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Entre a Revolta e a Dor
Não
era permitida a presença de mulheres ali porque elas profanavam o
sagrado recinto da sinagoga, mas Hannah subira pela escadaria e lá
estava, atrás de uma cortina, ao lado de uma jovem senhora que ela
conhecia apenas de nome. A moça era linda, de olhos azuis como o
céu. Seus cabelos eram quase brancos, como se sobre o dourado claro
flutuassem reflexos de prata. Hannah afastou a cortina para que
ambas pudessem ver melhor. Lá embaixo, um jovem lia, de pé, um texto
sagrado. Teria uns cinco anos mais que Miriam, a filha de Hannah.
Como era bela a voz dele, pensou Hannah, e, voltando-se para a sua
companheira, traduziu seu pensamento em palavras:
-
Que bonita voz tem ele.
- É
meu filho, disse a outra.
Hannah olhou-a. Era também uma nazarena e parecia tão jovem para ser
mãe de um homem no vigor da sua força, aos vinte anos. E, por algum
tempo, ali ficaram lado a lado, em silêncio, atrás da cortina,
Hannah, de Magdala e Miriam, enquanto do recinto sagrado subia a
bela voz de Jesus.
*
A
cena é da mais tocante poesia e está descrita, não exatamente com
essas palavras, no livro “The Search for a Soul – Taylor Caldwell´s
Psychic Lives” (“À Procura de uma Alma – As Vidas Psíquicas de
Taylor Caldwell”), do escritor americano Jess Stearn (edição da
Doubleday, Nova York, 1973).
O
livro reúne todos os ingredientes de êxito. Jess Stearn é autor
experimentado, com excelente formação jornalística e há muito se
interessa pelo tema fascinante da pesquisa científica, sobre o qual
já escreveu várias obras de enorme sucesso, sobre as quais “Edgar
Cayce – O Profeta Adormecido”, que por longo tempo encabeçou a lista
dos “best-sellers” americanos. Seu novo livro não destoa dos
anteriores. É uma narrativa de quem conhece bem a arte de
comunicar-se com elegância e precisão.
Taylor Caldwell é romancista mundialmente famosa, autora de uma
serie respeitável de livros, alguns dos quais traduzidos em
português, outros que serviram de tema para filmes. Destacamos,
apenas como lembrete, o notável “Dear and Glorious Pysician”,
biografia romanceada de Lucas, o evangelista e médico, e “The Great
Lion of God” (“O Grande Leão de Deus”), o romance do apóstolo Paulo
de Tarso.
O
assunto do livro de Stearn é a reencarnação, pesquisada através da
regressão de memória. Taylor Caldwell, aliás, Janet Taylor Caldwell,
nasceu na Inglaterra, em 1990, mas vive há muitos anos nos Estados
Unidos, onde se realizou como grande romancista. Aos setenta anos de
idade, cansada de uma existência que já se alonga, a seu ver, mais
do que deveria, até o êxito profissional lhe pesa, depois que Marcus
Reback, seu marido e companheiro de 40 anos, partiu para a outra
vida, em 1970. Reencarnação? Deus me livre! Para a Sra. Caldwell uma
vida já é demais. “Se não fosse católica – disse ela a Stearn -, com
uma leve suspeita de que alguma coisa talvez exista depois da morte,
eu me mataria. Não tenho nada que me prenda à vida. Quando meu
marido morreu, todo o sol retirou-se de minha vida”.
Pouco antes, referindo-se à sua pressão arterial “tremendamente
alta”, dissera que tudo quanto esperava era um enfarte para morrer
logo.
A
doutrina da reencarnação, para ela, é deprimente, “pois estremeço à
simples idéia de nascer novamente neste mundo. A vida, para mim,
praticamente desde a infância, foi uma coisa monstruosa, penosa,
angustiante e a idéia de repetir tal existência – mesmo sob melhores
condições – me horroriza. Acho que preferiria o esquecimento total.
Pelo menos no esquecimento, como no sono, você está livre do
revoltante mecanismo da existência e de se tornar uma presa
ultrajante do destino”. Além do mais, diz ela, essa gente que
mergulha no passado sempre surge com encarnações glamourosas, nas
quase foram princesas ou rainhas ou alguém de grande porte
histórico. Nunca se encontra um lixeiro, um engraxate...
Como se enganava a ilustre romancista nas suas observações!
Primeiro, que o processo das vidas sucessivas não precisa da nossa
opinião para existir e funcionar. Se a vida é penosa e difícil, a
culpa é nossa mesmo. Nós próprios criamos, no passado, com o nosso
livre-arbítrio, o determinismo da dor presente. A colheita é
exatamente conforme a semeadura. Que adianta a gente se horrorizar
ante a idéia do renascimento? Que adianta a gente preferir o
esquecimento total? Por outro lado, a Sra. Caldwell desconhece
totalmente o processo do sono. Nós não ficamos livres do “revoltante
mecanismo” da vida enquanto dormimos; apenas nossa consciência de
vigília não é usualmente informada do que se passa nas horas de
repouso físico. Na realidade, o Espírito está sempre consciente,
quer o corpo esteja dormindo ou não. Finalmente, nas pesquisas de
regressão feitas com seriedade, não descobrimos apenas vidas
importantes. É possível, de fato, que aqui ou ali, no tempo e no
espaço, tenhamos tido a provação de projeção, vivendo existências
que a História guardou, mas há também – e quantos – longos períodos
de anonimato, de dor, de frustrações, de desencanto, de angústias,
de misérias, tudo rigorosamente de acordo com os nossos
compromissos, supervisionados de perto pela lei de causa e efeito. A
própria Sra. Caldwell desmentiu, nos seus transes, todas as suas
queridas teorias de vigília, como veremos.
Interessante que ela mesma foi quem propôs, em conversa com Jess
Stearn, a experiência de regressão, embora achando que ninguém
conseguiria hipnotizá-la, porque certa vez arrancou um dente sob
hipnose, mas sentiu a dor. È uma pena não poder reproduzir aqui o
diálogo entre a Sra. Caldwell (em vigília, naturalmente) e o autor.
É uma conversa muito viva entre duas pessoas inteligentes sobre o
tema inesgotável da vida. A vida continua? A gente se reencarna? Por
que acontecem certas coisas ditas inexplicáveis?
O
capítulo segundo é uma especulação acerca do extraordinário
conhecimento revelado pela Sra. Caldwell nos seus livros, sobre os
tempos apostólicos, sobre medicina antiga, sobre certos episódios
históricos, tudo isso analisado com grande beleza e dentro de uma
lógica e uma autenticidade impressionantes. Será que esse
conhecimento provém das habituais fontes de inspiração artística ou
seriam revivescências de antigas encarnações da autora a aflorarem
dos seus arquivos perispirituais?
Stearn conversa a respeito com um eminente médico, seu amigo, o Dr.
Cadvan Griffiths.
-
Você acha que isso pode ser explicado pela reencarnação? – pergunta
o escritor.
O
médico dá uma gargalhada e responde:
-
Você quer dizer a gente nascer outra vez? De jeito nenhum.
-
Como é que você sabe?
-
Porque sou um homem cientificamente orientado. Não vejo evidência em
favor da reencarnação.
No
entanto, os dois livros da Sra. Caldwell sobre medicina revelam um
conhecimento tão profundo da matéria que surpreende e intriga os
médicos, o Dr. Griffiths inclusive: técnicas operatórias, aulas
sobre assuntos médicos, diálogos ao pé da cama do doente, enquanto
mestre e discípulo percorrem o hospital. É tudo duma irretocável
genuinidade. Stearn cita neste capítulo trechos notáveis de “Dear
and Glorious Psysician” (o livro sobre Lucas) e “Testimony of Two
Men” (“Testemunho de Dois Homens”), aquele revelando conhecimentos
estarrecedores sobre a medicina antiga, e este desenvolvendo sua
história em ambiente moderno.
Mas
o Dr. Griffiths, “como outros médicos que juraram preservar a vida,
jamais considerou a perspectiva da sobrevivência da alma humana”,
escreve Stearn.
Assim, a posição de Taylor Caldwell é ao mesmo tempo de invencível
descrença com relação à sobrevivência da alma (e muito menos ainda
de sua possibilidade de reencarnar-se) e uma certa curiosidade, ou,
pelo menos, uma predisposição para mergulhar no mistério da vida.
Havia um pequeno problema a vencer: a romancista é bastante
deficiente da audição; mas o hipnotizador – que no livro não é
identificado – venceu com habilidade a barreira e até mesmo
conseguiu melhorar o estado da paciente. Taylor Caldwell foi
rapidamente ao transe profundo e imediatamente condicionada para, de
futuro, adormecer apenas com um leve toque do hipnotizador em sua
testa.
As
primeiras explorações foram realizadas na vida atual, suas
dificuldades, problemas e angústias. A romancista não teve infância
feliz, nem mesmo tolerável. Quando tinha nove anos – contou em
transe – sua mãe lhe disse com toda calma:
-
Nunca desejamos que você nascesse. Há um rio no final da rua. Por
que você não vai se afogar?
“Olhei para minha mãe e vi que ela estava falando sério. Era a nossa
casa na Rua Albany. Não sei por que ela disse aquilo. Olhei-a nos
olhos e pensei que ela estava louca. Não é possível, ela está louca,
disse a mim mesma”.
Não
havia afeto na sua vida, nem segurança, nem conforto. Na verdade, as
dificuldades financeiras se prolongaram por muitos anos, mesmo
depois que ela, já adulta, lutava bravamente para sobreviver. Aos
trinta anos, está sozinha e tem uma filha para sustentar com um
salário de 25 dólares por semana. Mora num cômodo miserável, frio e
úmido e, muitas vezes, não tem o suficiente para comer.
Quando o hipnotizador remete sua memória ao período pré-natal, o
próprio Stearn, que assiste a todas as experiências, se pergunta:
será que um embrião é capaz de pensar? É; não o embrião, mas o
Espírito ali presente.
-
Meu Deus! Aqui estou eu novamente. Mas desta vez vai ser a última.
Desta vez não serei impaciente de novo, para ter que voltar para cá.
Depois desta vez não voltarei mais. Tenho a impressão de que alguém
está tentando me matar. Ouço alguém dizer: “Não a terei, não a
quero!”. Será que ela se refere a mim?
E
depois:
-
Vou fechar os olhos e fingir que não estou aqui. Fui-me embora e
tudo foi apenas um sonho e eu não existo.
Não
é preciso dizer mais para sentir o drama do Espírito atormentado que
enfrenta os problemas e dificuldades de uma encarnação que se
anuncia extremamente penosa. Já no limiar da nova existência, a
própria mãe a rejeita e tenta eliminá-la. O Espírito insiste em
viver e, se fosse possível, se fingiria de morto, porque espera que
esta seja a última vez que se entrega à dura prisão da carne e suas
angústias.
Ao
despertar, poucos minutos depois, totalmente inconsciente do que
disse, nem sabe que adormeceu.
-
Por que estava eu chorando? – pergunta.
E
Jess Stearn, muito diplomata:
-
Eu também não gostaria de voltar se tivesse uma vida igual à sua.
E
assim foi a primeira sessão. Ficou combinado que Taylor Caldwell não
ouviria nenhuma gravação. Somente depois de concluído o trabalho,
ela tomaria conhecimento de suas revelações.
*
Muitas pistas se abriam diante dos pesquisadores no desconhecido
mundo psíquico de Taylor Caldwell: sua vaga recordação de Mary Ann
Evans, que viveu no século passado, na Inglaterra, e escreveu sob o
nome masculino de George Eliot; seus sonhos – e até visões – da
época em que viveu e morreu na fogueira frei Savonarola; sua vívida
descrição da Atlântida, ainda em criança, quando ensaiava, como
escritora, os primeiros passos que a levariam ao renome
internacional. Decidiram os pesquisadores começar pela mais próxima
do tempo, provocando suas possíveis conexões com George Eliot. Assim
foi feito, na segunda sessão.
-
Vamos levá-la ao período vitoriano, propôs o escritor, e ver se ela
diz alguma coisa sobre Mary Ann Evans.
- E
quem é Mary Ann Evans? – perguntou o hipnotizador. Stearn explicou
que foi uma novelista inglesa ao tempo da Rainha Victoria e que
escreveu, sob o pseudônimo George Eliot, alguns livros famosos como
“Silas Marner”, “The Mill on de Floss”, “Adam Bede” e, curiosamente,
uma longa história chamada “Romola”, baseada na vida de frei
Savonarola...
Era
evidente que o hipnotizador estava completamente “por fora” de todos
aqueles nomes e títulos.
Parece que a primeira impressão de Jess Stearn era a de que a
própria Taylor Caldwell teria sido George Eliot no passado, o que,
de certa forma, explicaria seus talentos literários de hoje. Para
surpresa sua, no entanto, a romancista em transe começou a falar com
forte sotaque irlandês, revelando intensas dores, ignorância e
pobreza. Sim, ela conheceu muito bem Mary Ann Evans; chamava-se,
então Jeannie McGill e foi empregada domestica da famosa romancista.
De onde veio ela para a casa de Mary Ann Evans? Não sabia ao certo,
mas morava antes numa casa onde havia muitas mulheres bonitas que os
homens visitavam à noite. E sua mãe, onde estava? Não tinha mãe;
vivia com as moças e não sabia como havia ido parar ali. Tanto
quanto se lembrava, sempre vivera naquela casa, antes de empregar-se
com Mary Ann, aí por volta dos dez anos de idade. A romancista
tratava-a com carinho e às vezes lia para ela seus livros, porque a
menina era analfabeta. Mary Ann vivia, algo irregularmente para a
rígida era vitoriana, com um Lewes, aliás George, de quem ela
provavelmente tomou o nome para compor seu pseudônimo. Lewes era
casado com outra mulher e tinha filhos, mas a ligação com Mary Ann
perdurou ao longo dos anos.
Havia outros empregados na casa e uma de maior responsabilidade, por
certo, era a Sra. Glassen, que perseguiu e martirizou a pobre menina
o quanto quis. Dava-lhe murros que acabaram por arrebentar-lhe os
tímpanos, provocando-lhe a surdez. Por fim, a Sra. Glassen acusou-a
de ter roubado um anel valioso de Mary Ann, enquanto a patroa se
achava na Europa, em viagem turística. A menina foi presa e
condenada a dez anos, mas não cumpriu a pena porque conseguiu
enforcar-se.
“Curiosamente – escreve Jess Stearn -, na posição de uma
personalidade completamente subconsciente ela presenciou sua própria
morte em retrospecto e isso somente seria possível, naturalmente, se
algo da sua essência, sua alma, espírito ou o que quer que seja,
sobrevivesse para lembrar sua própria morte”.
A
idéia se afigura “exciting” (excitante) ao autor. Parece que pela
primeira vez na vida encontra ele a evidência de que o Espírito
passa pela “morte” e segue em frente, pensando, sentindo, vivendo.
Taylor Caldwell acordou chorando, mais uma vez. Pouco antes de
despertar e antes ainda da trágica cena do suicídio dissera, num
dramático sopre de voz:
-
Nunca mais ouvir os pássaros.
E
depois, num gemido:
-
Que Deus tenha pena de minha alma.
Como se sentia? Otimamente. Até mesmo a misteriosa e persistente dor
que sempre teve no pescoço havia desaparecido.
-
De onde você pensa que vem essa dor? – perguntou Stearn.
-
Não sei, mas eu sentia às vezes como se a minha pele tivesse sido
estrangulada por uma corda, como num enforcamento. Mas, poderia isso
ter acontecido?
*
Na
sessão seguinte, Taylor Caldwell mergulhou numa existência
transcorrida no século XVIII; outra vida em que muitas dores se
concentraram em poucos anos. Era novamente uma pobre copeira em uma
casa de família. Ainda não completara catorze anos e estava,
evidentemente, assustada e, como em várias outras existências,
sempre morrendo de frio. Evidentemente, a menina não gostava de um
tal de Johnston (“Um homem tão sujo”, dizia ela), tio da sua patroa
e que, às vezes, os visitava. O hipnotizador resolveu levá-la até o
seu próximo aniversário, quando teria completado catorze anos.
-
Você está agora com catorze anos, você tem catorze anos de idade.
E a
resposta veio inesperada:
-
Mas eu não vivi até os catorze anos. Eles me mataram.
A
cena descrita é terrível. Praticaram com ela atrocidades
inomináveis. Era um grupo composto de seu patrão, dois filhos, o tio
da patroa e mais dois homens. A dona da casa tinha saído,
naturalmente, e os homens se encontravam embriagados.
Concluída a penosa narrativa da sua desgraçada vida no século XVIII,
os pesquisadores desejaram saber o que acontecia entre uma vida e
outra. “Se é que a alma existe – escreve Stearn -, se a
sobrevivência é um fato, seria interessante verificar se ela se
lembrava de algo nesse interlúdio, livre da Terra”.
-
Você morreu em 1898, disse-lhe o hipnotizador tocando-lhe a fronte.
Diga-me agora algo sobre o período entre 1898 e 1900. (Sua vida como
Taylor Caldwell começou em 1900) Onde esteve você e o que fazia?
Há
um momento de expectativa, de vez que os pesquisadores também não se
acham convencidos nem um pouco da sobrevivência.
“Surpreendi-me inclinado para a frente em expectativa – diz Stearn.
Se ela nada tivesse a dizer, nada haveria de vida espiritual, nada
de alma vivente; poderíamos perfeitamente abandonar nosso projeto de
uma vez”.
A
mulher adormecida, no entanto, continuava perfeitamente calma e, com
uma voz estranhamente distante, informou:
-
Estive em casa, em Melina, por algum tempo. Fui muito feliz, muito
feliz...
Segundo ela, Melina seria um planeta, onde ela tem vivido
ocasionalmente em companhia de alguns Espíritos que lhe são
familiares. O planeta é mencionado no seu recente e curiosíssimo
livro intitulado “Dialogues with the Devil” (“Diálogos com o
Demônio”). Provavelmente é uma colônia espiritual dominada, ao que
diz ela, por um Espírito que ela chama de Darios, terrivelmente
temperamental, autoritário e “very quick to anger”, ou seja, pronto
nos seus impulsos de cólera. Segundo se depreende, ao juntar os
muitos fragmentos de suas vidas ao longo dos séculos, o Espírito
Taylor Caldwell tem oscilado entre dois estranhos amores: Darios e
alguém que ela chama de Estanbul. Este seria um Espírito afável e
culto, que na última existência foi seu marido Marcus Reback. O
outro, no entanto, ela chama-o cheia de respeito e temor, “my Lord
Darios”, meu Senhor Darios. Tais ligações se reportariam aos tempos
longínquos de perdida Lemúria. O diálogo entre o hipnotizador e a
paciente torna-se, aqui, muito rarefeito e, ao meu ver, algo
fantasioso. Não desejo, porém, emitir julgamento porque as
informações se apresentam de maneira fragmentária e refletem
naturalmente o conhecimento e as idéias da paciente. Há, entretanto,
coisas inesperadas. Em certo ponto, a mulher adormecida expõe a sua
concepção da divindade e, a uma pergunta que lhe parece inadequada,
ela responde:
-
Você está fazendo perguntas tolas. O Consolador ainda não veio. Ele
virá depois que o Messias vier à Terra.
Curioso é que, ao despertar, Taylor Caldwell, conversando com Jess
Stearn, é informada de que falou a respeito de Darios, “o primeiro e
único” – diz Stearn brincando. E ela muito séria:
-
Jamais faça troça com Darios. Nunca brinque com o nome dele.
-
Que pode fazer ele? – pergunta o escritor.
-
Não há quase nada que ele não possa fazer.
- E
Estanbul?
Ela
deu de ombro:
-
Não é a mesma coisa... ele é igual a nós. No entanto – ela riu -,
isso tudo pode ser mera fantasia.
*
Na
experiência seguinte, o hipnotizador deseja levá-la à época de
Gengis Kahn, sobre quem ela escreveu um notável romance chamado “The
Earth is the Lord´s”. O hipnotizador sugere-lhe que recue ao ano
1200 e ela balança a cabeça.
-
Eu não vivi em 1200.
Estava novamente em Melina.
Pouco depois, por sua própria iniciativa, mergulha num período entre
os séculos XIV e XV, quando foi uma freira num convento espanhol.
Estanbul, sempre presente, seria um certo padre Francisco, a quem
ela secretamente amava e que era seu confessor. Ambos eram judeus
convertidos, então conhecidos por marranos, e ela chamava-se irmã
Teresa. A cidade era Barcelona e o convento Santa Maria de las
Rosas. Quando o hipnotizador lhe sugere a idade de 21 anos, irmã
Teresa já havia partido da vida terrena e encontrava-se novamente
nos domínios de Darios, alhures no Universo.
Foi
uma trágica história de amor que abreviou a sua vida. Teresa fugiu
com Francisco, mas foram ambos apanhados a caminho do barco que
tomariam para a liberdade e o amor. Francisco, acovardado, declarou
que a jovem o havia seduzido no confessionário. E ela, por amor,
concordou perante o inquisidor.
-
Senhor, o padre está inocente. Eu o seduzi. Lancei encantamento
sobre ele para fugir comigo...
Parece que Estanbul – ou seja, Francisco – é levado num barco para
destino ignorado e ela o vê partir, desesperada, e atira-se à água
para morrer afogada.
-
Ah, Estanbul, eu te perdôo...
Mais uma vida de dores e frustrações, terminada em morte violenta,
em plena mocidade.
*
Nesse ponto há um interlúdio no livro. Autor, paciente e alguns
pouquíssimos e íntimos amigos iniciam uma peregrinação em busca de
médiuns que possam trazer do mundo espiritual alguma corroboração ou
desmentido àquelas fantásticas histórias tão humanas que estão
emergindo da sombra dos séculos, nas sessões de regressão de
memória.
Taylor Caldwell concorda com o projeto, mas não cede um milímetro da
sua descrença.
-
Se há Espíritos – diz ela -, por que viriam eles correndo ao simples
chamado de algum médium?
Não
acredita mesmo “nessas coisas”.
O
primeiro médium é George Daisley, a quem o famoso bispo James Pike
também procurou para conversar com o Espírito de seu filho. (Ver o
artigo “O Bispo e os Espíritos”)
Marcus Reback, o marido recém-desencarnado de Taylor Caldwell,
transmite pelo médium algumas informações, mas a romancista não se
impressiona, nem parece comovida.
Os
Espíritos mandam também dizer-lhe que é importante convencê-la
dessas verdades. A sua vida na Terra deve prosseguir, porque ela
ainda não realizou o trabalho de que se incumbiu. Marcus, seu
marido, insiste dramático:
-
Pelo amor de Deus, diga-lhe que estou vivo!
Ao
cabo da longa sessão, a Sra. Caldwell emite sua opinião:
-
Foi tudo muito interessante aquilo que ouvi. Mas, simplesmente, não
acredito nessa história de Espíritos.
*
A
médium Dorothy Raulenson faz estranhas e fascinantes revelações.
Taylor Caldwell estaria muito envolvida com o autoritário Espírito
Darios, que ela identifica numa de suas encarnações, com Gengis
Khan, sobre o qual, aliás, a Sra. Caldwell escreveu notável romance,
como vimos. Curiosamente, porém, a obra termina quando o guerreiro,
ainda jovem, chega à soleira da sua verdadeira e sangrenta glória
terrena. Segundo Raulenson, a futura Taylor Caldwell disputou com o
guerreiro uma batalha de amor e poder e foi destruída, quando ele
ainda não havia atingido o ápice da sua carreira.
A
Sra. Caldwell teria vivido também como dançarina na corte do
Imperador Domiciano, em Roma. Naquela existência, teria sido
convertida ao Cristianismo pelo próprio apóstolo João, no seu
exílio, na ilha de Patmos, isto, de certa forma, explicaria sua
familiaridade com as figuras de Paulo e de Lucas, que ela trata com
muito carinho e minúcia em dois dos seus melhores livros.
A
médium menciona ainda a posição religiosa do Espírito Senhora
Caldwell: ela vem oscilando milenarmente entre o amor e o ódio,
perante a figura de Deus. Ainda hoje, escreve sobre ele com certas
tonalidades amorosas, mas o repudia.
- O
mais curioso, diz a médium, é que lá, muito no fundo, ela pensa que
é uma parceira de Deus.
Seria, pois, esse invencível orgulho o terrível aguilhão que a leva
a atravessar todas as vidas angustiosas e cheias de frustrações?
-
Às vezes, prossegue a médium, ela acha que deve tomar para si esse
papel e dizer a Deus o que Ele deve fazer. Mas enquanto, as coisas
correm segundo sua vontade, ela se mostra submissa. Quando algo a
bloqueia, ela coloca Deus de lado. Ao longo de todas essas vidas,
ela se sente ora de um lado ora de outro.
Evidentemente, não temos como conferir essa informação, mas ela soa
estranhamente genuína quando contemplamos as aflições e o imenso
talento da romancista, massacrada entre a revolta e a dor.
Dorothy prevê para ela uma futura existência como líder religiosa,
aí por volta do ano 2002. Terá então revertido às suas experiências
com João, em Patmos, onde teria escrito muita coisa que se perdeu.
Na atual existência, o melhor do seu trabalho, segundo a médium
ainda não foi realizado.
A
romancista, no entanto, mantém-se irredutível. Tudo quanto deseja é
retirar-se desta vida, pois não acredita na sobrevivência do
Espírito, mesmo após as experiências por que está passando.
*
Infelizmente, não podemos tomar muito espaço para comentar aqui tudo
quanto merece ser comentado deste livro extraordinário. Procurarei
limitar-me aos episódios essenciais.
No
século XV vamos encontrá-la em Florença, na Itália, na personalidade
de uma freira por nome Maria Bernardo, consumida de um amor
impossível pelo famoso Savonarola, em quem mais uma vez identifica
Estanbul.
Há
aqui um pormenor que vale a pena mencionar. Desde muito jovem, ainda
na Inglaterra, Taylor Caldwell sonhava, com freqüência aterradora,
um episodio, sempre o mesmo. Estava presa numa torre e via, pela
janela, lá embaixo, os telhados de uma antiga cidade renascentista.
Seria na Espanha ou na Itália? De repente, ouvia passos de gente
subindo implacavelmente as escadarias. Teria ns vinte e poucos anos
de idade. A cela era gelada; havia apenas um leito rústico, uma mesa
e uma cadeira. Os passos que soavam na escadaria eram de três
homens, um dos quais ela conhecia muito bem. Vestiam-se com hábitos
brancos dos dominicanos. Ela sabia que eles vinham torturá-la e
matá-la. Quando a chave virou na fechadura, ela correu para a janela
e saltou para a morte lá embaixo.
Este sonho tenebroso repetia-se dúzias de vezes, sempre exatamente
igual.
Um
belo dia, já adulta e casada com Marcus Reback, seu eterno Estanbul,
Taylor Caldwell foi à Itália. Em Florença, hospedou-se na mansão de
um nobre italiano, o conde Moretti. Ao chegar ao seu cômodo, abreiu
as cortinas e viu, lá embaixo, uma grande praça para a qual
convergiam muitas ruas. No meio da praça havia uma pilastra alta, na
qual se assentava a estatua de um cavaleiro medieval. A Sra.
Caldwell teve uma impressão desagradável de tudo aquilo, cerrou as
cortinas e foi dormir.
No
dia seguinte, ao abrir as janelas, olhou novamente para baixo e nada
havia lá da grande praça, nem estátua; apenas uma ilha de concreto
com um monumento modernista implantado.
Ao
mencionar o estranho fenômeno ao seu hospedeiro, o conde Moretti foi
à sua biblioteca e trouxe um livro, no qual lhe mostrou a gravura da
antiga praça com o seu monumento medieval, exatamente como Taylor
Caldwell tinha visto no dia anterior.
Andando pela cidade, mais tarde, a romancista teve outra visão
inexplicável: no centro de uma pequena praça, cercado por monges
dominicanos, um homem estava sendo queimado vivo. Quase sem querer,
ela disse em voz alta:
-
Savonarola!
A
condessa que estava ao seu lado disse:
-
Isso mesmo. Aquele monumento ali foi erguido em sua homenagem.
E,
no entanto, na sessão em que Taylor Caldwell se identificou com a
irmã Maria Bernardo, quando despertada para um pequeno repouso, ela
virou-se perfeitamente lúcida (ou não é bem essa a palavra?) para
Jess Stearn e disse:
-
Espero sinceramente que você não esteja desperdiçando o seu tempo,
pois você nunca provará a reencarnação por meu intermédio.
Sem
comentários. Mais uma vida de frustração, angústia e tragédia
terminada em suicídio.
*
Em
seguida, aflora à sua memória uma longínqua existência entre os
maias. Ela sugere que esses povos teriam vindo em “navios voadores”
de uma terra chamada Egypta que um cataclismo submergiu no oceano.
Interessante observar que Edgar Cayce dizia que os atlantes também
possuíam máquinas voadoras e emigraram para o país que hoje se chama
Egito, e deram tremendo impulso à civilização que ali encontraram.
Teriam sido esses emigrantes avisados psiquicamente de que o
continente que habitavam estava condenado ao sepultamento sob as
águas do Atlântico.
Depois disso, nova menção a Gengis Khan. O hipnotizador remete-a ao
ano 1200. E ela, provando mais uma vez que a sugestão não vale
nesses estados profundos de consciência, responde firme:
-
Jamais conheci Gengis Khan.
A
explicação é que ela somente conviveu com ele enquanto o temido
guerreiro chamava-se Temujin. Nesse ponto ela parece fazer a conexão
da antiqüíssima existência no século XIII com a atual, e diz:
-
Eu escrevi um livro sobre ele, mas alguém me contou a história, não
sei quem.
Em
seguida, explicou: em estado de vigília começava a perceber imagens
e ouvir nomes. Era como se estivesse assistindo a uma peça de teatro
com todos os sons, as vozes e os cenários. Bastava descrevê-los.
Nesse ponto, fez uma pausa e acrescentou:
- O
homem estava no cômodo onde eu estava, sentava-se ao meu lado e
ditava. Eu não sabia o que escreveria a seguir... ele me dizia.
*
Havia, porém, outras vidas para serem investigadas. Parecia
inesgotável o imenso porão de memórias da grande romancista. Novos
dramas e aflições explodiam em seu dramático relato perante os
pesquisadores.
Falemos de Wilma Sims. Nessa existência nasceu novamente num
reformatório em Battersea, subúrbio de Londres. Outra vida miserável
e sem horizontes: frio, fome, trabalho, pobreza, frustrações. Aos 16
anos de idade, a rota da sua existência cruza novamente com o
infalível Estanbul, encarnado então na pessoa de um jovem bancário.
-
Quando eu o vi, eu o reconheci, mas ele não me reconheceu. Quis
dizer-lhe: “Oh, aqui está você novamente e desta vez você jamais me
deixará”. Quis perguntar-lhe: “Você me ama, não é?”.
Estanbul, porém, tinha outros interesses. Chamava-se então Ephraim
Jacobs e era judeu. Foi promovido na sua função no banco e mudou-se
da pensão pobre onde também morava Wilma Sims. A moça tinha ainda
esperanças de reencontrá-lo alhures, mas ficou doente e em breve
morreu tuberculosa, em 1898, dois anos antes de se reencarnar como
Taylor Caldwell, ainda na Inglaterra. Conseguiu durar até os 21
anos, o que, na sua experiência espiritual do passado, já é muito.
Mais uma encarnação em que ela foi buscar uma figura glamurosa e
importante para justificar a sua própria teoria de que os
reencarnacionistas sempre querem passar por figurões históricos.
Antes dessa, os pesquisadores encontraram-na numa outra vida, na
Inglaterra. Chamava-se, então, Lucy Moss e vivia em Reddish. Pais?
Não os tinha. Vira a mãe apenas uma vez e o pai morrera atropelado
por uma carruagem. Era criada pela avó Moss. Não sabia em que ano
estava, mas lembrava-se de que a data era 1º. De agosto.
-
Você agora está ficando mais velha, diz o hipnotizador para fazê-la
caminhar no tempo.
E
mais uma vez a resposta inesperada.
-
Não, não, jamais eu ficarei mais velha...
Novo drama: morreu afogada, pois ali, à beira do rio, costumava
encontrar-se com Darios, embora seus companheiros de infância jamais
acreditassem na sua história. Tinha apenas cinco anos de idade e
partiu novamente para a casa de “my lord Darios”, em Melina.
*
Nos
capítulos seguintes são reproduzidas as suas fascinantes
experiências médicas, no remoto passado grego. A atual romancista
chamava-se então Helena e, a princípio, quando muito jovem, vivia na
casa de Aspásia mas, afinal de contas, naqueles tempos a
prostituição não era uma nódoa desprezível e Helena conseguiu
emergir ao longo dos anos, como uma das mais notáveis médicas da sua
época, façanha extraordinária para uma mulher. Explicou que os
homens amavam mais aquelas alegres companheiras do que as esposas
que os pais haviam escolhido para eles.
- É
verdade que as esposas nos chamavam de prostitutas, mas não éramos
prostitutas. Muitas de nós nos tornamos escritoras, escribas,
escultoras, professoras e matemáticas.
Helena descreve sua brilhante carreira pelos caminhos da medicina,
com todos os pormenores e práticas daqueles recuados tempos.
Tornou-se, com o tempo, mestra respeitadíssima de jovens médicos,
diante dos quais dava aulas práticas, realizando delicadas operações
que descreve com riqueza incrível de detalhes. Uma dessas operações
foi uma trepanação feita num jovem que ela própria teria
hipnotizado. Precisava remover um tumor cerebral que estava
provocando a cegueira no seu paciente. Era um câncer.
-
Alguns doutores chamam-no de caranguejo. Cada um desses tentáculos
tem que ser removido, senão eles voltarão a se desenvolver.
A
aula prossegue e, às vezes, ela parece divagar sobre pontos
correlatos, explicando por exemplo a técnica egípcia da trepanação,
praticada para liberar o Espírito nas pessoas agonizantes. Na sua
opinião, o câncer era transmissível por contágio.
Com
o tempo, Aspásia tornou-se a companheira de Péricles e Helena fundou
sua própria clínica. É com satisfação que ela conta que tratou
daquele eminente cidadão de Atenas, mas não é sem uma ponta de
ironia que fala dos seus berros apavorados ante a dor. Ridículo, diz
ela. Refere-se a ele, porém, com muito carinho e com grande orgulho,
pois considerava-o, muito justamente, aliás, como um rei, embora
Atenas fosse a grande precursora da democracia.
Na
sua opinião, muitas doenças provêm de desarranjos da mente. Assim
era sua teoria a respeito do diabetes. A doença – explicou – era
descoberta através do exame de urina que, depois de evaporada pela
fervura, deixava um resíduo extremamente doce. O doente, com o
tempo, fica sofrendo da vista e tem um apetite insaciável,
especialmente por mel e doces. Por isso, muita gente pensa que são
os doces que causam o diabetes. Helena, porém, estava convencida de
que a causa “está aqui” – e apontava para a cabeça. “Eles não
conseguem mitigar a sede insaciável, porque também não conseguem
saciar sua avareza”.
No
intervalo entre essa sessão e a seguinte, Jess Stearn leu nos
jornais que os cientistas chegaram à conclusão de que algumas
variedades de câncer são realmente transmissíveis. Helena estaria,
assim, alguns séculos adiante de sua própria época...
A
essa altura, Taylor Caldwell já não sentia mais o peso dos seus 70
anos de idade. Parecia ter renovado suas energias e demonstrava um
novo interesse pela vida. Planejava uma longa viagem de recreio e
vários enredos de livros circulavam pela sua mente. Não tinha ainda
ouvido, porém, nenhuma das gravações de regressão de memória. Além
disso, não tinha mais a dor no pescoço, as dores de cabeça
desapareceram e a audição estava surpreendentemente melhor.
Retomando a existência de Helena, prosseguiu incansável a sua
narrativa fascinante. Fez inúmeras operações; somente não tocou no
coração, uma das “câmaras sagradas de Hipócrates”. Era uma
entusiasta da medicina psicossomática, embora a palavra não esteja
mencionada.
- É
minha crença, apesar de que nem Herácleos me acredita, que as
emoções do homem podem destruir qualquer órgão no seu corpo,
especialmente o coração que, como você sabe, é um músculo forte.
Pesquisou e descobriu estranhos remédios para a época, como um certo
pozinho amarelo que conseguiu isolar “não apenas da teia da aranha,
como de certas substancias em decomposição”. Não tinha ainda
inventado um nome para o novo remédio. Jess Stearn pensa em sugerir
o nome de penicilina... Notável mulher essa remotíssima Dra. Helena,
amiga de Aspásia que, por sua vez, era dedicada companheira do
grande Péricles.
Quanto à raiva, divergia de Hipócrates, que a considerou incurável.
Sabia muito bem que quanto mais próximo a mordida do cérebro mais
rápido o ciclo da infecção. É sempre fatal. Estudando, porém, em
livros egípcios, isolou a essência de uma planta com a qual alega
ter livrado da morte nove pacientes dos onze que tratou. E ainda
informa que as mordidas foram nos ombros e algumas na garganta.
Além de ter esse saber, Helena achava que cada parte do corpo é
controlada por determinada região do cérebro. Estudou o assunto com
seu amigo e companheiro Herácleos, mas este achava que o cérebro era
todo igual, sem diferenças entre as diversas regiões. Ela, porém,
notou que o ferimento em certas seções afetava sempre os mesmos
membros.
Discutiu também o problema das drogas, assustada diante do poder de
uma substancia retirada da rauwolfia, uma planta da Índia, para
“controlar gente e conservá-los plácidos como animais”. Essa planta
fornece hoje a reserpina, usada no controle da hipertensão arterial.
Finalmente, resolveram os pesquisadores levar a paciente ao tempo do
Cristo, que ela demonstrou conhecer tão bem nas suas novelas de
sucesso.
Realmente lá está ela, naqueles tempos. Chamava-se, então, Hannah e
morava na cidade de Magdala, com o marido, uma filhinha de nome
Miriam e sua irmã Halla. Sob o transe, parece embalar Miriam no
colo, ao mesmo tempo em que conversa com Halla, a quem conta um
sonho estranho e muito nítido. Sonhou que o Messias havia nascido há
cinco anos, na cidade de David. Ela sabia que, segundo as profecias,
o Ungido viria envolto em glória e rodeado de anjos, mas ela,
Hannah, ouvira os sábios e eles disseram que ninguém o reconheceria
e ninguém poria as mãos sobre ele. Ela ouvira isso quando escutava,
escondida atrás da cortina, a discussão dos eruditos doutores da
lei. Sonhou também que o nome da sua Miriam jamais seria esquecido
porque tanto ela, Miriam, como Hannah estariam com o Messias um dia.
-
Sonhei isso apenas uma vez – diz ela a Halla. Sonhei que a minha
querida Miriam seria muito chegada a ele. Vejo-a ajoelhada a seus
pés e ele ajudando-a a levantar-se.
Suspirou feliz e acrescentou:
-
Mas ela é então uma mulher feita, uma linda moça, e ele levanta-a e
põe seu braço em torno dela. Como todos nós, nazarenos, seu cabelo é
vermelho-dourado, olhos azuis e, em meu sonho, ela nasceu na Casa do
Pão, que em nossa linguagem quer dizer Belém. Vê você, eu sei um
pouco de hebraico, mas não é permitido falar essa língua às
mulheres.
Hannah gostava de falar especialmente acerca dos seus sonhos. Se
eles fossem verdadeiros, pensava ela, toda Israel saberia no devido
tempo.
Conta, mais adiante, a belíssima cena com que abri este breve
comentário. Jesus, ainda jovem de 20 anos, ensaia sua pregação no
templo, enquanto Hannah, ao lado de Maria, ouve atrás da cortina,
porque n ao era permitido mulheres no recinto sagrado. Estavam em
Magdala, visitando alguns parentes, mas viviam em Nazaré. José e
Jesus eram carpinteiros; faziam móveis muito bonitos que até em
Jerusalém eram vendidos, segundo Hannah.
Dez
anos depois, Hannah encontra-se, já viúva, morando na famosa Rua dos
Queijeiros, em Jerusalém, a cidade sagrada. Não suportou mais o peso
dos impostos romanos, veio para a cidade, com a velha mãe. Hannah
tinha então 40 anos de idade. Fabricava queijo para vender. Sua bela
filha Miriam há muito estava desaparecida e Hannah trouxe para
Jerusalém a esperança de encontrá-la. Hannah estava cansada, velha e
pobre. Como seria bom recuperar a sua linda Miriam! Estaria agora
com 25 anos de idade. Será que se casara? Hannah oferecia o
sacrifício de uma pomba no Átrio das Mulheres, rogando a Deus para
que ajudasse Miriam a encontrar sua mãe.
A
certa altura, porém, ela parece tomar uma decisão. Perguntaria pela
filha ao novo profeta Yeshua. Pausa. Parece que caminha na direção
da praça do mercado, ponto de encontro e de pregação. De repente,
sua voz se eleva num crescendo aterrador. Estão matando sua filha a
pedradas. A agonia desesperada de Hannah atravessa quase vinte
séculos para sacudir de uma terrível emoção o corpo de Taylor
Caldwell, na Califórnia do século XX.
-
Vocês não devem matá-la. Vocês não devem apedrejá-la até à morte.
Meu Deus! Miriam, minha filha! Estão matando-a! Estão matando minha
filha! – gritava ela repetidamente.
Taylor Caldwell estava já sentada no sofá, tinha os braços
estendidos e dos seus olhos fechados escorriam lágrimas abundantes,
enquanto seus gritos enchiam toda a casa. Os pesquisadores acharam
prudente despertá-la. Ela olhou os companheiros com uma expressão de
perplexidade.
-
Há algo errado com uma das minhas filhas? – perguntou. Tenho uma
terrível impressão de que há alguma coisa errada com uma de minhas
filhas.
-
Não, é apenas um sonho que você estava tendo acerca de uma filha
numa existência passada.
A
resposta foi pronta e definitiva:
-
Não existe essa história de vida passada ou reencarnação. Isso é um
amontoado de tolices.
Antes de retomar o trabalho, em outra sessão, Jess Stearn releu o
episodio do apedrejamento de Maria de Magdala, no Evangelho. As
perguntas eram muitas e algumas foram respondidas na sessão
subseqüente.
Ao
correr desesperada para a filha, Hannah tropeçou nas pedras e morreu
aos pés de Jesus. Segundo sua versão, Jesus teria dito o seguinte
aos fariseus que corriam atrás de Miriam:
-
Aquele que não se deitou com ela, atire a primeira pedra.
Hannah reconstituiu toda a cena. Miriam estava no centro de um
círculo de homens enfurecidos, sofrendo uma barragem de pedradas.
Jesus correu na sua direção, ajoelhou-se para socorrer a moça já
caída. E aí o sonho de Hannah tornou-se realidade: Jesus ajudou-a a
levantar-se e passou o braço por cima do ombro dela enquanto falava
com os homens que a perseguiam. Hannah correu para eles e tropeçou.
Os homens gritavam e chamavam Miriam de prostituta e berravam:
“Anátema! Anátema! Miriam de Magdala é uma adúltera!”.
No
momento em que a morte começou a libertá-la da sua prisão carnal,
Hannah teve, afinal, a visão inesquecível de Jesus. Vamos procurar
traduzir suas palavras:
-
Meu coração explodiu em fogo. Uma escuridão me envolveu. E então eu
vi Yeshua ben Joseph antes de partir. Ele era muito alto e brilhava
como um sol. Sua barba e seu cabelo rutilavam como fogo dourado e
fagulhas emanavam dele. Seus olhos eram mais brilhantes do que
qualquer estrela. E ele me disse: “Vai em paz, minha filha”. Ele
estava mergulhado na glória e engrandecido, enquanto raios de luz
fluíam de suas mãos. Seu manto cinzento se transformara em fogo
branco e havia marcas nos seus punhos. (O Evangelho registra
idêntica frase de Jesus para Magdala).
Sua
voz tornou-se extática, quando acrescentou:
-
Certamente ele é o Messias. Ele salvou o seu povo do pecado.
*
Pouco maia adiante, Jess Stearn encerra a narrativa e passa a expor
algumas de suas próprias especulações, o que seria impraticável
reproduzir aqui sem mutilar o seu pensamento. Creio oportuno,
entretanto, mencionar que ele nada encontrou que pudesse abalar a
hipótese da reencarnação na longa narrativa de Taylor Caldwell. Uma
única vez as vidas estiveram separadas apenas por dois anos, quando
a atual romancista morreu como Wilma Sims, em 1898, para renascer
como Taylor Caldwell, em 1900, o que é perfeitamente possível. A
propósito, Stearn conta uma decepção que teve e que criou no seu
espírito um bloqueio de cepticismo com referência à reencarnação. Um
médium lhe disse, certa vez, que ele, Stearn, teria sido, no
passado, o poeta inglês Robert Browning, o que o deixou muito
orgulhoso, segundo confessa. Outro, porém, declarou que ele fora
Bramwell Bronté, “o ignominioso irmão das famosas irmãs Bronté”.
Acontece que Bronté e Browning foram contemporâneos e Stearn não
poderia ter sido os dois ao mesmo tempo. Donde se pode concluir o
dano que às vezes causam certos médiuns imprudentes.
Esse livro fascinante termina, porém, de maneira melancólica. Ao
regressar Taylor Caldwell da sua longa viagem de recreio,
empreendida logo depois das sessões, Jess estava com o seu livro
pronto. Entregou os originais à sua amiga e pediu-lhe que escrevesse
um epílogo.
A
famosa romancista escreveu, pois, as últimas paginas do livro,
depois de ler a narrativa do seu fabuloso mergulho no passado.
Confirma suas vívidas impressões acerca da vida com George Eliot, na
Inglaterra vitoriana, mas se pergunta de maneira desconcertante:
-
Será minha imaginação de romancista? Ou memória? Não sei dizer.
Posso apenas sentir que se Deus existe, então Ele foi
particularmente severo comigo e a minha breve “existência” naquela
encarnação foi sem sentido e certamente não resultou em nenhum
“beneficio” para mim como “carma” ou “esclarecimento”. (O grifo é
meu, mas as aspas estão no texto original).
Declara, a seguir, que acha repulsiva a idéia de que podemos nascer
como homens ou mulheres, dado que “alguns reencarnacionistas dizem
que a alma não tem sexo”. (Por que repulsiva?) Sente-se feliz,
porém, de ter sido constantemente mulher. Está “profundamente
convencida” de que a felicidade não existe nem neste mundo nem em
nenhuma forma de vida póstuma. Ficaria “muito feliz de ficar livre
da vida para sempre”.
Nem
por convicção, nem por crença religiosa aceita a reencarnação.
-
Não obstante ser católica praticante, tenho sérias dúvidas acerca da
sobrevivência da personalidade humana ou “alma”, depois da morte.
Sua
vida, em suas próprias palavras, tem sido “trágica e desastrosa,
desde o nascimento”. Sob a pressão da desgraça – fome, desabrigo,
desespero, doenças e privações até mesmo das mais elementares
necessidades da vida -, várias vezes pensou em suicídio, para acabar
com tudo, segundo pensa. Foi sempre explorada sem piedade até mesmo
por aqueles a quem mais ardentemente amou e em quem confiou.
A
idéia da reencarnação, que encontrou em muitos dos livros que leu,
sempre a horrorizou. A seu ver, nenhuma pessoa inteligente poderia
suportar outros turnos nesta existência, que acha pavorosa, num
mundo igualmente pavoroso. Não vê como considerar a reencarnação uma
promessa e uma esperança. “Certamente, uma vida é suficiente para
suportar a vida!”.
Houve tempo em que temia (a palavra é sua) que a personalidade
humana pudesse sobreviver à morte e que, afinal de contas, a
reencarnação pudesse ser uma verdade. Exatamente para provar que
tudo isso era falso entrou em contato com seu amigo Jess Stearn e se
ofereceu para a pesquisa. Estava em dezembro de 1971, “num total
estado de espírito suicida”, pois o mundo lhe parecia apenas uma
instituição penal. (E é) Assegura que evidentemente, deve ao seu
amigo e ao hipnotizador o novo interesse pela vida, e até mesmo
certa alegria de viver “que nunca havia experimentado antes, nem
mesmo na infância, na juventude ou na mocidade”. E, estranho como
pareça, a “cura” foi definitiva. Reencontrou até o amor, casando-se
novamente com um homem de sua idade, tal como havia sido previsto,
aliás, por um dos médiuns que consultou com Stearn. Está com novos
livros planejados.
Depois de ler com muita atenção o livro de Stearn, continua
rejeitando a idéia da reencarnação, muito embora, sem ela, não
consiga explicar uma porção de coisas que ela própria revelou, como
seu conhecimento de hebraico, espanhol, italiano, ou de medicina.
Mesmo assim, acha que a reencarnação, “se é que existe, é uma
gigantesca maldição e não uma esperança”.
Propõe ao leitor que faça seu próprio julgamento acerca da teoria da
reencarnação e do comovente material contido no livro. “Sou ainda a
céptica dos cépticos. Contudo, sou grata pela experiência. Se para
nada serviu, pelo menos me proporcionou material para um novo
romance”. (Grifo meu) Abandonou uma história passada no período das
Cruzadas, ao tempo de Saladino (outra possível encarnação?), par
escrever um livro sobre Péricles e Aspásia. Confessa que sabe tudo
acerca de suas “personagens”, sendo totalmente familiarizada com os
lugares e aquela gente: Helena, Herácleos, Hipócrates e todos
aqueles gregos maravilhosos.
*
É
assim o fecho do livro. Uma prece para Taylor Caldwell, romancista
genial que nem um rosário enorme de vidas conseguiu dobrar para as
realidades do espírito. Nem mesmo aquela existência tão dramática e
tão bela, da qual Jesus a despediu com uma palavra de amor:
-
Vai em paz, minha filha...
Hannah partiu, mas não encontrou a paz. Sacudida entre a dor que a
revolta e a revolta que lhe traz a dor, não conseguiu ainda escapar
ao círculo de fogo das suas muitas angústias. E, não obstante, é tão
fácil partir os grilhões da dor, só que temos de quebrar antes as
douradas correntes do orgulho.
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