|
A propósito dos
espectros dos teatros, o correspondente conclui assim, depois
deles fazer o histórico:
“Por sorte, no
próximo inverno, cada um poderá regalar aos seus amigos do
espetáculo, tornado popular, de alguns fantasmas e outras
curiosidades sobrenaturais. De sobremesa, se apagarão as velas e
ver-se-ão aparecer, envolvidos em seus lençóis, os espectros
modernos que substituirão assim as tiradas que outrora cantavam
nossos avós. Nos bailes, em lugar dos refrescos, far-se-ão
desfilar os fantasmas. Que encantador divertimento! Nada que
disso pensar se tem dele o arrepio”.
O autor passando
ao Espiritismo:
“Uma vez que
falamos de coisas sobrenaturais, não passaremos em silêncio. O
Livro dos Espíritos. Que titulo atraente! Quantos mistérios não
se escondem! E se nos reportarmos ao ponto de partida, que
caminho que essas idéias fizeram há alguns anos! No inicio,
esses fenômenos, ainda não explicados, consistiam em uma simples
mesa posta em movimento pela imposição das mãos; hoje, as mesas
não se contentam mais em girar, em saltar, em se endireitar
sobre um pé, em fazer mil cabriolas, elas vão mais longe: falam!
Que digo eu; elas falam, é que têm um alfabeto próprio e mesmo
vários. Basta dirigir-lhe uma pergunta, e a resposta é logo dada
por pequenos golpes seguidos, batidos com o pé, ou bem por meio
de um lápis que, preso à mão, põe-se a traçar sinais sobre o
papel, palavras, frases inteiras ditadas por uma vontade
estranha e desconhecida; a mão se torna então um simples
instrumento, um porta-lápis, e o espírito da pessoa fica
completamente estranho a tudo o que se passa”.
“O Espiritismo, é
assim que se chama a ciência desses fenômenos, fez, em poucos
anos, grandes progressos nos fatos, na prática; mas a teoria, na
minha opinião, não fez o mesmo caminho, está estacionária, e
direi porque. - É incontestável, a menos que as pessoas que se
ocupam dessa matéria não tenham interesse em se enganar e em nos
enganar, é incontestável que os fatos existem. Eles não se
revelam unicamente por meio das mesas, se nos apresentam todos
os dias e a toda hora. Excitam e espantam a todos, mas todos
permanecem aí. - Duas pessoas concebem a mesma idéia ou se
reencontram simultaneamente sobre a mesma palavra; alguém que
não vemos, frequentemente e no qual acabamos de pensar se nos
apresenta inopinadamente; bate-se à nossa porta, e, se bem que
nada vem de fora nos indicar a pessoa, adivinhamos que ela está;
uma carta com dinheiro nos chega num momento de urgência; e
tantos outros casos tão freqüentes, tão numerosos e conhecidos
de todo o mundo; tudo isso pode ser atribuído ao acaso? Não,
isso não pode ser o acaso em nenhum caso; e por que não seria
isso uma comunicação fluídica inapreciável por nosso organismo
material, um sexto sentido, enfim, de uma natureza mais elevada?
Ninguém sabe onde reside a alma; ela não é nem visível, nem
ponderável, nem tangível, e, no entanto, cheios de convicção que
somos, afirmamos a sua existência. - Qual é a natureza do agente
elétrico? O que é o imã? ... E no entanto os efeitos da
eletricidade e do magnetismo são continuamente patentes aos
nossos olhos. - Estou persuadido de que um dia deverá ocorrer o
mesmo com o Espiritismo, ou qualquer que seja o nome que em
último lugar praza à ciência lhe dar”.
“Há algum tempo vi
numerosos fatos de catalepsia, de magnetismo, de Espiritismo, e
não posso conservar a menor dúvida a seu respeito; mas o que me
parece mais difícil é poder explicá-los e atribuí-los a tal ou
tal causa. É preciso, pois, proceder com prudência e reservar
sua opinião, abstendo-se de cair nos dois extremos: ou de negar
todos os fatos ou de submetê-los todos a uma teoria prematura”.
“A existência dos
fenômenos é incontestável; sua teoria está ainda para
descobrir-se: eis hoje o estado da questão. Não se pode negar
que haja alguma coisa de singular e digna de ser examinada nessa
idéia que agitou o mundo inteiro, que reaparece com mais
intensidade do que nunca, nessa idéia que tem seus órgãos
periódicos, seus anais de observações, que emocionou os
espíritos na Áustria, na Itália, na América, que fez nascer
reuniões na França, país onde se formam raramente, e onde o
governo as tolera dificilmente”.
“Essa invasão
geral, além de ter produzido uma viva impressão, tem uma muito
alta importância. É preciso, pois, sem precipitação nem idéias
preconcebidas, verificar de boa fé esses fenômenos, até que
venham a ser explicados, o que ocorrerá um dia, se aprouver a
Deus nos revelar a natureza desse agente misterioso”.
-*-
O autor, como se
vê, não é muito avançado; mas ao menos não julga aquilo que não
sabe; reconhece a existência dos fatos e a sua causa primeira,
mas não conhece seu modo de produção. Ele ignora os progressos
da parte teórica da ciência, e dá a esse respeito um conselho
muito sábio: poderão fazer teorias arriscadas, assim como se
estava muito apressado de fazê-lo no inicio da aparição dos
fenômenos, onde cada um se apressou em explicá-los à sua
maneira; assim, a maioria desses sistemas prematuros caíram
diante das experiências ulteriores, que vieram contradizê-los.
Hoje se possui disso uma teoria racional da qual nenhum ponto
foi admitido a título de hipótese; tudo é deduzido da
experiência e da observação atenta dos fatos; pode-se dizer que,
sob esse aspecto, o Espiritismo foi estudado à maneira das
ciências exatas.
Esta ciência, nascida ontem, não disse tudo, tanto lhe é
preciso, e nos resta ainda muito a aprender, mas disse o
bastante para ser fixada sobre as bases fundamentais e saber que
esses fenômenos não saem da ordem dos fatos naturais; não foram
qualificados de sobrenaturais e maravilhosos senão por falta de
conhecer a lei que os rege, assim como ocorreu com a maioria dos
fenômenos da Natureza. O Espiritismo, fazendo conhecer essa lei,
restringe o círculo do maravilhoso em lugar de estendê-lo;
dizemos mais, é que ele lhe dá o ultimo golpe. Aqueles que dele
falam de outro modo provam que não o estudaram.
Constatamos com
prazer que a idéia espírita fez progressos sensíveis no Rio de
Janeiro, onde conta com numerosos representantes fervorosos e
devotados. A pequena brochura: “O Espiritismo em sua mais
simples expressão”, publicada em língua portuguesa, não
contribuiu pouco para ali difundir os princípios da Doutrina.
Allan Kardec.
|