O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 

Título :
O Governador

Autor:
Izabel Scoqui

Fonte:
Livro: Mentores de André Luiz

MENSAGENS

     

Chegara o crepúsculo em Nosso Lar. Suave melodia embalsamava o ambiente, era um chamado à oração. A colônia toda se juntava para participar da prece da governadoria. O templo era maravilhoso. Sentado em um lugar de destaque o Governador Espiritual. O ancião, coroado de luz, fixava o Alto, em atitude de prece, envergando alva túnica de irradiações resplandecentes. Em plano inferior, setenta e duas figuras pareciam acompanhá-lo em respeitoso silêncio. Eram os Ministros dos seis Ministérios existentes em Nosso Lar. Estes, pouco depois, começaram a cantar um hino de indefinível beleza. Pairavam no recinto misteriosas vibrações de paz e alegria, quando se desenhou ao longe, em plano elevado, um, maravilhoso coração azul com estrias douradas. Era a resposta das esferas superiores. Foi aí que abundante chuva de minúsculas flores azuis derramou-se sobre todos os presentes. O contato daquelas pétalas fluídicas produziu notável renovação de energias naqueles que tocou.

Reinava absoluta harmonia em Nosso Lar, mas nem sempre fora assim. Desde a fundação da Colônia, no seculo XVI, os portugueses fundadores enfrentaram árdua luta, pois nas zonas invisíveis da Terra também há regiões com extenso potencial inferior. Até o seculo anterior, havia extrema dificuldade em adaptar os recém-chegados à novas regras de existência no plano espiritual. Queriam repetir o que faziam quando encarnados; exigiam mesas fartas, bebidas excitantes, conservando velhos vícios terrenos. Isso trazia enorme prejuízo ao crescimento espiritual dos habitantes.

Logo que o Governador assumiu o cargo, entendeu a necessidade de melhorar os hábitos alimentares. Providenciou a vinda de duzentos instrutores de esfera muito elevada, a fim de espalharem novos conhecimentos relativos à ciência da respiração e absorção de fluidos vitais da atmosfera. Houve resistência, algumas entidades eminentes chegaram a formular protestos de caráter público, outras alegaram enfermidade devido à alimentação deficiente. O Governador jamais castigou alguém. Convocava os adversários da medida, expunha-lhes os projetos e objetivos do regime e tomava outras iniciativas paternais, ganhando, assim, maior número de adeptos. Após vinte e um anos, o Ministério da Elevação aderiu aos novos parâmetros, passando a abastecer-se apenas do indispensável. O mesmo não aconteceu com o Ministério do Esclarecimento que recalcitrava. Encorajados pela rebeldia dos cooperadores do Esclarecimento, espíritos menos elevados entregaram-se a deploráveis procedimentos. Em virtude dos vícios de alimentação, passaram a entreter intercâmbio clandestino com os habitantes do Umbral. Aproveitando as brechas deixadas pelos imprevidentes, multidões obscuras do Umbral tentaram invadir Nosso Lar. Terríveis ameaças pairaram sobre todos.

Enfrentando o iminente perigo, o Governador, depois de ouvir o Conselho do Ministério da União Divina, mandou fechar provisoriamente o Ministério da Comunicaçao, determinou que funcionassem os calabouços da Regeneração para isolamento dos recalcitrantes, advertiu o Ministério do Esclarecimento, cujas impertinências suportara por mais de trinta anos, proibiu temporariamente o auxílio às regiões inferiores e mandou ligar as baterias elétricas, instaladas nas muralhas da cidade, para a emissão de dardos magnéticos a serviço da defesa comum. Não houve combate, nem ofensiva à Colônia, mas resistência absoluta. Por mais de seis meses, os serviços de alimentação foram reduzidos à inalação de princípios vitais da atmosfera, através da respiração, e água misturada a elementos solares, elétricos e magnéticos.

Findo o período mais agudo, a Governadoria alcançou a vitória. O Governador chorou sensibilizado, declarando que a compreensão geral consistia um prêmio ao seu coração. A cidade voltou ao movimento normal. As refeições passaram a ser mais agradáveis que na Terra. Os trabalhadores ligados aos Ministérios do Auxílio e da Regeneração passaram a utilizar concentrados fluídicos, tendo em vista os serviços pesados que as circunstâncias impunham. Os da Comunicação e do Esclarecimento passaram a fazer uso dos frutos, os da Elevação a consumir sucos e concentrados e os da União Divina quase dispensaram a alimentação por completo. Enfim, todos reconheceram que a suposta impertinência do Governador representou medida de elevado alcance para a libertação espiritual dos habitantes de Nosso Lar.

O Governador já estava no comando da Colônia há 114 anos. A governadoria era sede movimentada onde se tratavam todos os assuntos administrativos. Ali eram desenvolvidos numerosos serviços como o da alimentação, distribuição de energia elétrica, trânsito, transportes e outros, necessitando a colaboração de mais de três mil trabalhadores. Porém, o Governador se mostrava o mais infatigável e fiel que todos reunidos. Seus Ministros costumavam excursionar para outras esferas, renovando energias e adquirindo novos conhecimentos; outros trabalhadores gozavam de entretenimentos habituais, mas o governador nunca dispunha de tempo para isso. Obrigava seus subordinados ao descanso merecido, ao passo que, ele mesmo, quase nunca repousava, nem mesmo nas horas destinadas ao sono. Ausentava-se do Palácio apenas quando o bem público o exigia. Nas tardes de domingo, depois de orar com a cidade no Grande Templo da Governadoria, dirigia-se ao Ministério da Regeneração para auxiliar nos mais difíceis problemas de trabalho. Privava-se, às vezes, de alegrias sagradas, preferindo amparar os irmãos desorientados e sofredores. Sua glória era o serviço perene.

Assim que a II Guerra Mundial eclodiu, ouviu-se em Nosso Lar, um inesquecível toque de clarim por mais de um quarto de hora. Era a convocação superior aos serviços de socorro à Terra. Esse clarim era usado por espíritos vigilantes, de elevada expressão hierárquica. Só era tocado em circunstâncias muito graves e todos sabiam que se tratava de guerra. A população de Nosso Lar ficou ansiosa. Grande multidão se dirigiu ao Ministério da Comunicaçao. Subitamente ouviu-se a voz do próprio Governador, através de vários alto-falantes. Aconselhava a população a não se entregar a distúrbios do pensamento e da palavra, pois a aflição não construía e ansiedade não edificava. Todos deveriam permanecer serenos e atender à Vontade Divina no trabalho silencioso. A voz clara e veemente falou com autoridade e amor, operando singular efeito na multidão.

No domingo imediato à visita do clarim, o Governador resolveu realizar o culto evangélico no Ministério da Regeneração. Às dez horas, o chefe da cidade chegou acompanhado por doze Ministros. Orou comovidamente, invocando as bênçãos do Cristo. Em seguida, folheou um Evangelho luminoso e leu em voz pausada as palavras do Mestre em Mateus, capítulo 24, versículo 6: “E ouvireis falar de guerras e rumores de guerras, olhai, não vos assusteis, porque é mister que isso aconteça, mas ainda não é o fim”. Teceu, então, considerações divinas no comentário evangélico, demonstrando profundo sentimento de veneração pelas coisas sagradas.

Finalizando, o Governador convocou trinta mil trabalhadores, adestrados no serviço defensivo, que não medissem a necessidade de repouso, nem conveniências pessoais, enquanto perdurasse a batalha com as forças desencadeadas do crime e da ignorância. Nosso Lar era um patrimônio divino, que precisava ser defendido do assedio das forças do mal. Necessitava, porém, não só de trabalhadores para a vigilância. Haveria grande acréscimo nos trabalhos de retaguarda, contava, pois, com o espírito de serviço em todos os departamentos da cidade.

André ficara impressionado com aquele homem. Confessou que jamais se esqueceria do vulto nobre e imponente daquele ancião de cabelos de neve, que parecia estampar na fisionomia, ao mesmo tempo, a sabedoria do velho e a energia do moço; a ternura do santo e a serenidade do administrador consciencioso e justo.  

 

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