O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
Suicídio Impedido Pelo Espiritismo

Autor:
Allan Kardec

Fonte:
Revista Espírita
Novembro de 1864

HISTÓRICO

   

Escrevem-nos de Lyon, em 3 de outubro de 1864:

“Conheceis de reputação o capitão B...; é um homem de uma fé ardente, de uma convicção experimentada; dele já haveis falado em vossa Revista. Há algum tempo ele se encontrava nas margens do Saône, em companhia de um advogado, Espírita como ele; esses senhores, prolongando seu passeio, entraram num restaurante para almoçar, e logo viram um outro passeando no mesmo estabelecimento; o recém-chegado falava alto, mandava bruscamente, e parecia querer monopolizar só para ele o pessoal do restaurante. Vendo esse sem-cerimônia, o capitão disse em alta voz algumas palavras um pouco severas a respeito do recém-chegado. De repente, ele se sentiu preso de uma estranha tristeza. O Senhor B... é médium audiente; ouviu distintamente a voz de seu filho, do qual recebe freqüentes comunicações, e que murmurou ao seu ouvido: - Este homem que vês tão brusco vai se suicidar; veio aqui fazer sua última refeição”.

“O capitão se levantou precipitadamente, foi junto do alterado, e pediu-lhe perdão por ter expressado tão alto o seu pensamento; depois, arrastando-o fora do estabelecimento, disse-lhe: - Senhor, ides vos suicidar. Grande espanto da parte do individuo, velho de setenta e seis anos, e que lhe respondeu: - Quem pôde vos revelar uma semelhante coisa? – Deus, replicou o Senhor B... Depois, se pôs a falar-lhe tão docemente e com tanta bondade da imortalidade da alma, e, reconduzindo-o a Lyon, o entretinha sobre o Espiritismo e de tudo o que, em semelhante caso, Deus pode inspirar para encorajar e consolar”.

“Velho lhe contou a sua história. Antigo ortopedista tinha sido arruinado por um sócio infiel. Tendo adoecido, necessitou ficar por muito tempo no hospital; mas, uma vez curado, sua saúde lançou-o no desemprego, sem nenhum recurso. Ele foi recolhido por uma pobre calceira, criatura sublime que, durante meses inteiros, alimentou o velho sem disso estar obrigada por nenhum laço senão a piedade. Mas o medo de ser carga tinha levado o velho ao suicídio”.

“O capitão foi ver a digna senhora, encorajou-a, ajudou-a; mas quando é preciso viver, o dinheiro vai rápido, e ontem todo o pobre utensílio da obreira teria sido vendido se alguns espíritas não tivessem recomprado os poucos móveis de seu único quarto; o Mont-de-piété havia recebido, depois de um ano que ela alimentava o velho, colchões, os lençóis etc. Isso foi retirado graças aos bons corações tocados desse generoso devotamento; mas isso não é tudo: é preciso continuar até que o velho tenha obtido um refugio nas pequenas irmãs dos pobres. Cárita me fez escrever, a esse respeito, uma comunicação que vos dirijo com a expressão de todo o nosso reconhecimento por vós, caro senhor, que nos tornastes espíritas”.

“Quanto a mim, não me esqueço de que me haveis convidado para voltar convosco, quando retornardes”.

Eis esta comunicação:

Apelo aos bons corações.

O Espiritismo, esta estrela do Oriente, não vem somente vos abrir as portas da ciência; faz mais do que isso: é um amigo que vos conduz uns aos outros, para vos ensinar o amor ao próximo e, sobretudo a caridade; não essa esmola degradante que procura na sua bolsa a menor moeda para lançá-la não mão de um pobre, mas a doce mansuetude do Cristo, que conhece o caminho onde se encontra o infortúnio oculto.

Meus bons amigos encontrei no meu caminho uma dessas míseras das quais a história não fala, mas das quais o coração se lembra quando foi testemunha de tão rudes provas. É uma pobre mulher; ela é mãe; tem um filho sem ocupação há vários meses; além disso, ela alimenta uma infeliz trabalhadora como ela; e, por acréscimo, um velho vem cada dia encontrá-la na hora em que se almoça, quando há bastante para almoçar. Mas no dia em que o necessário falta, as duas pobres mulheres, criaturas admiráveis de caridade, dão seu repasto aos dois homens: o velho e a criança, pretendendo que tendo tido fome, eles foram os primeiros a comer. Vi isso se renovar muito freqüentemente; vi o velho, num momento de desespero, vender sua última roupa, e querer, por um ato insigne de loucura, dizer um último adeus à vida, antes de partir para o mundo invisível onde, Deus nos julga a todos.

Vi a fome imprimir seus apertos sobre esses deserdados do bem-estar social; mas as mulheres pediram a Deus com fervor, e Deus as atendeu. Já colocou irmãos, os espíritas, sobre seus passos, e quando a caridade chama, os corações devotados respondem. As lágrimas de desespero já secaram; não resta mais do que angústia do dia de amanhã, o fantasma ameaçador do inverno com seu cortejo de geadas, de gelo e de neve. Eu vos estendo a mão em favor do infortúnio. Os pobres, nossos amigos, são os enviados de Deus; eles vêm nos dizer: Nós sofremos, Deus o quer; é nosso castigo, e é ao mesmo tempo um exemplo para a nossa melhoria. Em nos vendo tão infelizes, vosso coração se enternece, vossos sentimentos se alargam, aprendeis a amar e a lamentar o infeliz; socorrei-nos, a fim de que não murmuremos e também porque Deus vos sorri do alto de seu belo paraíso.

Eis o que disse o pobre em seus farrapos; eis o que repete o anjo guardião que vos vela, e o que vos repito, simples mensageira de caridade, intermediária entre o céu e vós.

Sorri ao infortúnio, ó vós que sois tão ricamente dotados de todas as qualidades do coração; ajudai-me em minha tarefa; não deixeis tornar a fechar este santuário de vossa alma onde o olhar de Deus mergulhou; e, um dia, quando reentrardes em vossa mãe-pátria, quando o olhar incerto, a providência ainda mal assegurada, procurardes o vosso caminho através da imensidade, eu vos abrirei, nos dois batentes, as portas do templo onde tudo é amor e caridade, e vos direi: Entrai, meus amados, eu vos conheço!
Cárita.

A quem se fará crer que está aí a linguagem do diabo? Foi a voz do diabo que se fez ouvir no ouvido do capitão sob o nome de seu filho, para advertir que esse velho ia se suicidar, e lhe dar, ao mesmo tempo, o remorso de ter dito palavras que deveriam feri-lo? Segundo a doutrina que um partido procura fazer prevalecer, e segundo a qual só o diabo se comunica, esse capitão deveria ter repelido como satânica a voz que lhe falou; disso teria resultado que o velho teria se suicidado, que o mobiliário dos pobres obreiros teria sido vendido, e que teria talvez morrido de fome.
Entre os dons que recebemos em sua intenção, há um dos que cremos dever mencionar, sem no entanto nomear seu autor. Estava acompanhado da carta seguinte:

Senhor Allan Kardec,

Fui informado por um meu parente, que o teve de voz, do relato da bela ação verdadeiramente cristã realizada por uma pobre operária de Lyon para com um velho infeliz, o qual o parente me mostrou também um apelo muito eloqüente em seu favor por um Espírito que se dá sob o doce nome de Cárita. A seu pedido se reconhecesse ali a linguagem do demônio, ter-lhe-ia respondido que os nossos melhores santos não falariam melhor; é a minha opinião; é porque tomo a liberdade de pedir-lhe uma cópia dela. Senhor, não sou senão um pobre padre, mas vos envio o último da viúva em nome de Jesus Cristo, por essa brava e digna mulher. Aqui inclusa, encontrareis a módica soma de cinco francos, lamentando não poder fazer melhor. Peço-vos o favor de calar meu nome.

Dignai-vos aceitar, etc.

O Abade X...