O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 

Título :
A Noiva Traída

Autor:
Allan Kardec

Fonte:
Revista Espírita
Maio de 1860

HISTÓRICO

     

O fato seguinte foi reportado pela “Gazetta dei teatri” de Milão, de 04 de março de 1860.

Um jovem amava perdidamente uma jovem, que lho reconhecia, e que iria desposar quando, cedendo a um arrastamento culposo, abandonou sua noiva por uma mulher indigna de um verdadeiro amor. A infeliz abandonada pediu, chorou, mas tudo foi inútil; seu leviano amante permaneceu surdo aos seus prantos. Então, desesperada, ela penetrou em sua casa e, na sua presença, expirou em conseqüência de um veneno que acabara de tomar.

À vista do cadáver, daquela a quem causara a morte, uma terrível reação se operou nele, e quis, a seu turno, se arrancar à vida. Entretanto, ele sobreviveu, mas sua consciência sempre lhe censurava o crime. Desde o momento fatal, e cada dia à hora de seu jantar, ele via a porta da sala se abrir, e sua noiva aparecer-lhe sob a figura de um esqueleto ameaçador. Achou bom procurar distrair-se, mudar seus hábitos, viajar, freqüentar companhias alegres, suprimir relógios, nada disso fez; em qualquer lugar que fosse, na dita hora o espectro sempre se apresentava. Em pouco tempo emagreceu, sua saúde se alterou ao ponto que os homens da arte desesperaram por salvá-lo.

Um médico de seus amigos, tendo-o estudado seriamente, depois de tentar inutilmente diversos remédios, teve a idéia do meio seguinte. Na esperança de demonstrar-lhe que era o joguete de uma ilusão, conseguiu um verdadeiro esqueleto que fez dispor num quarto vizinho; depois, tendo convidado seu amigo para jantar, ao cabo de quatro horas, que era a hora da visão, fez chegar o esqueleto por meio de polias dispostas para isso. O médico acreditava triunfar, mas seu amigo tomado de um terror súbito exclamou: Ai de mim! Não era, pois, bastante um só; eis dois deles agora; depois caiu morto, como fulminado.

Nota: Lendo este relato, que não narramos senão sob a fé do jornal italiano do qual o tomamos, os alucinacionistas se alegrarão, porque poderão dizer, com razão, que havia ali uma causa evidente de superexcitação cerebral que pode produzir uma ilusão num Espírito impressionável. Nada prova, com efeito, a realidade da aparição que se poderia atribuir a um cérebro enfraquecido por um violento abalo. Para nós, reconhecemos tantos fatos análogos fora de dúvida, dizemos que ela é possível e, em todos os casos, o conhecimento aprofundado do Espiritismo teria dado ao médico um meio mais eficaz para curar seu amigo. Esse meio seria o de evocar a jovem em outras horas e conversar com ela, seja diretamente, seja com a ajuda de um médium; o que deveria fazer para dar-lhe prazer e obter o seu perdão; de orar ao anjo guardião para interceder junto dela para dobrá-la, e como, em definitivo, ela o amava, seguramente esqueceria seus erros se reconhecesse nele um arrependimento e lamentos sinceros, em lugar de um simples terror, que talvez fosse nele o sentimento dominante; teria cessado de se mostrar sob uma forma horrenda, para revestir a forma graciosa que tinha quando viva, ou teria cessado de aparecer. Ter-lhe-ia dito, sem dúvida, dessas boas palavras que pudessem restabelecer a calma em sua alma; a certeza de que nunca estariam separados, que ela velava ao seu lado, e que um dia se reuniriam, ter-lhe-ia dado coragem e resignação. É um resultado que, frequentemente, pudemos constatar. Os Espíritos que aparecem espontaneamente têm sempre um objetivo; o melhor, nesse caso, é perguntar-lhes o que desejam; se são sofredores, é necessário orar por eles, e fazer o que lhes possa ser agradável. Se a aparição tem um caráter permanente, e de obsessão, ela cessa, quase sempre, quando o Espírito está satisfeito. Se o Espírito que se manifesta com obstinação, seja à visão, seja por meios perturbadores, que se poderia tomar por uma ilusão, é mau, e se age por maldade, é comumente mais tenaz o que não impede de teres-lhe razão com a perseverança, e, sobretudo pela prece sincera feita em sua intenção; mas é preciso bem se persuadir de que não há para isso nem palavras sacramentais, nem formas cabalísticas, nem exorcismos que tenham a menor influência; quanto mais são maus, mais se riem do terror que inspiram, e da importância que se dá à sua presença; divertem-se em se ouvir chamar diabos e demônios, por isso se dão seriamente os nomes de Asmodée, Astaroth, Lúcifer e outras qualificações infernais aumentando as malícias, ao passo que se retiram quando vêem que perdem seu tempo com pessoas que não são seus patetas, e que se limitam a chamar, sobre eles, a misericórdia divina.