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Há quase um ano meu filho morreu.
Não há outra maneira de dizer isso, não há como fantasiar ou
melhorar a situação. Há outras formas de dizê-lo. Mas a
verdade é essa: ele está morto para esse mundo, para esse
tempo, para esse momento, para as pessoas que o conheceram e o
amaram.
Entretanto, eu sei que, em um outro lugar, ele está vivo. Nós,
agora, vivemos vidas diferentes. Em locais diferentes. Em planos
diferentes. Em realidades diferentes. Com objetivos um pouquinho
diferentes. Talvez demoremos a nos encontrar novamente. Mas é
certo que nos reencontraremos. Mas, eu pergunto, o que é o
tempo quando se tem o infinito? Em algum momento, no tempo de
Deus, no local por Ele escolhido (ou permitido, não sei), nós
nos encontraremos novamente. E nos amaremos novamente, como mãe
e filho que somos, destinados ao amor em Deus na união com
Cristo. Será tão difícil assim esperar por esse momento? Não
será muito mais interessante e muito mais gostoso alegrar-me
pelo que tenho à frente, pelo que me aguarda, em vez de sofrer
pelo que "perdi"? Segundo Joanna de Ângelis, em seu
livro Plenitude, psicografado por Divaldo Pereira Franco, "a
vida são as incessantes oportunidades que surgem pela frente,
jamais os insucessos que ocorreram no passado."
Vou explicar o que penso. Não é com alegria que esperamos pelo
nosso aniversário, na expectativa de confraternizar com a família
e os amigos e de receber presentes? As crianças não esperam
sempre ganhar presentes em seus aniversários e nas datas
comemorativas? Quem não espera pela Páscoa, só para ganhar e
comer ovos de chocolate? E o Natal, então? Está certo que as
pessoas se esquecem do que é realmente o Natal, mas...
isso, agora, não vem ao caso. Final de ano, todo mundo feliz,
solidário, fraternal. E a espera pelo Ano Novo? Então, não é
boa essa esperança, essa ansiedade por algo que temos certeza
que vai acontecer e que vai nos encher de alegria? É disso que
estou falando. A expectativa do reencontro, a alegria incontida
pelo que vai acontecer, a emoção da espera...
Para isso, para esse reencontro, é que faço meus preparativos!
Muitas pessoas preocuparam-se comigo durante todo esse tempo,
sem saber o que estava realmente acontecendo dentro de mim. Alguém
chegou mesmo a me dizer que eu havia sublimadoo
acontecimento! Que falta de perspectiva dessa pessoa! Que falta
de bom senso... E quanta ilusão! Eu apenas tomei o caminho mais
fácil. Ou talvez não seja o mais fácil. Mas, com certeza, é
o melhor caminho. O único possível nessas situações: eu
resolvi não sofrer.
Mas, é impossível não sofrer, alguns dirão. E eu respondo:
sim, é impossível não sofrer quando se perde o único filho
com apenas catorze anos de idade... A saudade é forte. Os vínculos
sempre foram fortes. O amor é muito grande. Não se esquece
alguém tão importante assim, de uma hora para outra, e muito
menos deixa-se de pensar nessa pessoa. É impossível. É
impraticável. Não adianta nem tentar.
Entretanto, eu "sobrevivi" a ele; eu estou aqui.
Melhor dizendo, eu ainda estou aqui nesse planeta. E, é
claro, eu ainda tenho minha missão: evoluir. Ou, pelo menos,
tentar. Ainda há pessoas que dependem de mim; ainda há pessoas
que eu devo conhecer; ainda há pessoas cujas vidas serão
afetadas pela minha (não importa como, nem com qual
intensidade); ainda há projetos a realizar; ainda há lugares a
conhecer; e, talvez mais importante que tudo isso, ainda há
muitas pessoas para AMAR.
Eu disse que escolhi o caminho mais fácil. Mas, devo dizer, que
ele não é tão fácil assim. Depende de entrega; entrega à própria
vida e a Deus, incondicionalmente; depende de se amar os
semelhantes; preocupar-se com eles mais do que consigo mesmo;
deixar de lado o egoísmo; ser paciente consigo e com os outros;
e, acima de tudo, ter coragem e esforçar-se para perdoar.
Perdoar tudo e todos. Sem exceções. Sem condições.
É claro que não alcancei esses requisitos. Não sou tão boa
assim. Entretanto, posso garantir que tenho me esforçado,
consciente e constantemente, por alcançá-los. O que eu sei é
que o caminho é esse. Por isso é meu desejo alcançar esses
requisitos. Eles são meu objetivo e minha meta. E enquanto
coloco toda a minha energia e meu esforço em uma meta tão
importante consigo sair da minha dor, esquecê-la um pouquinho,
sofrer menos, alegrar-me mais. Posso até dividi-la com outros.
Assim, ela pesa menos. Fica mais fácil de suportar. A cruz fica
mais leve.
Remoer os acontecimentos não faz bem a ninguém. Pensar no que
poderia ter sido traz menos benefício ainda. Imaginar como
teria sido a vida com ele é irrelevante. Tanta coisa poderia
ter acontecido... Eu posso imaginar pelo menos algumas dezenas
de acontecimentos diferentes para esse último ano da minha
vida. E mesmo assim eu poderia estar a léguas de distância da
verdade. Como eu posso saber? E tem outra coisa: quem me garante
que, tendo sobrevivido, ele teria sido mais feliz do que é
agora? Quem me garante que ele é infeliz hoje, que ele está
triste, que ele não foi bem recebido, que ele não está
amparado nos braços de pessoas que o amam tanto quanto eu?
Talvez alguém vá dizer que eu estou imaginando toda uma situação
adequada à "sublimação" do que aconteceu. Como já
me disseram. Mas isso não é verdade. Eu estou sendo realista.
Ou seja, estou colocando as coisas na sua real perspectiva.
Estou dando ao fato sua justa realidade: nem mais, nem menos.
Ademais, estou sendo condizente com aquilo em que acredito.
Vejamos por outro lado. As pessoas costumam colocar seu
sofrimento acima de tudo, parece que o supervalorizam. Há
pessoas que se esquecem de quantos irmãos seus sofrem nesse
planeta, dores às vezes muito piores do que a sua. É certo que
fazer comparações não é uma boa pedida. Mas, se nós nos
dispusermos a examinar a dor que nos aflige tendo em mente a dor
de outras pessoas, nós a avaliaremos em sua grandeza exata. Nem
a sentiremos maior nem menor do que ela é na verdade. Além
disso, a dor pela morte de alguém não é privilégio de alguns
poucos "escolhidos", nós bem o sabemos. A morte do
meu filho não é um problema exclusivamente meu e pelo qual
ninguém nunca passou; diversas mães já passaram por isso
antes de mim e inúmeras ainda vão experimentar essa dor. Além
disso, a morte é uma realidade da vida. Sem vida não há morte
(e vice-versa).
Pois bem, eu decidi escolher o melhor caminho. Esse caminho me
leva a valorizar o que eu tenho, os meus familiares, os meus
amigos, a minha vida. Isso não quer dizer que eu tenha me
esquecido do meu filho, ou da minha dor. Apenas consegui colocá-los
no seu "devido lugar", ou seja, em um cantinho
especial em meu coração. É um local reservado e que eu visito
com freqüência, a fim de acalmar a minha saudade.
Para acabar com o sofrimento é preciso acabar com a causa do
sofrimento. Se eu não consigo eliminar a causa (a saudade, a
falta, o vazio...), então eu devo deixar de valorizá-la para
tentar diminuir o sofrimento. É assim que deve ser. Pelo meu próprio
bem, pelo bem do meu filho, pelo bem de todas as pessoas que me
cercam.
Agir assim tem dado certo comigo. Tem me deixado mais tranqüila,
tem me deixado pronta para exercer todas as minhas faculdades:
amor, paciência, esperança, fé, coragem, alegria ... Todas
essas faculdades são dons de Deus a mim concedidos, para que eu
possa usá-los em benefício próprio, do meu crescimento
pessoal, e no benefício dos meus irmãos em Cristo. Dons que eu
não tenho o direito de recusar, muito menos de usar mal. Não
posso e não devo, também, deixar de usá-los para me trancar
dentro de uma concha, com a minha dor, protegida de tudo e de
todos. Menos de mim mesma. Seria muito egoísmo.
Deixo aqui dois pensamentos que talvez resumam tudo o que eu
tentei explicar. O primeiro não conheço o autor: "Que
a tua atitude não seja como a do rochedo, que segura a onda
causando o turbilhão."
O segundo é do livro "Poemas para Rezar", de Michel
Quoist: "A morte
existe, Senhor, mas é um momento apenas, um instante, um
segundo, um passo; o passo do provisório ao definitivo; o passo
do temporal ao Eterno."
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