O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 

Título:
A Casa das Três Portas

Autor:
Nancy Puhlmann Di Girolamo

Fonte:
Livro: As Aves Feridas Na Terra Voam

MENSAGENS

     

Não faltava conforto nem luxo naquela grande cada de bairro residencial tipo A.

Larga porta de ferro, pintada de branco, e ladeada por muitos metros de grade bem trabalhada, davam o toque refinado à entrada principal de mansão.

Na extremidade do lado esquerdo, um amplo portão deixava passagem livre para dois carros ao mesmo tempo.

No lado oposto, um discreto portãozinho estreito dava acesso à área de serviço nos fundos da residência.

Fomos visitar Selma, nossa pequenina cliente excepcional, estranhando sua prolongada ausência nos exercícios.

Pais e avós nos receberam cortesmente.

Gente fina, culta, de hábitos burilados e sorriso fácil.

Selma estava adoentada. Resfriado, gripe, sarampo, ninguém sabia ao certo.

Lembrando-nos de nossa formação de enfermeira, quisemos vê-la.

- Não é necessário se incomodar.

- Mas seria um prazer.

- É que ela está no outro lado da casa. A senhora sabe... os vizinhos, os amigos. Temos vida social muito intensa. É mais fácil, e melhor para ela, que seja assim.

Insistimos.

Chamou-se uma das empregadas, por meio de elegante campanhia disfarçada entre as dobras de uma cortina aveludada.

Com surpresa, fomos conduzidas para fora da mansão através do portão central; encaminhadas, pelo lado de fora, até o inexpressivo portãozinho do lado direito, convidadas, por um gesto, a andar em fila indiana por extenso corredor sem nenhum adorno, até chegar à área de serviço. Ali estavam instaladas a lavanderia, a passaderia, a cômodo de depósito de material de limpeza e dois quartos para empregadas.

Num desses quartos, exatamente o da empregada que nos acompanhava, estava Selma.

Era ali que residia a filha caçula dos donos da casa.

Selma sorriu, discretamente, ao nos reconhecer. Estava muito limpa e cuidada. Como emagrecera bastante e mostrava expressão dolorida no rosto, examinamos seu corpo procurando localizar a causa do sofrimento. Estava começando a ter escaras (lesões na pele causadas pelo atrito com a cama nos pontos de apoio do corpo), requerendo urgentes curativos e massagens preventivas.

- Quem poderia fazer isso?

- Eu mesma, respondeu a empregada. Basta que nos ensinem. Tenho tanta pena dessa pobre menina!

A palavra “pobre” ressoou estranhamente em nossos ouvidos.

Adaptamos uma bandeja para curativos, e orientamos a empregada que, infelizmente, tinha pouca habilidade para esse tipo de trabalho.

Exercitamos as articulações de Selma, massageamos seus músculos e beijamos sua testa. Depois, ficamos segurando suas mãos sem saber o que dizer.

Duas lágrimas ovais saíram de seus olhos, e foram rolando lentamente até os meus dedos.

- Há uma televisão no quarto? Uma vitrola? Um quadro colorido? Qualquer coisa... qualquer outra coisa além das camas, armários e prateleiras fechadas?

- Não. Ah! Há ainda a cadeira de rodas especial colocada num dos ângulos do aposento, e um recipiente portátil para as necessidades fisiológicas.

Conversei um pouco com a empregada.

- Não. Não esteve doente. É que... não vão deixá-la mais ir aos exercícios. Dizem que não adianta, e que o motorista não tem mais tempo disponível para esse encargo.

Olhamos ao longo do seu pequenino corpo, todo atrofiado pela quadriplegia (paralisia nos 4 membros).

Ela não podia falar, mas ouvia e entendia bem tudo o que se dizia ao seu redor.

Com muita cautela, para não magoá-la, falamos:

- Não tem importância que fique sem ir à escola. Aqui mesmo ela pode ser exercitada. Nós orientaremos, e logo estará melhor.

A empregada, então, desabafou.

- Não vai haver nada disso. Eles vão interná-la numa casa especial, ainda esta semana. Uma dessas casas para ficar a vida toda.

Selma tinha apenas 4 anos e era, fundamentalmente, uma criança como todas as crianças.

Iam despojá-la de tudo a que tinha direito: o lar, a segurança, o tratamento, o amor.

Olhando-a, parecia-me ver uma rosa sendo fechada à força, ou despetalada, arrancada da terra, pisada.

Recordei-me da outra Selma que havia nela e que, talvez, só os reabilitadores conheceram. Aquela que fazia ginásticas no chão esforçando-se por engatinhar. A Selma que estava melhorando dia a dia, embora um milímetro em cada semana. A Selma que não seria curada, mas teria sua chance de desenvolver ao máximo suas possibilidades latentes. A Selma que todos amavam na escola e da qual todos sentiam saudades.

Saímos da casa das três portas procurando, no pensamento, argumentos consoladores. – Cada filho tem os pais que merecem e vice-versa, foi o que nos ocorreu. Porém, o amor é uma porta aberta para todos... Como é possível que os laços consangüíneos, o apelo de proteção dos membros paralisados, a fragilidade infantil, o olhar sedento de afeições, falem menos forte que as conjunturas da vida social?

E pensar, que neste mundo triste, um dia os anjos se materializaram para cantar: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade”, porque nascera o mensageiros do amor, a luz nas trevas, a alegria dos homens...

   

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