O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 

Título :
A Caridade (Apólogo Russo)

Autor:
Léon Tolstói (espírito)
Antônio F. Rodrigues (médium)

Data:
01/11/2004

Fonte:
Livro: Mensagens dos Mestres - Antologia Espírita e Popular

MENSAGENS

  

Um mujique comprou na feira seis belas cerejas para repartir com sua mulher e quatro filhos. De volta à casa entregou a cada um dos rapazes uma cereja, dizendo-lhes:

- Quero ver qual de vós saberá melhor utilizá-la.

No dia seguinte chamou o filho mais velho e perguntou-lhe:

- Vamos ver, Ivan: que fizeste com a tua cereja?

- Comi-a, pai – respondeu o rapaz – e estava excelente... Mas guardei o caroço para plantá-lo no horto, quando chegar o tempo. Daqui a dois anos havemos de ter cerejeira.

- Muito bem, meu filho aprovou o mujique. – Vejo que és previdente e isso me agrada em extremo, porque teu futuro estará assegurado e terás tranqüilidade em teus últimos anos de vida.

Em seguida chamou o segundo filho, o jovem Vanka.

- Pai – disse este – eu comi a cereja que me deste e a metade da que deste à mamãe. Como os caroços para nada nos serviam, atirei-os ao lixo.

O mujique franziu a teste e disse:

- Não procedeste bem, meu filho. Se tivesses seguido o exemplo de teu irmão, seriam duas as cerejeiras plantadas no nosso horto e maior colheita obteríamos quando frutificassem. És imprevidente e guloso, pois ainda ficaste com a metade da fruta que pertencia á tua mãe. Corrige-te desses dois defeitos, que não podem conduzir-te a bom caminho. 

Sérgio, o terceiro filho, não esperou que seu pai lhe fizesse a pergunta e adiantou-se, dizendo:

- Pai, eu recolhi os caroços que Vanka atirou fora, quebrei-os e comi o que havia dentro deles. Quanto à cereja, vendi-a a Teodoro Ivanovich, que me deu por ela tantos copeques que amanhã poderei comprar na feira uma dúzia daquelas frutas. Comerei duas e venderei as outras dez, e, assim, pouco a pouco, irei aumentando o meu capital.

- Teu modo de proceder não me agrada – disse o mujique, com tristeza – porque vejo que és egoísta e avarento. Nunca te faltará o que comer, mas ai do infeliz que bata à tua porta em busca de um pedaço de pão! Não é bom atirar fora as coisas, e não pensar no futuro, como fez Vanka, mas pior ainda é pensar apenas em si próprio e vender ao próximo pelo triplo do valor o que não nos custou absolutamente nada. Tem cuidado, e luta contra essas duas funestas tendências que esgotarão teu coração.

- E tu, meu filho – acrescentou o mujique – dirigindo-se ao caçula – que fizeste com atua cereja?

Sacha, adiantou-se confuso, baixando a cabeça, e respondeu:

Pai, Nikita, o filho de nossa pobre vizinha, está muito doente, e para aplacar a sede que a febre lhe causa eu lhe dei a cereja a comer. Se fiz mal, meu pai, perdoai-me.

- Perdoar-te? – exclamou o mujique, com os olhos úmidos.

- Vem a meus braços, meu filho. Foste tu, dos quatro, o que melhor utilizou meu presente, porque a caridade é a mais linda virtude da terra, a única que consola e alegra o coração.

 

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