiração, de
reconhecimento e de alegria. Todas as quintas-feiras, dia de
feira, e no domingo depois das seis horas da manhã, até cinco ou
seis horas da tarde, a casa não se esvazia. Para ela, trabalhar
é orar, e cumpre isso conscientemente. Antes de tratar dos
enfermos, passava dias inteiros confeccionando vestes para os
pobres e enxovais para os recém-nascidos, empregando os mais
engenhosos meios para tornar incógnitos seus presentes em sua
destinação, de sorte que a mão esquerda ignorava sempre o que
dava a mão direita. Ela possui um grande número de certificados
autênticos entregues por eclesiásticos, autoridades e pessoas
notáveis atestando cura que, em outros tempos, seriam olhadas
como miraculosas”.
Sabemos, por
pessoas dignas de fé, que nada há de exagerado na narração que
se acaba de ler, e estamos felizes em poder assinalar o digno
emprego que a Senhorita Godu faz da faculdade excepcional que
lhe foi dada. Esperamos que estes elogios. Que nos fazemos
prazer em reproduzi-los no interesse da Humanidade, não
alterarão nela sua modéstia, que dobra o preço do bem, e que ela
não escutará as sugestões do Espírito do orgulho. O orgulho é o
escolho de um grande número de médiuns, e vimos muitos deles
cujas faculdades transcendentes foram aniquiladas ou
pervertidas, desde que deram ouvido a esse demônio tentador. As
melhores intenções não garantem de suas armadilhas, e é
precisamente contra os bons que ele levanta suas baterias,
porque se satisfaz em fazê-los sucumbirem, e mostrar que é o
mais forte; ele se introduz no coração com tanto jeito que,
frequentemente, está em seu meio sem que disso se suspeite; o
orgulho também é o último defeito confessado a si mesmo,
semelhante a essas doenças mortais das quais se tem o gérmen
latente, e sobre a gravidade das quais o doente se ilude até o
último momento; por isso é tão difícil desarraigá-las. Desde que
o médium goza de uma faculdade tanto seja pouco notável, ele é
procurado, enaltecido, adulado; é para ele uma terrível pedra de
toque, porque acaba por se crer indispensável se não for
essencialmente simples e modesto. Infeliz dele sobretudo se se
persuade não ter relações senão com bons Espíritos; custa-lhe
reconhecer que foi iludido e, frequentemente mesmo, escreve ou
ouve sua própria condenação, sua própria censura, sem crer que
isso se dirija a ele; ora, é precisamente essa cegueira que dá
presa sobre ele; os Espíritos enganadores disso se aproveitam
para fasciná-lo, dominá-lo, subjugá-lo cada vez mais, ao ponto
de fazê-lo tomar por verdades as coisas mais falsas, e é assim
que se perde nele o dom precioso que não recebera de Deus senão
para se tornar útil aos seus semelhantes, porque os bons
Espíritos se retiram sempre, de quem escuta de preferência os
maus. Aquele que a Providência destina para ser posto em
evidência, sê-lo-á pela força das coisas, e os Espíritos saberão
tira-lo da obscuridade, se isso for útil, ao passo que não há,
frequentemente, senão decepção para aquele atormentado pela
necessidade de fazer falar de si. O que sabemos do caráter da
Senhorita Godu, nos dá a firme confiança de que ela está acima
dessas pequenas fraquezas, e assim jamais comprometerá, como
tantos outros, a nobre missão que recebeu.
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