O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 

Título :
Voltar a Outra Face

Autor:
Antônio F. Rodrigues

Data:
01/08/2004

Fonte:
Livro: Mensagens dos Mestres

MENSAGENS

  

Um chefe de família, devoto de Sri Ramakrishna, perguntou-lhe certa feita o que ele deveria fazer caso uma pessoa má estivesse a pique de ofendê-lo. Como resposta, o mestre contou-lhe a seguinte fábula:

Era uma vez um homem santo que foi para determinada aldeia. Os moradores preveniram-no de que não deveria percorrer certo caminho, porque uma cobra venenosa que já matara diversas pessoas, estava sempre por lá. “Ela não me fará mal algum”, disse ele, e prosseguiu em seu caminho. Como era esperado, a víbora se aproximou, empinou a cabeça, silvando e pronta para ferir; vendo, porém, o homem santo, prostrou-se humildemente a seus pés. O sábio ensinou-lhe que abandonasse a idéia de morder e matar. Obediente aos ensinamentos, e havendo recebido a iniciação para a vida espiritual com o nome sagrado de Deus, a serpente rastejou até sua toca a fim de rezar e meditar; e o homem santo prosseguiu em seu caminho. Não demorou e a criançada da aldeia percebeu a mudança no comportamento da serpente. Sabendo-a agora inofensiva, atacavam-na com paus e pedras, sempre que ela saía da toca – e a serpente jamais revidava. Passado algum tempo, a serpente tornou-se tão fraca com as agressões que mal conseguia rastejar. Só muito raramente, à noite, arriscava-se a sair da toca em busca de alimento.

Noutra ocasião, retornando o homem santo à aldeia, contaram-lhe que a cobra morrera. “Isso é impossível”, disse o sábio. “Ela não podia morrer antes de haver alcançado o fruto da palavra sagrada na qual tinha sido iniciada”. Dirigiu-se à toca da serpente e chamou-a. Ouvindo a voz do mestre, a cobra apareceu contorcendo-se, toda machucada dos golpes recebidos e terrivelmente mirrada, pois não conseguia comer o suficiente. O homem santo interrogou-a sobre as causas de seu estado lastimável. “Venerável senhor”, replicou ela, “tu me pediste que não molestasse nenhuma criatura: então eu passei a viver de folhas e frutos. Talvez seja por isso que eu estou tão magra”. A serpente desenvolvera a virtude do perdão, esquecendo-se de que as crianças quase a tinham matado. Disse-lhe o sábio: “Não, deve haver outra razão, além da falta de alimento, para que estejas nesta condição. Procura lembrar-te”. Então, a serpente se recordou: “Ah, sim, alguns garotos da aldeia me bateram, mas eu não os mordi. Fiquei quieta e suportei-lhes os tormentos”. A serpente esperava ser elogiada por ter resistido ao mal. Para sua grande surpresa, entretanto, o homem santo irritou-se profundamente: “Tola que foste!”, gritou. “Eu te disse para não picar. Mas, acaso falei que não silvasses?”.

O chefe de família que precisa viver em sociedade e cumprir suas obrigações para com a família talvez precise silvar de vez em quando, a fim de defender-se contra atos hostis. O homem bonzinho, que se deixa enganar e fraudar, é um tolo, e não um virtuoso. Mas, embora o chefe de família possa proteger-se, não deve nunca ser malicioso ou vingativo. Pode silvar, mas jamais injetar veneno. O monge, por sua vez, deve empenhar-se para por em prática a não-violência em seu grau mais elevado.

    

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