|
1ª. Parte
Com alguma
experiência e certa dose de paciência tudo se encontra nos
sebos, para onde refluem os livros velhos que, num passado
distante ou mais recente, foram novos e até causaram impactos
consideráveis. Às vezes, somos premiados com uma raridade
esquecida e preciosa, como, por exemplo, o exemplar de “Les
Phénomènes de Hantise”, de Ernesto Bozzano, em tradução de
Charles de Vesme (Librarie Félix Alcan, Paris, 1920), que enseja
esta apreciação.
Em português,
hanter corresponde a assombrar sendo que não conheço a emigração
da mesma raiz para o nosso rico idioma. Em inglês diz-se to
haunt, conservando o mesmo sentido básico de Freqüentar certo
lugar ou pessoa insistentemente. Há, até, em francês, o ditado:
“Dis-moi qui tu hantes, je ti dirai qui tu es”. (“Diga-me com
quem andas (ou quem freqüentas) que te direi quem és”). Por
isso, tanto em francês como em inglês, o verbo é empregado para
descrever as freqüentes visitas de fantasmas a determinados
locais. Les Phénomènes de Hantise seriam, pois, fenômenos de
assombramento, com as conotações da língua.
Seja como for, o
livro de Bozzano cuida da interessante fenomenologia que, em
linguagem popular, denomina-se assombração, no Brasil.
*
O notável
pesquisador italiano estudou 532 casos, dos quais classifica 374
como assombração propriamente dita e 158 como “poltergeist”. E
aqui damos com outra palavra assombrada, desta vez sacada à
língua alemã e que se compõe de duas expressões: poltern, fazer
barulho e geiss, espírito. Daí se depreende que “poltergeist”
são fenômenos de efeito físico, geralmente acompanhados de
ruídos e deslocação de objetos.
E já que estamos
nas definições, vejamos a de Bozzano: os fenômenos de
assombração compreendem esse conjunto de manifestações
misteriosas e inexplicáveis cujo traço característico essencial
é o de ligarem-se de maneira especial a um local determinado.
Segundo sua
meticulosa metodologia, o autor classifica os fenômenos em
auditivos, visuais, táteis, olfativos e físicos. Os auditivos e
visuais são subdivididos em duas categorias: coletivos e
eletivos. São coletivos aqueles percebidos por todos os
presentes nos locais em que ocorrem, e eletivos os que são
percebidos apenas por algumas pessoas, com exclusão de outras.
Isso parece indicar que alguns sejam objetivos e outros
subjetivos, mas o competente cientista italiano não se cansa de
advertir que essas classificações são mais para efeito didático,
pois a fenomenologia não se enquadra rigidamente nos esquemas
que imaginamos para ela. Acrescenta, por isso, com a honestidade
que caracteriza o homem na busca da verdade, que a classificação
dever “ser considerada provisória e convencional”.
Acha ele, ainda,
que os fenômenos subjetivos parecem ser, preferentemente, de
natureza telepática, enquanto os objetivos ou físicos são de
natureza mediúnica.
Que hipóteses
poderiam ser formuladas para explicar tais fenômenos?
Bozzano oferece
quatro. A primeira delas é de autoria de Adolphe d´Assier,
apoiada na concepção positivista do universo. Admitindo, ante
provas incontestáveis, a existência do fenômeno, realiza ele um
grande esforço no sentido de testificar que tais fenômenos não
implicam sobrevivência da alma. Segundo essa doutrina esdrúxula,
a natureza do fantasma seria efêmera, e, em pouco tempo, ele
estaria desagregado sob a ação de forças físicas, químicas e
atmosféricas que obrigariam a decompor-se, molécula por
molécula, e a ser absorvido no meio ambiente.
Embora a hipótese
seja acolhida com deferência, Bozzano liquida-a sumariamente, ao
lembrar não ser nada cientifico imaginar “que a alma sobreviva
somente para morrer de novo”. Além do mais, acrescenta ele, são
conhecidos casos em que os Espíritos persistem em manifestar-se
durante vários séculos. Só isso bastaria para infirmar a
hipótese materialista de d´Assier.
Restam-nos três
eleições.
A primeira
identifica os fenômenos de assombração com os de telepatia entre
vivos. É a hipótese de Frank Podmore. Nesse caso, as
manifestações seriam resultantes de ação telepática de pessoas
encarnadas residentes ou não na casa assombrada, e que,
conhecedoras dos fatos ali ocorridos, transmitiriam as imagens à
testemunhas. Bozzano não a recusa sumariamente, porque poderia
servir para explicar alguns fatos, embora jamais pudesse
revestir-se da amplitude que Podmore imaginou para explicação de
todos os fatos, como veremos.
A segunda teria
seu apoio numa “lei da física transcendental conhecida sob o
nome de persistência das imagens”. Estaríamos aqui no domínio
dos “clichês astrais” dos ocultistas e das gravações “akásicas”
dos teósofos ou da “telestesia retrocognitiva” de Myers. Os
fantasmas não seriam, pois, nada mais do que “uma espécie de
emanação sutil dos organismos vivos perpetuados num ambiente
habitualmente inacessível aos nossos sentidos”. Também essa
hipótese não é de todo refugada por Bozzano, que a considera
digna de exame, em vista de sua identificação com a psicometria.
- Não obstante –
escreve o autor -, ela também está bem longe de ser aplicável à
maior parte dos fenômenos de assombração.
Vemos, assim, que
das possibilidades examinadas, uma é totalmente inaceitável – a
de d´Assier -, e as outras poderiam ser admitidas para explicar
alguns fenômenos, mas não todos.
- A terceira
escolha – escreve Bozzano – é a espírita, sem dúvida a mais
importante, a única em condições de explicar todos os casos,
cuja(s) causa(s) as anteriores são insuficientes para perceber;
ela é capaz de vencer todas as dificuldades, desde que, todavia,
se renuncie à versão popular da referida hipótese, segundo a
qual, nos casos de assombração, se trata sempre da intervenção
direta e da presença real de “Espíritos assombradores”...
Procuramos
entender bem a ressalva levantada pelo autor. Indubitavelmente,
a explicação oferecida pelo Espiritismo – ele prefere chamá-la
de hipótese espírita – é a sua predileta, e ele o diz
claramente. Acha, no entanto, que nem sempre se verifica a
presença real do Espírito manifestante quando o fenômeno se
produz Aliás, é bem mais radical, ao declarar que “tudo tende a
fazer supor que, na grande maioria dos casos, a intervenção dos
“Espíritos Assombradores” toma a forma de transmissão telepática
– consciente ou inconsciente – dos seus pensamentos,
inteiramente voltados, naquele momento, para os lugares onde
eles viveram, e para os acontecimentos trágicos que ali se
desenrolaram”.
Que isso seja
possível, não se discute, mas talvez Bozzano “estique” demais a
sua hipótese telepática para aplicá-la à “grande maioria dos
casos”. É que os fenômenos de telepatia costumam ser, na sua
própria classificação, subjetivos e seletivos, e dificilmente se
apresentariam acompanhados de efeitos físicos (sons,
deslocamento de objetos, etc.). Isto quer dizer que o
percipiente os veria subjetivamente, como uma visão interior: e
mais, alguns percipientes, mais sensíveis, com exclusão de
outros (seletividade). E não parece que neste quadro fosse
possível encaixar a maioria das manifestações de assombramento.
Não resta dúvida,
no entanto, para o autor, quanto à solidez indiscutível da
chamada hipótese espírita, pois, logo abaixo, ao concluir sua
introdução, quando busca encontrar o elo de ligação para toda a
fenomenologia sob exame, declara que:
- “Em nosso caso,
o elemento comum a todos os fenômenos é fácil de ser
reconhecido: é o espírito humano na sua dupla condição,
encarnado e desencarnado”. (Destaques no original.).
*
Segue-se um
capítulo – o segundo – sobre os fenômenos de assombração
propriamente dita, seção auditiva.
O primeiro caso é
extraído de um relatório da “Society for Psychical Research”, de
Londres, e foi examinado por uma comissão da qual fazia parte
Frank Podmore. Cuida de ruídos espantosos observados num
vicariato inglês pelo pastor e sua esposa. Parecia que a casa
vinha abaixo, sempre às duas da manhã, aos domingos. A
manifestação provou ser inteligente, porque reagia com inaudita
violência quando o pastor deblaterava contra ela. Era também
eletiva, porque se verificou, depois, qu8e podia, às vezes, ser
ouvida pelos hospedes do casal e não pelos donos da casa. Por
outro lado, as manifestações prendiam-se à casa e não às
pessoas, porque os fenômenos já eram conhecidos na redondeza por
haverem ocorrido com outras famílias que ali haviam residido. Há
casos, como se sabe, em que os fenômenos acompanham as pessoas.
Um número maior de
casos semelhantes – que são raros – poderia, segundo Bozzano,
conter grande valor teórico e favoreceriam consideravelmente a
hipótese espírita.
O episódio
seguinte, muito complexo pela variedade da fenomenologia
apresentada, foi retirado dos “Annales des Sciences Psychiques”
(1892-1893), e está muito bem documentado por vários testemunhos
de valor irrecusável. O relato é feito pelo proprietário de um
castelo assombrado localizado na região de Calvados, na França,
cuja cidade mais importante é Caen.
As manifestações
ocorreram por algum tempo. Entre 1867 e 1868, e cessaram. Em
1875, recomeçaram com redobrada intensidade. Viviam no castelo o
casal, um filho menor, um abade que desempenhava as funções de
mestre do menino, o cocheiro, o jardineiro, a arrumadeira e a
cozinheira. Os barulhos eram percebidos por todos e ocorriam
durante a noite. Eram pancadas nas paredes e nas portas. Gritos
e gemidos lancinantes, desesperados, ruídos e móveis que
estariam sendo arrastados e tombados ao chão, corpos pesados que
caíam pareciam descer de degraus em degraus pelas escadarias ou
subi-las com incrível rapidez, objetos que se deslocavam,
desapareciam e reapareciam. Certa ocasião em que a senhora subia
com o abade para verificar a origem de um ruído, ao se aproximar
de uma porta, a chave girou na fechadura, desprendeu-se e
atingiu-lhe a mão, ferindo-a. Medalhas e crucifixos, trazidos
por um sacerdote que veio exorcizar a casa, desapareceram sem
deixar traço. Dois ou três dias depois – os exorcistas já se
haviam retirado -, a dona da casa escrevia qualquer coisa em
seus aposentos quando um enorme embrulho contendo as medalhas e
os crucifixos caiu diante dela, em cima da mesa.
Há também um
fenômeno muito curioso, que ficou sem explicação. Um dia, o dono
da casa executou algo no harmônio, por longo tempo. Ao fechar o
instrumento, uma parte das árias que havia tocado repetiu-se no
canto oposto do salão.
Neste caso, os
fenômenos eram coletivos – todos os percebiam nitidamente -,
predominantemente auditivos, porque os ruídos não eram
provocados por nenhum corpo ou objeto visível. E também de
efeitos físicos, pois os objetos se deslocavam, sumiam e
reapareciam inexplicavelmente.
É uma pena que em
tais circunstâncias não se tenha realizado uma sessão mediúnica
para estudar as causas do fenômeno, e, talvez, até resolver o
conflito espiritual do qual, evidentemente, ele resulta. Veremos
um ou dois casos em que isso foi feito.
No caso há pouco
relatado, há um pormenor interessante. O castelo em que
ocorreram as manifestações havia sido construído a 150 metros do
antigo, que estava em ruínas. Como o antigo castelo fosse também
assombrado, Bozzano admite a hipótese de que os fenômenos tenham
sido transferidos através dos móveis e dos materiais de
demolição reutilizados. É de se perguntar se as vibrações
psicométricas ligadas aos móveis e aos aludidos materiais teriam
energia suficiente para produzir tal variedade de fenômenos, os
estrondos, que abalavam até as paredes, os gritos e, por fim, os
efeitos físicos de deslocamento, bem como desmaterialização e
rematerialização de objetos concretos de metal e madeira. Tudo
leva a crer na existência, atrás dessas manifestações, de
espíritos bem versados na manipulação de leis muito importantes
da física transcendental.
Em outro caso,
três estudantes de medicina pactuam: se um deles morresse, os
outros poderiam ficar com o esqueleto para objeto de estudo,
desde que os ossos ficassem sempre em poder de algum amigo. Se
não fosse possível satisfazer tal condição, o esqueleto deveria
ser sepultado.
Quando um deles
morreu, um dos sobreviventes ficou com o esqueleto e, através
dos anos, e várias peripécias, sempre que o esqueleto era
relegado a uma condição vexatória, em desacordo com o pacto,
começavam os fenômenos de assombração: ruídos de passos que iam
e vinham, batidas, barulho ensurdecedor de garrafas que se
chocavam, que se quebravam e caíam ao chão, sem nenhum fenômeno
físico, ou seja, as garrafas lá estavam intactas.
Bozzano não tem
dúvida alguma em indicar a hipótese espírita. Há uma correlação
perfeita entre as declarações feitas pelo jovem estudante e os
fatos póstumos. Cada vez que seus ossos eram tratados de maneira
diferente do combinado, ele, evidentemente, protestava, de
maneira inequívoca.
*
No capítulo 3,
cuida o autor das manifestações visuais, que, como todas as
relatadas por Bozzano, são escrupulosamente bem documentadas. O
de número 4, por exemplo, desenrolou-se numa casa construída em
1860, e que durante 16 anos foi ocupada pelo seu proprietário.
Nesse lapso de tempo, morreu a primeira esposa e, sufocado pelo
desgosto, ele passou a beber desregradamente. Dois anos depois,
casou-se, em segundas núpcias, com uma jovem disposta a curá-lo,
mas que, infelizmente, também adquiriu o vício da bebida. Em
julho de 1876, deu-se a separação e a esposa foi viver em outra
cidade. Meses após, ele morreu, e, em setembro de 1878, ela
também. Estavam assim desencarnadas as três personagens da
tragédia. A casa em que viveram foi adquirida por um velho que
logo morreu também. Quatro anos depois, o imóvel foi comprado
pelo Capitão Morton, pai da moça que fez a narrativa à “Society
for Psychical Research”, que Bozzano reproduz, em essência.
Em abril de 1882,
a nova família instalou-se na residência fatídica, ignorando os
boatos que corriam a respeito. Dois meses depois, Miss Morton
conta seu primeiro encontro com o fantasma:
- “Acabara de me
recolher ao meu quarto, mas ainda não me deitara quando percebi
que alguém se aproximava da porta. Pensando tratar-se de minha
mãe, fui abri-la. Não vi ninguém, mas, saindo para o corredor,
percebi uma senhora alta, vestida de preto, parada no patamar da
escada. Quando cheguei perto dela, ela começou a descer e eu a
segui, curiosa de saber quem era. Infelizmente, a lamparina que
eu levava apagou-se de repente, obrigando-me a voltar.
Conseguira ver, no entanto, uma forma feminina muito alta, não
produzindo qualquer ruído, ao caminhar, vestida de lã preta. Sua
fisionomia ocultava-se atrás de um lenço que ela segurava com a
mão direita. A mão esquerda estava parcialmente escondida na
ampla manga na qual se via uma braçadeira negra, distintiva de
seu luto de viúva. Ela estava sem chapéu, mas era visível sobre
a cabeça uma touca envolvida num véu. Não pude observar mais
nada, mas em outras ocasiões consegui perceber uma parte de sua
testa e de seus cabelos”.
Nos anos
seguintes, de 1882 a 1884, Miss Morton viu o fantasma cinco ou
seis vezes. Outras pessoas da casa também a viram três vezes,
isoladamente: sua irmã, a empregada e, enfim, seu irmão,
juntamente com outro menino. O fantasma costumava descer a
escadaria, entrar no pequeno salão e permanecer de pé ao canto
direito da varanda, onde se demorava algum tempo. Em seguida,
voltava sobre seus passos e percorria o longo corredor até à
porta do jardim, onde desaparecia.
A moça era
destemida e estava disposta a desvendar o mistério da aparição.
Em 29 de janeiro de 1884 teve oportunidade de encontrar-se com
ela face a face. O momento ficou documentado em carta que ela
escreveu, na época, a uma amiga:
- “Abri suavemente
a porta do pequeno salão – diz a narradora – e me introduzi ali
junto com ela. Ela, porém, adiantou-se, alcançando o sofá, onde
permaneceu imóvel. Abordei-a logo e lhe perguntei em que poderia
ser-lhe útil. A essas palavras ela estremeceu ligeiramente e
parecia disposta a falar, mas apenas emitiu um ligeiro suspiro.
Em seguida, dirigiu-se à porta e, quando alcançou a soleira, eu
repeti minha pergunta, mas parece que ela não queria mesmo
falar. Foi até o salão e prosseguiu até à porta do jardim, onde
desapareceu, como de costume”.
Em outras
ocasiões, a moça tentou tocá-la, mas o fantasma parecia sempre
fora de seu alcance; se a seguia até um canto do cômodo, ela
desaparecia, subitamente.
Convivendo, assim,
praticamente durante mais de dois anos com um fantasma, foi
possível observá-lo bem, e, como assinala Bozzano, embora o caso
não tenha nada de sensacionalismo de tantos outros, presta-se a
uma autenticação indiscutível, pois foi presenciado por várias
pessoas sadias e idôneas, em diferentes oportunidades, ora
sozinhas, ora acompanhadas. A visão às vezes era eletiva – vista
por uma ou mais pessoas à exclusão de outras – e às vezes
coletiva, ou seja, percebida por todos os presentes, como na
noite de 12 de agosto de 1884, quando foi vista pelas duas
irmãs, ao mesmo tempo, e, mais uma vez, Miss Morton tentou
inutilmente falar com o Espírito. Obviamente sem conhecer nada
da fenomenologia mediúnica, a narradora informa, contudo, que,
em presença do fantasma, sentia “perder algo como se a forma
retirasse dela uma força”. Parece evidente que a moça fornecia
ectoplasma para a materialização parcial do Espírito, que,
assim, podia objetivar-se e produzir uma manifestação coletiva.
De outras vezes, porém, sem recorrer ao ectoplasma, a forma
aparecia apenas aos médiuns videntes e, por isso, recaía na
classificação de manifestação eletiva proposta por Bozzano.
*
No caso número 4,
algumas irmãs vêem simultaneamente ou sucessivamente o mesmo
Espírito, ao ar livre, sempre em determinado ponto do caminho,
com a mesma roupa antiquada. Bozzano elimina a hipótese da
alucinação patológica, porque a vestimenta do Espírito vista por
diferentes pessoas era sempre a mesma e desconhecida de todas as
testemunhas.
Em outro caso
narrado por Robert Dale Owen, em seu livro “The Debatable Land”,
também não se trata de simples fenômeno de assombração, porque o
Espírito apresenta evidentes sinais que o identificam
pessoalmente.
*
O caso n. 7 merece
um relato mais pormenorizado, em vista das implicações teóricas
que Bozzano expõe depois de narrá-lo. Trataremos de resumi-lo,
sem prejuízo do conteúdo.
A Sra. O´Donnell
chegou a Brighton (Inglaterra) em 22 de março de 1898, em
companhia da filha, para passar alguns dias em repouso.
Instalaram-se numa pensão, em cômodos amplos e confortáveis.
Eram excelentes as perspectivas de tranqüilidade e
despreocupação, mas, à medida que a tarde caía, uma desagradável
sensação de angústia começou a oprimir a Sra. O´Donnell. À
noite, quando se recolheu ao leito, adormeceu para acordar pouco
depois sobressaltada por uma terrível barulheira no andar
superior. Teve a “impressão de que seu quarto estava cheio de
gente”. Omo o barulho durasse a noite toda, ela não conseguiu
dormir e, pela manhã, exausta e nervosa, queixou-se à
arrumadeira de que os hospedes do andar superior não tinham
consideração alguma por ninguém, mas lhe foi assegurado que os
cômodos lá em cima estavam desocupados.
Durante o dia
continuou a sentir-se deprimida e inquieta, e, na noite
seguinte, repetiu-se o tumulto que novamente durou até a
madrugada. No terceiro dia, totalmente esgotada e insone, foi
deitar-se às 23 horas, depois, de despedir-se da filha, que
dormia no cômodo ao lado. Logo começaram os passos no andar de
cima, e, durante cerca de uma hora, ela continuou em estado de
tensão insuportável, a contemplar a chama da lareira que havia
feito acender.
- Depois – conta
ela -, sento necessidade de me virar e, então, com um pavor
inexprimível, percebi ao meu lado um espectro horrível que, com
uma das mãos, me indicava o quarto contíguo e com a outra
apontava para mim, quase me tocando.
Ao contrário de
Miss Morton, a quem a pouco nos referimos, a Sra, O´Donnell
entrava em pânico facilmente. Escondeu a cabeça sob as cobertas,
tentando convencer-se de que aquilo era pura imaginação, mas ao
olhar de novo, lá estava o espectro.
Reunindo a coragem
que ainda lhe restava, estendeu a mão, na esperança, talvez de
que aquilo fosse realmente uma espécie de miragem, mas tocou
“uma coisa substancial”. Qual não foi seu horror, no entanto, ao
sentir-se “agarrada pela mão gelada do morto!”.
Diz ela que, a
partir desse momento, de nada mais se lembra. Pela manhã, quando
a filha veio vê-la, havia perdido a voz, que, depois, recuperou.
Para a quarta
noite, trocou de quarto com a filha, mas o fantasma voltou.
Cerca de meia-noite, ela viu-o abrir a porta, que estava fechada
a chave, e entrar. Era um jovem de pequena estatura, tez morena,
maneiras distintas e, tal como já o vira na noite anterior,
tinha a roupa suja e em frangalhos. Parecia mais um espantalho
do que um ser humano. Dessa vez ele falou:
- A senhora está
ocupando agora o quarto do escocês?
Sorriu,
amavelmente (diz ela), e voltou sobre seus passos, saindo do
quarto, como havia entrado.
Na manhã seguinte,
a pobre Sra. O´Donnell estava desesperada. Embora a dona da
pensão continuasse a negar que sua casa fosse assombrada, uma
investigação pela redondeza revelou que ali se suicidara há
pouco tempo um jovem, o que, aliás, a dona da pensão acabou
confirmando. Tinha 24 anos, era franzino, de pele morena e
bem-educado. Sofria de bronquite crônica e estava muito
deprimido. Certa manhã declarou que se sentia melhor, mas, assim
que se encontrou sozinho, atirou-se pela janela e espatifou-se
no pátio interno, de onde foi recolhido ainda com vida, sujo e
com a roupa dilacerada como a Sra. O´Donnell o vira. Era
verdade, também, que no quarto ao lado se hospedara um escocês,
amigo dele. Daí sua observação à Sra. O´Donnell.
O caso foi
minuciosamente investigado pela “Society for Psychical Research”
e comentado por Frederick Myers. Descobriu-se que o jornal local
– “The Sussex Daily News” – anunciara realmente o suicídio de um
jovem por nome Walter Overton Luckman, na casa de número 58, à
York Road, onde se hospedara a Sra. O´Donnell com a filha.
Observou-se,
também, que a moça nada ouvira de todo o barulho e não viu
fantasma algum, o que torna uma aparição eletiva, na
classificação de Bozzano. É certo também que ele conseguiu
identificar-se nitidamente, materializar-se o suficiente para
agarrar a Sra., O´Donnell, falar com ela e dar-lhe uma
informação que ela não podia conhecer, ou seja, a de que ela
estava dormindo no quarto do escocês. Quanto ao fenômeno da
porta, parece ter sido subjetivo, ou seja, a porta não foi
aberta de fato, mesmo porque fora encontrada depois fechada a
chave, como antes. Isso não quer dizer que, às vezes, os
fantasmas materializados não abram portas. Isso fazem, e
deixam-nas abertas para verificação posterior, produzindo,
portanto, um fenômeno objetivo.
Pois.com tudo
isso, Myers, que, aliás, aceita perfeitamente a sobrevivência
(veja-se sua obra clássica intitulada “Human Personality”), nega
a objetividade da maioria das aparições, admitindo apenas que,
em certo número de casos, há “uma modificação qualquer no
espaço” onde se localiza o fantasma. Se entendo bem, isto quer
dizer que não se trataria de uma presença real do Espírito
naquele ponto, mas de uma “modificação no espaço”, promovida
talvez telepaticamente ou, como diz ele, “no mundo metaetérico”,
e não no mundo da matéria.
Bozzano promete
comentar a tese da manifestação telepática mais adiante no
livro, mas não deixa de fazer uma observação absolutamente
válida e pertinente: é que, em inúmeros exemplos, a aparição do
fantasma é precedida por uma impulsão mais ou menos irresistível
de parte do percipiente para voltar-se e olhar na direção onde
se encontra o ser manifestado. Isso acontece, de fato, nas
manifestações que ele classifica como telepático-subjetivas,
porque, mesmo que o fantasma não esteja localizado num ponto
especifico do espaço físico, como acontece nas percepções
objetivas, a visão interior provocada por um impulso telepático
não se fixa no espaço físico como a manifestação objetiva de um
espírito materializado, ou pelo menos suficientemente provido de
ectoplasma para ser visto, simultaneamente, por várias pessoas,
mas bem pode dar-se no mundo metaetérico, com localização
própria, a partir do impulso gerador.
Não é fácil,
porém, remover a teimosia dos céticos, porque os partidários da
telepatia teorizam um pouco mais para dizer que, no caso de uma
percepção coletiva, se todos vêem o fantasma caminhar da mesma
maneira e fazer os mesmos gestos, ou dizer as mesmas palavras,
isso se deve a que o agente transmitiu aos percipientes as
mesmas impressões mentais. Assim não é possível!
Na realidade, a
teoria não encontra o menor apoio na bem documentada experiência
de inúmeros casos analisados, pois cada observador percebe o
fantasma “em plena correspondência com as leis da perspectiva,
isto é, de frente, de perfil ou de costas, segundo a posição que
ocupe relativamente ao percebido, exatamente como acontece com
as percepções objetivas”.
A despeito disso,
porém, Bozzano é de opinião que o problema da objetividade ou
subjetividade dos fantasmas está longe de ser resolvido, pois as
manifestações são, às vezes, algo desconcertantes pelo fato de
conterem elementos de uma e de outra forma concomitantemente. Um
bom exemplo, como vimos, é o próprio caso que acabamos de
resumir. O fantasma é, ao mesmo tempo, suficientemente objetivo
para falar com a Sra. O´Donnell, e até mesmo agarra-la pelo
braço, e, no entanto, entra por uma porta fechada a chave, que
permanece fechada como depois se verificou.
2ª. Parte
Para o caso número
9, Bozzano informa que a “hipótese espírita é a única que se
revela capaz de explicar os fatos de modo satisfatório”.
Vejamo-lo em
resumo. O fantasma de uma idosa senhora pequenina e frágil é
visto várias vezes, tanto pelas crianças como pelo pai, que, a
princípio, imponente e agressivo como tantos incrédulos, acaba
recebendo o impacto de uma visita do fantasma em seu gabinete de
trabalho, a plena luz de gás. (Os fenômenos passam-se em 1854,
na Inglaterra, e foram investigados minuciosamente por Gumey,
por conta da S.P.R.). A dona da casa vê, além da senhora, o
fantasma de um homem. Ouvem-se ruídos, cantos, choro de um
recém-nascido e gritos lancinantes.
Algo, porém, ainda
intriga Bozzano: é a persistência das manifestações.
- Nada de mais
misterioso no fenômeno de assombração – diz ele, à pág. 92 – do
que esse prolongamento através dos séculos; e, se é verdade que
não existem hipóteses naturalistas capazes de explicar o
mistério, não se diria que a tarefa houvesse de ser fácil para a
hipótese espírita.
Essa persistência
parece realmente embaraçar o eminente pesquisador italiano, pois
ele menciona-a em outros pontos de sua obra. Como o fenômeno da
assombração está, em sua esmagadora maioria, ligado ao problema
da morte, parece-lhe difícil admitir que o fantasma possa ficar
durante tão largo tempo preso a um determinado local, onde
viveu, sofreu, foi assassinado, ou cometeu algum crime, ou onde
se encontram seus bens. No entanto, isso é indiscutível, pois a
fixação do Espírito desencarnado a certos locais está na razão
direta da intensidade daquilo que o próprio Bozzano classifica
de monoideísmo. Por anos e anos, e até por séculos, ele não
consegue pensar noutra coisa senão em seu drama íntimo, nas
tragédias que viveu, nas vinganças que pretende exercer,
perambulando nos locais onde sofreu, alienado, fixado, obcecado
pelas suas angústias.
Tivemos disso um
exemplo extremo, certa vez, na experiência mediúnica. O Espírito
manifestante ainda estava preso ao contexto da Roma dos Césares,
e, diante de nós, orou a Diana, a Júpiter e a Apolo. Sentia
ainda a aflição respiratória causada pela lança que o matara há
séculos, e contou-nos, mais tarde, já em melhor estado, que
continuava preso àquelas ruínas, onde vagava atormentado pelos
impiedosos comentários dos turistas que visitavam aqueles
locais, onde ele vivera e sofrera, na inconsciência de muitas
loucuras.
Para o Espírito
desencarnado o tempo não conta como para nós, e não está
separado metodicamente em minutos, horas, dias, anos e séculos
ou milênios, e muitos são os que perderam de vista os pontos de
referência que permitem avaliar o deslocamento na direção do
futuro.
*
Como disse e
repito, é impraticável reproduzir e comentar todos os notáveis
casos relatados por Bozzano. Mesmo selecionando pouco mais de
três dezenas de episódios, dos 532 que estudou, Bozzano escreveu
mais de 300 páginas.
Vamos, pois,
apenas mencionar alguns, como o caso em que a aparição se
reflete num espelho, outro em que, apesar de estar diante de um
espelho, a aparição não se reflete nele. Ou daquele outro, este
entre vivos, em que um jovem cochila na poltrona de um clube e
“sonha” que chega a casa, abre a porta e sobe a escada às
pressas, a fim de vestir-se para o jantar. Ao subir, volta-se e
vê o pai que o contempla. Nesse ponto, desperta e, verificando
que é tarde, vai às pressas para casa, onde constata que seu pai
havia assistido ao seu “sonho” e sua mãe estranhou que ele
tivesse passado à porta do seu quarto sem cumprimentá-la, como
de costume.
Bozzano arrisca
uma classificação, a meu ver, inaceitável: clarividência
telepática em sonho. Mas não parece satisfeito com a sua própria
teoria, e propõe outra, dizendo: “a menos que desejemos
considerá-lo como um caso de “bilocação durante o sonho””,
hipótese perfeitamente válida, pois, a meu ver, o Espírito do
jovem desprendeu-se e foi a sua casa, onde foi visto pelo pai e
entrevisto ou ouvido pela mãe, pois também provocou efeitos
sonoros ao abrir a porta e caminhar.
Há um caso
semelhante passado na Escócia, onde uma senhora sonhava
constantemente com uma casa, sempre a mesma, que ela acabou
conhecendo nos seus mínimos detalhes. Tempos depois, o marido
alugou uma casa e, quando trouxe a esposa, esta reconheceu a
casa dos seus sonhos. Há, porém, um aspecto ainda mais curioso:
a proprietária da casa reconheceu na sua nova inquilina o
espectro que vinha causando ali contínuos fenômenos de
assombração.
- Ah! – diz a
proprietária, ao vê-la – a senhora é a dama que assombrava meu
quarto de dormir...
Bozzano lembra que
a telepatia não pode explicar este episodio.
Em outro ensejo,
os fenômenos de assombração (ruídos, estrondos, queda de objetos
pesados, arrastamento de móveis) levam duas senhoras a realizar
uma pequena sessão mediúnica, na qual o Espírito manifestante
diz apenas que se trata de uma advertência e declara, tudo pela
tiptologia, chamar-se Lewis. No dia seguinte, os jornais
noticiam que um homem desconhecido foi morto por um trem. Alguém
informa, depois, a uma das senhoras, que conheceu o morto e que
ele se chamava Lewis. Três dias depois do acidente, em nova
sessão, ele se manifesta novamente e diz que não pudera ter
sossego enquanto não identificaram o cadáver.
Em caso ocorrido
na Itália, dois amigos combinam uma forma de manifestação post
mortem, como, por exemplo, quebrar alguma coisa na sala em que
conversam, como a luminária que pende sobre a mesa. Se o dono da
casa morrer primeiro, ele irá a casa do outro fazer coisa
semelhante. Como combinado, morre um e vem quebrar o objeto, com
“golpes secos, de um timbre especial, como se provocados pelas
juntas dos dedos da mão”. Bozzano opina que a experiência possui
“o valor de uma prova de identificação espírita”, tendo sido
realizada “conforme a promessa feita pela entidade comunicante”,
quando viva, ou seja, encarnada. Neste, como em tantos outros
exemplos, a teoria telepática é inaceitável, pos a “mensagem”
seria incapaz de quebrar um objeto sólido. Ficamos, pois, com “a
intervenção direta e a presença real da entidade comunicante”,
como diz Bozzano.
Ao concluir esta
longa exposição e análise dos casos apresentados, dos quais
oferecemos apenas uma discricionária amostragem, Bozzano declara
ter provado o seguinte:
1) Que todas as
formas de manifestações características de fenômenos de
“assombração propriamente dita” são idênticas nos fenômenos de
“telepatia entre vivos”.
2) Que, analisando
os casos de “telepatia entre vivos”, se descobre a via de
transição pela qual os fenômenos telepáticos se transformam em
casos de “assombração propriamente dita”.
3) Que disso
ressalta evidente a origem comum dos dois tipos de fenomenologia
e, por conseguinte, que os fenômenos de “assombração
propriamente dita” podem ser, em grande parte, explicados pela
teoria “telepático-espirita”.
4) Que os
automatismos dos fantasmas assombradores encontram perfeita
correspondência nos automatismos dos “fantasmas telepáticos”, o
que confirma ulteriormente a origem telepática dos primeiros e
refuta a opinião daqueles que, ante o fato do automatismo,
concluem pela inexistência de ligações causais entre defuntos e
fantasmas.
5) Que os
fenômenos telepáticos ensinam-nos que o automatismo dos
fantasmas depende do fato de que frequentemente o agente ignora
que transmite ao percipiente a visão de seu próprio fantasma,
donde deriva, logicamente, que as andanças automáticas
correspondentes dos fantasmas assombradores deveriam ser
atribuídas à ação do pensamento inconsciente dos defuntos que se
manifestam.
6) Que as formas
de manifestação tão freqüentes vulgares e absurdas das duas
espécies de fenomenologia explicam-se pelo fato de que mais
comumente eles procurem o “curso de menor resistência”
percorrido pela mensagem supranormal para saltar do
subconsciente para a consciência, ou, também, para se projetarem
sob forma objetiva, o que nos levaria a dizer que as
manifestações de assombração não têm senão um valor de anúncio
ou lembrança com que os defuntos se esforçam por atrair a
atenção dos vivos.
7) Que a teoria e
as regras expostas, como todas as regras e todas as teorias, não
são absolutas, mas relativas, e comportam numerosas exceções.
Muito teríamos a
comentar aqui, mas receio que o artigo se prolongue demais,
especialmente sobre a brilhante e irrefutável análise crítica
que o autor faz a seguir das teorias de Podmore. Não resisto à
imposição de citar algumas frases: não é lícito nem lógico
converter em “regra” uma “exceção”, para, em seguida, servir-se
dela a fim de explicar fenômenos de assombração e negar as
manifestações dos defuntos em geral.
Logo adiante, ao
iniciar o capítulo 5, declara o ilustre autor que não é possível
aplicar tais conclusões (anteriormente esboçadas e aqui
reproduzidas) aos fenômenos de assombração sem lançar mãos da
hipótese espírita...
Ou, ainda, à
pagina 149: não há razão para não admitir que um “espírito
desencarnado” não esteja sujeito às mesmas leis psicológicas que
um “espírito encarnado” e, por conseqüência, que não haveria
motivos para não admitir que, desde que a consciência de um
agonizante esteja perturbada por emoções ou preocupações
ansiosas, ele não pudesse constituir certas formas de
“monoideísmo post mortem” análogas às que estão sujeitos os
vivos. Daí os fenômenos de assombração.
A tese de Bozzano
aqui é a mesma defendida alhures no seu magnífico livro
“Animismo ou Espiritismo?” (edição da FEB), ou seja, a de que os
Espíritos desencarnados podem provocar fenômenos idênticos ou
semelhantes aos que produzem os encarnados, pois o animismo
confirma o Espiritismo.
É preciso deixar
bem claro que ele chama de monoideísmo post mortem as fixações
do Espírito desencarnado que leva anos ou séculos a pensar
repetidamente, obsessivamente, as mesmas idéias, a evocar as
mesmas lembranças, a reviver as mesmas cenas, a sofrer as mesmas
dores.
3ª. Parte
Com o capítulo 6
penetramos pelo fascinante domínio da psicometria, que Bozzano
considera como uma das hipóteses dignas de consideração no
estudo dos fenômenos de assombração, em alguns casos
específicos. Veremos isso.
Sempre preocupado
com o espaço, creio desnecessário recapitular aqui as noções
acerca da psicometria, questão, aliás, tratada pelo próprio
Bozzano em um dos seus muitos trabalhos, também editado pela FEB,
sob o título “Os Enigmas da Psicometria”.
Lamenta o autor a
impropriedade do termo psicometria, mas reconhece que ele está
de tal forma implantado que seria prejudicial recomendar outro.
Diz mais que o fenômeno se reporta – se bem que com ligeira
diferença – ao que os ocultistas chamam de “clichês astrais”, os
teósofos, de “impressões akásicas”, e Myers, de “telestesia
retrocognitiva”, e outros pesquisadores, de “persistência de
imagens”.
- Segundo a
hipótese da psicometria – escreve Bozzano -, a matéria inanimada
teria a faculdade de registrar e conservar em estado potencial
toda sorte de vibração e emanação física, psíquica e vital, da
mesma forma que a substância cerebral possui a propriedade de
registrar e conservar em estado latente as vibrações do
pensamento.
Haveria, pois,
além da memória cerebral, uma espécie de memória cósmica que
documentaria, como num vídeo-tape, os acontecimentos verificados
pelo universo a fora. Acha Bozzano que a analogia é perfeita e
que nada do ponto de vista cientifico, como as leis físicas ou
fisiopsiquicas formuladas pela ciência, contrariam a hipótese.
O tema é deveras
atraente e se presta a pesquisas e especulações que raiam pelo
campo da ficção científica. A impressão que se tem é a de que
este setor do conhecimento humano, ainda pouco explorado, guarda
surpresas espetaculares em que teremos de nos haver com os
próprios e misteriosos mecanismos do tempo. Mas isso é outra
história.
Lembra Bozzano as
especulações de Paracelso, Schopenhauer e Fechner sobre o
assunto, e, de maneira mais especifica, o Dr. Buchnan e seus
discípulo Dr. Denton, que, com a esposa deste, fizeram
interessantíssimas experiências, relatadas no livro “The Soul of
Things” (“A Alma das Coisas”) e em “Nature´s Secrets or
Psychometric Researches” (“Segredos da Natureza ou Pesquisas
Psicometricas”).
Recorda, a seguir,
a hipótese formulada por Monsenhor Benson (publicada em “Light”,
de 1912, pág. 460), segundo a qual as tragédias, como um
assassinato, impregnariam a substância das coisas materiais com
vibrações de intensa emotividade emanadas das violentas cenas
ali desenroladas, o que possibilitaria a visão posterior
naqueles locais por pessoas dotadas de sensibilidade apropriada.
Embora
reconhecendo a força da hipótese, que é a da psicometria, ainda
que não com esse nome, Bozzano declara-a insustentável, dado que
existem inúmeros episódios aos quais ela não se adapta, e uma
hipótese somente é aceitável quando nela cabem todos os fatos da
mesma natureza.
Há, no entanto,
algumas experiências curiosas que parecem justificá-la. Uma
delas foi narrada à Sociedade Biológica de Paris, em 10 de
fevereiro de 1894, pelo Dr. Luys.
Andava ele
experimentando com uma espécie de coroa de aço imantada que
colocava na cabeça de pacientes seus em estado de hipnose. A
coroa circundava o crânio, deixando livre a região frontal.
Certa vez, uma coroa fora utilizada na cabeça de uma mulher em
estado de profunda melancolia, com idéia de perseguição, agitada
e com tendência ao suicídio. O tratamento foi realizado cinco ou
seis vezes com a referida senhora, e, em vista das melhoras que
ela apresentou, o Dr. Luys deu-lhe alta após dez dias. Cerca de
duas semanas depois ele colocou a mesma coroa na cabeça de outro
paciente, um homem que sofria crises freqüentes de histeria e
letargia. Qual não foi a sua surpresa ao verificar que o seu
paciente, em estado sonambúlico, queixava-se dos mesmos sintomas
da senhora que ele tratara anteriormente. Falava de si mesmo
como se fosse do sexo feminino e mencionava perseguições,
assumindo, enfim, a personalidade da doente que lhe precedera no
uso da coroa imantada.
O Dr. Luys conclui
que a coroa teria “conservado a lembrança de seu estado
anterior”. Embora ele afirme ter produzido esse fenômeno muitas
vezes, por vários anos, com esse paciente e outros, não me
parece muito conclusivo o seu trabalho. Não é de se desprezar a
hipótese de que o homem, tido por histérico, com crises
constantes de letargia, não fosse mais do que um médium a
incorporar o mesmo espírito que se apossara da mulher doente,
caso em que a coroa imantada seria apenas um suporte material da
manifestação. É preciso, no entanto, evitar especulações ociosas
com base em fatos escassamente documentados. De qualquer forma,
não é fora de propósito a teoria de que os espíritos se ligam
por tempo indeterminado a certos objetos ou locais, pois isso
constitui a verdadeira essência do fenômeno de assombração.
Um caso desses é
relatado por Katharine Bates, em seu livro “Seen and Unsen”
(“Visível e Invisível”).
Miss Bates
hospedou-se numa pensão à Rua Trumpington, número 35, em
Cambridge, em maio de 1896, e, embora estivesse viajando com um
amiga, ficou só por uma noite, pois a amiga fora a Shelford.
Naquela noite, duas vezes durante a semana, ela teve o mesmo
sonho, no qual lhe aparecia com insistência um homem que em
tempos idos tivera com ela profundo envolvimento emocional e que
agora vinha queixar-se por não tê-lo permitido esposá-la. Ela
despertava angustiada e, ao readormecer, o mesmo homem lá estava
a queixar-se dela. O quarto parecia realmente assombrado. Miss
Bates pôs-se tenazmente a investigar o caso, pois seu antigo
amado havia estudado em Cambridge durante dois anos. Parecia, no
entanto, algo fantástico que após 28 anos, em visita à cidade,
ela fosse hospedar-se no mesmo quarto que ele ocupara então. E,
no entanto, isso era estritamente verdadeiro, como ela apurou
por processos que seria longo relatar aqui.
Mesmo assim, não
sei se o episódio pode ser explicado como um fenômeno de
psicometria. Acho que não, pela simples razão de que ela não vê
ali o desenrolar de cenas que teriam ocorrido, como se o
ambiente guardasse a memória dos acontecimentos, como é da
essência do fenômeno psicométrico, mas, sim, ela vê, em sonhos –
ou seja, desdobrada pelo sono – um ser humano que a censura por
não ter concordado em casar-se com ele. Encontra-se ele, pois,
num contexto atual, a reclamar de um evento passado, ocorrido há
muito tempo. Ao que parece, o antigo namorado – que ela não
esclarece se estava encarnado ou não à época do “sonho” –
aproveitou a oportunidade de estar a sua amada em local no qual
viveu para interpelá-la. Honestamente, não vejo aí as
características da psicometria.
O caso seguinte é
relatado pela Senhora Denton, num dos seus livros já
mencionados.
Aguardava ela, em
companhia do marido e dos filhos pequenos, um trem que os
levaria à cidade de Peru, no Estado de Illinois, nos Estados
Unidos. Quando o trem parou, uma voz gritou aos passageiros,
alertando-os de que dispunham de 20 minutos para jantar, e eles
se precipitaram para a plataforma. Ela apanhou as crianças pela
mão, enquanto o marido cuidava da bagagem. Grande foi sua
surpresa ao ver que, ao contrário de sua expectativa, o vagão
estava ainda cheio de gente. “Muitos passageiros – diz ela –
continuavam sentados e imóveis como se lhes fosse indiferente
acharem-se naquela estação, enquanto que muitos outros se
preparavam para descer. Quanto a estes, eu os via confusamente”.
No entanto, ela
vira, pouco antes, todos descerem para jantar! Estava disposta a
procurar outro vagão, quando observou que as figuras imóveis nos
bancos começaram a se desfazer, deixando-a ainda com tempo para
observar fisionomias e detalhes de suas vestes. Quando os
companheiros de viagem voltaram do jantar, ela pôde conferir
algumas faces e as mesmas roupas que já havia visto.
Que se passou
aqui? A hipótese da Senhora Denton é perfeitamente cabível. Ela
acha que uma pessoa imobilizada durante algum tempo, no mesmo
local, irradia em torno de si uma “espécie de fluido que, de
alguma sorte, fixou-se na atmosfera e aí imprimiu sua imagem”.
Isso parece
confirmado por pesquisas recentes que, por meio de filmes
especiais, conseguem obter fotografias ainda algo imprecisas,
mas suficientemente nítidas para mostrarem o contorno de figuras
humanas que não se acham mais no local fotografado.
*
Os dois episódios
seguintes, embora reproduzidos no capítulo dedicado à hipótese
psicométrica, são extremamente complexos do ponto de vista
teórico, como o próprio autor reconhece.
O primeiro foi
narrado à Senhora Sidgwick, em documento datado de 7 de
fevereiro de 1882, por uma das testemunhas oculares dos fatos.
A narradora havia
ido à igreja da sua pequena cidade em companhia de uma irmã e da
empregada. A cerração velava um tanto a visão das coisas, mas a
lua parecia circundada por um halo. Ao regressar a casa, depois
da cerimônia religiosa, a narradora viu que uma pessoa caminhava
em sua direção com a respiração sibilante. Aliás, ouviram-na
mesmo antes de vê-la. Ela passou ao lado da irmã, e seguiu em
frente. Pouco depois ela distinguiu outra pessoa que caminhava
atrás de sua irmã, sem produzir o menor ruído ao caminhar. Como
a irmã não a havia notado, ela puxou-lhe a manga e
sussurrou-lhe, já algo assustada:
- Deixe esse homem
passar.
Enquanto dizia
isso, viu o homem “desaparecer no corpo” de sua irmã. Embora
caminhassem as três juntas, lado a lado, as outras não viram o
homem, mas, ao cabo de alguns instantes, começou a
desenrolar-se, diante dos olhos atônitos das três, um espetáculo
inesquecível e fantástico. A rua povoou-se instantaneamente de
figuras apressadas: homens, mulheres, crianças e cães que se
entrecruzavam, surgindo de todas as direções, e desaparecendo
misteriosamente nas margens da estrada. Alguns vinham sós,
outros em grupos, mas nenhum deles produzia o menor ruído, e
todos se apresentavam com aquela mesma cor cinzenta que envolvia
toda a paisagem, e desapareciam nas margens da estrada cobertas
por uma vegetação rasteira. Com freqüência, porém, as formas
humanas sumiam também ao penetrar o corpo de uma das senhoras;
enquanto outras pareciam surgir das margens da estrada para
juntarem-se ao estranho e silencioso movimento. À medida que
prosseguia a caminhada das três, renovava-se a multidão de
seres. Alguns destes atravessavam-nas e ressurgiam do outro
lado, seguindo sempre seu inexplicável destino. As formas eram
de pequeno porte, quase anãs, exceto uma delas, que era de um
homem de elevada estatura e que caminhou o tempo todo ao lado
delas. As vestimentas dos homens eram antigas, bem como o
penteado das mulheres, os xales, os casacos as saias amplas.
Para certificarem-se daquela fantasmagórica realidade, as
mulheres começaram a trocar impressões em voz baixa, conferindo
assim as visões. Quando uma delas apontava para um homem, por
exemplo, as outras duas viam também um homem como descrito e
assim por diante. O ar, acima, estava relativamente claro e os
fantasmas caminhavam todos com os pés no chão, como gente
normal. Em mais de uma oportunidade, viram dois homens
estranhíssimos que traziam em torno do rosto uma auréola
cintilante e que as encaravam com olhar zombeteiro. Um deles era
uma figura repugnante, insuportável até de olhar-se. Enquanto
isso tudo sucedia, o homem maior caminhava impassível ao lado
delas, sem uma palavra, um ruído, nada. Os outros vultos
continuavam a se entrecruzarem e a se perderem nas sombras do
caminho. Se elas apressavam o passo, ele também o fazia, nunca,
porém, voltando os olhos para elas. Ao chegarem à alameda que
conduzia à casa onde moravam, as visões desapareceram, exceto a
do homem grande.
- Tinha ele –
escreve a narradora – um aspecto diferente dos outros fantasmas
e era extremamente repugnante. Caminhava de maneira
característica e era duas vezes maior do que os demais.
Dir-se-ia que tinha um objetivo determinado, o que não parecia
ocorrer com os outros fantasmas.
Ao entrarem pelo
caminho que levava à casa delas, o fantasma do homem grande
seguiu pela estrada, para imenso alívio das pobres e assustadas
senhoras, passando por elas com o seu passo medido e firme.
- Quando nos
viramos para olhar pela última vez, era ele a única forma
visível.
O documento foi
atestado pela irmã da narradora e minuciosamente investigado
pela S.P.R. inglesa.
*
Como afirma
Bozzano, o episodio é “muito curioso” e profundamente
embaraçante, dado que nenhuma hipótese conhecida consegue
explicar todos os fenômenos testemunhados. Trata-se de uma visão
coletiva, desenrolada “cinematograficamente”, como diz Bozzano,
o que torna a hipótese alucinatória “absolutamente
insustentável”, além do fato de os fantasmas se apresentarem
vestidos à antiga. A ilusão ótica é igualmente inaceitável,
pois, ao se entrecruzarem de um lado para outro, mostravam-se às
observadoras sob ângulos diferentes a cada uma.
A hipótese
psicométrica não tem melhor sorte, em vista da ação caótica da
multidão fantasmal, mas principalmente porque não poderia
explicar, como lembra Bozzano, as estranhas figuras com os
rostos faiscantes, a estatura quase anã de praticamente todos
eles e o comportamento do gigante que caminhou ao lado das
testemunhas o tempo todo, ao contrário dos outros, que pareciam
caminhar a esmo. Ao passo que o fenômeno psicométrico é, em
essência, um “replay” de acontecimentos passados, de cujas
vibrações impregnou o local ou o objeto que os presenciaram, há
na manifestação, há pouco narrada, fenômenos incompreensíveis
dentro da hipótese, como as figuras envolvidas em fagulhas, ao
mesmo passo em que o caminhar deliberado do fantasma grande, ao
lado das senhoras, implica, obviamente, uma ação presente e não
passada.
A hipótese
telepática também não serve, porque as dificuldades de acolher
todos os pormenores são intransponíveis.
Diante disso,
Bozzano não se arrisca a uma formulação teórica, e o caso
permanece inexplicável.
4ª. Parte
O outro caso, para
o qual ele (Bozzano) propõe, mesmo antes de resumi-lo, a
hipótese psicométrica, combinada com a que ele chama de “telepático-espírita”,
é não menos complexo nem menos fascinante do que as experiências
anteriores.
O episódio tem
sido mencionado com freqüência na literatura espírita e consta
in extenso do livro “An Adventure” (“Uma Aventura”), publicado
em Londres, em 1911, pela editora Macmillan. A obra foi escrita
pelas duas protagonistas, sob os pseudônimos de Elizabeth
Morison e Frances Lamont, e despertou o mais vivo interesse do
público e da imprensa à época, em longos trabalhos
especulativos, como no sisudo “Times”, no “Morning Post” e no
“Daily Telegraph”.
As duas jovens
inglesas foram, em agosto de 1901, a Versailles, pela primeira
vez, e de lá, ao Petit Trianon, onde contemplaram cenas e
paisagens com personagens que não existiam mais, e que, no
entanto, haviam existido à época da Revolução Francesa.
Somente uma semana
após a fantástica experiência é que as duas moças começaram a
desconfiar de que havia algo estranho na visita ao famoso
palácio, mas levaram três meses para se convencerem da sua
realidade. Empenharam-se, daí em diante, numa pesquisa histórica
das mais meticulosas, a fim de reunir todos os elementos de que
necessitavam para documentar os fatos que presenciaram.
Somente ao cabo de
nove anos de estudos sentiram-se em condições de escrever o
livro. Como eram filhas de sacerdotes da Igreja Anglicana, não
estavam habituadas a práticas espíritas nem a pesquisas
metapsiquicas, muito embora tenham demonstrado, com a notável
experiência que viveram, evidentes dons mediúnicos. Estavam, no
entanto, bem preparadas intelectualmente para a tarefa nada
fácil de relatar com fidelidade o caso, em narrativas
independentes, sumarizadas três meses após os fatos observados.
A essência do episódio, não obstante, já havia sido fixada
dentro de uma semana, em carta que Miss Morison escrevera a uma
de suas amigas.
- Vamos tentar um
resumo, com base no relato de Miss Morison.
Após visitarem
Versailles, as duas decidiram ir também ao Petit Trianon. Parece
que, nesse ponto, mergulharam no passado. Dirigiram-se a dois
guardas de aspecto sombrio e preocupado, vestidos de libré verde
e com chapéus tricórnio, para pedir informações, e seguiram,
caminhando e conversando animadamente. De certo ponto em diante,
porém, Elizabeth Morison começou a experimentar inexplicável e
crescente sensação de opressão. No ponto em que a trilha que
seguiam cruzava outra encontraram-se diante de um pequeno bosque
à sombra do qual havia um quiosque circular e uma cascata, Ao
lado dessa pequena construção estava um homem sentado. Não havia
ali bonitos gramados nem belas árvores: o chão estava coberto de
mato e folhas mortas. As árvores pareciam sem vida, como as deu
um cenário de teatro. A inexplicável sensação de opressão
intensificou-se quando o homem fixou nelas seu olhar. Tinha um
“ar repugnante, a expressão de ódio”, a aparência rude. Enquanto
se decidiam por que caminho seguir, ouviram ruído de alguém que
corria desabaladamente pela trilha, mas voltando-se, para ver do
que se tratava, não viram ninguém; notaram, porém, atrás delas,
outro homem, este de aparência distinta, alto, olhos grandes,
cabelos encaracolados, chapéu de abas largas. Elas o acharam
muito belo e semelhante a uma gravura antiga. Estava
extremamente excitado e se dirigiu a elas em alta voz, dizendo
que não era preciso passar por lá. E estendendo o braço,
acrescentou com vivacidade:
- Por que aqui?...
Procurem a casa.
Miss Morison não
podia atinar com os motivos de tanta excitação no jovem e
simpático cavalheiro, mas como o roteiro indicado por ele
coincidia com o que ela havia escolhido, elas seguiram em
frente. O desconhecido ainda as olhou “com um estranho sorriso”.
Quando ela virou-se para agradecer, o homem havia desaparecido.
Ao se aproximarem da “casa”, indicada pelo informante, ou seja,
o “Petit Trianon”, as moças viram outra figura humana (Maria
Antonieta?):
Sentada sobre a
relva, de costas para o terraço, havia uma senhora ocupada em
olhar atentamente um cartão que segurava com o braço estendido.
Supus que ela se divertia fazendo um esboço do grupo de árvores
que se encontrava diante dela. Quando passamos por ela, ela
virou-se para nos olhar. Não era muito jovem, e, a despeito de
ser bonita, não me atraiu.
Segue-se a
descrição dos trajes da senhora, com as minúcias de que somente
outra mulher é capaz. Eram roupas completamente fora de moda.
Persistiam as
estranhas sensações, especialmente intensificadas depois que as
jovens subiram para o terraço, onde Elizabeth Morison teve a
impressão de “encontrar-se num ambiente de sonho”. Reinava ali
um silêncio mortal que lhes parecia opressivo e anormal.
Novamente olhou para a senhora sobre o gramado, agora de costas,
e observou que seu vestido era verde-pálido. Quando atravessavam
o terraço, abriu-se uma porta e por ela saiu um jovem que a
fechou em seguida com certo ruído. Tinha as maneiras
desenvoltas, mas não se vestia de libré. Dirigiu-se às moças e
deu as indicações de que elas precisavam para encontrar a “Cour
d´honneur” do palácio.
- Quando chegamos
à soleira –escreve ela -, reencontramos subitamente nosso bom
humor.
Agora, algumas
observações necessárias: nenhuma das pessoas vistas existia, bem
como uma parte considerável da paisagem, inclusive o quiosque e
a cascata diante da qual haviam parado para falar com o primeiro
informante, o belo cavalheiro distinto. O mais estranho, porém,
é que os jardins do Petit Trianon estavam àquela hora abertos à
visitação pública e, por certo, animados pelas vozes e risos de
muitas pessoas que caminhavam pelas aléias. Em suma: as moças
viam o que não existia e não viam o que existia em torno delas.
Segue-se uma longa
e cuidadosa análise de Bozzano, que acrescenta outros pormenores
à fascinante narrativa de Miss Morison.
-Foram necessários
nove anos – escreve Elizabeth Morison – de laboriosas pesquisas
para acumular os dados que demonstram as peculiaridades da nossa
experiência, justificando nossa convicção de que, do momento em
que colocamos o pé à soleira do Trianon, caminhamos sobre
terreno encantado.
Como explicar tudo
isso, de uma realidade inegável? Seria uma transmissão
telepática do espírito sobrevivente de Maria Antonieta, como
parece admitir a autora? Um fenômeno de psicometria durante o
qual as jovens sensitivas desentranharam daqueles locais as
esquecidas, mas indeléveis vibrações de um dramático passado?
Como explicar, porém, ante essas duas hipóteses, o fato de que
elas se encontraram com pessoas que as olharam, deram indicações
precisas sobre roteiros a seguir? E o aspecto algo artificial
das árvores da primeira cena?
O professor Hyslop,
citado por Bozzano, após analisar o caso, conclui tratar-se de
uma nova ilustração da possibilidade para os vivos de tomarem
conhecimento de fatos ocorridos num passado distante, e isto,
provavelmente, em virtude de “ligações telepáticas com os
defuntos” interessados nos acontecimentos em questão.
Bozzano conclui
observando que esse parágrafo contém a hipótese
telepático-espírita que tenho defendido neste livro e que se
prestará, sem dúvida alguma, a explicar os fatos de maneira
bastante mais satisfatória.
Para Bozzano, a
coisa parece tão óbvia por si mesma que se dispensa do trabalho
de demonstrar a futilidade de hipóteses formuladas por eminentes
autores, como William James e Théodore Flournoy (Ver, sobre
Flournoy, o artigo “Das Índias ao Planeta Marte”, “Reformador”
de novembro de 1972), que se prevaleceram da psicometria,
“certos de que ela seria capaz de explicar todas as
manifestações supranormais de ordem inteligente, de modo a
substituir ou, pelo menos, a tornar supérflua a necessidade de
recorrer às intervenções espirituais”.
Na segura
observação do meticuloso pesquisador italiano, os ramos da
metapsíquica são ligados entre si por um elemento causal comum,
de sorte que a hipótese que não resolve os mistérios de um deles
não resolve em nenhum deles.
Resta, ainda, um
longo capítulo sobre fenômenos de poltergeist, que se estende da
página 209 à 294, Bozzano inicia sua exposição com uma longa
teorização, uma vez mais lembrando que, embora o fenômeno se
apresente sob forma objetiva ou mediúnica, a classificação geral
das manifestações supranormais entre objetivas e subjetivas é
meramente convencional, dado que, na maioria das vezes, os
fenômenos observados não se prestam nitidamente à separação numa
ou noutra forma. Diria, pois, que uns seriam manifestações
predominantemente telepáticas e os outros predominantemente
mediúnicas, mas que, “no fundo, a inteira fenomenologia é uma
só”.
Os fenômenos de
poltergeist ocorrem tanto à noite como durante o dia, e “parecem
ser regulados por uma forma qualquer intencional, que se
concretiza, às vezes, em uma personalidade oculta capaz de
entrar em ligação com os assistentes”. É possível, por isso,
dialogar com tais personalidades, por meio de um código
convencionado – batidas, sinais, etc. -, e com freqüência se
percebe que elas são capazes de ler o pensamento dos
assistentes. Os fenômenos, por outro lado, estão sempre
relacionados com a presença de um sensitivo, mais
frequentemente, uma jovem adolescente, às vezes, um rapazinho.
Acresce que,
devido a certa espetaculosidade, que é da própria essência do
fenômeno, os casos de poltergeist rapidamente viram notícia e
começam a ser investigados, quase sempre, por equipes policiais
despreparadas, voltadas apenas para a idéia fixa de apanhar o
“engraçadinho” que se empenha em promover aquelas “brincadeiras
de mau gosto”. Enquanto isso, o público leitor que segue as
notícias aceita a versão policial e sorri com superioridade
daqueles que se dedicam, em seriedade, a pesquisar as causas do
fenômeno. De certa forma, porém, esse quadro tem seus méritos,
porque, a despeito de toda vigilância e interesse em apanhar o
autor das proezas, os fenômenos continuam a ocorrer e acabam por
ficar muito bem documentados nos relatórios da policia e nas
reportagens sensacionalistas.
Outra
característica do fenômeno – lembra Bozzano – é a sua grande
uniformidade, “que se mantém em todos os tempos e em todos os
lugares”. Distinguem-se dos fenômenos normais de assombração por
serem de curta duração, enquanto que aqueles, às vezes, duram
séculos. Parece também haver neles uma causa local, além de
mediúnica, pois frequentemente eles cessam quando se afasta o
médium. Como muito bem observa o eminente cientista italiano, as
manifestações são nitidamente intencionais. Inúmeros fenômenos
parecem indicar uma clara intenção de criar dificuldades, a fim
de assustar e acabar expulsando de uma casa os habitantes que os
desencarnados parecem considerar como intrusos.
É fácil de
compreender tais disposições em seres que desencarnaram, mas não
se desprenderam da paixão da posse de seus bens e continuam “do
lado de lá” a se sentirem donos de suas casas e dos objetos e
móveis com os quais conviveram. Por isso o fenômeno é
localizado.
Cabe referir,
ainda, que Bozzano lembra aqui também a possibilidade de tais
ocorrências resultarem não apenas de manifestações
essencialmente espíritas, como também anímicas, o que as levaria
à classificação de fenômenos de telecinesia, na terminologia
parapsicológica. Uma hipótese não exclui a outra, porque elas se
completam e podem até coexistir. Em outras palavras: se o
Espírito desencarnado é capaz de provocar efeitos físicos, o
Espírito encarnado também pode fazê-lo.
Creio, porém, que
não se deve atribuir demasiado valor às condições locais, como
se elas pudessem predominar até sobre a própria condição da
mediunidade, ou seja, como se pudessem ocorrer fenômenos de
efeito físico sem a presença de alguma forma de mediunidade
específica.
A coletânea de
fenômenos de poltergeist bem observados e bem documentados é
muito grande, respeitável e mesmo indiscutível, exatamente por
ser um tipo de manifestação amplamente conhecido através do
tempo, em inúmeros locais, sob as mais variadas condições. O
comportamento dos corpos materiais, no bojo dessa interessante
fenomenologia, é totalmente incompreensível se nos amarrarmos
inarredavelmente às leis conhecidas da física. Objetos sólidos e
pesados, como pedras, talheres e pratos, por exemplo, descrevem
trajetórias totalmente inabituais, param no ar, deslocam-se em
linha ondulada ou quebrada, aceleram ou diminuem a velocidade da
queda, parecem surgir do nada, caem abundantemente em torno de
várias pessoas sem ferir ninguém (às vezes ferem deliberadamente
também). Enfim, uma gama enorme de efeitos surpreendentes
somente explicáveis se admitirmos que forças conscientes
manipulam tais objetos com um fim deliberado. As manifestações
são às vezes acompanhadas de vozes, de sons, de música, de
gritos, de risos, como também ocorrem em desrespeito às leis de
propagação do som. Corpos sólidos atravessam outros corpos
sólidos, sem rompê-los. As pedras e objetos comumente
apresentam-se mornas ou extremamente quentes como se tivessem
passado por um violento processo de desintegração e
reintegração, à custa de incalculáveis dispêndios de energia
física.
Resisto bravamente
ao impulso de reproduzir alguns casos interessantes de
poltergeist relatados por Bozzano, a fim de não prolongar ainda
mais este artigo, mas não posso deixar de referir dois dos mais
interessantes e bem documentados, ambos, aliás, recolhidos pelo
eminente pesquisador russo Alexandre Aksakof.
O primeiro foi
incluído em um livro de Aksakof sob o título de “Os Precursores
do Espiritismo nos Últimos 250 Anos”. O caso passou-se numa
pequena cidade russa e, por se ter desenrolado num imóvel de
propriedade do governo, foi minuciosa e escrupulosamente
investigado e posteriormente relatado em documentos oficiais.
Em janeiro de
1853, um certo Capitão Jandachenko comandava um destacamento
militar em Lipsty, residindo com a esposa numa casa de quatro
cômodos, cedida pelo governo local ao comandante da unidade.
Além do casal, moravam na casa duas empregadas e três soldados,
um dos quais era o ordenança do capitão.
Em 4 de janeiro, a
coisa começou. Quando os servidores apagaram a luz, para dormir,
ouviram-se várias batidas, enquanto alguns copos de madeira
foram atirados em várias direções, na cozinha. Quando a luz se
acendeu novamente, os objetos continuaram a voar daqui para lá,
movendo-se, no entanto, quando ninguém olhava.
No dia seguinte, o
capitão procurou o sacerdote local para contar o ocorrido, e, no
dia 6, o sacerdote foi à casa com alguns acólitos. Logo ao
entrar, uma pedra precipitou-se no corredor. Em seguida, uma
terrina cheia de sopa caiu-lhe aos pés, embora – diz ele – eu
estivesse rodeado pelos acólitos munidos de ícones. (Imagem ou
um quadro representando o Cristo, a Virgem ou algum santo da
Igreja ortodoxa grega ou russa).
Ouviram-se,
depois, várias batidas. O capitão acrescentou que, ao ser
aspergida a água benta, uma acha de lenha destacou-se da pilha e
foi lançada com grande estrépito sobre a porta.
Outro sacerdote
que visitou a casa, dias depois, assistiu a nova série de
fenômenos, como o de uma garrafa de verniz que voou pelos ares e
espatifou-se na porta do corredor. A garrafa, segundo testemunho
do capitão, estava fechada a chave num armário do salão.
A exibição não
desanimou os bravos sacerdotes. Voltaram no dia seguinte com o
que o autor da narrativa classifica de “artilharia pesada” de
seu ministério, reforçados com um terceiro padre, muitos
acólitos, numerosos ícones e, naturalmente, nova provisão de
água benta. Seria um ritual religioso dos mais completos e
solenes.
Mal começaram, uma
pedra estilhaçou o vidro da janela da cozinha. Depois disso, um
pedaço de pau e um balde d`água levantaram vôo a partir da
cozinha e a água do balde derramou-se à vista dos pobres
sacerdotes. O pior, porém, aconteceu quando uma pedra, vinda não
se sabe de onde, precipitou-se, sem a menor cerimônia, dentro da
vasilha que continha água benta! A água foi aspergida com certa
pressa e os sacerdotes trataram de abandonar prudentemente a
casa, deixando seus assustados moradores entregues à própria
sorte.
Os fenômenos
continuaram, a despeito de outro ritual de exorcismo requisitado
pelo aturdido capitão. No dia seguinte ao do exorcismo, o leito
em que dormia o casal pegou fogo. E enquanto eles o apagavam de
um lado, o fogo recomeçou do outro. Ao mesmo tempo, dois pedaços
de tijolo chocavam-se continuamente contra a janela, reduzindo
quatro vidros a cacos.
Nessa altura, o
capitão resolveu abandonar a casa, mas tentou, antes, um quarto
exorcista que parece ter obtido algum êxito, porque os fenômenos
se reduziram por algum tempo a certos gemidos lúgubres. Ao cabo
de alguns dias, tudo recomeçou. Dia 22 o capitão convidou vários
amigos e os fenômenos se realizaram na presença de todos. O
ordenança, soldado Vasil, foi ferido ligeiramente por uma faca
que voou na sua direção. As coisas iam de mal a pior. A casa
ficou sob vigilância permanente de soldados, mas tudo em vão,
até que, a 23, após meia-noite, o teto incendiou-se e em pouco
tempo o imóvel ficou totalmente destruído. Foi impossível conter
o fogo, porque os bombeiros eram recebidos por “nuvens de fumaça
densa e fétida atiradas ao rosto”.
Os fenômenos,
porém, acompanharam o capitão na sua nova residência. Os objetos
continuaram a voar de um lado para outro. Dia 24 de junho, às
oito horas da manhã, o teto pegou fogo, mas foi possível
extinguir as chamas. Às três horas da tarde, novo incêndio,
iniciado no celeiro, também foi extinto graças à bravura e
iniciativa de um soldado, mas, às cinco horas, as chamas
irromperam novamente de vários pontos do teto e não somente a
casa do capitão, mas quatro outras foram totalmente destruídas.
Rigorosa
investigação oficial foi então realizada, mas serviu apenas para
registrar os fatos e documentá-los com o selo da fé pública,
pois nada havia a fazer. Três anos depois, nova sindicância
inútil, do ponto de vista prático, pois não havia o que julgar,
condenar ou absolver na justiça comum, e os juizes concluíram
inconclusivamente, se assim podemos dizer, que “nenhuma suspeita
existia contra quem quer que fosse”. O processo foi remetido ao
arquivo e lá é que o ilustre sábio e Conselheiro de Estado
Aksakof foi consultá-lo par o seu relato.
*
O outro caso foi
aproveitado por Aksakof em seu livro “Animismo e Espiritismo” e
se passou na residência de um senhor Shchapoff, na cidade de
Iletsky, nos Urais, Rússia. O relato de que se serve Bozzano é
do próprio Shchapoff.
Chegando a casa em
16 de setembro de 1870, após ausência de alguns dias, este
senhor encontrou a esposa profundamente impressionada com alguns
estranhos fenômenos ocorridos na casa, o que ele procurou levar
à conta de brincadeira. A família compunha-se da esposa, uma
criança de peito, a mãe do dono da casa e a sogra, bem como uma
cozinheira e mais dois empregados.
Na noite do dia
14, como a menina se mostrasse inquieta e agitada, a jovem
senhora havia pedido à empregada que tocasse um pouco de
acordeão para acalmá-la. Pouco depois, com a menina já
adormecida, a Sra. Shchapoff conversava com uma vizinha quando
tiveram a impressão de ver passar por elas um vulto, diante da
janela aberta. Iam sair para verificar, quando irrompeu num
cômodo da casa o som do acordeão executando a mesma música que a
empregada tocara antes, desta vez, porém, acompanhada de danças.
Pensaram, naturalmente, que a artista doméstica estivesse a
exercitar-se, embora àquela hora imprópria, mas encontraram-na
dormindo profundamente. Desperta, ajudou os outros habitantes da
casa, e mais a vizinha, na busca infrutífera por toda parte,
enquanto a música e as danças prosseguiam, e na verdade
prosseguiram pela noite adentro, até madrugada, não deixando
ninguém dormir.
Na noite seguinte,
às dez horas, recomeçou o estranho baile, que virou a noite, sem
que alguém pudesse descobrir a causa do fenômeno.
O Sr. Schchapoff,
no entanto, não estava convencido. Fez uma preleção à esposa
sobre os riscos da superstição, e não pensou mais no assunto. À
noite, após o chá, a casa posta na maior tranqüilidade, apanhou
um livro para ler. Após duas horas de leitura, começou a música
e o bailado fantasmagórico, sendo que o som parecia provir de um
ponto debaixo da cama da sua esposa, aliás, profundamente
adormecida. Enquanto ele se achava cautelosamente investigando o
assunto, ouviu pancadas ritmadas sobre o vidro da janela, no
quarto dela, como se tamboriladas por alguns “dedos carnudos”.
Pouco depois o som tornou-se mais nítido, batido agora – supunha
ele – pelas unhas. Nesse momento ouviu-se um golpe violento que
acordou a jovem senhora e, enquanto conferiam suas impressões,
pois ele lhe perguntava se fora ela quem fizera o ruído, ouviram
bater à janela do quarto contíguo. Foi ele para lá e escondeu-se
perto da janela, em tensa expectativa, a olhar para fora, sob o
luar claro da noite. Foi quando soaram dois golpes do lado de
dentro, na parede, à altura de seus ouvidos, tão violentos que –
diz ele – “ecoaram pela casa toda como um terremoto”.
Nesse ponto, ele
pôs um agasalho, chamou o jardineiro, apanhou o fuzil e firam
dar uma batida em torno da casa, acompanhados dos cães soltos, a
fim de apanharem o culpado. Nada! A lua brilhava tranqüila e
claríssima sobre o manto de neve, onde não havia rastro nem de
gente nem de animal.
Ao retornarem a
casa, foram informados de que a dança não se interrompera.
Subiram à mansarda, de onde parecia provir, e tudo silenciou,
mas nada encontraram.
No dia seguinte,
as manifestações foram menos violentas e, após dois dias,
cessaram por completo.
No dia 20 de
dezembro, porém, o Sr. Schchapoff teve a idéia de pedir à
empregada que tocasse seu acordeão e dançasse um pouco para
algumas visitas, e, mal começou ela a “performance”, o ritmo
passou a ser acompanhado pelas batidas habituais nos vidros da
janela. Os fenômenos duraram até cerca de meia-noite. Na noite
seguinte, recomeçaram, desta vez acompanhados por deslocamentos
de objetos, que voavam daqui para ali e se chocavam contra o
chão, as paredes ou o teto. Havia uma particularidade nesses
choques: objetos macios chocavam-se com estrépito, enquanto
objetos mais pesados e sólidos, caiam mansamente, sem ruído.
Em 8 de janeiro, a
senhora viu sair um pequeno globo luminoso de sob a sua cama,
crescer de tamanho e desaparecer. No dia seguinte, os fenômenos
duraram até às 3 horas da manhã e pareciam agora acompanhar a
jovem senhora, pois aconteciam sempre à sua volta.
Ante aquela série
impressionante de manifestações, a família resolveu abandonar a
casa por um mês, deixando apenas os empregados. Tudo voltou à
calma. Certo dia em que o Sr. Schchapoff visitava a casa em
companhia de um amigo, pediu à empregada para tocar e dançar,
mas nada aconteceu.
Em 21 de janeiro,
voltaram e, com eles, os fenômenos. Assim que a esposa
deitava-se para dormir começavam os golpes e os objetos
disparavam a voar de um lado para outro. Com receio de algum
acidente mais sério, pois uma faca foi atirada com grande
violência, trancaram os talheres num armário, mas, mesmo assim,
eles eram misteriosamente retirados e continuavam a voar em
todos os sentidos.
Dia 24, à noite,
certificaram-se de que o fenômeno era inteligente, pois
acompanhava os diferentes ritmos de algumas canções que cantaram
com um amigo da família. A resposta era inteligente, até mesmo
para os ritmos “modulados mentalmente”. Estabeleceu-se então o
seguinte diálogo precário, mas suficiente para se formular um
juízo:
- Você que se
manifesta é um homem?
Silêncio.
- É um Espírito?
Um golpe.
- Bom?
Silêncio.
- Mau?
Dois golpes
violentos.
Ao tentar
identificar o Espírito por um nome, os circunstantes não foram
muito felizes, mas depois de muita hesitação e temor, o dono da
casa pronunciou o nome do demônio e deu-se um rebuliço terrível
ao recuarem todos espavoridos ante o tremendo golpe sobre a
porta.
Ouve outros
diálogos com “a força”, mas Bozzano salta sobre eles para
prosseguir a sua longa citação deste caso tão interessante. Uma
comissão de três pessoas de excelente nível intelectual foi
designada pelo Governador da Província para investigar a
fenomenologia. Instalaram-se em casa do Sr. Schchapoff com seus
aparelhos e, sem tardança, as manifestações começaram: objetos
voadores, ruídos, diálogos codificados com “a força”. Schchapoff
e a esposa consentiram em ser observados na cidade, por dois
médicos, um dos quais, o Dr. Dubinsky, não conseguia aceitar a
validade do fenômeno. Primeiro, disse que a pobre senhora
produzia os ruídos com a língua, mas, ao obrigá-la a ficar com a
língua de fora, verificou que os sons continuavam. Depois, achou
que eram as batidas do coração dela! Como se sabe, até hoje,
vale tudo em matéria de “explicação” para muita gente.
A influência de
Dubinsky sobre a comissão foi decisiva, ao declarar que
fenômenos semelhantes já haviam sido investigados antes e
acabavam sempre em revelações mais ou menos engenhosas de
fraude. A comissão, que estava inclinada a atestar os fatos,
recuou, e a família Schchapoff teve o desprazer de ler no jornal
local o relato assinado pelos três membros – um dos quais era o
próprio diretor do jornal -, declarando que os fenômenos eram
devidos a ação exclusivamente humana. Logo em seguida, recebeu o
Sr. Schchapoff um ofício do Governador, dizendo que a
investigação havia apurado que os fenômenos eram perfeitamente
explicáveis e, por conseguinte, ficava ele advertido de que
incorreria em punições severas se eles voltassem a produzir-se.
Qual não foi,
pois, a aflição da família, quando, aí pela altura do mês de
março, recomeçou o espetáculo, mesmo na ausência da jovem esposa
que parecia ser a geradora de energias que alimentavam a
fenomenologia. Um incidente algo espetacular ocorreu logo de
início: o sofá, em que estava sentada a velha senhora Schchapoff,
deu quatro saltos no assoalho, deixando-a em pânico, enquanto o
filho presenciava a inusitada cena, em plena luz do dia.
Daí em diante, os
fenômenos se intensificavam. Certa noite, destacou-se de um
lavabo na sala uma fagulha azulada que deslizou rapidamente em
direção ao quarto da senhora e lá ateou fogo num “peignoir” de
algodão que se encontrava sobre uma pequena mesa de canto. As
chamas foram extintas pela sogra do dono da casa, que ali se
achava providencialmente.
Enquanto o Sr.
Schchapoff passou dois dias na cidade, confiando a guarda da sua
casa a um vizinho e amigo, repetiram-se os fenômenos luminosos
com fagulhas deslizando daqui para ali. Numa dessas
oportunidades as vestes da senhora pegaram fogo e, ao
socorrê-la, o vizinho ficou com as mãos gravemente queimadas. De
outra vez, foi o leito dela que se incendiou.
Em outra
oportunidade, estavam a conversar o vizinho e um dos empregados,
quando ouviram um grito desesperado no interior da casa.
Acudiram espavoridos e deram com a senhora envolta numa coluna
de fogo, que a cercava por todos os lados. Novas queimaduras
para o dedicado vizinho, que conseguiu extinguir o fogaréu.
Desmaiada, com a roupa carbonizada, foi ela conduzida para um
leito, mas sem queimaduras.
Era o fim. Nessa
mesma noite deixaram a casa fatídica e foram dormir na
vizinhança, com uma família de cossacos, onde ficaram por algum
tempo. A casa assombrada foi vendida, e quando a família
mudou-se para outra os fenômenos felizmente não a acompanharam.
O Sr. Schchapoff
relata ainda fenômenos curiosos de materialização de mãos em
várias oportunidades.
Observa-se,
portanto, neste caso, uma grande riqueza de fenômenos: efeitos
sonoros, luminosos, materializações, deslocamento de objetos,
além dos diálogos, o que leva Bozzano a ressaltar, mais uma vez,
“a unidade fundamental de todas as manifestações metapsiquicas,
sejam elas espontâneas, como nos fenômenos de assombração, seja
nas provocadas, como nas sessões experimentais”.
Ao analisar o caso
com a sua costumeira precisão e clareza, Bozzano mais uma vez
insiste numa das poucas teses com as quais não me sinto muito à
vontade, ou seja, a da causa local.
Como os fenômenos
não se produziram mais na nova residência, conclui ele que a
causa suficiente das manifestações não estava na mediunidade da
jovem senhora. E prossegue:
- Pode-se,
portanto, concluir que os fenômenos de assombração se produzem
quando se combinam dois fatores igualmente necessários: a
presença de um sensitivo num ambiente mediunizado.
Não me parece que
a questão deva ser colocada de maneira tão dogmática, embora
seja de admitir-se considerável influência do ambiente. Não,
porém, pelas razoes que invoca o eminente pesquisador, pelo
menos a meu ver. Ao que suponho, ele não examinou uma hipótese
inteiramente válida, que explicará muito melhor o fato, mesmo
porque, em inúmeros exemplos, os fenômenos acompanham as pessoas
em novas residências, como vimos, há pouco, no caso do Capitão
Jandachenko. Nas manifestações que acabamos de relatar, parece
bastante evidente que um Espírito desencarnado (ou mais de um)
desejava apenas expulsar a família daquela casa. Conseguido seu
intento, ele deixou em paz seus ex-inquilinos. Quanto a obvia
mediunidade da Sra. Schchapoff, nada mais se diz dela, mas é de
esperar-se que a faculdade permaneceu com ela, ainda que
inativa. Não vejo razão para invocar a teoria do ambiente
mediunizado para explicar o fenômeno, de vez que o ambiente é
apenas cenário passivo da ação desenrolada e não componente
ativo desta.
É notável, ainda,
neste caso, o fato de que as chamas que atingem a senhora não
lhe causem dano algum, ao mesmo tempo que provocam graves
queimaduras na pessoa que a socorre duas vezes.
Conclui Bozzano
que “a origem espírita dos fatos não deixa dúvida alguma”.
Há, ainda, um caso misto que o autor extrai do livro de Robert
Dale Owen, intitulado “Footfalls on the Boundary of Another
Worls”, em que os fenômenos físicos se mesclam a fenômenos
intelectuais, além de notável manifestação de voz direta, em
repetidas ocasiões, no seio de uma família inglesa.
*
Segue-se um
capítulo final de conclusões, do qual extrairemos apenas os
últimos períodos, por mais que nos atraiam as inteligentes
discussões do autor.
- Recapitulemos,
portanto, dizendo que, segundo a análise comparativa aplicada
aos fenômenos de assombração, conseguimos colocar em evidência
que a hipótese espírita, compreendida sob as duas formas de
transmissão telepática do pensamento entre mortos e vivos e de
manifestações de defuntos pela mediunidade, é a única
verdadeiramente suscetível de explicá-los na maior parte dos
casos, ao passo que as hipóteses da “telepatia entre vivos” e da
“psicometria” e a do “animismo”, se é que são necessárias à
plena compreensão dos fatos, não podem ser consideradas senão
como hipóteses complementares. (O destaque é da tradução
francesa).
Pouco restaria a
dizer, mas é preciso ressaltar, ainda uma vez, que não faltam
pesquisas sérias e extremamente bem documentadas sobre enorme
gama de fenômenos mediúnicos. É mais fácil rir dessas
manifestações, e até mesm |