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I
Ó coisa
incompreendida; ó coisa estranha e nova:
Esta de alguém haver que inda depois da morte,
Tenha o viril poder, tenha a vontade forte,
De vir buscar-me aqui, a este além da cova!
Irreverente
audácia, em que meu ser renova
Fatal recordação da minha triste sorte
Na vida, erma e curta, e que arrastei sem norte,
Na terra descaroada, em dolorida prova.
Meu corpo eu tinha
visto, ossudo, dessorado,
Nojoso, fedorento e podre e verminado,
Transformar-se, na terra, em seiva fecundante...
E tinha dito a
mim: - “Findou o meu tormento!”.
E escondi-me, no manto vil do esquecimento,
Na miserável cova, ignóbil, repugnante.
II
Mas aqui mesmo a
sorte inda me foi daninha!
E o meu sonhar de paz, em nada, em pó, desfez;
Fazendo que o meu ser mais uma negra vez,
Triste, voltasse cá, contra a vontade minha!
Envolvida na Dor –
mortalha de Rainha! –
A minha Alma jazia em doce embriaguez,
Gozando pelo espaço num doido entremez,
Por livre se sentir de vida tão mesquinha,
Quando tu me
chamaste, homem inconcebível!
Tu que me queres? Dize? É coisa inda possível,
Que da terra me venha uma palavra amiga?
Ah! Se é, seja
benvinda, a cara mensageira...
Boa coisa daí? Será essa a primeira...
Venha depressa então se quer que eu a bendiga!
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