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(Sociedade, 09 de
dezembro de 1859 - 1ª. Sessão)
O Senhor de La
Roche, membro titular, comunicou o fato seguinte, que é de seu
conhecimento pessoal:
“Numa pequena casa
perto de Castelnaudary, havia ruídos estranhos e diversas
manifestações que faziam olhá-la como assombrada por algum mau
gênio. Por esse fato, ela foi exorcizada em 1848, e ali se
colocou um grande número de imagens de santidade. Desde então, o
Senhor D..., querendo nela habitar, fez-lhe reparos, e, por
outro lado, fez tirar todas as gravuras. Ele morreu subitamente,
há alguns anos. Seu filho, que a ocupava nesse momento ou antes,
que a ocupava ainda há pouco tempo, recebeu um dia, entrando num
apartamento, uma vigorosa bofetada dada por mão invisível; como
estava perfeitamente só, não pode duvidar de que não lhe veio de
uma fonte oculta. Agora não que mais ali morar, e vai deixá-la
definitivamente. Há, na região, uma tradição segundo a qual um
grande crime teria sido cometido nessa casa”.
São Luis,
interrogado sobre a possibilidade de evocar o aplicador de
bofetadas, respondeu que isto era possível.
O Espírito chamado
se manifestou por sinais de violência; o médium foi tomado por
uma agitação extrema, sete ou oito lápis foram quebrados, vários
foram lançados contra os assistentes, uma página foi rasgada e
coberta de traços insignificantes, traçados com cólera. Todos os
esforços foram improdutivos para acalmá-lo; instado a responder
às questões que se lhe dirigia, escreveu com a maior dificuldade
um não quase indecifrável.
1. (A São Luis) -
Teríeis a bondade de nos dar algumas informações sobre este
Espírito, uma vez que não pode ou não quer dá-las ele mesmo?
- É um Espírito da pior espécie, um verdadeiro monstro;
fizemo-lo vir, mas não pudemos constrangê-lo a escrever, apesar
de tudo o que lhe foi dito; ele tem seu livre-arbítrio. O
infeliz dele faz um triste uso.
2. Faz muito tempo
que está morto como homem?
- Tomai vossas informações. Foi ele quem cometeu o crime, cuja
lenda existe na região.
3. Que era quando
vivo?
- Sabê-lo-eis por vós mesmos.
4. Portanto, é ele
que assombra essa casa agora?
- Sem dúvida, uma vez que foi assim que eu vos fiz designá-lo.
5. Os exorcismos
que se praticaram, portanto, não puderam expulsá-lo dela?
- De nenhum modo.
6. Ele foi alguma
coisa na morte súbita do Senhor D...?
- Sim.
7. De que maneira
pode contribuir para essa morte?
- Pelo medo.
8. Foi ele quem
deu a bofetada ao Senhor D... filho?
- Sim.
9. Poderia dá-la
aqui em qualquer de nós?
- Mas, sem dúvida, e o desejo para isso, não lhe faltaria.
10. Por que não o
faz?
- Não lhe é permitido.
11. Haveria um
meio de fazê-lo mudar desta casa, e qual seria?
- Se se quiser desembaraçar-se de obsessões de semelhantes
Espíritos, isto é fácil orando por eles: é que se negligencia
sempre fazê-lo. Preferem-se amedrontá-los com fórmulas de
exorcismo, que os divertem muito.
12. Dando às
pessoas interessadas a idéia de orar por este Espírito, nós
mesmos orando por ele, far-se-ia desalojá-lo?
- Sim; mas notai que eu disse orar e não de fazer orar.
13. Este Espírito
é suscetível de melhorar-se?
- Por que não? Não o são todos, aqueles como os outros? É
necessário, contudo, esperar encontrar dificuldades; mas, por
perverso que seja, o bem dado para o mal acabará por tocá-lo.
Que se ore primeiro, e que se o evoque em um mês, podereis
julgar da mudança que se operará nele.
14. Este Espírito
é sofredor, infeliz; podeis nos descrever o gênero de
sofrimentos que ele suporta?
- Ele está persuadido de que deve permanecer na situação em que
se encontra durante a eternidade. Ele vê constantemente o
momento em que cometeu o seu crime; toda outra lembrança foi-lhe
retirada, e toda comunicação com outro Espírito interditada; ele
não pode, na Terra, ficar senão nesta casa, e se está no Espaço,
está nas trevas e na solidão.
15. De onde veio
antes de sua última encarnação; a que raça pertencia?
- Teve uma existência entre os povos mais ferozes e mais
selvagens e, precedentemente, veio de um planeta inferior à
Terra.
16. Se este
Espírito reencarnasse, em qual categoria de indivíduos se
encontraria?
- Isto dependerá dele e do arrependimento que sentir.
17. Poderia, na
próxima existência corpórea, ser o que se chama um homem
honesto?
- Isto ser-lhe-á difícil; o que quer que faça, não poderá evitar
uma vida ainda bem agitada.
Nota: A Senhora
X..., médium vidente que assistia à sessão, viu este Espírito no
momento em que se quis fazê-lo escrever; ele sacudia o braço do
médium; seu aspecto era apavorante; estava vestido com uma
camisa coberta de sangue e tinha um punhal.
O Senhor e a
Senhora F..., que não assistiam a esta sessão senão como
ouvintes, não sendo ainda sócios, desde a mesma noite, receberam
a recomendação feita a favor do infeliz Espírito, e oraram por
ele. Obtiveram dele várias comunicações assim como de suas
vítimas. Nós as narraremos em sua ordem, com aquelas que
ocorreram na Sociedade sobre o mesmo assunto. Além do interesse
que se prende a essa dramática história, dela ressalta um
ensinamento que não escapará a ninguém.
(Segunda sessão -
casa do Senhor F...)
18. (Ao Espírito
familiar) - Pode nos dizer alguma coisa do Espírito de
Castelnaudary?
- Evoque-o.
19. Será mau?
- Tu o verás.
20. O que é
preciso fazer?
- Não lhe fale, se nada tens a dizer-lhe.
21. Se lhe
falarmos, para compartilharmos as suas penas, isto lhe fará bem?
- A compaixão sempre faz bem ao infeliz.
22. Evocação do
Espírito de Castelnaudary.
- Que querem de mim?
23. Nós te
chamamos com o objetivo de te ser útil.
- Oh! vossa piedade me faz bem, porque eu sofro... Oh! Como eu
sofro!... Que Deus tenha piedade de mim. Perdão... Perdão!
24. Nossas preces
te serão salutares?
- Sim; orai, orai.
25. Pois bem! Nós
oraremos por ti.
- Obrigado! Tu, pelo menos, não maldizes.
26. Por que não
quisestes escrever na Sociedade, quando foste chamado?
- Oh! Maldição!
27. Maldição sobre
quem?
- Sobre mim, que expio bem cruelmente crimes onde minha vontade
não teve senão uma fraca parte.
Nota: Dizendo que
a sua vontade não é senão uma fraca parte em seus crimes, ele
quer atenuá-los, como se soube mais tarde.
28. Se te
arrependes serás perdoado?
- Oh! Nunca.
29. Não te
desesperes.
- Eternidade de sofrimentos, tal é o meu quinhão.
30. Qual é o teu
sofrimento?
- O que há de mais horrível; tu não o podes compreender.
31. Orou-se por ti
desde ontem à noite?
- Sim; mas eu sofro ainda mais.
32. Como ocorre
isto?
- Eu o sei!
Nota: Essa
circunstância foi explicada mais tarde.
33. Deve-se fazer
alguma coisa com relação à casa onde estais instalado?
- Não! Não! Não me fales mais dela... Perdão, meu Deus! Eu tenho
sofrido bastante.
34. Tens que ali
permanecer?
- A isso estou condenado.
35. É para que
tenhas, constantemente, teus crimes sob os olhos?
- É isto.
36. Não
desesperes; tudo pode ser perdoado no arrependimento.
- Não há perdão para Caim.
37. Portanto
mataste teu irmão?
- Nós somos todos irmãos.
38. Por que
quisestes fazer mal à Senhora D...?
- Bastante de graça, bastante.
39. Pois
bem!Adeus; tem confiança na misericórdia divina!
- Orai.
(Terceira sessão)
40. Evocação.
- Estou junto de vós.
41. Começas a ter
esperança?
- Sim, meu arrependimento é grande.
42. Qual era teu
nome?
- Sabê-lo-eis mais tarde.
43. Há quantos
anos sofres?
- 200 anos.
44. Em que época
cometeste o crime?
- Em 1608.
45. Podes repetir
estas datas para no-las confirmar?
- Inútil; é bastante uma vez. Adeus, eu vos falarei amanhã, uma
vontade me chama.
(Quarta sessão)
46. Evocação.
- Obrigado, Hugo (Nome de batismo do Senhor F...).
47. Queres nos
falar do que se passou em Castelnaudary?
- Não; fazeis-me sofrer quando me falais disto; isso não é
generoso de vossa parte.
48. Sabes bem que
se disto te falamos, é com o objetivo de poder esclarecer a tua
posição, e não para agravá-la; assim, fala sem medo. Como te
deixaste ir cometer este crime?
- Um momento de descaminho.
49. Houve
premeditação?
- Não.
50. Isto não pode
ser a verdade. Teus sofrimentos provam que tu és mais culpado do
que o dizes. Saibas que não é senão pelo arrependimento que
podes abrandar tua sorte, e não pela mentira. Vamos! Sê franco.
- Pois bem! Uma vez que eu o fiz, sim.
51. Foi um homem
ou uma mulher que mataste?
- Um homem.
52. Como causaste
a morte do Senhor D...?
- Eu lhe apareci visivelmente, e sou tão pavoroso de se ver, que
minha única visão o matou.
53. Fizeste-o de
propósito?
- Sim.
54. Por que isto?
- Ele quis me desafiar, e lhe faria outro tanto se viesse me
tentar.
55. Se eu fosse
morar nesta casa, far-me-ias mal?
- Oh! Não, certamente; tu tens piedade de mim, tu, e tu me
quereis bem.
56. O Senhor D...,
morreu instantaneamente?
- Não; o medo se apoderou dele, mas ele não morreu senão duas
horas depois.
57. Por que te
limitaste a dar um sopro no Senhor D..., filho?
- Seria muito ter matado dois homens.
(Quarta sessão)
58. (Perguntas
dirigidas a São Luis) - O Espírito que se comunicou com o Senhor
e a Senhora F..., era o de Castelnaudary?
- Sim.
59. Como ocorre
que haja podido se comunicar com eles tão prontamente?
- Na Sociedade ela ainda ignorava; não estava arrependido; o
arrependimento é tudo.
60. As informações
que deu sobre seu crime são exatas?
- Cabe-vos procurar, disto vos assegurar e vos explicardes em
seguida com ele.
61. Ele disse que
o crime foi cometido em 1608, e que morreu em 1659; há, pois,
200 anos que ele está neste estado?
- Isto vos será explicado mais tarde.
62. Quereis nos
descrever o gênero de seu suplício?
- É atroz para ele; ele foi, como o sabeis, condenado a morar na
casa onde o crime foi cometido, sem poder dirigir seu pensamento
sobre outra coisa que sobre esse crime, sempre diante de seus
olhos, e se crê condenado a essa tortura pela eternidade.
63. Ele está
mergulhado na obscuridade?
- Obscuridade quando ele quer se afastar desse lugar de exílio.
64. Qual é o
gênero de sofrimento mais terrível que um Espírito possa, neste
caso, sofrer?
- Não há descrição possível das torturas morais que são a
punição de certos crimes; aquele mesmo que as prova teria
dificuldade em dar-vos uma idéia delas; mas a mais horrível é a
certeza de crer-se estar a ela condenado sem retorno...
65. Eis aqui dois
séculos que está nesta situação; ele aprecia o tempo como o
fazia quando vivo; quer dizer o tempo parece-lhe tão longo ou
menos longo que quando vivo?
- Parece-lhe antes mais longo; o sono não existe para ele.
66. Foi-nos dito
que, para os Espíritos, o tempo não existia, e que, para eles,
um século é um ponto na eternidade; não ocorre, pois, o mesmo
para todos?
- Não, certamente; não ocorre assim senão para os Espíritos
chegados a um grau muito elevado de adiantamento; mas para os
Espíritos inferiores o tempo é algumas vezes bem longo,
sobretudo quando sofrem.
67. Esse Espírito
é punido bem severamente para o crime que cometeu; ora, vós nos
dissestes que, antes desta última existência, ele estivera entre
as populações mais bárbaras. Ali deveu cometer atos pelo menos
atrozes quanto o último; por isso foi punido da mesma forma?
- Ele foi menos punido, porque, mais ignorante ainda,
compreendia-lhe menos a importância.
Nota: Todas as
observações confirmam este fato, eminentemente conforme a
justiça de Deus, que as penas são proporcionais, não à natureza
da falta, mas ao grau de inteligência do culpado e à
possibilidade, para ele, de compreender o mal que fez. Assim uma
falta, menos grave em aparência, poderá ser punida mais
severamente num homem civilizado, que um ato de barbárie num
selvagem.
68. O estado em
que se encontra esse Espírito é dos seres vulgarmente chamados
condenados.
- Absolutamente; e os há bem mais terríveis ainda. Os
sofrimentos estão longe de serem os mesmos para todos, mesmo
para crimes semelhantes, porque eles variam segundo o culpado
seja mais ou menos accessível ao arrependimento. Para este, a
casa onde ele cometeu o seu crime é seu inferno; outros o
carregam neles, pelas paixões que os atormentam e que não podem
saciar.
Nota: Com efeito, vimos avaros sofrerem com a visão do ouro,
que, para eles, se tornara uma verdadeira quimera; orgulhosos,
atormentados pelo ciúme das honras que viam render, e que não se
dirigiam a eles; homens que haviam comandado a Terra, humilhados
pelo poder invisível que os constrangia a obedecerem, e pela
visão de seus subordinados que não curvavam mais diante deles;
ateus sofrerem as angustias da incerteza, e se encontrarem em um
isolamento absoluto no meio da imensidade, sem encontrar nenhum
ser que pudesse esclarecê-los. No mundo dos Espíritos, se há
alegrias para todas as virtudes, há penas para todas as faltas,
e aquelas que a lei dos homens não atinge são sempre alcançadas
pela lei de Deus.
69. Esse Espírito,
apesar de sua inferioridade, sente os bons efeitos da prece;
vimos a mesma coisa com outros Espíritos igualmente perversos e
da mais bruta natureza; como ocorre que Espíritos mais
esclarecidos, de uma inteligência mais desenvolvida, mostrem uma
ausência completa de bons sentimentos que se riam de tudo o que
há de mais sagrado; em uma palavra, que nada os toca, e que não
há nenhuma trégua em seu cinismo?
- A prece não tem efeito senão em favor do Espírito que se
arrepende; aquele que, levado pelo orgulho, se revolta contra
Deus e persiste em seus descaminhos, exagerando-os ainda como o
fazem infelizes Espíritos, sobre aqueles a prece nada pode, a
nada poderá senão no dia em que uma luz de arrependimento se
manifeste neles. A ineficácia da prece para eles é ainda um
castigo; ela não alivia senão aqueles que não estão inteiramente
endurecidos.
70. Quando se vê
um Espírito inacessível aos bons efeitos da prece, é uma razão
para se abster de orar por ele?
- Não, sem dúvida, porque cedo ou tarde ela poderá triunfar de
seu endurecimento e fazer germinar nele pensamentos salutares.
(Sexta sessão,
casa do Senhor F...)
71. Evocação.
- Eis-me.
72. Podes, pois,
deixar agora quando queres a casa de Castelnaudary?
- É-me permitido, porque aproveito os vossos bons conselhos.
73. Experimentais
algum alívio?
- Começo a ter esperança.
74. Se pudéssemos
ver-te, sob qual aparência ver-te-íamos?
- Ver-me-íeis de camisa, sem punhal.
75. Por que não
terias mais teu punhal; que fizeste dele?
- Eu o maldigo; Deus poupou-me de sua visão.
76. Se o senhor
D..., filho retornasse à casa, tu lhe farias ainda mal?
- Não, porque estou arrependido.
77. E se quisesse
ainda te desafiar?
- Oh! Não me pergunteis isso; não poderia dominar-me, isso
estaria acima de minhas forças... Porque não sou senão um
miserável.
78. As preces do
senhor D..., filho ser-te-iam mais salutares que as de outras
pessoas?
- Sim, porque foi a ele que fiz maior mal.
79. Pois bem!
Continuaremos a fazer o que pudermos por ti.
- Obrigado; pelo menos encontrei em vós amigos caridosos. Adeus.
(Sétima sessão)
80. (Evocação do
homem assassinado)
- Estou aqui.
81. Que nome
tínheis quando vivíeis?
- Eu me chamava Pierre Dupont.
82. Qual era a
vossa profissão?
- Eu era salsicheiro em Castelnaudary, onde fui assassinado por
meu irmão, no dia 06 de maio de 1608, por Charles Dupont, meu
irmão mais velho, com um punhal, no meio da noite.
83. Qual foi a
causa desse crime?
- Meu irmão acreditou que eu queria fazer a corte a uma mulher
que ele amava, e que eu via muito frequentemente; mas ele se
enganou, porque jamais sonhei com isso.
84. Como vos
matou?
- Eu dormia; ele me atingiu na garganta e depois no coração;
atingindo-me, ele despertou-me; quis lutar, mas sucumbi.
85. Vós o
perdoastes?
- Sim, no momento de sua morte, há 200 anos.
86. Com que idade
ele morreu?
- Com 80 anos.
87. Portanto, não
foi punido quando vivo?
- Não.
88. Quem foi
acusado de vossa morte?
- Ninguém; nesses tempos de confusão, dava-se pouca atenção a
essas coisas; isso não teria nenhum objetivo.
89. Em que se
tornou a mulher?
- Pouco depois, ela morreu assassinada na minha casa por meu
irmão.
90. Por que a
assassinou?
- Amor enganado; ele a havia desposado antes da minha morte.
(Oitava sessão)
91. Por que ele
não fala da morte dessa mulher?
- Porque a minha foi a pior para ele.
92. (Evocação da
mulher assassinada).
- Estou aqui.
93. Que nome
tínheis quando vivíeis?
- Marguerite Aeder, mulher de Dupont.
94. Quanto tempo
estivestes casada?
- Cinco anos.
95. Pierre nos
disse que seu irmão acreditava em relações criminosas entre
vocês dois, isso é verdade?
- Nenhuma relação criminosa existia entre Pierre e mim; não
crede nisso.
96. Quanto tempo
depois da morte de seu irmão Charles ele vos assassinou?
- Dois anos depois.
97. Que motivo o
impeliu?
- Ciúme, e o desejo de ter o meu dinheiro.
98. Podeis relatar
as circunstâncias do crime?
- Ele me agarrou e me atingiu na cabeça, na sala de trabalho,
com a sua faca de salsicheiro.
99. Como ocorreu
que não foi perseguido?
- Para quê? Tudo era desordem nesses tempos de infelicidade.
100. O ciúme de
Charles tinha fundamento?
- Sim, mas isso não podia autorizá-lo a semelhante crime, porque
neste mundo nós somos todos pecadores.
101. Quantos anos
estivestes casada depois da morte de Pierre?
- Depois de três anos.
102. Podeis
precisar a data da vossa morte?
- Sim, no dia 03 de maio de 1610.
103. Que se pensou
da morte de Pierre?
- Fez-se crer em assassinos que queriam roubar.
Nota: Qualquer que
seja a autenticidade desses relatos, que parecem difíceis de
controlar, há um fato notável, que é a precisão e a concordância
das datas e de todos os acontecimentos; só esta circunstância é
um curioso objeto de estudo, considerando-se que esses três
Espíritos chamados em diversos intervalos não se contradizem em
nada. O que pareceria confirmar suas palavras, é que o principal
culpado nesse negócio, tendo sido evocado por um outro médium,
deu respostas idênticas.
(Nona sessão)
104. Evocação do
senhor D...
- Eis-me.
105. Desejamos vos
perguntar alguns detalhes sobre as circunstâncias de vossa
morte; consentis em no-las dar?
- De bom grado.
106. Sabíeis que a
casa que habitáveis era assombrada por um Espírito?
- Sim; mas eu quis desafiá-lo e errei ao fazê-lo; teria feito
melhor orando por ele.
Nota: Vê-se, por
aí, que os meios que se empregam geralmente para se desembaraçar
de Espíritos importunos não são os mais eficazes. As ameaças os
excitam mais do que os amedrontam. A benevolência e a
comiseração têm mais império que o emprego de meios coercitivos
que os irritam, ou de fórmulas das quais se riem.
107. Como esse
Espírito vos apareceu?
- À minha entrada na minha casa, ele estava visível e me olhava
fixamente; não pude escapar; o medo se apoderou de mim, e eu
devi expirar sob os olhos terríveis desse Espírito, que eu havia
desprezado e para com o qual me mostrara tão pouco caridoso.
108. Não podíeis
chamar para vos socorrer?
- Impossível; minha hora chegara, e era assim que eu deveria
morrer.
109. Qual
aparência tinha?
- De um furioso disposto a me devorar.
110. Sofrestes ao
morrer?
- Horrivelmente.
111. Morrestes
subitamente?
- Não, duas horas depois.
112. Que reflexões
tínheis em vos sentindo morrer?
- Eu não pude refletir, estava atingido por um terror
inexprimível.
113. A aparição
permaneceu visível até o fim?
- Sim, ela não deixou um instante meu pobre Espírito.
114. Quando vosso
Espírito se achou livre, vistes a causa da vossa morte?
- Não, tudo tinha acabado; eu a compreendi mais tarde.
115. Podeis
indicar a data da vossa morte?
- Sim, no dia 09 de agosto de 1853 (A data precisa não pode
ainda ser verificada; mas ela é exata aproximadamente).
(Décima sessão -
Sociedade, 13 de janeiro de 1860).
Quando esse
Espírito foi evocado em 09 de dezembro, São Luis convidou a
chamá-lo de novo em um mês, a fim de julgar sobre o progresso
que fizera nesse intervalo. Já se pode julgar, pelas
comunicações do Senhor e da senhora F..., da mudança que se
operou em suas idéias, graças à influência das preces e dos bons
conselhos. Tendo decorrido mais de um mês, desde sua primeira
evocação, foi chamado de novo na Sociedade em 13 de janeiro.
116. Evocação.
- Estou aqui.
117. Lembrai-vos
de ter sido chamado entre nós há mais ou menos um mês?
- Como o esqueceria?
118. Por que não
pudestes escrever então?
- Eu não o queria.
119. Por que não o
queríeis?
- Ignorância e brutalidade.
120. Vossas idéias
mudaram desde aquele momento?
- Muito; vários dentre vós se compadeceram e oraram por mim.
121. Confirmais
todas as informações que foram dadas tanto por vós como por
vossas vítimas?
- Eu não as confirmo; isto seria dizer que não fui eu que as
dei, e fui bem eu.
122. Entrevedes o
fim de vossas penas?
- Oh! Não ainda; já é muito mais do que mereço saber, graças à
vossa intercessão, que elas não durarão para sempre.
123. Quereis nos
descrever a situação em que estáveis antes da nossa primeira
evocação? Compreendeis que vos perguntamos isso para nossa
instrução, e não por um motivo de curiosidade.
- Eu vos disse, não tinha consciência de nada no mundo do meu
crime, e não podia deixar a casa onde o cometera, senão para me
elevar no espaço onde tudo, ao redor de mim, era solidão e
obscuridade; não saberia vos dar uma idéia do que é, nunca nada
compreendi; desde que me elevava acima do ar, era noite, era
vazio; eu não sei o que era. Hoje sinto muito mais remorsos;
mas, como provam minhas comunicações, não estou mais
constrangido a permanecer nessa casa fatal; é-me permitido errar
na Terra, e procurar esclarecer-me pelas minhas observações;
mas, então, não compreendo senão melhor a enormidade de meus
crimes; e se sofro menos de um lado, minhas torturas aumentam de
outro pelo remorso; mas, pelo menos, tenho a esperança.
124. Se devíeis
retornar uma existência corpórea, a qual escolheríes?
- Não vi ainda bastante, e refleti bastante para sabê-lo.
125. Reencontrais
vossas vítimas?
- Oh! Que Deus me guarde disso!
Nota: Sempre foi
dito que as visões das vítimas é um dos castigos dos culpados.
Aquele ainda não as vira, porque estava no isolamento e nas
trevas: era o castigo; mas ele teme essa visão, isto será talvez
o complemento de seu suplício.
126. Durante vosso
longo isolamento, e se pode dizer o vosso cativeiro, tivestes
remorsos?
- Nem o menor, e foi por isso que tanto sofri; foi somente
quando comecei a prová-los, quando foram provocadas com o meu
desconhecimento, as circunstâncias que conduziram a minha
evocação, à qual devo o começo de minha libertação. Obrigado,
pois , a vós que tivestes piedade de mim e me esclarecestes.
Nota Final: Esta
evocação não foi o fato do acaso; como deveria ela ser útil a
esse infeliz, os Espíritos que velam por ele, vendo que começava
a compreender a enormidade de seus crimes, julgaram que o
momento chegara para lhe dar um socorro eficaz, e foi então que
prepararam as circunstâncias propícias. É um fato que vimos se
produzir muitas vezes.
Pergunta-se a esse
respeito, o que lhe teria advindo se não houvesse sido evocado,
e o que ocorre com todos os Espíritos sofredores que não o podem
ser, ou nos quais não se pensa. A isso é respondido que os
caminhos de Deus, para a salvação de suas criaturas, são
inumeráveis; a evocação pode ser um meio de assisti-los, mas
certamente não é o único; e Deus não deixa ninguém no
esquecimento. Aliás, as preces coletivas devem também ter, sobre
os Espíritos acessíveis ao arrependimento, sua parte de
influência.
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