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Reunião da noite
de 12 de fevereiro de 1956.
Emocionadamente o
nosso grupo recebeu a visita de Joaquim Dias, pobre espírito
sofredor que nos trouxe o doloroso relato de sua experiência, da
qual recolhemos amplo material para estudo e meditação.
*
Alcoólatra!
Que outra palavra
existirá na Terra, encerrando consigo tantas potencialidades
para o crime?
O alcoólatra não é
somente o destruidor de si mesmo. É o perigoso instrumento das
trevas, ponte viva para as forças arrasadoras da lama abismal.
O incêndio que
provoca desolação aparece numa chispa.
O alcoolismo que
carreia a miséria nasce num copinho.
De chispa em
chispa, transforma-se o incêndio em chamas devoradoras.
De copinho a
copinho, o vicio alcança a delinqüência.
Hoje, farrapo de
alma que foi homem, reconheço que, ontem, a minha tragédia
começou assim...
Um aperitivo
inocente...
Uma hora de
recreio...
Uma noite
festiva...
Era eu um homem
feliz e trabalhador, vivendo em companhia de meus pais, de minha
esposa e um filhinho.
Uma ocasião,
porém, surgiu em que tive a infelicidade de sorver alguns goles
do veneno terrível, disfarçado em bebida elegante, tentando
afugentar os pequeninos problemas da vida e, desde então,
converti-me em zona pestilencial para os abutres da crueldade.
Velhos inimigos
desencarnados de nossa equipe familiar fizeram de mim um
intérprete.
A breve tempo,
abandonei o trabalho, fugi à higiene e apodreci meu caráter,
trocando o lar venturoso pela taverna infeliz.
Bebendo por mim e
por todas as entidades viciosas que nos hostilizavam a casa,
falsifiquei documentos, matando meu pai com medicação indevida,
depois de arrojá-lo à extrema ruína.
Mais tarde,
tornando-me bestial e inconsciente, espanquei minha mãe,
impondo-lhe a enfermidade que a transportou para a sepultura.
Depois de algum
tempo, constrangi minha esposa no meretrício, para extorquir-lhe
dinheiro, assassinando-a numa noite de terror e fazendo crer que
a infeliz se envenenara usando as próprias mãos e, de meu filho,
fiz um jovem salteador e beberrão, muito cedo eliminado pela
policia.
Réprobo social,
colhia tão-somente as aversões que eu plantava.
Muitas vezes, em
relâmpagos de lucidez, admoestava-me a consciência:
- Ainda é tempo!
Recomeça! Recomeça!
Entretanto,
fizera-me um homem vencido e cercado pelas sombras daqueles que,
quanto eu, se haviam consagrado no corpo físico à criminalidade
e à viciação, e essas sombras rodeavam-me apressadas,
gritando-me, irresistíveis:
- Bebe e esquece!
Bebe, Joaquim!...
E eu me
embriagava, sequioso de olvidar a mim mesmo, até que o delírio
agudo me sitiou num catre de amargura e indigência.
A febre, a
enfermidade e a loucura consumiram-me a carne, mas não percebi a
visitação da morte, porque fui atraído, de roldão, para a turba
de delinqüentes a que antes me afeiçoara. Sofri-lhes a pressão,
assimilei-lhes os desvarios e, com eles, procurei novamente
embebedar-me.
A taverna era o
meu mundo, com a demência irresponsável por meu modo de ser...
Ai de mim,
contudo! Chegou o instante em que não mais pude engodar minha
sede!...
A insatisfação
arrasava-me por dentro, sem que meus lábios conseguissem tocar,
de leve, numa gota do líquido tentador.
Deplorando a
inexplicável inibição que me agravava os padecimentos,
afastei-me dos companheiros para ocultar a desdita de que me via
objeto.
Caminhei sem
destino, angustiado e semilouco, até que me vi prostrado num
leito espinhoso de terra seca...
Sede implacável
dominava-me totalmente...
Clamei por socorro
em vão, invejando os vermes do subsolo.
Palavra alguma
conseguiria relatar a aflição com que implorei do Céu uma gota
d'água que sustasse a alucinação de minhas células gustativas...
Meu suplício
ultrapassava toda humana expressão...
Não passava de uma
fogueira circunscrita a mim mesmo.
Começaram, então,
para mim, as miragens expiatórias.
Via-me em noite
fresca e tranqüila, procurando o orvalho que caía do céu para
dessedentar-me, enfim, mas, buscando as bagas do celeste elixir,
elas não eram, aos meus olhos, senão lágrimas de minha mãe, cuja
voz me atingia, pranteando em desconsolo:
- Não me batas,
meu filho! Não me batas, meu filho!...
Devolvido à
flagelação, via-me sob a chuva renovadora, mas, tentando
sorver-lhe o jorro, nele reconhecia o pranto de meu pai, cujas
palavras derradeiras me impunham desalento e vergonha:
- Filho meu, por
que me arruinaste assim?
Arrojava-me ao
chão, mergulhando meu ser na corrente poluída que o temporal
engrossava sempre, na esperança de aliviar a sede terrível, mas,
na própria lama do enxurro, encontrava somente as lágrimas de
minha esposa, de mistura com recriminações dolorosas,
fustigando-me a consciência:
- Por que me
atiraste ao lodo? E por que me mataste, bandido?
De novo regressava
ao deserto que me acolhia, para logo após me entregar à visão de
fontes cristalinas...
Enlouquecido de
sede, colocava a boca ao manancial, que se convertia em taça de
fel candente, da qual transbordavam as lágrimas de meu filho, a
bradar-me, em desespero:
- Meu pai, meu
pai, que fizeste de mim?
Em toda parte, não
surpreendia senão lágrimas...
Arrastei-me pelos
medonhos caminhos de minha peregrinação dolorosa, como um
Espírito amaldiçoado que o vicio metamorfoseara em peçonhento
réptil...
Suspirava por água
que me aliviasse o tormento, mas só encontrava pranto...
Pranto de meu pai,
de minha mãe, de minha esposa e de meu filho a perseguir-me,
implacável...
Alma acicatada por
remorsos intraduzíveis, amarguei provações espantosas, até que
mãos fraternas me trouxeram à bênção da oração...
Piedosos
enfermeiros da Vida Espiritual e mensageiros da Bondade Divina,
pelos talentos da prece, aplacaram-me a sede, ofertando-me água
pura...
Atenuou-se-me o
estranho martírio, embora a consciência me acuse...
Ainda assim,
amparado por aqueles que vos inspiram, ofereço-vos o triste
exemplo de meu caso particular para escarmento daqueles que
começam de copinho a copinho, no aperitivo inocente na hora de
recreio ou na noite festiva, descendo desprevenidos para o
desequilíbrio e para a morte...
E, em vos falando,
com o meu sofrimento transformado em palavras, rogo-vos a esmola
dos pensamentos amigos para que eu regresse a mim mesmo, na
escabrosa jornada da própria restauração.
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