O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 

Título:
A Fonte da Saúde

Autor:
Amália  Domingo Solér (médium)
Padre Germano (espírito)

Fonte:
Livro: Menórias do Padre Germano

MENSAGENS

     

Para nós, o passado é sempre o melhor. Por via de regra, o dia de ontem nos sorri misteriosamente ao coração, ainda que nele a miséria nos tenha oprimido e torturado. Alegria secreta, essa, no recordas as horas que se confundem nas sombras de que lá se foi...

Por que isso, Senhor? Ah! é fácil advinha-lo: é porque, quanto menos anos contamos, menos responsabilidades nos oneram.

Assim, o tempo passado se nos afigura o melhor, uma vez que a cada hora transcorrida ou cometemos uma falta, ou presenciamos um crime, ou lamentamos uma injustiça, ou deploramos uma dolorosa mentira. É bem certo o rifão: quanto mais se vive mais se aprende. Senhor! amplíssima tem sido a minha jornada e muito hei visto. A fundo tenho sondado o coração humano... tão atentamente tenho acompanhado o vôo das inteligências, que, com cem voltas ao mundo, eu não veria tanta variedade de idéias e tanta desordem em todos os sentidos, quais as tenho observado nos longos anos transcorridos no rincão da minha querida aldeia. Que preocupação a dos homens em parecerem bons! Logo, não pecam por ignorância; ou, por outra, sabem o que é ser mau, conhecem o mal! E assim como Adão se ocultou do Senhor após o pecado, com vergonha de sua nudez, assim vestem os homens a nudez dos seus vícios com o manto de virtudes hipócritas; e o fato é que nada se molda melhor a essa prestidigitação das almas do que as tradições religiosas.

A Religião só admite a verdade, é certo; mas as religiões... são o manto das misérias humanas... E eu aceitei a missão do sacerdócio no firme propósito de seu um mártir, se tanto fosse preciso, mas nunca um pecador; a bem dizer, todos pecamos; mas erros há premeditados, como há faltas que se originam da nossa fraqueza física e moral; entretanto, cumpre pecar o menos possível, já que a perfeição absoluta é exclusivo predicado de Deus.

Força, e muita, se faz preciso na Terra para ser severo com os hipócritas, uma vez que se converte a gente em alvo de todos os ódios; assim, deveriam reconhecer a minha retidão, pois sabem que não condeno, recordando o procedimento de Jesus com a mulher pecadora. Sabem que transijo com o pecador; jamais, porém, com a iniqüidade.

Nos braços estreitarei aquele que ingenuamente me disser: “Padre, sou um miserável, sou um malfeitor”. Repelirei, contudo, abominarei e afastarei da minha presença aquele que me venha encarecer seu amor a Deus, seu desprendimento das coisas terrenas, em o vendo eu radicado às vaidades mundanas como ostra ao rochedo.

Por que, pois, me perseguem, colocando-me na contingência de os desmascarar, dizendo-lhes de frente o que mais ofende o homem – a enumeração dos seus defeitos? Senhor! Tem misericórdia de mim, lembra-te de que sou fraco, que sofri, amei e comigo mesmo lutei em toda a minha vida! Por que exigir de mim virtudes que não possuo? Por que ver-me envolvido em histórias alheias, quando da minha história o próprio peso me acabrunha?

Senhor! Cada dia que passa, mais me convenço de que hei vivido ontem e hei de viver amanhã, para realizar o sonho de minhalma. Conheço que minhas forças estão gastas, que necessito repousar em nova existência, na qual de todos viva esquecido, menos da companheira de minhalma, porque não compreendo a vida sem a fusão de dois corações num só coração, de duas almas numa só alma.

Senhor! Quanto almejo o termo desta jornada... tão cheia de contrariedade, havendo de lutar, abertamente, criando-me numerosas inimizades... Sim! Eu quero viver num recanto da Terra; quero ter minha cabana rodeada de palmeiras; quero amar uma mulher de pálido semblante e negros cabelos; quero estreitar ao coração crianças formosas que me chamam – pai; quero bendizer a Deus quando os pássaros o saudaram, extasiar-me na meditação quando a esposa do Sol acarinhar a Terra... Quero, enfim, retemperar as forças, adquirir vida, para que o espírito sorria... Quero, ainda, que por algum tempo não me cheguem aos ouvidos os lamentos dos homens, ignorando as lutas dessa Humanidade! Nem me chames egoísta, Senhor, porque trago comigo muitos anos de luta. A carreira do sacerdote é das mais penosas, quando ele quer cumprir o seu dever. Tanto se exige do sacerdote!...

Indubitavelmente, foi por expiação que aceitei esse mister, porque, ao ver tantas infâmias, tantos crimes ocultos, todo o meu ser estremece e me sinto pequeno, muito pequeno para reprimir tantos abusos; e quando quero cortar algum, eis que meus superiores me ameaçam, dizendo que os fins justificam os meios. Sofro então, muito, Senhor, porque não admito fins dignos, a essas Eminências: - “Senhores, ou bem se crê, ou se não crê em Deus”. Se reconhecemos uma Inteligência suprema; se consideramos que um olhar infinito está constantemente fixado na Criação, devemos compreender que para esses olhos eternos na há ocultar o que sentimos; assim, pois, a falsa devoção de nada serve... Que importa aceitam-na os homens, se para Deus ela não tem valor? Acaso serão as religiões meros convênios para criar privilégios mundanos? Não. As religiões devem servir para aproximar o homem de Deus, porque as religiões são um freio ao galope das paixões; uma vez que não conseguem melhorar-nos intimamente, tão ateu é o que diz não crer em Deus, como o que levanta uma capela para encobrir um crime.

Senhor! Senhor! A ti me confesso; faltam-me forças para lutar com os homens... Arranca-me, pois, este amor à verdade para que possa tolerar a hipocrisia, ou reveste-me de maior energia para que nos supremos momentos da luta conserve meu pobre corpo a energia necessária e não se deixe vencer, tão íntegro quanto o meu espírito. Eis que me encontro agora mesmo alquebrado, tendo passado uns quantos dias cruéis, porque – é preciso que o diga – quando me ponho em contacto com o mundo, sou profundamente desgraçado.

Oh! A Humanidade! A Humanidade tudo envenena!.

Quem diria que uma tranqüila fonte a que os aldeões denominam – Fonte da Saúde – haveria de proporcionar-me sérios desgostos, amargas contrariedades e ao mesmo tempo fazer uma boa obra – salvar uma rosa inçada de pungentes espinhos?

Manuscrito querido, quando eu amanhã deixar a Terra, sabe Deus aonde irás parar.. Quem quer, porém, que te possua, desejo aprenda nestas confissões e reflexões de minhalma a que extravios nos conduzem as paixões desordenadas, vendo que a hipocrisia e o fingimento hão sido, quase sempre, o móvel das fundações religiosas.

Ao pé de uma montanha, entre dois penhascos, uma torrente de água cristalina calmava a sede dos meninos da minha aldeia; e por aquelas tardes felizes em que eu passava, rodeado de crianças – quando ainda não conhecia as misérias do mundo – aprazia-me sentar junto ao rústico manancial para contemplar a família infantil, que corria e saltava alegremente, deleitosa, acompanhando sua frugal merenda daquele néctar da Natureza tão necessário à vida. Ao contemplar aquelas carinhas rosadas, aqueles olhos brilhantes, aqueles lábios sorridentes que recolhiam sôfregos a pura linfa, dizia-lhes: “Bebei, bebei, filhos meus, que esta é a água da saúde”. Desde então, todos os habitantes da aldeia passaram a chamar o manancial humilde – a Fonte da Saúde.

Água salutífera, na verdade, para os inocentes petizes que me acompanhavam pressurosos, a fim de os deixar brincar com Sultão e contar-lhes histórias de lobisomens. Para as almas inocentes todas as águas são boas! De resto, quando cheguei à aldeia, notei muito desasseio em relação às crianças, de sorte que lhes fui ensinando a limpeza como dever do bom cristão, e para que facilmente me entendessem, dizia: - “Se lavardes os olhos duas vezes ao dia, com água da Fonte da Saúde, nunca tereis moléstias”.

E aqueles inocentes, que me estimavam muito, cumpriam rigorosamente a prescrição do “Senhor cura”, acreditando que a água contivesse milagrosa virtude, quando esta consistia no asseio que eles, como as mães, foram adquirindo pouco a pouco. Eis aí a origem da Fonte da Saúde... Que simples o princípio das coisas! Entretanto, como se não fazia especulação alguma, eu lhes deixava crer que aquela água continha a virtude de conservar a vista, desejando que os meus fieis tivessem o hábito da higiene.

Certo dia, veio um dos maiorais dizer-me que seria conveniente erigir uma capela naquele local, porque assim, quando as mulheres fossem buscar água, poderiam rezar; que ao pecador se fazia mister deparasse, a cada passo, pequenos templos onde orasse e se arrependesse de suas faltas; que, igualmente, aquela água poderia ser propriedade da capela, assegurando, a preços módicos, uma renda certa para a nova ermida.

Fitei meu superior de alto a baixo e disse-lhe friamente:

- Compreendo perfeitamente a vossa intenção, mas, desculpai-me o não me conformar com ela. Templos não faltam, que até os há em demasia. Quanto a estabelecer preço para a água, também se não pode fazer, uma vez que essa água nenhuma virtude possui. Já a analisei quimicamente e posso afirmar que nenhuma substância contém que possa recomendá-la especialmente.

- Mas chamam-lhe água da Fonte da Saúde...

- Esse nome lhe pus eu, no intuito de aliá-la aos hábitos de asseio, que desejava implantar entre os meus paroquianos. A limpeza é a saúde e eu queria que estes pobres seres, desprovidos até do mais necessário, tivessem uma riqueza positiva gozando saúde inalterável, pois sabido é que a limpeza não só fortalece o corpo, senão que o vitaliza e embelece. Levante Vossa Reverendíssima a capela noutro qualquer sítio (capela que não julgo necessária), mas deixe correr livremente o manancial da saúde, pois não quero especulações à sombra da religião.

- Sois um mau sacerdote, não sabeis insuflar a fé religiosa.

- Do modo por que o quereis, jamais a insuflarei; se Deus é a verdade, só a verdade se lhe deve ofertar...

- Mas haveis de consentir, porque uma opulenta família aqui estará em breve, atraída pela nomeada da Fonte da Saúde. A primogênita dessa nobre família está enferma; sua mãe (devotíssima senhora) espera que a filha aqui se restabeleça e já tem feita a promessa de que, se tal suceder, levantará uma capela junto à fonte abençoada; eu vo-lo repito, não estorveis a que se levante uma nova casa de oração.

Ia retorquir-lhe, mas pareceu-me que alguém me segredava ao ouvido:

- Cala-te e espera.

Nada respondi; meu superior acreditou-me convencido por seus argumentos e despediu-se mais afetuosamente que de costume.

Em breves dias chegou a família anunciada, isto é, parte dela, pois não vinham mais que a mãe e a filha mais velha, com vários fâmulos que, depois da instalação de seus patrões, volveram à cidade, ficando apenas um velho escudeiro e a enfermeira da jovem enferma.

Imediatamente fui oferecer-lhes meus préstimos, pois recebi ordens terminantes a respeito; mesmo que assim não fosse, fá-lo-ia, pois, além do mais, pressentia que aquela gente trazia mistério consigo e, não obstante fugir das pessoas quando nelas pressinto a preocupação de um crime, venço a repulsa e faço quanto possível para evitá-lo. Creio, aliás, ser esta a minha única obrigação: evitar o mal e praticar o bem.

De fato, logo que as vi, compreendi que me não enganara: a mãe era uma criatura boa, no fundo verdadeiramente crente em Deus, porém ciosíssima da sua nobre linhagem: cem vezes se mataria, antes que admitisse um plebeu na família; a filha era tão orgulhosa quanto a mãe, supersticiosa e dominada absolutamente pelo fanatismo religioso, tanto quanto pelo orgulho da sua nobilíssima estirpe. Conhecia-se que estava enferma, pela sua extrema palidez; a expressão do rosto denotava um tédio tão profundo, que tudo a molestava, a começar por si mesma.

Fui diplomata pela primeira vez na vida; deixei que discorressem, principalmente sobre a construção da capela, dispostas a levantá-la junto à Fonte da Saúde, desde que a jovem Clarisse se curasse, como esperavam sucedesse. Eu as perscrutava e pedia forças para calar-me, pois compreendi que Clarisse, embora enferma, tinha remédio para a sua enfermidade. Comecei a estudar o caráter daquela mulher e vi que possuía um coração de mármore e uma inteligência prejudicada pelo excessivo orgulho, fazendo de Deus uma idéia tão absurda e inadmissível que se não podia ouvir com calma os seus desdenhosos raciocínios.

Todos os dias, lá se ia ela a beber da fonte e, no entanto, a palidez lhe aumentava, como lhe aumentavam a impaciência e a irritabilidade de caráter. Dispus-me a senhorear aquela alma rebelde por meio da brandura, mas logo compreendi que de um tal espírito só pelo medo religioso fora possível conseguir alguma obediência. E foi assim que, para com ela, fui sacerdote severo, a lembrar-lhe continuamente o inferno, no qual, aliás, nunca pude crer. Em compensação, sua mãe achava-se em melhores condições: de caráter mais brando, facilmente estabelecemos intimidade, até que, tempos depois, me disse em confissão o seguinte:

- Ah! Padre; tenho na consciência um peso que me acabrunha tanto, que nada disse a meu marido. Disse-o, contudo, ao meu confessor e este aprovou meu plano; sempre, porém, que vos ouço, meu Padre, não sei o que se dá comigo; mas a verdade é que me sinto confusa e perdida entre mil idéias distintas. Há nesse plano circunstâncias tão agravantes que necessitamos de poderosa força de vontade para desempenhá-lo.

- Já há tempos compreendo que a senhora sofre.

- Ai! Padre, sofro muito! Desgraçadamente, minha filha Clarisse vai ser mãe e do modo mais fatal que se pode imaginar: basta dizer que o seu fardo é fruto de um amor incestuoso. Ela e um seu irmão (filho bastardo de meu marido) foram vitimas de satânica tentação. Precisamos salvar a honra da família antes de tudo. Ao descobrir essa horrorosa loucura, contudo, já não era tempo de reparar o mal; apelamos para os remédios violentos a ver se conseguíamos aniquilar o ser em má hora concebido, mas tudo em vão. Aqui chegados, apelamos para novos remédios, inutilmente ainda, e agora se faz preciso, meu Padre, que nos auxilieis neste transe fatal.

- Em que poderei ser-vos útil, senhora? Falai, que disposto estou a ouvir.

- Obrigada, Padre; não esperava menos de vós e crede que saberei recompensar vossos serviços. Quando o filho do crime, quando o fruto do incesto vier ao mundo, é necessário sufocar-lhe o choro; e, para desagravo do Eterno, levantaremos sobre a sua ignota sepultura uma ermida, que tomará o lugar da fonte próxima e se denominará a Capela da Saúde.

Minha filha, liberta do fruto incestuoso, ficará boa e acreditarão que a cura se fez pela água da fonte bendita. O santuário ganhará renome e com a fundação dessa obra se engrandecerá a Igreja de Deus. Finalmente, se os meios não são quais foram para desejar-se, os fins melhores não podiam ser, ficando sem mácula a honorabilidade de uma pobre família e levantando-se um templo, que será grandioso de futuro, e ao qual acudirão os fieis, a implorar a misericórdia de Deus.

- Dessa misericórdia necessitais vós, senhora; da misericórdia do Eterno, para que vos perdoe um infanticídio.

- Um infanticídio, Padre?

- Outro nome não tem o assassínio de uma criança! Quereis levantar um templo sobre um túmulo! Quereis que o sangue de uma criança inocente sirva de argamassa às pedras de uma nova igreja levantada para encobrir um crime! E acreditais, pobre pecadora, que essa casa de oração possa ser grata ao Divino Jeová? Não blasfemeis mais, senhora, porque ai dos blasfemos... Acreditais que os incestuosos serão menos culpados, se depois de cometerem um assassínio dispuserem as primeiras pedras de uma catedral? Ah! Senhora, Deus não quer templos de pedra, porque Ele os formou, múltiplos, na consciência de cada homem.

- Como desarmar, então, sua justa cólera?

- Pois acreditais que Deus se encolerize como qualquer fraco mortal? Acreditais que os tristes episódios da Terra possam chegar até ao seu trono excelso? Quando pôde o negro corvo manchar o arco-íres? Quando pôde o réptil, rastejando no lodo, librar-se às ondulações do éter?

- Mas, que fazer, então, para conseguir algo meritório? Eu vo-lo confesso, Padre, tenho medo...

- Que fazer? Escutai-me e ai de vós se me não obedecerdes. O que cumpre é procurar secretamente quem se encarregue desse pobre ser que há de vir ao mundo, e que, se a ele vem, é que algo tem de fazer aqui. Se o quiserdes, de tudo me encarregarei: a quantia que iríeis gastar na construção da capela, antes a empregareis na constituição de um patrimônio para esse pobre órfão, a quem já basta, por desgraça, o nascer sem um beijo de mãe. Já que o orgulho da família, como a fatalidade, lhe arrebatam o pão do espírito, não lhe negueis vós o pão do corpo, tanto mais quanto é o vosso sangue que lhe há de correr nas veias.

- Ah! Padre, o que propondes é assaz comprometedor, ao passo que um homem morto não fala.

- Não fala! Mas, que dizeis? Um morto fala mais que toda uma eterna geração! Sabeis o que é ser perseguido pela sombra de uma vitima? Sei-o eu, graças a Deus, não por experiência própria; muitos criminosos me têm contado suas angústias e eu sei que o remorso é o potro do tormento em que se tritura a consciência humana. Em nome de Deus, portanto, e por amor do próximo, eu vos proíbo, terminantemente, levar a cabo o vosso desígnio sinistro. Deixai-me agir, porque arranjarei na vizinha aldeia uma família que se encarregue do filho da loucura. Quanto a vós, cumpri a lei de Deus, se não quiserdes que o sacerdote se converta em juiz implacável.

Não sei que metamorfose se opera em mim quando procuro evitar um erro, mas sinto-me engrandecer, não sou mais o tímido pastor de almas, que foge do perigo, antes juiz severo, que toma o depoimento dos primeiros potentados da Terra. o resplendor das coroas, nesses momentos, não me deslumbraria, tão forte me julgo e investido me sinto de um poder especial. Parece que se me não executassem as ordens, não olharia as conveniências sociais, dizendo a verdade inteira à face do mundo. No entanto, antes de consentir numa felonia, creio que atentaria contra a própria vida. Em tais momentos, porém, exerço subjugação tão poderosa sobre os que me cercam, que eles me obedecem, senão voluntariamente, pela força: - para salvar um inocente, converto-me em permanente acusador e não descanso um segundo em tomar todas as precauções para evitar a consumação de um crime.

Não descansei durante um mês, até achar uma família capaz de tomar a seu cargo o pobre órfão; assegurei-lhe o futuro com avultado pecúlio; e, quanto a Clarisse, doutrinei-lhe constantemente o amor do próximo, até o dia em que, moribunda, deu à luz um menino. A pobre moça ouvia-me com profundo assombro, parecendo humanizar seus sentimentos; mas eu não me tranqüilizei enquanto não vi o menino nos braços da ama, dormindo docemente. Pobre entezinho condenado à morte antes de ter nascido! Salvai-te de morte certa... Qual será tua missão na Terra? Deus, unicamente, o sabe!

Ao regressar à Corte, Clarisse apertou-me a mão efusivamente, dizendo: - “Obrigada, Padre; quando para aqui vim, estava desesperada, e, graças a vós, hoje me encontro tranqüila. Velai por ele, meu Padre, e, quando possa rezar, ensinai-o a rezar por sua mãe”. Ao ouvir palavras tais, ao ver que havia conseguido abrandar aquele coração, senti tão grande satisfação que me dou por compensado em minhas grandes amarguras. Só em recordá-lo, adquiro forças para resistir ao combate que me aguarda, visto que meus superiores me chamarão a prestar-lhes severas contas, por não haver consentido se levantasse a capela da saúde, utilizando o manancial que lhe dava o nome.

Muito sofrerei; gravíssimas recriminações cairão sobre mim, porém... a consciência está tranqüila. Senhor! Salvei um inocente de morte certa e assegurei seu futuro; não participei da piedosa fraude de transformar uma água comum em água milagrosa; evitei que se consumasse um embuste e que duas desgraçadas mulheres se fizessem infanticidas.

Pois não será melhor assim? Não será mais justo do que deixar construir um templo sobre a cova de um inocente?

Quem sabe o que esse menino poderá ser?

Senhor! Creio haver cumprido estritamente o meu dever e quanto a isto estou tranqüilo, mas as recriminações injustas me fatigam e vão envenenando o ambiente de minha vida, a ponto de já não encontrar um recanto onde possa livremente respirar.

Muita gente me tacha de herege, de falso ministro de Deus! Senhor! Dá-me força de vontade para calar, uma vez que os segredos de confissão não os posso revelar; mas eu te amo, Senhor! Amo-te e creio que te devemos adorar pelo culto das boas ações. E boa ação não é, decerto, cometer fraudes em teu nome. Se em ti tudo é verdade, não devemos adorar-te com hipocrisia.

    

Correio Fraterno  Gostou da mensagem? Envie para alguém especial!