O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 

Título :
A Bolinha de Sol

Autor:
Nancy Puhlmann Di Girolamo


Data:
01/05/2003

Fonte:
Livro: As Aves Feridas na Terra Voam

MENSAGENS

       

Ana Maria tentou alcançar com suas mãozinhas atrofiadas uma bolinha de sol que se refletiu no vidro da janela do “Fusca”. Essa foi a primeira manifestação aparente de seu relacionamento com o mundo exterior.

O acontecimento nos foi relatado justamente quando apresentávamos o relatório de reavaliação do caso aos seus pais.

Ana Maria, menina linda, parecida com os anjos dos cartões de Natal, branca como um lírio, franzina em seus três anos de vida, apresentava quadriplegia e retardo mental em grau profundo. Dezoito meses de tratamento diário com Fisioterapia e Estimulação Geral não tinham conseguido resultados expressivos. Apenas haviam prevenido maiores deficiências, e conservado a movimentação passiva das grandes articulações.

Ao nível psíquico, a situação parecia estacionada. Nenhuma iniciativa nem traços de reconhecimento e diferenciações tinham sido constatados. A afetividade não se exteriorizava. As respostas aos estímulos sensoriais eram fracas, quase inexistentes. A menina linda e suave não fixava seus olhos, exceto no “vácuo”.

Foi quando o sol ofereceu a sua contribuição. Na forma poética de brinquedo circular projetou sua miniatura num jogo de sombras no vidro do carro que conduzia a criança aos exercícios diários.

Deitada no colo do pai, como num leito almofadado de amor, de repente, inesperadamente, seus olhos se fixam em alguma coisa que dançava no vidro do “Fusca”,  aumentando a diminuindo de tamanho.

Um meio sorriso iluminou a expressão facial da menina, e um movimento voluntário, focalizado, dificílimo, conseguiu ser feito para conduzir as próprias mãos na direção do presente oferecido pelo sol.

Por que exatamente aquela bolinha dourada, intangível, inexistente, seria o centro do primeiro interesse, a primeira porta a se abrir para o aproveitamento da experiência na vida de Ana Maria?

Bolas grandes de plástico e de pano pintadas com cores berrantes, bolas pedagógicas, bolas de vários tamanhos, bolas tilintando ruídos, borrachas e massinhas arredondadas colocadas sob pressão nas mãos da menina, tinham falhado em seus objetivos.

O sol viera nos relembrar uma lição freqüentemente esquecida: É preciso persistir sempre porque não há trabalho que não cause transformação, e transformar é a motivação da vida.

Era véspera de Natal. Os pais de Ana Maria, felizes como nunca desde três anos atrás, nos disseram: - A bolinha de sol foi nosso presente do céu!

É possível que muitos de nós, os normais, os adultos, os técnicos, os espiritualistas, os estudiosos, os pesquisadores, nunca tenhamos reparado nas bolinhas de sol.

Imergidos nas ocupações e preocupações, repetindo conceitos-chaves, falando bem da natureza, procurando o belo e o puro, contudo, é provável que as bolinhas de sol tenham se jogado em vão sobre nossas mãos abertas.

Talvez, por isso, nossos corpos sem paralisias venham se movimentando mecanicamente produzindo cansaço, e nossa inteligência sem tropeços, em vez da auto-satisfaçao de poder assimilar a mensagem profunda das coisas, venha se desgastando em frustrações, e sinta-se afogada num oceano de palavras vazias.

O encontro de Ana Maria com a bolinha de sol foi o encontro da tristeza com a esperança e, por analogia, nos levou a refletir nos fundamentais problemas humanos, sintetizáveis na necessidade de,  vivendo nas sombras, descobrir a luz refletida nelas, para atender, menos inconscientemente, aos imperativos da evolução.

              

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