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Deixei, por fim, o
corpo em conseqüência de grave crise de enfisema pulmonar. O
cigarro, ao longo do tempo, fizera o seu trabalho. Haviam sido
inúteis todas as minhas tentativas para deixar de fumar. Nos
últimos dias, porém, eu nem podia falar em cigarro... Creio que
tudo fazia parte de uma preparação para que, além da morte, o
desejo de fumar não me atormentasse. Digo-lhes, no entanto, que
tive de lutar muito; vezes sem conta, levava a mão aos bolsos,
procurando os cigarros de palha que costumava guardar no jaleco.
Desencarnar é
operação das mais simples; difícil é esquecer os velhos
hábitos... Confesso-lhes que, de certa forma, eu me sentia
perdido, hesitando entre partir e ficar. Não era tanto apego aos
bens, que eu sabia não mais me pertencerem – eu havia me
despojado de quase todos eles ainda em vida -, mas a insegurança
de quem se sente numa encruzilhada.
Nos momentos de
agonia, enquanto tentava respirar com o auxílio do balão de
oxigênio, via diversos vultos ao meu lado, semblantes amigos que
eu podia identificar; todavia, nos recessos do ser, eu me sentia
a sós – a sós com o que eu fizera de mim mesmo, ao longo de uma
existência que poderia ter sido mais profícua.
Sentindo que não
adiantava continuar resistindo, encorajei-me nas preces dos
amigos que oravam em silêncio, ao redor do meu leito e
entreguei-me. Pude notar quando os laços que me mantinham preso
ao corpo se afrouxaram. A consciência entrou numa espécie de
turbilhão e senti-me caindo para dentro de mim...
Imagens de mim
mesmo começaram, céleres, a desfilar diante dos olhos que eu
havia cerrado para o mundo. O conhecimento espírita adquirido a
peso de ingentes sacrifícios me assessorava na inevitável
introspecção. Sem exagero, afirmo-lhes que a minha condição de
médico psiquiatra de nada me valeu naquela hora: sequer me veio
à lembrança, em forma de socorro, pelo menos uma das teorias dos
grandes luminares da Psicanálise. Um medo cada vez maior da
verdade – do confronto inevitável comigo – foi, aos poucos, se
apossando de mim... Eu não havia sido tão benemérito quanto me
consideravam!
A considerável
distância, mas como se ainda permanecesse de ouvidos colado ao
corpo, pude escutar quando o médico, chamado às pressas,
sentenciou:
- Acabou!...
Quando eu o ouvi
dizer que tudo estava consumado, comecei, estranhamente, a me
sentir mais leve ainda... Eu me compararia, naquela situação, a
uma pluma soprada em rodopios pelo vento. Onde estaria o chão
que eu não conseguia tocar?!.
Devagar fui me
tranqüilizando, buscando concentrar esforços na oração. Eu me
sentia frágil! – mais frágil do que propriamente enfraquecido.
Instante algum eu perdera a consciência; sem dúvida, mais tarde,
me entregaria aos braços do indispensável sono reparador, mas,
querendo observar tudo, eu me mantinha alerta. Queria
experimentar por mim todas as fases do fenômeno. O que eu
conhecia, à exaustão, na fértil bibliografia espírita, desejava
saber por mim mesmo. Afinal, segundo creio, aquela era a
primeira vez em que deixava o corpo com alguma lucidez...
Cansara de doutrinar espíritos nas sessões de desobsessão, que
desvinculado da vida física, não conseguiam se situar no espaço
e no tempo.
Não quero
exauri-los com as minhas narrativas e procurarei ater-me apenas
ao essencial. Talvez quem esteja me lendo estas palavras,
formule o questionamento:
- Mas o quê?... O
grande Inácio Ferreira embaraçado depois da morte?!
Inacreditável!...
Em primeiro lugar,
responder-lhe-ei que nunca me considerei maior que a minha
própria estatura física, que, de fato, não era lá essas coisas,
mormente quando comecei a me curvar depois dos sessenta. Em
seguida, dir-lhe-ei que a chamada morte nos cria maiores
embaraços que a vida, porque não logramos evitar o
desapontamento que nos acomete. Eu cria na vida depois da morte,
mas, no fundo, tinha esperança de que as coisas não fossem tão
rigorosas assim para os eternos sobreviventes.
Depois da própria
vida, a morte é a mais sábia invenção do Criador. De repente, eu
estava sem nada – sem minha função de Diretor-Médico do
Sanatório Espírita de Uberaba, cargo que ocupei por mais de
cinqüenta anos; sem minha biblioteca com minha coleção de livros
raros – que não dava, não emprestava e não vendia – sem meus
hábitos de velho e sem meus chinelos.
- O que há de ser,
doravante? – questionei, esperando que alguém surgisse para
interceder em meu benefício. Não pensem que tenha sido
recepcionado no limiar do Além-Túmulo por um séqüito de
espíritos iluminados... Os que, aos poucos, foram aparecendo não
passavam de amigos – alguns deles, antigos pacientes meus e
criaturas simples que, vez ou outra, eu pudera beneficiar. Dos
meus familiares, apenas minha mãe viria me ver, mais tarde.
Isto, talvez por ter sido ela o único espírito que
verdadeiramente me tolerara. Esta é uma outra faceta da minha
personalidade: reconheço que excedia em meus pontos de vista,
levado, quem sabe?, pela posição que ocupava. O espírita tem a
mania de se julgar sempre com a verdade. Eu me acreditava
coberto de razão em tudo: a última palavra deveria ser sempre a
minha. Meu Deus, quanta ilusão! A vaidade é um mal terrível!...
Quando pude
conversar com alguém que se postou ao meu lado e segurou as
minhas mãos entre as suas, dando-me certa segurança,
identifiquei Dona Maria Modesto Cravo, que me falou, abrindo um
sorriso:
- Inácio, seja
bem-vindo entre nós... Fique tranqüilo: você não está sozinho no
Umbral!
Com a respiração
ainda algo ofegante e aqueles meus olhos de peixe morto – ainda
agora, pasmem – consigo ver a minha expressão de moribundo.
Caçoei, tentando
descontrair-me:
- Estamos juntos no Umbral, não é?
D. Modesta, como a
chamávamos, me acariciou a fronte empastada de suor e emendou:
- Onde é que poderíamos estar, Inácio?! Não temos asas para voar
além e as encostas do abismo são escorregadias para que sejam
escaladas!
- Como fui? – quis saber, sem, no entanto, muita consciência do
que indagara.
- Quanto à travessia, tudo bem...
- E quanto ao resto?
- Você sabe que eu não tenho esta resposta, Inácio – redargüiu
com triste inflexão de voz.
De fato, eu queria
saber o que apenas me seria possível saber por mim mesmo... No
fundo, estava à procura de uma opinião que divergisse da minha,
pois, se a consciência não me efetuava tantas acusações, também
não me liberava de todo. Falhara sim, e muito. Quanto mais
depressa admitisse os meus equívocos, mais depressa me colocaria
em condições de repará-los.
Após D. Maria
Modesto Cravo, divisei o Manoel Roberto da Silva, o Joaquim
Telésforo de Oliveira, o Antônio Logogrifo, o Alceu de Souza
Novaes, o Odilon Fernandes... Irmãos de ideal espírita e
companheiros maçons diversos, cujos nomes não consigo listar
agora, vieram me dar as boas vindas...
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