Ana Maria tentou
alcançar com suas mãozinhas atrofiadas uma bolinha de sol que se
refletiu no vidro da janela do “Fusca”. Essa foi a primeira
manifestação aparente de seu relacionamento com o mundo
exterior.
O acontecimento
nos foi relatado justamente quando apresentávamos o relatório de
reavaliação do caso aos seus pais.
Ana Maria, menina
linda, parecida com os anjos dos cartões de Natal, branca como
um lírio, franzina em seus três anos de vida, apresentava
quadriplegia e retardo mental em grau profundo. Dezoito meses de
tratamento diário com Fisioterapia e Estimulação Geral não
tinham conseguido resultados expressivos. Apenas haviam
prevenido maiores deficiências, e conservado a movimentação
passiva das grandes articulações.
Ao nível psíquico,
a situação parecia estacionada. Nenhuma iniciativa nem traços de
reconhecimento e diferenciações tinham sido constatados. A
afetividade não se exteriorizava. As respostas aos estímulos
sensoriais eram fracas, quase inexistentes. A menina linda e
suave não fixava seus olhos, exceto no “vácuo”.
Foi quando o sol
ofereceu a sua contribuição. Na forma poética de brinquedo
circular projetou sua miniatura num jogo de sombras no vidro do
carro que conduzia a criança aos exercícios diários.
Deitada no colo do
pai, como num leito almofadado de amor, de repente,
inesperadamente, seus olhos se fixam em alguma coisa que dançava
no vidro do “Fusca”, aumentando a diminuindo de tamanho.
Um meio sorriso
iluminou a expressão facial da menina, e um movimento
voluntário, focalizado, dificílimo, conseguiu ser feito para
conduzir as próprias mãos na direção do presente oferecido pelo
sol.
Por que exatamente
aquela bolinha dourada, intangível, inexistente, seria o centro
do primeiro interesse, a primeira porta a se abrir para o
aproveitamento da experiência na vida de Ana Maria?
Bolas grandes de
plástico e de pano pintadas com cores berrantes, bolas
pedagógicas, bolas de vários tamanhos, bolas tilintando ruídos,
borrachas e massinhas arredondadas colocadas sob pressão nas
mãos da menina, tinham falhado em seus objetivos.
O sol viera nos
relembrar uma lição freqüentemente esquecida: É preciso
persistir sempre porque não há trabalho que não cause
transformação, e transformar é a motivação da vida.
Era véspera de
Natal. Os pais de Ana Maria, felizes como nunca desde três anos
atrás, nos disseram: - A bolinha de sol foi nosso presente do
céu!
É possível que
muitos de nós, os normais, os adultos, os técnicos, os
espiritualistas, os estudiosos, os pesquisadores, nunca tenhamos
reparado nas bolinhas de sol.
Imergidos nas
ocupações e preocupações, repetindo conceitos-chaves, falando
bem da natureza, procurando o belo e o puro, contudo, é provável
que as bolinhas de sol tenham se jogado em vão sobre nossas mãos
abertas.
Talvez, por isso,
nossos corpos sem paralisias venham se movimentando
mecanicamente produzindo cansaço, e nossa inteligência sem
tropeços, em vez da auto-satisfaçao de poder assimilar a
mensagem profunda das coisas, venha se desgastando em
frustrações, e sinta-se afogada num oceano de palavras vazias.
O encontro de Ana Maria com a
bolinha de sol foi o encontro da tristeza com a esperança e, por
analogia, nos levou a refletir nos fundamentais problemas
humanos, sintetizáveis na necessidade de, vivendo nas sombras,
descobrir a luz refletida nelas, para atender, menos
inconscientemente, aos imperativos da evolução.
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