O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 

Título :
Reminiscências

Autor:
Carlos A. Baccelli Xavier (médium)
Inácio Ferreira (espírito)

Fonte:
Livro: Do Outro Lado do Espelho

MENSAGENS

     

Deixei, por fim, o corpo em conseqüência de grave crise de enfisema pulmonar. O cigarro, ao longo do tempo, fizera o seu trabalho. Haviam sido inúteis todas as minhas tentativas para deixar de fumar. Nos últimos dias, porém, eu nem podia falar em cigarro... Creio que tudo fazia parte de uma preparação para que, além da morte, o desejo de fumar não me atormentasse. Digo-lhes, no entanto, que tive de lutar muito; vezes sem conta, levava a mão aos bolsos, procurando os cigarros de palha que costumava guardar no jaleco.

Desencarnar é operação das mais simples; difícil é esquecer os velhos hábitos... Confesso-lhes que, de certa forma, eu me sentia perdido, hesitando entre partir e ficar. Não era tanto apego aos bens, que eu sabia não mais me pertencerem – eu havia me despojado de quase todos eles ainda em vida -, mas a insegurança de quem se sente numa encruzilhada.

Nos momentos de agonia, enquanto tentava respirar com o auxílio do balão de oxigênio, via diversos vultos ao meu lado, semblantes amigos que eu podia identificar; todavia, nos recessos do ser, eu me sentia a sós – a sós com o que eu fizera de mim mesmo, ao longo de uma existência que poderia ter sido mais profícua.

Sentindo que não adiantava continuar resistindo, encorajei-me nas preces dos amigos que oravam em silêncio, ao redor do meu leito e entreguei-me. Pude notar quando os laços que me mantinham preso ao corpo se afrouxaram. A consciência entrou numa espécie de turbilhão e senti-me caindo para dentro de mim...

Imagens de mim mesmo começaram, céleres, a desfilar diante dos olhos que eu havia cerrado para o mundo. O conhecimento espírita adquirido a peso de ingentes sacrifícios me assessorava na inevitável introspecção. Sem exagero, afirmo-lhes que a minha condição de médico psiquiatra de nada me valeu naquela hora: sequer me veio à lembrança, em forma de socorro, pelo menos uma das teorias dos grandes luminares da Psicanálise. Um medo cada vez maior da verdade – do confronto inevitável comigo – foi, aos poucos, se apossando de mim... Eu não havia sido tão benemérito quanto me consideravam!

A considerável distância, mas como se ainda permanecesse de ouvidos colado ao corpo, pude escutar quando o médico, chamado às pressas, sentenciou:

- Acabou!...

Quando eu o ouvi dizer que tudo estava consumado, comecei, estranhamente, a me sentir mais leve ainda... Eu me compararia, naquela situação, a uma pluma soprada em rodopios pelo vento. Onde estaria o chão que eu não conseguia tocar?!.

Devagar fui me tranqüilizando, buscando concentrar esforços na oração. Eu me sentia frágil! – mais frágil do que propriamente enfraquecido. Instante algum eu perdera a consciência; sem dúvida, mais tarde, me entregaria aos braços do indispensável sono reparador, mas, querendo observar tudo, eu me mantinha alerta. Queria experimentar por mim todas as fases do fenômeno. O que eu conhecia, à exaustão, na fértil bibliografia espírita, desejava saber por mim mesmo. Afinal, segundo creio, aquela era a primeira vez em que deixava o corpo com alguma lucidez... Cansara de doutrinar espíritos nas sessões de desobsessão, que desvinculado da vida física, não conseguiam se situar no espaço e no tempo.

Não quero exauri-los com as minhas narrativas e procurarei ater-me apenas ao essencial. Talvez quem esteja me lendo estas palavras, formule o questionamento:

- Mas o quê?... O grande Inácio Ferreira embaraçado depois da morte?! Inacreditável!...

Em primeiro lugar, responder-lhe-ei que nunca me considerei maior que a minha própria estatura física, que, de fato, não era lá essas coisas, mormente quando comecei a me curvar depois dos sessenta. Em seguida, dir-lhe-ei que a chamada morte nos cria maiores embaraços que a vida, porque não logramos evitar o desapontamento que nos acomete. Eu cria na vida depois da morte, mas, no fundo, tinha esperança de que as coisas não fossem tão rigorosas assim para os eternos sobreviventes.

Depois da própria vida, a morte é a mais sábia invenção do Criador. De repente, eu estava sem nada – sem minha função de Diretor-Médico do Sanatório Espírita de Uberaba, cargo que ocupei por mais de cinqüenta anos; sem minha biblioteca com minha coleção de livros raros – que não dava, não emprestava e não vendia – sem meus hábitos de velho e sem meus chinelos.

- O que há de ser, doravante? – questionei, esperando que alguém surgisse para interceder em meu benefício. Não pensem que tenha sido recepcionado no limiar do Além-Túmulo por um séqüito de espíritos iluminados... Os que, aos poucos, foram aparecendo não passavam de amigos – alguns deles, antigos pacientes meus e criaturas simples que, vez ou outra, eu pudera beneficiar. Dos meus familiares, apenas minha mãe viria me ver, mais tarde. Isto, talvez por ter sido ela o único espírito que verdadeiramente me tolerara. Esta é uma outra faceta da minha personalidade: reconheço que excedia em meus pontos de vista, levado, quem sabe?, pela posição que ocupava. O espírita tem a mania de se julgar sempre com a verdade. Eu me acreditava coberto de razão em tudo: a última palavra deveria ser sempre a minha. Meu Deus, quanta ilusão! A vaidade é um mal terrível!...

Quando pude conversar com alguém que se postou ao meu lado e segurou as minhas mãos entre as suas, dando-me certa segurança, identifiquei Dona Maria Modesto Cravo, que me falou, abrindo um sorriso:

- Inácio, seja bem-vindo entre nós... Fique tranqüilo: você não está sozinho no Umbral!

Com a respiração ainda algo ofegante e aqueles meus olhos de peixe morto – ainda agora, pasmem – consigo ver a minha expressão de moribundo.

Caçoei, tentando descontrair-me:
- Estamos juntos no Umbral, não é?

D. Modesta, como a chamávamos, me acariciou a fronte empastada de suor e emendou:
- Onde é que poderíamos estar, Inácio?! Não temos asas para voar além e as encostas do abismo são escorregadias para que sejam escaladas!
- Como fui? – quis saber, sem, no entanto, muita consciência do que indagara.
- Quanto à travessia, tudo bem...
- E quanto ao resto?
- Você sabe que eu não tenho esta resposta, Inácio – redargüiu com triste inflexão de voz.

De fato, eu queria saber o que apenas me seria possível saber por mim mesmo... No fundo, estava à procura de uma opinião que divergisse da minha, pois, se a consciência não me efetuava tantas acusações, também não me liberava de todo. Falhara sim, e muito. Quanto mais depressa admitisse os meus equívocos, mais depressa me colocaria em condições de repará-los.

Após D. Maria Modesto Cravo, divisei o Manoel Roberto da Silva, o Joaquim Telésforo de Oliveira, o Antônio Logogrifo, o Alceu de Souza Novaes, o Odilon Fernandes... Irmãos de ideal espírita e companheiros maçons diversos, cujos nomes não consigo listar agora, vieram me dar as boas vindas...

 

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