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Encontro
Velho amigo e ele me anuncia:
-
Luciano, tenho uma grande notícia para você. Agora sou
seu confrade. Converti-me ao Espiritismo!
-
Muito bem. Isso me alegra. Como foi que aconteceu?
-
Ah!, foi maravilhoso! Imagine você que eu andava com um
problema terrível, que já me estava atormentando ao ponto de não
me deixar dormir noites seguidas.
-
Sua esposa doente?
-
Não, não; não é isso.
-
O filho adoentado?
-
Também não. Coisa mais grave.
-
Mais grave? Sua mãe, seu pai? Algum desastre?
-
Nada disso. Estou vendo que você não advinha mesmo.
-
Bem, então você ficou desempregado e está passando
necessidade?
-
Absolutamente. Pelo contrário, até melhorei muito no
emprego.
-
Ora, diabos. Que há de ser então? Ah, sim, você está
com algum mal interno que lhe dá poucas esperanças?
-
Desista de acertar, Luciano. O que é nem lhe passa pela
cabeça.
-
Está bem; confesso meu fracasso. Conte lá que problema
terrível era esse.
-
Escute. Você sabe que eu amo minha mulher, gosto muito
dela. Dou a ela todo o conforto, toda a assistência, não lhe
deixo faltar nada. As crianças, então, só não têm o que não
pedem. Mas, como é natural, arranjei aí uma dona... você sabe
como são essas coisas... Subi na vida, fui promovido e... e
ganhei uma secretária.
-
Ah... compreendo...
-
E que secretária, seu moço!... Linda, insinuante,
jovem, muito brejeira, sempre na moda, um negócio de virar a
cabeça da gente... Trabalho daqui, trabalho dali, uns serões,
e acabou acontecendo. Agora ela é minha amante. Você sabe,
isso hoje em dia é muito natural. Afinal, nós somos homens e
é até uma imposição da natureza...
-
Não, não sei bem, não; de minha parte, nunca cometi
uma infidelidade com minha mulher.
-
Ora, não me venha com essa...
-
Bem, deixemos minha mulher de lado e falemos da sua.
Continue a história. Quero ver onde é que o Espiritismo entra
nisso.
-
Ah, sim, a minha conversão. É que um dia, não sei como
foi que eu me distraí, a “vaca foi pro brejo!” Minha mulher
desconfiou e acabou descobrindo tudo! Meu caro, foi uma bomba.
Explica daqui, explica dali, mas não dava pé. Ela estava
realmente “por dentro da jogada”... Foi aí que,
desesperado, já não sabendo mais como controlar a situação,
desabafei com um colega de trabalho. Homem bom, muito vivo,
sabido que nem ele só, freqüentador dum Centro Espírita de
primeira categoria. Ele, que já tinha passado por uma dessas,
sugeriu que eu fosse lá, no Centro dele, para ver se podiam
ajeitar a coisa.
-
Já sei. Os Espíritos deram um jeito de transferir a sua
secretária, você se livrou do problema, caiu em si,
arrependeu-se, e a harmonia voltou ao ser lar.
-
Que é isso, Luciano? Está maluco? Isso é lá solução
de Espírito? Ora essa, para isso eu não precisava me
converter; bastava dispensar a secretária e pronto!
-
Ah, não foi isso? Então como é que foi?
-
Eles agiram lá no fundo da questão. Esses Espíritos são
notáveis. Estão “mexendo os pauzinhos” para eu ser
transferido durante uns 3 meses. Minha família terá de ficar.
A secretária irá também, mas ninguém perceberá, será tudo
muito natural.
-
Ah, mas você então não está tentando acabar com o
problema?
-
Acabar como? Deixar minha mulher? Não, isso não. Afinal
já são muitos anos e, no fundo, já lhe disse, gosto dela, dos
meus filhos. E deixar a secretária, cá entre nós, seria até
um crime contra meu bom gosto!
-
Em resumo, que é que você espera dos Espíritos?
-
Bem, eu quero que eles dêem um jeitinho, como estão
dando, de eu ficar com as duas. O que não quero é confusão. E
olhe, a coisa está indo tão favorável, que, praticamente, já
me converti ao Espiritismo. Esses Espíritos são formidáveis!
E eu não acreditava muito neles...
-
É, realmente são; mas você sabe qual é o objetivo
fundamental do Espiritismo? Claro que não sabe. Eu lhe digo. O
Espiritismo veio para fazer retornar à sua pureza primitiva a
Doutrina do Cristo. Allan Kardec, o grande missionário,
sentenciou que “só se conhece o verdadeiro espírita pela sua
transformação moral”. O Espiritismo, em que pese à existência
de Espíritos e de Centros sempre prontos a nos iludirem com seu
excesso de promessas vãs, o Espiritismo não dá cobertura a
atos e comportamentos que ferem a mais simples noção de ética.
Não, meu caro amigo, você não é um convertido, perdoe-me que
lhe diga: porque, no fundo, você ainda não é nem mesmo um
arrependido. Esse Espiritismo não é o meu. Não é o que se
contém em “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec. Esse
Espiritismo acomodatício, tergiversante, inconseqüente,
irresponsável, aventureiro, mercenário, interesseiro,
desagregador, não, esse não é o Espiritismo dos Espíritos
elevados e dos mentores iluminados. Lamento dizer-lhe isso, mas
essas soluções, como a que você busca, não são encontradas
na Doutrina Espírita. Acho, sim, que você está é se
complicando ainda mais, porque além do seu próprio problema,
que você mesmo arranjou, você ainda está arranjando outros
com a cumplicidade de Espíritos matreiros. Até então, você
tinha “entrado por um cano”, e talvez ainda pudesse sair do
outro lado, embora amarrotado e castigado; agora, porém, você
“entrou por um funil”...
-
Como é que é? Você quer me dizer que os Espíritos lá
do meu Centro estão por fora de Kardec?
-
Meu caro, sei que você é um excelente garfo e dos
melhores gastrônomos que conheço. Você já provou lebre?
-
Opa, claro que sim. É uma delícia, Luciano. Uma
delicia.
-
E... gato? Já comeu gato?
-
Gato? Que é isso... Não sou nenhum bobo. Gato, ao que
eu saiba, não se come.
- Pois,
meu velho, não tenha dúvida: nessa você está “entrando
direitinho”...
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