A
observação desapaixonada do imenso painel da História revela a nítida
interferência dos poderes superiores nos impulsos criadores e
renovadores da Humanidade. Em outras palavras mais simples: A História
é um jogo inteligente de forças espirituais, com motivações e
destinação espirituais. Se fosse preciso demonstrar a tese,
bastaria tomar o exemplo do movimento espiritual desencadeado em
1848, em Hydesville, nos Estados Unidos.
E
mais ainda: vemos que as genuínas correntes históricas trazem em
si mesmas um ímpeto irresistível, que mesmo as imperfeições,
fraquezas e deserções humanas não conseguem deter. As meninas da
família Fox, certamente incumbidas pelos seus mentores espirituais
do trabalho inicial, não resistiram à pressão insuportável das
forças adversas e acabaram passando a si próprias atestado de
fraude, para, depois, desmentirem o desmentido. Isso levou Harry
Price (in “Fifty Years of Psychical
Research”) a oferecer ao leitor duas alternativas: Margaret Fox
foi médium fraudulenta ou uma grande mentirosa. As alternativas de
Price – como, aliás, inúmeros dos seus comentários – são
impiedosas e extremadas. É inegável que elas produziram fenômenos
autênticos que, na época, despertaram paixões violentas naqueles
que não suportam ver seus interesses e suas crenças sacudidos pela
base. Posteriormente, comercializaram suas faculdades – caminho
mais fácil e mais direto para a fraude consciente. É possível
que, para se verem livres da pressão social, tenham resolvido
“confessar” que fraudavam, do que mais tarde se arrependeram. Não
é justo pregar rótulos cruéis em seres humanos dos quais não
conhecemos direito as motivações, o ambiente em que viveram, as
crises que experimentaram, as coações que sofreram e as aflições
por que passaram.
O
que se pretende evidenciar aqui é que, a despeito da fragilidade
humana, a marcha da espiritualização da Humanidade segue em frente
e, como nos é permitido saber às vezes, aqueles que perseguem e
ridicularizam médiuns costumam voltar mais tarde, em outras vidas,
como médiuns...
Uma
vez disparados os dispositivos da “revolução espiritual”, em
1848, vemos que uma verdadeira constelação de médiuns, das mais
variadas faculdades, começou a despontar pelo mundo a fora. No espaço
de algumas décadas, de meados do século XIX até princípio do século
XX, viveram centenas de bons médiuns, muitos dos quais foram
experimentados a sério pelos grandes cientistas da época.
Mencionemos apenas alguns, dos mais famosos: as três jovens Fox,
Daniel Dunglas Home, Eusapia Palladino, Florence Cook, Eva C.(Carrière),
Madame de Esperance (Elizabeth Hope), Willi e Rudy Schneider
(conterrâneos de Adolf Hitler), Franeck Kluski, Leonore Piper,
Julian Ochorowicz, Henry Slade e outros.
Claro
que, na posição de pioneiros de um movimento criado para renovar o
pensamento humano, não foi fácil a tarefa desses precursores.
Precisamos conceder a cada um deles uma larga margem de compreensão
e tolerância pelas falhas humanas que porventura tenham
demonstrado, mesmo porque não tinham ainda um corpo doutrinário
consolidado em que se apoiassem para compreender suas próprias
faculdades e orientar o exercício de suas tarefas. Além do mais,
como portadores de recursos insólitos, mal compreendidos e pouco
estudados, viam-se, de repente, sob o foco de atenções e solicitações,
como figuras de um outro mundo que todos queriam ver, apalpar e
examinar. Era difícil resistir às tentações, às ofertas de
dinheiro e ao cortejo dos grandes e poderosos da época, tanto
quanto aos ódios e à hostilidade de muitos.
Ninguém
enfrentou maiores dificuldades nesse campo do que Daniel Dunglas
Home, cuja existência é uma legenda que ainda hoje parece muito
enigmática. Há uma verdadeira torrente de livros e referências
sobre esse homem curioso, que tinha livre acesso às brilhantes
cortes européias do século passado.
Home
nasceu numa vila chamada Currie, perto de Edinburgh, na Escócia, a
20 de março de 1833. Sabe-se que sua mãe também possuía
faculdades psíquicas. Seu pai era ligado à nobre família dos Home,
de Dunglas. O médium dizia que seu pai era filho ilegítimo do décimo
earl(1) de Home.
Jean
Burton, na excelente biografia de Home – “Heyday of a Wizard”,
publicada por George G. Harrap em 1948 -, comenta a dificuldade que
enfrentaram os contemporâneos do médium para entendê-lo e
classificá-lo. Não era um artista de palco nem um religioso.
Gostava de ser recebido como igual e que jamais alguém se lembrasse
de oferecer-lhe dinheiro pelas suas sessões. Aceitava, porém, jóias
– de que muito gostou, até o fim da vida -, roupas, casacos de
pele, temporadas em elegantes estações de águas e coisas desse
teor; dinheiro, não. Como seria sua aparência?
A
Princesa de Metternich o descreve assim: “Estatura razoável,
magro, corpo bem construído; vestido de boas roupas, com gravata
branca, parecia um gentleman da mais elevada posição. Seu rosto
era atraente na sua expressão de suave melancolia. Era pálido, de
olhos azuis de porcelana – olhos penetrantes, um tanto sonolentos
-, cabelos avermelhados, mas não longos demais; não gaforinha de
pianista ou de violinista; em suma, era de aparência agradável,
nada de extraordinário, a não ser, talvez, a palidez da pele, que
parecia natural, no seu contraste com o cabelo vermelho e a
barba.”
Por
motivos que não ficaram bem claros, com um ano de idade o menino
foi viver com uma tia casada, sem filhos, a Sra. Mary McNeal Cook,
com quem passou uma infância normal, num lugar chamado Portobello.
Quando Daniel tinha nove anos de idade, a família Cook mudou-se
para os Estados Unidos, onde já se encontravam os pais de Home,
desde 1840, com os seus sete filhos. Tia Mary foi morar em
Greenville, no estado de Connecticut. Como os pais viviam por perto,
Daniel visitava-os de vez em quando.
Sua
saúde era precária, tossia muito e tinha desmaios. Mais tarde
transmitiria sua tuberculose à primeira esposa, Sacha,
sobrevivendo-lhe, no entanto, por muitos anos. Já então começavam
sua experiências psíquicas; uma das primeiras foi a visão do Espírito
do seu amigo Edwin, recentemente falecido. Informam também os biógrafos
que o menino foi orador precoce, muito fluente e com entonações de
pregador sacro, gostando de recitar versos sentimentais e religiosos
e pequenos discursos sobre o pecado, a prece, a morte.
A
tranqüila vida na casa dos Cook, no entanto, começou a ser
perturbada pelos fenômenos de efeito físico que assustavam toda a
gente, a começar pelo jovem Home. Eram batidas por toda parte e
movimento de móveis e utensílios pela casa. Certa vez, uma cadeira
perseguiu-o no seu próprio quarto. Daniel, apavorado, não sabia o
que fazer, pois a peça ficara entre ele e a porta de saída. A um
passo, a cadeira parou, ele saltou rápido por cima dela, apanhou o
chapéu e saiu para a rua, para botar as idéias no lugar, tentando
compreender o fenômeno. Para encurtar a história: tia Mary, de rígida
formação protestante, deve ter achado que o sobrinho tinha parte
com o demônio e que era melhor ele deixar a casa, o que fez
imediatamente. É curioso que não tenha procurado a casa dos pais e
sim a de uns amigos. Foi assim que iniciou
sua vida de peregrinação de casa em casa, ali mesmo por New
England(2), prelúdio da futura peregrinação de palácio em palácio
na Europa.
Suas
maneiras eram gentis, “era efusivo nas expressões de gratidão
– diz Jean Burton - , rápido em tomar a cor local, eminentemente
adaptável, sempre pronto para ajudar as crianças nos seus deveres,
brincar com o gato ou admirar o desenho de uma nova manta. A
natureza preparou-o, em suma, para ser o hóspede perfeito”.
No
verão de 1851, o Dr. George Busch descobriu Home e quis fazer dele
um pregador da New Church(3). Busch, homem de grande cultura, era professor de Línguas Orientais na Universidade de Nova York.
Home achou boa a idéia e aceitou o oferecimento, mas em 48 horas
voltou ao professor para desfazer o trato, porque o Espírito de sua
mãe o aconselhara nesse sentido. “Meu filho, dissera ela, você não
deve aceitar essa bondosa oferta, porque sua missão é mais ampla
do que pregar do púlpito.”
E
assim foi feito.
Já
então o jovem Home começava a incomodar o clero das religiões
estabelecidas, muito embora durante a sua vida buscasse viver em
bons termos com elas. Foi sucessivamente metodista,
congregacionalista e católico, terminando na Igreja Ortodoxa Grega.
É que suas sessões mediúnicas passaram a despertar enorme
interesse do público e da imprensa. Sacerdotes e ministros
certamente não se sentiam bem diante daquele rapazinho que
fascinava suas ovelhas com fenômenos insólitos. Home, com modéstia
e sinceridade quase inocente, devolvia “as mais amargas vituperações”,
dizendo mansamente: “Ao passo que as Igrejas estão perdendo seus
prosélitos”, seus fenômenos estavam “trazendo mais conversos
às grandes verdades da imortalidade do que todas as seitas cristãs,
tornando impossível as idéias materialistas e cépticas,
infelizmente tão preponderantes nas classes educadas.”
Esse
engano de que a Igreja deveria receber o Espiritismo de braços
abertos foi comum entre os médiuns da primeira hora e até mesmo
entre alguns espíritas. O raciocínio é perfeitamente lógico e
razoável: se um dos principais pontos de sustentação do
Cristianismo é a sobrevivência da alma, era de esperar-se que a
Igreja acolhesse com sofreguidão os métodos experimentais que
demonstravam tal
realidade. Mas, nem sempre os homens agem dentro da lógica,
especialmente quando estão em jogo suas posições, seus
interesses, suas crenças, seus temores e suas paixões.
Foi
nessa época que Home se tornou amigo de uma das figuras lendárias
do Espiritismo nascente, o Juiz John Edmonds, da Corte Suprema de
Nova York.
Em
8 de agosto de 1852, em casa de Ward Cheney, de conhecida família
de industriais da seda, Home levitou pela primeira vez. Repetiria
esse fenômeno inúmeras vezes, ao longo de sua carreira, sob as
condições mais estranhas e sob os olhos atônitos de testemunhas
do mais alto gabarito.
Gostava
que a sessões se realizassem com pouca gente – seu número ideal
eram nove pessoas, inclusive ele, Home. Os Espíritos insistiam em
que não houvesse cães no aposento das sessões, que ninguém
fumasse e, por alguma razão obscura, não gostavam que Home se
sentasse em almofadas de seda.
Os
fenômenos eram muitos e variados e quase sempre em plena claridade.
Os móveis levitavam, dançavam e batiam ritmadamente. Sinos e
campainhas sobre os móveis eram sacudidos; mãos materializadas
moviam objetos menores e flores, ou tocavam acordeão.
Espíritos
se materializavam de corpo inteiro, traziam “aportes”. De uma
vez trouxeram uma plantinha que foi colocada num vaso de terra e
“pegou”. Fenômeno curiosíssimo era o alongamento do corpo de
Home, repetido sob condições de controle, no qual o
médium crescia à vista de todos, seis ou oito polegadas,
ultrapassando o tamanho da roupa. Mais para o fim de sua carreira
extraordinária, desenvolveu a faculdade da incombustibilidade:
apanhava brasas vivas com as mãos, sem queimar-se. De uma vez,
mergulhou todo o rosto num braseiro, sem que sofresse absolutamente
nada. Além disso, transmitia mensagens escritas e faladas – hoje
chamadas psicográficas e psicofônicas – de Espíritos
relacionados com os presentes.
É
fácil imaginar-se a tremenda sensação que esses fenômenos
provocavam entre aqueles que tinham a ventura de desfrutar a amizade
do jovem Home, pois ele insistia em realizar suas proezas apenas
para os amigos, que o hospedavam às vezes por longas semanas e até
meses. Um certo Dr. Gerald Hull, que lhe ofereceu um dia dinheiro
pelo seu trabalho, acabou reconhecendo que tinha cometido erro
imperdoável: havia proposto a Home pagar-lhe as despesas e mais
cinco dólares por dia. O médium ficou ofendidíssimo e Hull
desculpou-se, hospedando Home em sua casa em base puramente social.
Nesse
tempo alguém lembrou que o médium tinha ainda muito pouca instrução
e que convinha prepará-lo melhor, pois pensavam em destiná-lo à
Medicina. Com esse propósito, o Dr. Hull matriculou o jovem num
instituto local – isso em Newburgh, sobre o Hudson, para que Home
estudasse alemão, francês e fizesse um curso pré-médico. No
outono, ele seguiu para Nova York a fim de matricular-se na
Faculdade de Medicina, mas uma série de acontecimentos impediu que
isto se concretizasse e assim se perdeu um médium-médico. Home
voltou para Hartford, esteve em Springfield e depois seguiu para
Boston, onde ficou conhecendo a família Jarves, amigos do famoso
casal Browning. Os caminhos de Home e dos Browning haveriam de
cruzar-se várias vezes, de futuro, sob estranhas condições e
extrema tensão.
Nessa
altura, com a saúde precária, Home resolveu partir para a
Inglaterra, cujo clima, certamente, não se recomendava para ele. Não
era fácil, ainda mais, separar-se de seus bons amigos, que o
acolhiam e o respeitavam e partir para a grande aventura do
desconhecido, mas seus amigos espirituais lhe diziam que ele deveria
ir “e seus conselhos não poderiam ser ignorados”. E assim, a 31
de março de 1855, parte ele, “pálido, magro, tuberculoso, com a
voz e a roupa muito bem cuidadas, 22 anos de idade, para empreender
a conquista da Inglaterra”. São palavras de sua biógrafa.
Levou
uma carta de apresentação para um certo Mr. William Cox, dono de
um hotel do mesmo nome, onde se hospedou. Cox recebeu o jovem médium
como a um filho. E com certeza não lhe cobrava a hospedagem.
Dentro
em pouco, Home estava causando sensação com as suas extraordinárias
faculdades mediúnicas, especialmente nas rodas mais sofisticadas da
sociedade britânica. Continuava a insistir em que não compreendia
suas faculdades, pois era simples instrumento de seus amigos
espirituais, aos quais não podia comandar à sua vontade. Eles
vinham quando queriam e faziam o que desejavam fazer.
Foi
nessa época que Home e os Browning se encontraram pela primeira
vez. Robert e Elizabeth – depois da fuga sensacional que
realizaram para casar-se – voltaram à Inglaterra pela primeira
vez em visita, pois viviam em Florença desde o casamento.
Elizabeth, poetisa tão famosa quanto seu marido, não cabia em si
ante as notícias das fantásticas demonstrações de Home. Em 13 de
julho de 1855 escreve para sua irmã Henrietta: “... Quanto a Hume(4),
vamos vê-lo, e eu te direi. É a pessoa mais interessante para mim
na Inglaterra, tanto de Somersetshire como do número 50 da Wimpole
Street...”(5)
Elizabeth
não se decepcionou com Daniel Dunglas Home; ao contrário, viu
confirmadas as suas expectativas, não só pela fama do médium e
autenticidade dos fenômenos, como também pela certeza que ele
trazia da sobrevivência do Espírito, que, para ela – que há
algum tempo vinha lendo e experimentando nesse campo – era pacífica.
Quanto a Robert, não se pode dizer o mesmo. Ao contrário, o poeta
manifestou, com relação ao médium, uma hostilidade agressiva, da
qual não fazia o menor segredo. Mais tarde, escreveria um longo e
elaborado poema no mais duro estilo satírico, inspirado em Home. Chamou-lhe
“Mister Sludge, the Medium”. Sludge, que aí aparece como
nome próprio, significa lama, massa barrenta ou untuosa. Em carta a
um amigo, certa vez, Robert usou uma expressão tão rude que não
poderia ser aqui reproduzida.
O
desacerto Home-Browning teria seqüência em outras oportunidades,
de modo especial em Florença, pouco tempo depois, durante uma
visita do médium à colônia inglesa rica, aristocrata e
intelectual, que lá vivia por causa do bom clima e da vida barata.
Quando Elizabeth soube que ele estava em Florença, escreveu com
grande entusiasmo à sua infalível irmã Henrietta, dizendo que uma
amiga, a Sra. William Burnet Kinney, esposa do embaixador americano
na Sardenha, “que costumava ser tão violenta com os Espíritos
como Robert”, acabou se convencendo de que era totalmente impossível
atribuir à fraude os fenômenos produzidos por Home. “Os fenômenos
em Florença – prossegue Elizabeth – parecem ser de natureza
espantosa; uma princesa polonesa(Princesa Lubomirski) recebeu uma
comunicação em sua própria língua...” A sessão foi realizada
na casa dos Trollope(Anthony Trollope, novelista inglês). Um vidro
de água destilada, comprada na farmácia, deixou desprender, à
vista de todos, um “vapor” e ficou perfumada. Disseram os Espíritos
– é Elizabeth quem conta – que a água era chamada “ódica”
e que a Sra. Kinney, que estava doente, deveria conservar o frasco
em lugar escuro e tomar uma colher de
chá por dia... “which she does…” conclui a carta, ou
seja, “o que ela está fazendo”.
Robert,
indignado com o interesse de sua esposa pelo Espiritismo, que ele
julgava uma grossa mistificação, transferia facilmente a sua
revolta para Home, a quem não poupava, tanto em conversação
social como em suas cartas e depois no poema famoso. Numa sessão
realizada, entre outros, com Robert e Elizabeth, houve um incidente
sério. Elizabeth, extremamente chocada, agarrou ambas as mãos do médium
e pediu que perdoasse Robert.
Home
sentiu-se profundamente desapontado com as situações que ali
viveu. Em carta a Henrietta(18-11-1856), Elizabeth conclui,
vitoriosa: “Todo mundo adoraria deixar de crer em Home, mas ninguém
o pode; eles detestam-no e acreditam nos fatos”. Home, por sua
vez, escreveu desanimado: “Minhas experiências da vida e de suas
falsidades, já deixaram marca indelével na minha alma, por causa
das minhas recentes experiências em Florença, que eu gostaria de
afastar-me de tudo quanto pertence a este mundo”.
Chegou mesmo a pensar entrar para um convento. E a sério. Um
certo Monsenhor Talbot encarregou-se de instruí-lo e dentro de três
semanas Home foi crismado, no Domingo de Páscoa, por um sacerdote
jesuíta. O Conde Branicka e a Condessa de Orsini foram seus
padrinhos. Pio IX concedeu-lhe audiência pessoal. Fez-lhe muitas
perguntas “penetrantes, mas bondosamente formuladas”. Acabou
despedindo o novo converso com sua bênção. Disseram nessa ocasião
que ele havia prometido ao Papa abandonar o exercício de suas
faculdades, o que ele negou enfaticamente depois: “Eu não poderia
fazer tal promessa, e nem ele a exigiu de mim...”
Nada
mais se falou da sua entrada para o convento e de Roma ele se
dirigiu, com a família Branicka – que o tinha tomado aos seus
cuidados - , a Paris, para estudar francês, segundo ele mesmo
declarou. Muito gentilmente, o Papa recomendou-lhe seu próprio
confessor, o erudito jesuíta, Padre Xavier de Ravignan, pregador da
capela das Tulherias.
Essa
temporada de Home em Paris foi um extravagante período na vida do médium.
Padre Ravignan desempenharia junto dele um papel significativo. Mais
uma vez, o caminho dos Browning se cruzava com o de Home. O casal de
poetas estava em Paris e Elizabeth imediatamente escreveu a
Henrietta para anunciar, algo aflita, a presença do médium,
preocupada em que ele e Robert pudessem encontrar-se e reacender
antigos rancores, pois, segundo suas próprias expressões, Home era
“ainda um osso na garganta do leão”, mas Robert prometeu a ela
comportar-se bem e limitar-se a ignorar o médium se, por acaso,
cruzasse com ele na rua, o que já era muito. Por via das dúvidas,
Elizabeth pede na carta que, na resposta ou em futuras cartas,
Henrietta jamais mencionasse o nome de Home, certamente para que
Robert não soubesse que elas ainda se ocupavam de tal indivíduo.
O
momento era particularmente difícil para Home. Abandonado
subitamente pelos Branicka – que se cansaram dele – ficou em
Paris sem dinheiro e sem muitos amigos. Corria mesmo a notícia –
segundo apurou Elizabeth Browning – de que o médium estava muito
mal de saúde ou até mesmo nas últimas, por causa da fraqueza dos
seus pulmões.
Padre
Ravignan revelou-se um bom e paciente companheiro, certamente pelo
interesse em conquistar aquela alma para a sua fé e sua Igreja, mas
inegavelmente também porque era homem de excelente conteúdo humano
e tolerante com o seu curioso catecúmeno.
Além
de tudo, Home fora também abandonado pelos seus amigos espirituais
que, descontentes com algumas práticas, retiraram-se, anunciando
que somente retornariam às suas tarefas junto ao médium depois de
passado um ano inteiro. Toda a Paris especulava sobre o estranho fenômeno
da suspensão da mediunidade e sobre quando e como poderia ela ser
restaurada, como se Home fosse um famoso cantor de ópera,
temporariamente afastado das luzes da ribalta. A sociedade
sofisticada do Segundo Império achava que se tratava simplesmente
do que hoje se chamaria um “golpe de publicidade”. Era um
“vedetismo” de Home, nada mais. No entanto, os Espíritos
cumpriram a palavra; deixaram-no um ano sem atividades mediúnicas.
Completou-se o prazo a 10 de fevereiro de 1857. No dia 11, pela manhã,
Home foi procurado pelo Marquês de Belmont, enviado pessoal do
Imperador Napoleão III. Teriam os poderes do Monsieur Home
retornado? Tinham. Precisamente ao soar meia-noite, no dia 10, um
Espírito veio saudá-lo, levantar o seu moral e dizer que tudo
estava bem. Logo em seguida, Padre Ravignan também apareceu ansioso
para saber das novas. Não precisou nem falar: foi recebido com
batidas espirituais por toda parte. O sacerdote explicou a Home que
aquilo tinha de parar, senão ele não poderia conceder-lhe a
absolvição. Home argumentou que os Espíritos estavam satisfeitos
por encontrá-lo em tamanho estado de pureza, o que certamente
facilitava os contatos. Mas o padre manteve-se firme, a despeito de
Home ter acrescentado, como sempre o fazia, que as manifestações não
estavam sob o controle da sua vontade. Ravignan, que não queria
abandonar a alma do seu pupilo ao “demônio”, insistiu em que
uma vez que Home não podia evitar as “alucinações” pelo menos
poderia desencorajá-las, pois quanto a ele, padre, somente via
quando queria ver e somente ouvia quando queria ouvir. Depois desse
conselho, preparou-se para partir, e , ao levantar a mão para dar a
bênção a Home, o barulho dos “raps” recomeçou por toda
parte. Era o fim. Padre Ravignan se retirou e, a despeito dos seus
entreveros com a Igreja, o médium manteve agradável lembrança do
bondoso jesuíta.
Com
a volta dos Espíritos, voltaram também os amigos e Home foi
apanhado novamente pela roda viva dos compromissos e dos convites
para as reuniões elegantes. Já na sexta-feira, 13, “estreou”
perante Napoleão III, de maneira dramática.
Quando
se abriram para ele as portas do Salão Apolo, nas Tulherias, Home
deu com uma multidão de nobres, tão grande que o ambiente
sufocava. Chegou a recuar. A Imperatriz Eugenia tinha convidado toda
a sua “entourage”. Recuperado do impacto, Home explicou, com
muitas desculpas e habilidade, que sessão mediúnica não era exibição
teatral; que era melhor limitar o número de pessoas presentes a
oito ou nove apenas e que mesmo assim ele não poderia garantir nada
de positivo, dado que tudo dependia dos Espíritos. Deve ter sido
uma “senhora”cena. A Imperatriz, muito ofendida, e sem dizer
palavra, retirou-se e Home também preparou-se para sair,
extremamente confuso, quando o Imperador, subitamente, ordenou que
desocupassem o salão. Formou-se um pequeno círculo de
privilegiados e a sessão desenrolou-se maravilhosamente, com fenômenos
abundantes e inequívocos. Napoleão, “com seus olhos de peixe”
– diz Jean Burton -, observava pensativo. Ele passava por ser um
razoável mágico amador e certamente apreciava com olho crítico a
performance dos seu “colega”. A questão é que os “raps”
– ou seja, as batidas – respondiam a perguntas que ele fazia
mentalmente. Tão entusiasmado ficou que achou por bem interromper
os trabalhos, declarando que a Imperatriz tinha de ver aquilo.
Mandou chamá-la e em pouco entrou a grande dama com toda a imponência
do seu porte e de sua posição. Não é preciso acrescentar que
Home conquistou toda a corte francesa. – exceto um ou outro, como,
por exemplo, o Conde Walewski, filho de Napoleão I e de Maria
Walewska, a bela polonesa. O Conde tudo faria para desmoralizar Home
e faze-lo cair em desgraça na corte, o que, aliás, não
conseguiu.(6)
O
médium passou a ter acesso praticamente livre ao palácio, chegando
até mesmo a viver ali algum tempo, enquanto assim o desejou. Ganhou
presentes riquíssimos e pouco depois foi
aos Estados Unidos buscar sua irmã Christine, que, como
protegida da Imperatriz, matriculou-se no próprio colégio em que
Eugenia havia estudado vinte anos antes.
Jean
Burton chama a atenção para a notável posição dessa moça,
colocada num colégio católico grã-fino, sob o bafejo do trono, de
um lado, e ligada, de outro, a um irmão que as doces freiras
consideravam um tremendo “feiticeiro”. Ao cabo de alguns anos,
Christine voltou para os Estados Unidos, onde se casou. Home tem
parentes nos Estados Unidos até hoje.
É
uma pena que não seja possível, nas escassas dimensões de um
artigo, reproduzir tantos pormenores interessantes dessa vida
fascinante. Temos que nos limitar aos episódios mais importantes.
Em
1858, Home foi à Holanda, onde realizou sessões para a Rainha
Sofia, em Haia. Ganhou um belo anel de uso pessoal da soberana. Em
Bruxelas, apanhou um severo resfriado e novamente suas faculdades
falharam. De volta a Paris, o médico aconselhou uma permanência na
Itália. Home partiu para Roma, onde se tornou amigo de um jovem
nobre cossaco, o Conde Kuchelff-Besbordka.
Da
amizade pelo Conde surgiu o amor por Alexandrina, sua cunhada, pouco
mais que uma menina, pois contava apenas 17 anos. Sacha – como era
conhecida na intimidade – era bela, viva, encantadora. Filha do
General e Conde de Kroll e nada menos que afilhada do próprio Tzar.
Home, convidado para jantar, sentou-se à direita da dona da casa e,
ao ser apresentado à encantadora Sacha, teve a estranha impressão
de que ela seria sua esposa. A menina disse-lhe, rindo, que ele se
casaria dentro de um ano, porque, segundo uma superstição folclórica
russa, era infalível o casamento quando um homem se sentava entre
duas irmãs que acabasse de conhecer. As impressões de ambos se
realizaram.
Depois
de sessões verdadeiramente notáveis para o Tzar e sua corte – a
convite do Imperador, naturalmente -, Home partiu para a Escócia,
onde foi apanhar documentos pessoais, e a 1o. de agosto
de 1858 casou-se com Sacha. No peito de muitos convidados luziam
condecorações imponentes. O Tzar foi representado por dois figurões
do Império, o Conde Bobrinski e o Conde Aléxis Tolstoi, irmão do
genial romancista (Leon). Elizabeth Browning, maliciosa, brincava
com a irmão, por carta: “Imagine só o mobiliário conjugal
flutuando pelo quarto, à noite, Henrietta!”.
Sacha
foi uma boa e dedicada esposa e deu a Home um filho, Gregoire,
apelidado Gricha. Home transmitiu a ela a tuberculose, da qual
morreria, lúcida e conformada, em 3 de julho de 1862, após uma
doce convivência de menos de 4 anos, seguida de uma disputa
judicial demorada por causa da herança da jovem esposa. Gricha
nasceu a 8 de maio de 1859 e, com a morte da mãe e as andanças do
pai, acabou gravitando para o ramo russo da família. Os Home dos
Estados Unidos souberam mais tarde que ela havia entrado para o exército
russo.
Mas
nem tudo eram flores no caminho de Home. Havia detratores gratuitos
e inimigos impiedosos, como Roberto Browning. Charles Dickens, o
grande novelista inglês, foi um deles. Não fazia segredo algum da
sua opinião, tachando Home de “impostor”. Achava, porém, que a
coisa não tinha jeito, porque mesmo que se provasse a falsidade de
Home, “em cada célula microscópica de sua pele e em cada glóbulo
do seu sangue, ainda assim os seus discípulos acreditariam nele e o
adorariam”.
Foi
o que escreveu em carta de 16 de setembro de 1860 à Senhora Linton.
Diria e escreveria outros horrores do médium. Pobre Dickens! Depois
de desencarnado, voltou em Espírito para terminar, através de um médium
humilde, o seu notável romance “O Mistério de Edwin Drood”,
que deixara pela metade...
Pelo
final de dezembro de 1863 achava-se Home novamente em Roma. A pressão
do Vaticano começou a tornar-se insuportável. Home pretendia ficar
na cidade eterna para estudar escultura. Um livro de William Howitt,
sua monumental “History of the Supernatural”, havia, de certa
forma, contribuído, involuntariamente, para açular a hostilidade
de católicos e protestantes contra os médiuns em geral e contra
Home em particular, o médium mais eminente e celebrado do seu
tempo. “As luzes espirituais – dizia Howitt -, o tremor das
casas, a transposição de portas fechadas, ventanias poderosas,
levitação, escrita automática, comunicações em línguas
estrangeiras, tudo isso ocorre todos os dias, tanto em Londres como
nos Atos dos Apóstolos”.
Seguia-se
um trecho em que, se não era feita a apologia de Home, pelo menos
se buscava entender a sua missão e natureza do seu trabalho. Com a
segurança de um espírito lúcido e dono de profunda intuição,
achava Howitt que as manifestações físicas, “desprezadas e
ridicularizadas”, deveriam preceder acontecimentos mais
importantes. Ao demonstrar suas faculdades perante o testemunho de
imperadores, reis e rainhas, Home estava desempenhando sua tarefa de
precursor, lançando alicerces.
Admirável
inteligência dos fatos a de Howitt, mas que ajudou a agravar em
hostilidade aberta o que antes era simples desconfiança da Igreja
pelo médium. O famoso Cardeal Manning disse coisas incríveis,
declarando que através de trabalhos espíritas o demônio se
materializava, ora como mulher, ora como homem, e desses encontros
resultavam criaturas híbridas de natureza diabólica, mas de forma
humana! Segundo narrativa de W.H. Mallock, autor de “The New
Republic”, o Cardeal usou linguagem de tal modo grosseira (
unvarnished ) que os detalhes não poderiam ser reproduzidos.
Assim,
a 2 de janeiro de 1864, Home recebeu intimação para comparecer à
policia. Dia 3, pela manhã, lá foi ele, em companhia de um amigo
chamado Gauthier, cônsul da Grécia. Preservou-se o diálogo do médium
com a policia, um documento do próprio punho de Home, que vale a
pena reproduzir, conservando o seu estilo telegráfico:
“Janeiro
2, recebida carta solicitando minha presença na polícia, no dia 3,
entre as 10 e uma hora. Em 3 de janeiro fui e me levaram à sala do
advogado Pasqualoni. Eu estava acompanhado de meu amigo Senhor
Gauthier, cônsul da Grécia em Roma. As perguntas foram as
seguintes: Nome do meu pai e de minha mãe? Publicou algum livro?
Sim. Sua profissão? Estudante de arte. Sua residência? Via del
Tritoni, 65. Quando você chegou? Há seis semanas. Quantas vezes
você esteve em Roma? Duas. Quanto tempo ficou de cada vez? Dois
meses da primeira e três meses da última vez. Quanto tempo
pretende ficar desta vez? Até abril. Você tem residência
permanente na França? Não. Quantos livros escreveu? Um. Quantos
exemplares vendeu? Como não sou o próprio editor, seria impossível
dizê-lo. Depois que você se tornou católico exerceu seus poderes
mediúnicos? Nem antes, nem depois eu exerci meus poderes mediúnicos,
de vez que não é poder que dependa da minha vontade. Não poderia
usá-lo. Como é que você faz isso?
Acho que a resposta que acabo de dar é suficiente para
esclarecer. Você considera seu poder um dom da Natureza? Não;
considero um dom de Deus! Que é um transe? Um estudo de fisiologia
explicaria melhor do que eu. Você vê os Espíritos quando dormindo
ou acordado? De ambas as maneiras. Por que os Espíritos procuram
você? Para me consolarem e para convencer aqueles que não
acreditam na sobrevivência da alma! Que religião eles pregam? Isso
depende. Que é que você faz para eles se manifestarem? Eu estava
para responder que eu nada fazia quando na mesa em que ele escrevia
soaram batidas claras e distintas. Ele então disse: Mas a mesa não
se mexe. Exatamente enquanto ele dizia isso, a mesa moveu-se. Qual
é a idade de seu filho? Quatro anos e meio. Onde está ele? Em
Malvern. Com quem? Dr.
Gully. Dr. Gully é católico? Não. Quando você viu seu
filho pela última vez? Em abril. Então, ele disse, sem nenhuma
justificativa, que eu deveria deixar Roma dentro de três dias. Está
de acordo? Não, decididamente não, ainda mais porque nada fiz para
infringir as leis deste ou de qualquer outro país. Falarei com o cônsul
inglês e seguirei seu conselho.”
Há
um pormenor que Home omitiu no seu documento autógrafo. Quando as
manifestações começaram na polícia, o excelente Dr. Pasqualoni,
enormemente surpreendido, perguntou a razão dos ruídos. O cônsul
Gauthier informou tranqüilamente que eram os Espíritos.
-
Espíritos – exclamou Pasqualoni, olhando assustado em volta da
mesa.
E
em seguida: “Vamos continuar nosso interrogatório.”
Não
adiantou a interferência – de má vontade – do cônsul inglês.
Havia “ordens superiores” para despachar o médium para
fora de Roma, e assim foi feito. Segundo a biógrafa, as autoridades
do Vaticano eram de opinião que o demônio estava metido naquilo e
seria totalmente impossível tolerar aquele bando de Espíritos nos
domínios da soberania do Papa. Ademais, não era de admirar-se a
expulsão, depois da audaciosa demonstração de seus amigos
espirituais nas barbas da polícia! E assim Home foi expulso de
Roma, seguindo para Nápoles, depois de uma despedida comovente na
estação, onde compareceram muitos dos seus amigos nobres,
inclusive Sua Alteza Real, o Conde de Trani.
Outro
problema bem mais sério teria Home com a lei. Foi o famosíssimo
caso com a Sra. Lyon. Vamos
resumí-lo.
Jane
Lyon era viúva de 75 anos de idade, sem filhos. Encantou-se com o
jovem Home e resolveu adotá-lo como filho, exigindo mesmo que o médium
aceitasse até o seu nome. Por algum tempo – muito breve -, ele
assinou Daniel Dunglas Home-Lyon. A velhinha, a despeito de sua aparência
extremamente modesta, era bastante rica e, em sucessivos e
repentinos impulsos, entregou a Home cerca de sessenta mil libras
esterlinas, uma fortuna considerável para a época. Além de rica,
Jane Lyon parecia pouco segura de suas faculdades mentais e estava
agindo daquela maneira para chamar a atenção sobre si mesma, para
atiçar o despeito dos parentes de seu marido e provar que era dona
do seu próprio dinheiro, podendo fazer dele o que quisesse.
Dizia
que o Espírito de seu marido havia mandado entregar a importância
a Home. O certo é que dentro de pouco tempo ela se arrependeu de
tudo e, desejando recuperar o seu dinheiro, levou a questão à
Justiça. O escândalo foi enorme e danoso para a reputação de
Home. Muitos amigos deram-lhe apoio maciço; outros se omitiram.
Seus detratores exultaram. Browning escreveu uma carta extremamente
cruel a Isa Blagden, para narrar a infelicidade do aturdido médium,
alegando mesmo que Home pretendia casar-se com a Sra. Lyon, o que
parece fantástico. Por fim, Home foi condenado. O juiz achou que não
ficara provado que Home se utilizara de “influências
indevidas”, mas que também não ficara provado o contrário e que
o ônus da prova de sua inocência caberia a ele próprio. Por
conseguinte, disse o juiz: “decido contra ele; porque, como acho
que o Espiritismo é uma burla, sinto-me no dever de considerar a
queixosa como vítima de uma burla e não há evidência que me
convença do contrário.”
Home
devolveu o dinheiro e o nome à senhora Lyon, mas saiu endividado e
arrasado do episódio doloroso. Muitos foram os amigos que lhe
manifestaram sua simpatia, entre eles católicos eminentes e até
sacerdotes, como Monsenhor Talbot, que fora seu instrutor na
tentativa de levá-lo para o seio da Igreja.
Ainda
estava pendente a questão judicial com a família de Sacha, mas
essa ele ganhou e entrou na posse de consideráveis recursos. Em 16
de outubro de 1871, Home casou-se novamente com uma jovem russa,
Julie, filha de Michel de Glumeline, Conselheiro de Estado do
Imperador da Rússia, prima do eminente Alexandre Aksakof, também
Conselheiro de estado, brilhante pesquisador de fenômenos psíquicos,
autor de livros respeitáveis como “Animismo e Espiritismo”.
Julie
também foi esposa compreensiva, suave e dedicada. Sobreviveu a Home
e escreveu uma excelente biografia do marido. Deu-lhe uma filha que
morreu em alguns dias. “A extrema beleza da criança é inacreditável”,
escreveu Home, ao ver a recém-nascida. Julie tratou Gricha com
“angélica paciência”, pois o menino, altamente nervoso,
constituía problema.
Por
alguns anos, Home e Julie viajaram pela Europa visitando amigos,
enquanto ele consentia, aqui e ali, em realizar uma sessão. Suas
forças, no entanto, o abandonavam, enquanto a doença ia minando
seu organismo delicado. Aos 38 anos de idade, praticamente
retirou-se da vida ativa. Escreveu suas memórias – “Incidents
of My Life” (Incidentes da Minha Vida), em dois volumes, e
“Lights and Shadows of Spiritualism” (Luzes e Sombras do
Espiritismo).
Em
tempos passados, despertara o interesse do jovem físico e químico
William Crookes, do qual se tornou grande e íntimo amigo, pois era
de apenas um ano a diferença de idade entre eles. Crookes
declarou-se corajosamente convencido da legitimidade dos fenômenos
produzidos por Home, enfrentando a tremenda e irracional hostilidade
de seus colegas cientistas. Manteve-se até o fim da vida nessa
convicção e proclamou-a publicamente, no apogeu de sua carreira,
sob a responsabilidade de seu nome famoso a agraciado com o título
de Sir.
Quanto
a Home, viveu seus últimos dois anos na França. Gostava de jóias
e as usava com prazer, mesmo porque cada uma delas
recordava um amigo famoso: Napoleão III, Sofia, da Holanda,
o Tzar Russo, Guilherme I, da Alemanha, e condes e príncipes e
duques...
Na
primavera de 1886, Julie levou o marido de Auteuil, onde estavam por
algum tempo, até Paris, para consultar os médicos da capital. O
prognóstico foi sombrio. Ambos os pulmões estavam muito afetados.
A viagem de volta a Auteuil foi feita em etapas suaves.
Home
morreu a 21 de junho, aos 53 anos de idade, assistido por um
sacerdote da Igreja Ortodoxa Grega e foi enterrado no cemitério
russo de Saint-Germain-en-Laye, junto dos restos físicos de sua
linda filhinha. Julie Home regressou à Rússia, quatro anos depois,
e levou consigo Gricha, filho da primeira esposa com seu marido.
Daniel
Dunglas Home, que a Enciclopédia Britânica considerou “um enigma
não solucionado”, jamais foi apanhado fraudando. Desempenhou sua
missão com dignidade e autenticidade, num ambiente fútil e que
facilmente poderia fascinar e corromper um jovem de modestas origens
sociais. Creio poder afirmar que seus amigos espirituais ficaram
satisfeitos com os seus trabalhos. Sua mediunidade tinha mesmo que
ser de forma espetacular, de efeitos físicos, para que pudesse
sacudir a incredulidade de uns, a má vontade de muitos, a
hostilidade de tantos. Viram-na todos aqueles que tiveram olhos para
ver. Sem dúvida, Howitt estava certo: Home ajudou a lançar os
alicerces do edifício que só agora começamos a vislumbrar em todo
o seu esplendor e em toda a grandeza do seu futuro. Espírito
profundamente afetuoso e sereno, merece as vibrações mais puras do
nosso afeto.
(l)
Título correspondente ao Conde na nobiliarquia continental. Fica
abaixo de Marquês e acima de Visconde.
(2)
A região conhecida como New England é formada pelos estados
americanos de Maine, New Hampshire, Vermont, Massachusetts, Rhode
Island e Connecticut.
(3)
New Church ou New Jerusalem Church, religião baseada nos
ensinamentos de Swedenborg.
(4)
O nome de família era mesmo Home, mas o pai de Daniel assinava Hume.
O médium ainda muito jovem passou a asinar-se Home, que conservou a
vida inteira.
(5)
A família de Elizabeth – os Barret – tinha sua mansão nesse
endereço.