O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 

Título :
O Engano do Gastrônomo

Autor:
Luciano dos Anjos e Hermínio Corrêa de Miranda

Data:
01/09/2000

Fonte:
Crônicas de Um e de Outro -
De Kennedy ao Homem Artificial

MENSAGENS

    

Encontro Velho amigo e ele me anuncia:

- Luciano, tenho uma grande notícia para você. Agora sou seu confrade. Converti-me ao Espiritismo!

- Muito bem. Isso me alegra. Como foi que aconteceu?

- Ah!, foi maravilhoso! Imagine você que eu andava com um problema terrível, que já me estava atormentando ao ponto de não me deixar dormir noites seguidas.

- Sua esposa doente?

- Não, não; não é isso.

- O filho adoentado?

- Também não. Coisa mais grave.

- Mais grave? Sua mãe, seu pai? Algum desastre?

- Nada disso. Estou vendo que você não advinha mesmo.

- Bem, então você ficou desempregado e está passando  necessidade?

- Absolutamente. Pelo contrário, até melhorei muito no emprego.

- Ora, diabos. Que há de ser então? Ah, sim, você está com algum mal interno que lhe dá poucas esperanças?

- Desista de acertar, Luciano. O que é nem lhe passa pela cabeça.

- Está bem; confesso meu fracasso. Conte lá que problema terrível era esse.

- Escute. Você sabe que eu amo minha mulher, gosto muito dela. Dou a ela todo o conforto, toda a assistência, não lhe deixo faltar nada. As crianças, então, só não têm o que não pedem. Mas, como é natural, arranjei aí uma dona... você sabe como são essas coisas... Subi na vida, fui promovido e... e ganhei uma secretária.

- Ah... compreendo...

- E que secretária, seu moço!... Linda, insinuante, jovem, muito brejeira, sempre na moda, um negócio de virar a cabeça da gente... Trabalho daqui, trabalho dali, uns serões, e acabou acontecendo. Agora ela é minha amante. Você sabe, isso hoje em dia é muito natural. Afinal, nós somos homens e é até uma imposição da natureza...

- Não, não sei bem, não; de minha parte, nunca cometi uma infidelidade com minha mulher.

- Ora, não me venha com essa...

- Bem, deixemos minha mulher de lado e falemos da sua. Continue a história. Quero ver onde é que o Espiritismo entra nisso.

- Ah, sim, a minha conversão. É que um dia, não sei como foi que eu me distraí, a “vaca foi pro brejo!” Minha mulher desconfiou e acabou descobrindo tudo! Meu caro, foi uma bomba. Explica daqui, explica dali, mas não dava pé. Ela estava realmente “por dentro da jogada”... Foi aí que, desesperado, já não sabendo mais como controlar a situação, desabafei com um colega de trabalho. Homem bom, muito vivo, sabido que nem ele só, freqüentador dum Centro Espírita de primeira categoria. Ele, que já tinha passado por uma dessas, sugeriu que eu fosse lá, no Centro dele, para ver se podiam ajeitar a coisa.

- Já sei. Os Espíritos deram um jeito de transferir a sua secretária, você se livrou do problema, caiu em si, arrependeu-se, e a harmonia voltou ao ser lar.

- Que é isso, Luciano? Está maluco? Isso é lá solução de Espírito? Ora essa, para isso eu não precisava me converter; bastava dispensar a secretária e pronto!

- Ah, não foi isso? Então como é que foi?

- Eles agiram lá no fundo da questão. Esses Espíritos são notáveis. Estão “mexendo os pauzinhos” para eu ser transferido durante uns 3 meses. Minha família terá de ficar. A secretária irá também, mas ninguém perceberá, será tudo muito natural.

- Ah, mas você então não está tentando acabar com o problema?

- Acabar como? Deixar minha mulher? Não, isso não. Afinal já são muitos anos e, no fundo, já lhe disse, gosto dela, dos meus filhos. E deixar a secretária, cá entre nós, seria até um crime contra meu bom gosto!

- Em resumo, que é que você espera dos Espíritos?

- Bem, eu quero que eles dêem um jeitinho, como estão dando, de eu ficar com as duas. O que não quero é confusão. E olhe, a coisa está indo tão favorável, que, praticamente, já me converti ao Espiritismo. Esses Espíritos são formidáveis! E eu não acreditava muito neles...

- É, realmente são; mas você sabe qual é o objetivo fundamental do Espiritismo? Claro que não sabe. Eu lhe digo. O Espiritismo veio para fazer retornar à sua pureza primitiva a Doutrina do Cristo. Allan Kardec, o grande missionário, sentenciou que “só se conhece o verdadeiro espírita pela sua transformação moral”. O Espiritismo, em que pese à existência de Espíritos e de Centros sempre prontos a nos iludirem com seu excesso de promessas vãs, o Espiritismo não dá cobertura a atos e comportamentos que ferem a mais simples noção de ética. Não, meu caro amigo, você não é um convertido, perdoe-me que lhe diga: porque, no fundo, você ainda não é nem mesmo um arrependido. Esse Espiritismo não é o meu. Não é o que se contém em “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec. Esse Espiritismo acomodatício, tergiversante, inconseqüente, irresponsável, aventureiro, mercenário, interesseiro, desagregador, não, esse não é o Espiritismo dos Espíritos elevados e dos mentores iluminados. Lamento dizer-lhe isso, mas essas soluções, como a que você busca, não são encontradas na Doutrina Espírita. Acho, sim, que você está é se complicando ainda mais, porque além do seu próprio problema, que você mesmo arranjou, você ainda está arranjando outros com a cumplicidade de Espíritos matreiros. Até então, você tinha “entrado por um cano”, e talvez ainda pudesse sair do outro lado, embora amarrotado e castigado; agora, porém, você “entrou por um funil”...

- Como é que é? Você quer me dizer que os Espíritos lá do meu Centro estão por fora de Kardec?

- Meu caro, sei que você é um excelente garfo e dos melhores gastrônomos que conheço. Você já provou lebre?

- Opa, claro que sim. É uma delícia, Luciano. Uma delicia.

- E... gato? Já comeu gato?

- Gato? Que é isso... Não sou nenhum bobo. Gato, ao que eu saiba, não se come.

- Pois, meu velho, não tenha dúvida: nessa você está “entrando direitinho”...

 

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