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A mídia e o
carisma de apresentadoras de programas de televisão propagaram
e multiplicaram nomes pelos quadrantes do Brasil e romperam
fronteiras: Nika é uma delas. Quem não a conhece? Passou a ser
apelido de loiras e até loiros de todas as idades, pela
popularidade e aceitação dessa imagem de nosso tempo. Hoje, eu
vi uma Nika. Como tantas outras que se apresentam no cotidiano
dos vídeos, anúncios e artigos de consumo, ela também se
destacava, mesmo sem ser produzida, e me polarizou a atenção
por sua presença no grupo que se formava à saída do moderno
supermercado.
Em meio aos
adolescentes e quase adultos, mendigos e maltrapilhos, era a
única menina. Pés descalços e muito sujos, cabelos loiros,
desuniformes e embaraçados, higiene pessoal comprometida e
prematuros vícios de postura; sua face direita estampava uma
tênue mancha escura e porosa - talvez alguma cicatriz em
evolução, talvez alguma deficiência na pigmentação da pele,
talvez alguma sujeira momentânea... não sei...
Desnutrida e de gestos lerdos, apesar da juventude, mais parecia
uma boneca de pano, deixada ao chuvisco da tarde, esquecida e
molhada.
Difícil avaliar sua idade, diante dos rigores que a vida lhe
reservou; possivelmente não mais que a faixa dos anos de
fantasia que alentam e fazem sonhar as mais empolgadas
debutantes.
Seu nome de
batismo adormeceu no passado, se é que teve a graça desse
sacramento ou um registro em cartório.
Agora é
simplesmente Nika, só isso.
Como se fosse
um estilizado cachimbo da paz, uma garrafa de cachaça
peregrinava pelo grupo de boca em boca. Uma cena de estarrecer!
Do gole que lhe foi oferecido com o sabor híbrido e ardente do
gargalo, ela sorveu um trago sem contrair a face, deixando
escorrer as teimosas gotas pelo canto da boca e alguns respingos
sobre o surrado vestido que um dia foi azul.
Olhei-a
atormentado e surpreso, pelo automatismo de seu gesto, e nada
disse; sequer transformei em palavras minhas idéias confusas.
Ainda assim, ela me olhou sorrateira e respondeu sonora e
incisiva à silenciosa pergunta que guardei no pensamento:"É
melhor beber do que roubar!"
Embaralhei os
gestos e palavras de sua frase espontânea, buscando uma
composição para lhes descobrir lógica ou incoerência,
ignorância ou sabedoria, protesto ou desabafo...
Seu olhar disse
tudo e me trouxe uma verdade clara e lamentável. Hoje, eu vi
uma Nika!
Adolescente sem
rumo na calçada.
Sem postura, sem força de opinião.
Podia ser a minha filha.
Ou a sua.
Filha da sociedade em desunião.
Herdeira do amor pelo nada.
Os passantes nada sabem do seu ontem.
Presumem as sombras do seu amanhã.
Quanta história você já tem para contar, lembrar, esquecer!
Quanta queixa ecoa no vazio de todo dia e toda noite!
E quantos riscos, maldades e agressões você teve que enfrentar
para sobreviver, caminhando pelas sendas imprevisíveis do
perigo!
Que pena, amiguinha sem nome; sequer sabemos se ainda é menina,
ou se a brutalidade dos homens já foi impiedosa com a sua
pureza!
Que pena que a rua lhe adotou!
E nenhum de nós lhe estendeu a mão, para impedir a sua
caminhada para o abismo!
Afinal, quem é mais pecador?
Aquele que não recebe ou aquele que não doa?
Quem é?
Quem somos?
Somos todos culpados.
Todos nós!
Que Deus lhe
proteja Nika!
E que nos perdoe também!
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