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José de Arimatéia,
distinto cavalheiro de Jerusalém, não era um amigo de Jesus, à
última hora. Efetivamente, não podia aceitar, de pronto, as
verdades evangélicas e nem comprometer-se com a nova doutrina.
Ligado a interesses políticos e raciais, continuava atento à
tradições judaicas, embora observasse carinhosamente o
apostolado divino. Sabia orientar-se com elegância e defendia o
Nazareno, aparando acusações gratuitas. Impossível considerar
Jesus mistificador. Conhecia-lhe, de perto, as ações generosas.
Visitara Cafarnaum e Betsaida, reiteradas vezes, e, dono dum
coração bem formado, condoia-se da sorte dos pobrezinhos. Em
muitas ocasiões, examinara possíveis modificações do sistema de
trabalho para beneficiar os servidores da gleba. Afligia-o
observar criancinhas desprotegidas e nuas, ao longo das
casinholas humildes dos pescadores. Por isso, a presença do
Messias Nazareno, em derredor das águas, confortava-lhe o
espírito sensível e bondoso, porque Jesus sabia inspirar
confiança e despertar alegria no ânimo popular. Não podia
segui-lo na posição de apóstolo, mas estimava-o, sinceramente,
na qualidade de amigo fiel.
Admirador
desassombrado, José não suportava a tentação de apresentá-lo aos
amigos prestigiosos e influentes. Não era o propósito
propagandístico em sentido inferior que o animava em semelhantes
impulsos. Desejava, no fundo, que todos conhecessem o Mestre e o
amassem, tanto quanto ele mesmo.
Jesus, porém, se
não deixava de atender aos irmãos humildes que lhe traziam os
filhos da necessidade e da desventura, não podia endossar os
entusiasmos dos amigos que lhe traziam os filhos da fortuna e do
poder.
Em razão disso, o
seu valoroso admirador de Jerusalém muitas vezes sentiu
estranheza, em face do procedimento do Mestre, que se retraía
com discrição singular. Os sacerdotes do Templo e autoridades
farisaicas, invariavelmente, sentiam-se honrados com a
apresentação de romanos ilustres. Mas Jesus era diferente.
Guardava uma atitude respeitosa, com admirável economia de
emoções e palavras, quando em contacto com os poderosos da
Terra. Ele, que se revelava alegremente aos pequeninos
abandonados, mantinha-se fundamente reservado ante as
autoridades intelectuais e políticas, como se fortes razoes
interiores o compelissem à vigilância.
Conta-se que,
certa vez, quando se abeirava do lago, em companhia de Simão
Pedro, no radioso crepúsculo de Cafarnaum, eis que lhe aparece
José de Arimatéia, de súbito, fazendo-se acompanhar de três
amigos que, pela vestimenta, denunciavam a condição de áulicos
imperiais. O prestimoso israelita adiantou-se e, depois de
cumprimentar cordialmente o Messias, junto de Simão,
apresentou-lhe os companheiros:
- Este é Pompônio
Comodiano, patrício notável, com funções de assessor no gabinete
do Prefeito dos Pretorianos. Tem sob sua responsabilidade o
interesse imediato de inúmeras famílias de servidores do
Império.
E, como se
quisesse comover o Nazareno, continuava:
- Muitas
criancinhas dependem de suas providências e pareceres...
Jesus
cumprimentou-o num gesto amigo, e José passou a outro:
- Este é Flávio
Graco Acúrcio, questor admirado e cuidadoso, que se
responsabiliza por serviços financeiros, desempenhando
igualmente funções de juiz criminal. Grandes trabalhos
desenvolve, no setor da autoridade administrativa, sendo
obrigado a trabalho incessante, como elevado servidor do bem
público.
O Mestre repetiu a
saudação, e o amigo apresentou-lhe o último:
- Este é
Quintiliano Agrícola, patrício ilustre, que desempenha as
funções de Legado do Imperador, em trânsito na província. Já
prestou relevantes serviços em Aquitânia, noutro tempo, e agora
dirige-se a Roma, onde prestará relatórios verbais do que
observou entre nós, achando-se à frente de importantes
responsabilidades referentes ao bem-estar coletivo.
O Mestre saudou e
manteve-se em respeitoso silêncio.
Os romanos, que
tanto ouviram falar nos prodígios dele, aguardavam-no sob o
olhar curioso e penetrante.
Alguns minutos
passaram, pesadíssimos, até que Pompônio exclamou, depois de
alijar pequenina folha seca que o vento lhe depusera na túnica:
- É muito diferente dos nossos magos. É grave e triste...
- Sim –
acrescentou Acúrcio -, minha feiticeira do Esquilino sente
prazer quando lhe dirijo a palavra. Este, porém, não justifica o
renome.
- Na porta d´Óstia
– aduziu Agrícola, pedante e sarcástico – temos o nosso
adivinho, que me oferece revelações e sinais. É um feiticeiro
admirável. Faz-nos predições absolutamente exatas e conhece
todos os acontecimentos de nossa casa, embora se mantenha a
grande distância. Não faz muito tempo, descobriu o paradeiro das
jóias de Odúlia, que alguns escravos ladrões haviam depositado
nos aquedutos.
Movimentava-se a
opinião dura e franca dos romanos dominadores, quando José de
Arimatéia, desejando uma explicação do Messias, interpelou-o, em
tom afável:
- Não tem o Mestre
algum sinal para os nossos amigos?
Jesus fixou nos
visitantes o olhar muito lúcido e respondeu:
- Já receberam
eles o sinal da confiança do Pai, que lhes conferiu, por algum
tempo, os cargos que ocupam.
Admirados com a
inesperada resposta, os patrícios multiplicaram as perguntas.
Queriam demonstrações sobrenaturais, desejavam maravilhas.
O Mestre, porém,
depois de ouvi-los com sublime serenidade, ergueu a voz, que
eles não ousaram interromper, e falou:
- Romanos, em
verdade há feiticeiros que fazem prodígios e magos que distraem
os ócios dos homens indiferentes ao destino de sua própria alma.
Eu, porém, não vos trago entretenimentos passageiros e sim a
solução dos interesses eternos do Espírito que nunca morre. Para
diversões e prazeres inúteis, tendes os vossos circos cheios de
dançarinos e gladiadores. Se desejais, contudo, a Revelação Viva
de que sou portador, examinai primeiramente até onde vos
comprometereis com César, a fim de servirdes efetivamente a
Deus.
Em seguida, fez
longa pausa, que os circunstantes não cortaram, e concluiu:
- Em verdade,
porém, vos afirmo que se cumprirdes, desde agora, os deveres
referentes aos títulos com que vos apresentais, servindo
conscientemente a justiça e atendendo aos interesses do bem
público, na compreensão fiel das graves responsabilidades que
assumistes, estareis com o Pai, desde hoje, e o Pai estará em
vós.
Os presentes
entreolharam-se, espantados. E quando retomaram a palavra, o
Messias Nazareno já se havia despedido de José de Arimatéia e
atravessava as águas do grande lago, em companhia de Pedro, em
busca da outra margem.
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