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Finda a
crucificação, espraiou o Mestre o olhar pela turba
inconsciente. As opiniões contraditórias do povo
alcançavam-lhe os ouvidos. Ocultavam-se os beneficiários de
seu amor. Era constrangido, agora, a permanecer entre o insulto
dos acusadores e o escárnio da multidão.
Angustiado,
identificava a maioria dos semblantes.
Ali,
comprimiam-se pessoas da cidade que lhe conheciam a missão
divina; mais além, acotovelavam-se romanos aos quais socorrera,
generoso, ou romeiros de regiões diversas, que lhe deviam
favores e benefícios. Quase todos haviam comparecido à
festividade de sua entrada triunfal em Jerusalém,
comentando-lhe o feito, na ressurreição de Lázaro, ou
recordando-lhe entusiasticamente, a virtude, a cooperação, o
ânimo e o serviço.
Não haviam
decorrido muitas horas e as mesmas bocas ridicularizavam-no, sem
piedade.
Por que não
reagira, em recebendo a ordem de prisão?
Não seria
razoável a fuga dos discípulos diante de sua tolerância em
frente aos sequazes dos sacerdotes?
Não salvara a
tantos? Por que não remediara a si mesmo?
Ensinara a
resistência ao crime e às tentações... por que se entregava,
assim, como desordeiro vulgar?
Não seria
vergonha atender a missionário como aquele, incapaz de qualquer
reação? Entretanto, um dia, indignara-se no templo, perante os
mercadores infiéis...
Que razões o
moviam a não recorrer à justiça do mundo?
Contrariamente,
a toda expectativa, aceitara a prisão sem resistência!
Deixou-se conduzir como criança pela pior companhia,
submeteu-se aos açoites e bofetadas...
Deixou-se
vestir de uma túnica escandalosa, ele que era simples e sóbrio
por excelência, nem reclamou contra os espinhos com que lhe
coroaram a fronte...
Aceitou a cruz
como se a merecesse e, por fim, ó ridículo supremo!, não se
revoltou quando o exibiram no madeiro, seminu, sob apupos e
gargalhadas...
Jesus ouvia as
opiniões que se entrechocavam, guardando silêncio.
Onde estaria o Evangelho, se reagisse? Para onde enviaria os
seguidores de sua palavra se lhes abrisse no coração a sede de
vingança? Que seria do Reino de Deus, se pretendesse um reino
dominador na Terra? Onde colocaria a Justiça do Pai, se também
duelasse com a justiça dos homens? Onde situava o auxilio
divino, de que era portador, se não desculpasse a ignorância?
Como demonstraria o amor de que se fizera pregoeiro, lançando
chamas de cólera, exigindo reivindicações e castigando os
escarnecedores, já de si mesmos tão infelizes? Deveria acusar
publicamente os organizadores do escândalo, dando-lhes pasto
aos sentimentos perversos ou deveria trata-los com o silêncio,
para que tivessem de enxergar a si próprios?
O Mestre
espraiou o olhar pela multidão desvairada, lembrou-se dos
amigos distantes e fixou os adversários presentes, meditou nas
profundas perturbações da hora em curso, considerou as
necessidades espirituais de cada homem, compreendeu o imperativo
da Vontade de Deus e, já que era indispensável dizer alguma
coisa, movendo os lábios na direção do futuro de sua
doutrina, levantou os olhos da Terra para os Céus e murmurou
compassivo: - "Perdoai-lhes, meu Pai, porque não sabem o
que fazem..."
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