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Não faltava
conforto nem luxo naquela grande cada de bairro residencial tipo
A.
Larga porta de
ferro, pintada de branco, e ladeada por muitos metros de grade
bem trabalhada, davam o toque refinado à entrada principal de
mansão.
Na extremidade do
lado esquerdo, um amplo portão deixava passagem livre para dois
carros ao mesmo tempo.
No lado oposto, um
discreto portãozinho estreito dava acesso à área de serviço nos
fundos da residência.
Fomos visitar
Selma, nossa pequenina cliente excepcional, estranhando sua
prolongada ausência nos exercícios.
Pais e avós nos
receberam cortesmente.
Gente fina, culta,
de hábitos burilados e sorriso fácil.
Selma estava
adoentada. Resfriado, gripe, sarampo, ninguém sabia ao certo.
Lembrando-nos de
nossa formação de enfermeira, quisemos vê-la.
- Não é necessário
se incomodar.
- Mas seria um
prazer.
- É que ela está
no outro lado da casa. A senhora sabe... os vizinhos, os amigos.
Temos vida social muito intensa. É mais fácil, e melhor para
ela, que seja assim.
Insistimos.
Chamou-se uma das
empregadas, por meio de elegante campanhia disfarçada entre as
dobras de uma cortina aveludada.
Com surpresa,
fomos conduzidas para fora da mansão através do portão central;
encaminhadas, pelo lado de fora, até o inexpressivo portãozinho
do lado direito, convidadas, por um gesto, a andar em fila
indiana por extenso corredor sem nenhum adorno, até chegar à
área de serviço. Ali estavam instaladas a lavanderia, a
passaderia, a cômodo de depósito de material de limpeza e dois
quartos para empregadas.
Num desses
quartos, exatamente o da empregada que nos acompanhava, estava
Selma.
Era ali que
residia a filha caçula dos donos da casa.
Selma sorriu,
discretamente, ao nos reconhecer. Estava muito limpa e cuidada.
Como emagrecera bastante e mostrava expressão dolorida no rosto,
examinamos seu corpo procurando localizar a causa do sofrimento.
Estava começando a ter escaras (lesões na pele causadas pelo
atrito com a cama nos pontos de apoio do corpo), requerendo
urgentes curativos e massagens preventivas.
- Quem poderia
fazer isso?
- Eu mesma,
respondeu a empregada. Basta que nos ensinem. Tenho tanta pena
dessa pobre menina!
A palavra “pobre”
ressoou estranhamente em nossos ouvidos.
Adaptamos uma
bandeja para curativos, e orientamos a empregada que,
infelizmente, tinha pouca habilidade para esse tipo de trabalho.
Exercitamos as
articulações de Selma, massageamos seus músculos e beijamos sua
testa. Depois, ficamos segurando suas mãos sem saber o que
dizer.
Duas lágrimas
ovais saíram de seus olhos, e foram rolando lentamente até os
meus dedos.
- Há uma televisão
no quarto? Uma vitrola? Um quadro colorido? Qualquer coisa...
qualquer outra coisa além das camas, armários e prateleiras
fechadas?
- Não. Ah! Há
ainda a cadeira de rodas especial colocada num dos ângulos do
aposento, e um recipiente portátil para as necessidades
fisiológicas.
Conversei um pouco
com a empregada.
- Não. Não esteve
doente. É que... não vão deixá-la mais ir aos exercícios. Dizem
que não adianta, e que o motorista não tem mais tempo disponível
para esse encargo.
Olhamos ao longo
do seu pequenino corpo, todo atrofiado pela quadriplegia
(paralisia nos 4 membros).
Ela não podia
falar, mas ouvia e entendia bem tudo o que se dizia ao seu
redor.
Com muita cautela,
para não magoá-la, falamos:
- Não tem
importância que fique sem ir à escola. Aqui mesmo ela pode ser
exercitada. Nós orientaremos, e logo estará melhor.
A empregada,
então, desabafou.
- Não vai haver
nada disso. Eles vão interná-la numa casa especial, ainda esta
semana. Uma dessas casas para ficar a vida toda.
Selma tinha apenas
4 anos e era, fundamentalmente, uma criança como todas as
crianças.
Iam despojá-la de
tudo a que tinha direito: o lar, a segurança, o tratamento, o
amor.
Olhando-a,
parecia-me ver uma rosa sendo fechada à força, ou despetalada,
arrancada da terra, pisada.
Recordei-me da
outra Selma que havia nela e que, talvez, só os reabilitadores
conheceram. Aquela que fazia ginásticas no chão esforçando-se
por engatinhar. A Selma que estava melhorando dia a dia, embora
um milímetro em cada semana. A Selma que não seria curada, mas
teria sua chance de desenvolver ao máximo suas possibilidades
latentes. A Selma que todos amavam na escola e da qual todos
sentiam saudades.
Saímos da casa das
três portas procurando, no pensamento, argumentos consoladores.
– Cada filho tem os pais que merecem e vice-versa, foi o que nos
ocorreu. Porém, o amor é uma porta aberta para todos... Como é
possível que os laços consangüíneos, o apelo de proteção dos
membros paralisados, a fragilidade infantil, o olhar sedento de
afeições, falem menos forte que as conjunturas da vida social?
E pensar, que
neste mundo triste, um dia os anjos se materializaram para
cantar: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de
boa vontade”, porque nascera o mensageiros do amor, a luz nas
trevas, a alegria dos homens...
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