O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 

Título :
O que Camões Pediria

Autor:
Richard Simonetti

Data:
01/03/2001

Fonte:
Livro: Viver em Plenitude

MENSAGENS

         

P. -  Alguma outra coisa incumbe aos Espíritos fazer, que não seja melhoraram-se pessoalmente?

R. – Concorrem para a harmonia do Universo, executando as vontades de Deus, cujos ministros eles são.  A vida espírita é uma ocupação continua, mas que nada tem de penosa, como a vida na Terra, porque não há a fadiga corporal, nem as angústias das necessidades.

Questão No. 558 – O Livros dos Espíritos.

 

Desde priscas eras, sempre que cogitou da imortalidade o Homem imaginou a morte como um tribunal onde seria julgado por seus atos, habilitando-se a tormentos ou bem-aventuranças, de conformidade com o bem ou o mal que houvesse prevalecido em seu comportamento.

Na  Idade Média incrustou-se no pensamento cristão a doutrina das penas eternas.  O indivíduo que morresse em estado de pecado, comprometido com o erro, iria irremediavelmente para o inferno, uma penitenciária do além, diante da qual as piores da Terra pareceriam aprazíveis recantos de paz.

Ali, além do confinamento irremissível, a presença terrível dos demônios, sádicos carcereiros a exercitar incansavelmente o prazer de atormentar os condenados.

A justificativa para esse comportamento exprime um monumental erro teológico.  O demônio, criado para o Bem, como todos os filhos de Deus, rebelou-se, organizando o império do mal.  Os súditos seriam as almas dos mortos, infelizes Espíritos renegados pelo Criador por aceitarem suas insidiosas sugestões.

Que teria sido feito da onipotência divina, incapaz de reconduzir o demônio ao Bem ou de evitar que comprometesse suas vitimas com o mal?

Onde a justiça num castigo sem remissão?

Onde a misericórdia nessa história de horror eterno?

Como conceber o amor divino incapaz de descerrar as portas do inferno?

Por outro lado, os que morressem em estado de graça, reconciliados com Deus pelo cultivo da fé e a aceitação dos sacramentos, iriam para um paraíso celeste, desfrutando de beatífico descanso eterno.  Ali a realização do sonho supremo dos indolentes: férias para sempre.

Uma demonstração perfeita de como essa idéia estava impregnada no pensamento cristão, refletindo-se na arte medieval, está no famoso Soneto XIX, de Camões:

 

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no céu, eternamente,
E viva eu cá na Terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma coisa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo daqui me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.  

 

O Espiritismo desfaz essas fantasias.

Embora possamos situar a morte como um balanço existencial, a definir nossa posição na Espiritualidade, não há penas irremissíveis e muito menos perene repouso.

Eterno é o toque de Deus em nós, exprimindo-se em nossa perfectibilidade, o impulso de evoluir sempre, descortinando horizontes nos caminhos da perfeição.

A imanência divina manifesta-se inexoravelmente como indefinível insatisfação nos Espíritos em estágios medianos de evolução, corporificando-se em gloriosos ideais, na medida em que desdobram experiências e adquirem conhecimentos, na sucessão dos séculos sem fim.

Os que sonham com um céu de beatitude contemplativa verificarão, quando chegar sua hora, o equívoco em que incorreram.  A vida além-túmulo é estuante, com labores e responsabilidades que se ampliam proporcionalmente à evolução do Espírito.

Cumpre-se a dinâmica do Universo, presente desde as manifestações primitivas de vida às mais altas expressões de espiritualidade.  Do verme, que nas profundezas do solo o fertiliza, aos mundos que se equilibram no espaço.

André Luiz, o apreciado médico desencarnado que se manifesta pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, oferece-nos uma visão bem objetiva dessa realidade.  Mostra-nos o Plano Espiritual, nas regiões próximas à Terra, com vida semelhante à nossa.  Ali os Espíritos com maturidade para habitar cidades como “Nosso Lar”, que ele descreve em obra homônima, identificam-se num compromisso comum: trabalho.

Importante destacar que não há privilégios, mordomias, apadrinhamentos, típicos das sociedades terrestres.  Cada Espírito situa-se numa atividade compatível com seu merecimento.

Importante destacar que não há privilégios, mordomias, apadrinhamentos, típicos das sociedades terrestres. Cada Espírito situa-se numa atividade compatível com seu merecimento.

O mesmo princípio se estende às esferas mais altas, onde há Espíritos que cumprem grandiosas tarefas.  Jesus é o exemplo maior.  Segundo Emmanuel no livro “A Caminho da Luz”,  psicografia de Chico Xavier, Ele é o governador do nosso planeta, com a missão de conduzir os Espíritos que aqui evoluem, encarnados e desencarnados, desde os primitivos que ensaiam a razão aos gênios tutelares que atuam como seus prepostos.

Nesse processo, qualquer beneficio colhido será sempre fruto do trabalho, do esforço pessoal, na vigência plena do princípio evangélico: “A cada um segundo suas obras”.

O conhecimento dessa realidade nos oferece muita segurança e estimulo para o aprimoramento espiritual, moral e intelectual, conscientes de que o nosso futuro será sempre o resultado do que estamos fazendo no presente.

Uma senhora de setenta e dois anos estava aprendendo a tocar piano.  Perguntaram-lhe se julgava razoável aquele esforço.  Afinal, restava-lhe pouco tempo. Não desfrutaria do aprendizado.  Ela respondeu:

- Penso diferente.  Não só alegro meu presente com uma atividade que me é muita grata, como preparo o meu futuro. Regressarei à pátria espiritual com noções de musica que enriquecerão meus patrimônios artísticos.  Estou longe da pureza necessária para tocar harpa com os anjos, mas sempre haverá um piano para mim.

Onde quer que estejamos, encarnados ou desencarnados, nossa realização como filhos de Deus subordina-se ao empenho de sintonia com a harmonia universal, a partir da mobilização de nossas potencialidades criadoras.  Se Camões estivesse consciente dessa realidade jamais suporia sua amada em beatitude eterna.  E tudo o que haveria de lhe pedir seria que o ajudasse a lutar contra suas imperfeições, aprimorando-se moral e espiritualmente.  Assim, quando chegasse sua hora, mais cedo ou mais tarde, segundo os desígnios divinos, poderiam seguir juntos, identificados nos mesmos propósitos de aprender sempre mais e servir sempre melhor.

       

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