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Um chefe de
família, devoto de Sri Ramakrishna, perguntou-lhe certa feita o
que ele deveria fazer caso uma pessoa má estivesse a pique de
ofendê-lo. Como resposta, o mestre contou-lhe a seguinte fábula:
Era uma vez um
homem santo que foi para determinada aldeia. Os moradores
preveniram-no de que não deveria percorrer certo caminho, porque
uma cobra venenosa que já matara diversas pessoas, estava sempre
por lá. “Ela não me fará mal algum”, disse ele, e prosseguiu em
seu caminho. Como era esperado, a víbora se aproximou, empinou a
cabeça, silvando e pronta para ferir; vendo, porém, o homem
santo, prostrou-se humildemente a seus pés. O sábio ensinou-lhe
que abandonasse a idéia de morder e matar. Obediente aos
ensinamentos, e havendo recebido a iniciação para a vida
espiritual com o nome sagrado de Deus, a serpente rastejou até
sua toca a fim de rezar e meditar; e o homem santo prosseguiu em
seu caminho. Não demorou e a criançada da aldeia percebeu a
mudança no comportamento da serpente. Sabendo-a agora
inofensiva, atacavam-na com paus e pedras, sempre que ela saía
da toca – e a serpente jamais revidava. Passado algum tempo, a
serpente tornou-se tão fraca com as agressões que mal conseguia
rastejar. Só muito raramente, à noite, arriscava-se a sair da
toca em busca de alimento.
Noutra ocasião,
retornando o homem santo à aldeia, contaram-lhe que a cobra
morrera. “Isso é impossível”, disse o sábio. “Ela não podia
morrer antes de haver alcançado o fruto da palavra sagrada na
qual tinha sido iniciada”. Dirigiu-se à toca da serpente e
chamou-a. Ouvindo a voz do mestre, a cobra apareceu
contorcendo-se, toda machucada dos golpes recebidos e
terrivelmente mirrada, pois não conseguia comer o suficiente. O
homem santo interrogou-a sobre as causas de seu estado
lastimável. “Venerável senhor”, replicou ela, “tu me pediste que
não molestasse nenhuma criatura: então eu passei a viver de
folhas e frutos. Talvez seja por isso que eu estou tão magra”. A
serpente desenvolvera a virtude do perdão, esquecendo-se de que
as crianças quase a tinham matado. Disse-lhe o sábio: “Não, deve
haver outra razão, além da falta de alimento, para que estejas
nesta condição. Procura lembrar-te”. Então, a serpente se
recordou: “Ah, sim, alguns garotos da aldeia me bateram, mas eu
não os mordi. Fiquei quieta e suportei-lhes os tormentos”. A
serpente esperava ser elogiada por ter resistido ao mal. Para
sua grande surpresa, entretanto, o homem santo irritou-se
profundamente: “Tola que foste!”, gritou. “Eu te disse para não
picar. Mas, acaso falei que não silvasses?”.
O chefe de família
que precisa viver em sociedade e cumprir suas obrigações para
com a família talvez precise silvar de vez em quando, a fim de
defender-se contra atos hostis. O homem bonzinho, que se deixa
enganar e fraudar, é um tolo, e não um virtuoso. Mas, embora o
chefe de família possa proteger-se, não deve nunca ser malicioso
ou vingativo. Pode silvar, mas jamais injetar veneno. O monge,
por sua vez, deve empenhar-se para por em prática a
não-violência em seu grau mais elevado.
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