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Que estranho e
enigmático era aquele Rabi! – pensava Tiago, atormentado, em
contínuos cismares -, É verdade que O amava, todavia, por mais
profundo com era aquele amor, não conseguia compreendê-lO. A Sua
mensagem penetrava as almas e as Suas atitudes de retidão
conseguiam impressioná-lo de modo irreversível. Malgrado as
dificuldades em que se debatia, sentia a grandeza do poema do
amor que Ele cantava nas praias e com que arrebatava as
multidões. Receava, porém, que a palavra não demorasse por
muitos anos como Ele desejava. Afinal, era necessário recorrer
aos nobres e aos poderosos para granjear os favores humanos. As
rédeas do poder permaneceram sempre em todos os tempos nas
poucas mãos da força. E estas somente se faziam benignas em
relação aos que agradavam as posições dos mandatários. O Rabi
era integérrimo e bom, não obstante se recusasse
sistematicamente à subserviência, evitando mesmo oferecer aos
poderosos essas homenagens tão do agrado dos que desfrutam as
situações de privilégio. Não poucas vezes, fora Ele acusado
pelos fariseus de não ser encontrado entre os seus seguidores um
príncipe sequer, um doutor da Lei, alguém que fosse alguma
coisa... E tinham razão, forçoso era dizê-lo. E a verdade é que
sempre Ele se encontrava cercado pelas multidões dos
desgraçados, os mal-cheirosos...
Indubitavelmente –
considerava, magoado no íntimo, - fazia-se mister assistir os
sofredores, os enfermos os carregados de problemas a fim de
aliviá-los... viver, todavia, exclusivamente envolvido pelos
leprosos, escrofulosos, paralíticos, surdos, mudos, cegos,
endemoninhados, não era atitude correta... Alem disso, colimando
as dificuldades em quase desacato às autoridades, se permitia o
Mestre a convivência com as meretrizes e os bandidos, os
cobradores de impostos – sempre detestados! – mantendo largas e
cordiais tertúlias com eles, dividindo o pão, repartindo o peixe
em repastos amigáveis e fraternos...
Não, aquela não
era uma atitude própria – considerava, preocupado -, a viver
segundo os padrões tradicionais. Como remover os velhos óbices,
sem lhes sofrer as conseqüências? Que reino seria, então, o a
que Ele se referia e se propunha? Por acaso um paraíso para
mendigos e desventurados?
Não conseguia ele
mesmo sopitar o desagrado ante as pústulas virulentas;
nauseava-o a visão cavernosa da lepra nos tecidos humanos
gastos... Detestava os pecadores e, nesse particular, era
severo: A Lei deveria ser cumprida com toda a austeridade a que
se reportava o Torá – cada erro recebendo a necessária punição.
Diria ao Mestre,
sim, na primeira oportunidade, quanto aos seus pensamentos, às
suas conjecturas!
Em clara manhã
perfumada, enquanto jornadeavam entre Cafarnaum e Magdala, o
discípulo, interessado na fácil implantação do reino de Deus
entre os homens da Terra, resolveu, confabulando com Amigo
Divino, apresentar-Lhe as suas dúvidas.
- Rabi! Falou algo
constrangido – faz algum tempo, encontro-me angustiado por
dolorosas interrogações.
O Celeste
Companheiro fitou-o com os olhos transparentes, penetrando-lhe a
alma. Ante aquele gesto carinhoso nenhum segredo permanecia
oculto, quedando-se, silencioso, aguardando.
- Como sabes –
prosseguiu, delicado – também eu anseio pelo momento da
glorificação do Nosso Pai entre os infelizes da Terra. Todavia,
creio que, cuidando apenas dessa gente que nos cerca, muito
difícil será colimar os objetivos a que Te reportas e que todos
desejamos.
Encorajado pela
atitude de cordial simpatia e discreta aceitação da censura por
parte do ouvinte, prosseguiu:
- Conheço pessoas
das classes mais favorecidas que não se negariam a contribuir
com a sua posição, suas moedas e títulos, de modo a facilitarem
a penetração dos nossos postulados entre os anciães e os mais
representativos membros da nossa raça. Todavia, não se
inclinariam eles a aceitar uma comunhão com estes que compartem
nossos ideais: os proletários infelizes, a ralé sem nome...
O Mestre, sem
traduzir qualquer surpresa ou desagrado, continuou sereno, de
passo regular, caminho a fora.
A Natureza, àquela
hora da manhã, derramava ondas de leve perfume campesino pela
alameda agradável que resguardava a vereda.
- Anseio ver-Te em
Jerusalém entre os mais expressivos nomes do povo – aprestou-se
Tiago, emocionado. – Glorificado, passarás à posteridade entre
aqueles filhos de Israel que serão sempre venerados pelas
gerações futuras.
E como o Senhor
prosseguisse discretamente silencioso, indagou, inquieto, o
discípulo agitado:
- Não dizes nada,
Mestre? Eu gostaria de ouvir Tua opinião.
- Tenho falado a
todos a mesma linguagem – acentuou, pausado, o Filho de Deus –
linguagem de amor e compreensão. Em verdade, as minhas palavras
são atos que, inconfundíveis, não podem receber interpretação
incorreta, nem se ajustam às malévolas conceituações. Não venho
para os sãos, os felizes, os ditosos, os que já receberam da
Terra o seu galardão, as suas reservas de alegria e as suas
altas concessões de triunfo, conquanto transitórios.
Refletindo no
conteúdo das palavras do discípulo, aduziu, compassivo:
- Tens toda a
razão em ambicionar os êxitos que passam ligeiros e podes
afervorar-te à sua conquista, marchando ao lado dos que se
glorificam e dominam...
- És livre de
minha parte para avançares pela rota que desejares. Aqueles,
porém, que amam a meu Pai e me servem, fá-lo-ão ao lado dos
atormentados, dos enfermos e desventurados, pois que para estes
eu vim. Eu sou o médico das almas e tenho os braços abertos para
todas as dores. O meu coração é fonte de reconforto para os que
sofrem, e o Reino a que me refiro não possui balizas na Terra,
nem pode ser compreendido dentro das diretrizes do tradicional
humano. Alicerça-se sobre dores extenuantes e possivelmente nos
holocaustos de muitas vidas. Cimentar-se-á no sacrifício dos que
amam e que, nada possuindo, não receiam perder o que não têm.
Silenciou, fitando
a estrada que serpenteava na direção da cidade a distância.
Talvez, antecipando no tempo os acontecimentos do futuro,
continuou:
- O Filho do Homem
triunfará, sem, em Jerusalém, de maneira inesquecível e Seu nome
passará à posteridade... Estará Ele entre os filhos as raça, em
posição, porém, muito diversa à dos antepassados. Mas isto será
apenas o começo das dores reservadas aos seguidores do Reino...
O sol penetrava em
fios de ouro pela copa das árvores, e chilreava a passarada na
ramagem oscilante.
O discípulo
fez-se, então, pensativo:
- O Reino de Deus
– concluiu o Mestre – está dentro de cada um que o deseje. Não é
trabalho externo, antes resultado do excelente labor anônimo e
sacrificial nas noites de silêncio, nos dias de angústia e dor
libertadora. Ninguém o verá, e esse herói, aquele que o
conseguir realizar, não receberá aplauso, passando entre os
homens desconsiderado, incompreendido, malsinado, todavia em paz
consigo mesmo e em harmonia com Deus... Eis por que não posso
atender às tuas sugestões. Obedeço Àquele que me enviou,
pensando especialmente nas “meretrizes e nos publicanos que
levarão a dianteira para o reino de Deus”, em preferência a
muitos dos homens que aparentemente se encontram vinculados a
meu nome.
Calou-se o Mestre.
Tiago caiu em
pesada reflexão, enquanto caminhava ao Seu lado. Desde então
passou a entender melhor o Reino de Deus, aquele que não tem
preferências externas e que deve ser conquistado com decisão.
Ainda hoje, diante
dos Espíritos difíceis, dos infelizes e dos perturbados, dos
perturbadores e pervertidos, a atitude de muitos cristãos novos
não difere daquela que Tiago, embora bem intencionado, conquanto
invigilante, mantinha antes do diálogo esclarecedor.
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