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“Que homem não
experimentou esse sentimento misterioso, que nos retém,
contemplativo e sonhador, diante do espetáculo do mar?”.
-O grande Enigma, 2ª. Parte Cap. XII – FEB -.
Léon Denis amou a
Natureza. Em todos os seus aspectos, ela lhe dava notícia de
Deus. E ele, por sua vez, se comunicava com Deus através de toda
a sua Criação. Desses comoventes diálogos, nasceram paginas
ricas de beleza e sabedoria.
Diante do mar, por
exemplo, ele gostava de ficar contemplativo, e seus amigos
espirituais aproveitavam esses momentos para lhe transmitir
idéias, que compunham páginas, discursos e livros.
Foi assim, numa
deliciosa tarde, quando ele navegava, partindo da costa
francesa, em direção à África.
Observemos aquele
pequeno navio, parecendo perdido na imensidão azul do
Mediterrâneo. O convés está deserto. Após o almoço, o suave
balançar do navio conduziu os passageiros à sesta. Se fixarmos a
atenção, no entanto, veremos um viajante solitário que, de pé,
no tombadilho, contempla, embevecido, a vastidão líquida, cujos
limites se perdem na diáfana linha do horizonte, qual uma enorme
“toalha móvel faiscante aos fogos do dia”.
Era um instante de
calmaria, no qual tudo parecia repousar. Mergulhados na luz,
ilhas cabos e praias recortavam suas silhuetas contra o azul. O
silêncio da tarde era quebrado, unicamente, pelo “cântico das
vagas que acariciam brandamente o casco do navio”.
É uma cena
transbordante de paz. De fato, ele nos confessa: “em parte
alguma senti tal impressão de repouso”, acrescentando que era
como se “uma pacificação, uma serenidade, um desprendimento de
tudo, o esquecimento das miseráveis agitações humanas, uma
dilatação da alma, uma espécie de volúpia de viver, e de saber
que se viverá sempre, a sensação de ser imperecível qual esse
infinito da Terra e do Céu” o visitassem.
Lá se vai o
pequeno barco, levando o poeta-filósofo em sua proa, fendendo as
águas azuis, deixando as praias da Provence para trás, numa
esteira de espuma.
Ele termina seu
relato dessa tarde, dizendo que se “O Mediterrâneo é encantador
sob o céu azulado (...) todos os mares têm o seu prestígio e
beleza, quer em seus dias de cólera e de desencadeamento
furioso, com a comovente fascinação das vagas espumosas, quer
nas horas de calma, com o esplendor de seus sóis poentes”.
Alguém poderá,
então, pensar: Admirar a beleza do mar quando ele está sereno,
tudo bem. Mas será que Denis apreciou, algum dia, a “comovente
fascinação das águas espumosas”, numa noite de tempestade?
Deixemos que Luce
responda, descrevendo-nos uma experiência vivida pelo aplicado
vendedor da Casa Pillet, justamente quando ele voltava da
Cabília. Ao que parece, aquele era o tempo das grandes
aventuras, para Léon Denis.
Pois foi assim que
aconteceu, “quando ao sair da memorável Cabília, com destino a
Tunis, após enfrentar trens sacolejantes, diligências e mesmo
lombo de burros, o sempre ativo, curioso e encantado turista
chega atrasado ao cais, e como já haviam recolhido a escada,
para subir a bordo foi obrigado a agarrar-se, com todas as
forças, às cordas que lhe foram atiradas pelos marujos”.
Eu penso que é
difícil imaginar o Apóstolo do Espiritismo dependurado por
cordas, esforçando-se para chegar ao convés de um navio, com os
marujos na amurada, certamente animando-o, em seus, quem sabe,
desajeitados esforços.
Pois foi mesmo
dessa maneira atribulada que ele começou uma agradável viagem...
até certo ponto.
Quando a noite
chegou, fortes ventos começaram a soprar, o mar encapelou-se em
ondas gigantes, que varriam o convés.
A pequena
embarcação jogava e estalava perigosamente. Conforme o navio
balançava, móveis, cargas e louças rolavam e se quebravam. O
ruído era assustador.
As mulheres e as
crianças gritavam, apavoradas, agarradas às barras de segurança.
Os marujos lutavam
sem descanso, para manter, tanto quanto possível, o navio sob
controle.
Antes, porém, que
tudo acabasse em tragédia, o mar se acalmou e, pouco a pouco, a
situação foi voltando ao normal.
Denis sai dessa
experiência fascinado, e como não podia estar sempre a viajar de
navio, buscava os promontórios da Armórica, para do alto dos
penhascos rever o Oceano em suas horas de furor e sentir o solo
tremer a seus pés “a cada embate surdo das vagas”.
Ao final da
narrativa, sentimo-nos um pouco envergonhados de nós mesmos, da
indiferença a até do medo que nos paralisa e nos impede de
experimentar essa “comunhão íntima”; de mergulhar, como Denis,
“na Grande Unidade que a tudo gerou”.
Vendo nossa
tristeza, nosso Mestre nos anima, dizendo que os espíritos o
inspiraram a escrever o livro “O Grande Enigma”, justamente para
nos ensinar isso.
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