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Foi
a 31 de Março de 1903, à mesma hora em que a Federação Espírita
Brasileira comemorava a desencarnação de Allan Kardec, que Saião
docemente se despiu das prisões da carne, passando desta vida para a
outra, onde se juntou à coorte luminosa dos amigos que o precederam,
entre eles Bittencourt Sampaio, Bezerra de Menezes, Isabel Maria
Sampaio, Manuel dos Santos Silva e outros que cm ele formaram o
primitivo Grupo dos Humildes (depois Grupo Ismael), então sob a sua
direção.
Sua
vida de espírita foi um exemplo de modéstia, humildade, abnegação e
sobretudo de fé cristã. Portou-se verdadeiramente como servo do
Senhor, aproveitando todas as ocasiões para aconselhar e esclarecer
tanto a encarnados como a desencarnados.
Nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 1829, filho de Francisco Luís
Saião. “Talentoso e aplicado”, conforme a ele se refere o muito
ilustre Doutor J.L. de Almeida Nogueira (in “A Academia de São Paulo
– Tradições e Reminiscências – Estudantes, Estudantões,
Estudantadas”, S. Paulo, 1909), Antônio Saião diplomou-se em
Ciências Jurídicas na capital de S. Paulo. Retornando ao Rio,
exerceu a advocacia por muitos anos. Conservou, depois, seu
escritório à Praça da Constituição (atual Praça Tiradentes), n. 46,
embora não mais advogasse.
*
Como se tornou espírita
Damos a seguir, pela própria pena de Saião, a narração que ele fez
sobre a sua conversão ao Espiritismo, e que foi publicada em
Reformador de Junho de 1891:
Meu
caro irmão:
Vós
me pedistes e eu vos prometi a narração de qualquer fato
escrupulosamente verdadeiro que se tenha dado comigo, para que o meu
testemunho sirva de garantia à verdade da Doutrina Espírita, para
convencer os incrédulos por ignorância ou por sistema.
De
que servem tais esforços, principalmente para os últimos?
Entretanto, para dar-vos uma prova da minha obediência, vou, sem a
mínima pretensão de escritor e ao correr da pena, narrar-vos o que
se deu comigo, só me preocupando com ser fiel à verdade.
Corria o ano de 1878, para mim triste, cheio de aflições e
amarguras, que só me dava lenitivo o verter das lágrimas. Eu não
cessava de implorar a misericórdia divina, crença que ao despertar
da razão achei implantada em meu ser.
Ao
mesmo tempo, aprontava-me para, logo depois do dia fatal, que
esperava, retirar-me para a Europa com meu filho, então de treze
anos de idade, em busca de resignação.
Os
sofrimentos de minha mulher, que, mais ou menos, datavam de seis
anos, haviam-se agravado ao ponto de seu médico assistente
afirmar-me que o termo fatal se aproximava. Igual juízo e
prognóstico fez o meu íntimo amigo Dr. Geraldo Motta.
Imagine-se o estado de meu pobre espírito, passando noites inteiras
a velar à cabeceira da mulher a quem idolatro, cheio de apreensões.
No dia 11 de Setembro daquele mesmo ano, em que, exausto de forças,
transido de amarguras, procurava respirar o ar da manhã na Praça da
Constituição, encontrei-me com o Senhor Cândido de Mendonça,
empregado no Foro, que, penalizado de me ver chorando, aconselhou-me
que procurasse um meu colega, que, na travessa do Ouvidor, oferecia
remédios homeopáticos para as moléstias consideradas incuráveis, com
resultados espantosos.
Agradecendo-lhe a parte que tomava na minha dor, respondi-lhe que
não podia submeter minha mulher ao tratamento de um homem distinto,
é verdade, como o conhecia, porém estranho completamente à ciência
médica, quando eu tinha os recursos que me podiam oferecer as
notabilidades que já a tinham desenganado.
O
Sr. Cândido de Mendonça, como um enviado da Providência, insistiu
com um interesse que me surpreendeu, dizendo-me afinal que, se nos
casos desesperados e desenganados pelos homens da ciência, era
desculpável darmos os remédios de um sertanejo ignorante, quanto
mais tratando-se de um homem conhecido, notável e já afamado por
curas em casos idênticos; pedindo-me que pelo menos me certificasse
dessa verdade para justificação do que me referia.
Pois bem, no dia seguinte (12 de setembro de 1878), às onze horas da
manhã, compareci à travessa do Ouvidor, onde encontrei aquele colega
e mais alguns que o ajudavam, havendo grande número de pessoas, umas
recebendo remédios, outros à espera de sua vez, todos alegres e
contentes, referindo os milagres das aplicações que fazia com
caridade evangélica o homem assaz conhecido, por ser um literato
distinto, titulado com carta de Bacharel em Direito, tendo já
ocupado os cargos de Presidente da Província, Deputado à Assembléia
Geral, porém completa e absolutamente estranho à ciência médica.
Esse espetáculo, preciso confessar, porque é meu propósito dizer
toda a verdade, edificou-me no meu espírito, aniquilado então, com
tais proporções, que o sorriso de mofa e de crença tornou-se-me em
uma contemplação mística, que só pode ter um espírito cheio de fé,
em um Templo de Caridade, presidido por um Ente divino.
Ao
tocar a minha vez, eu disse que ia procurar remédios para minha
mulher.
Respondeu-se-me que só se davam remédios aos pobres, e a esses
mesmos quando desenganados por moléstias julgadas incuráveis.
Insisti, pedindo que me valesse por caridade, porque minha mulher
estava desenganada, certificando-lhes que era essa a minha última
esperança, e sem que me deixassem referir a moléstia de que sofria
minha mulher, tendo-se-me pedido só o seu nome, eu vi deitar em dois
vidros, cheios de água, algumas gotas de tintura homeopática, que me
foram entregues para dar à enferma.
Ainda me revoltei, à princípio, pelo fato de não se querer averiguar
dos sofrimentos e nem ao menos indagar do diagnóstico dos médicos,
mas era com efeito a minha última esperança e fui portador desse
presente do Céu, que, ao ser administrado à enferma, deu-lhe logo
alívios extraordinários e, depois de alguns anos de aplicações
emanadas da mesma fonte, obteve como resultado a vida e a saúde que
até hoje desfruta; até hoje, há doze anos!
Diante de fato tão extraordinário e tão real, fato corroborado por
muitíssimos outros que fui presenciando dia a dia, tomei o firme
propósito de só formar juízo depois de estudo sério e refletido. É
assim que tratei de estudar os livros do Mestre, e com muitos outros
de menor importância, a Revelação da Revelação sobre os quatro
Evangelhos, recebida dos Espíritos e coordenada por Roustaing.
Tratei igualmente da verificação prática, trabalhando regularmente,
durante dois anos, com médiuns que reuni em uma sala para isto
especialmente construída em minha residência.
Foi
nestes trabalhos que verifiquei todas as verdades esplêndidas na
referida obra de J. B. Roustaing. Dentre muitos fatos que aí se
deram, recordo-me de que o habilíssimo professor de Filosofia, J.
Rodrigues de Macedo, admirado de ver-me fazer parte de uma sociedade
de visionários, segundo sua opinião, pediu-me para assistir a uma
sessão, e, por intermédio do médium Frederico, o pai dele, falecido
há anos, em São João do Príncipe, dirigiu-lhe uma felicitação com
letra firme, semelhante à sua, o que foi reconhecido e declarado
pelo filho absorto na contemplação desse impossível!
Foi
finalmente neste grupo que eu tirei a prova cabal e satisfatória de
todos os fato tidos como sobrenaturais para quem ignora as causas e
cuja verdade pode ser atestada pelos meus companheiros muito mais
adiantados na doutrina: Bittencourt, Frederico, Nascimento, Santos,
Neto, Campos e Couto, que ainda vivem, além de Isabel Sampaio,
Silva, Borges, Gama, Leite, que, desencarnados, já se têm
certificado da verdade de tudo que nos foi ensinado.
Mas, meu irmão, depois de tanto ter-vos escrito, vejo que me distraí
do fato, um dos últimos e um dos importantes que mais efeito
produziu no meu espírito e que por isso mesmo não posso omitir.
Constituído esse escritório como templo de caridade, em que
Bittencourt dava remédios aos pobres desenganados pelos médicos,
tornou-se ele o médico de nossa família, com tal êxito que as
moléstias, as mais insignificantes como as mais complicadas, foram
sempre combatidas com o mesmo esplêndido resultado, o que foi
presenciado até por alguns médicos, nossos íntimos amigos.
Um
dia, cuja data me escapa, tendo-se Bittencourt retirado de nossa
casa, seriam cinco horas da tarde, como era de costume, veio da rua
o nosso criado Celestino gravemente doente com sufocação e síncopes
que pediam socorros imediatos e enérgicos, o que nos desassossegou
muito, de sorte que eu, minha mulher e todos da casa mentalmente
lastimávamos a ausência de Bittencourt, tanto mais quanto
ignorávamos onde se pudesse encontrá-lo e se em tempo de salvar o
enfermo. Recordo-me que eu nesse estado aflitivo disse mentalmente:
“Bittencourt, onde quer que te aches, vem valer-nos nesta aflição”.
E dentro em pouco tempo, ouvimos batimentos fortes na porta e a voz
de Bittencourt que nos chamava: “abram, que querem de mim?”, e
entrando precipitadamente, levamo-lo à cabeceira do Celestino a quem
deu alívio em poucos momentos. Contou-nos então que, achando-se a
jantar com alguns amigos em um hotel, fora despertado por nossos
chamados angustiosos, e pressuroso viera acudir-nos.
E
assim, meu irmão, para não abusar por mais tempo da vossa
benevolência, porque, como esses, muitíssimos fatos vos podia
referir, finalizo esta já tão extensa carta, asseverando-vos que
dessa época em diante, convencido da verdade da Santa Doutrina
Espírita, professo-a por convicção feita pelo meu estudo e pela
minha experiência de doze anos, sem me embaraçar o juízo que de mim
possa fazer este ou aquele sábio.
Não
longe vem o tempo da confirmação de tudo que se nos disse e de tudo
que se nos mostrou a respeito da sagrada Doutrina do Justo: e
bem-aventurados os que na hora suprema tiveram o Cristo em seu
coração, porque esses verão a luz em todo o seu esplendor.
Do
vosso humilde irmão,
O
advogado Antônio Luiz Saião.
*
Uma
Experiência Com o Médium Slade
Quando o famoso médium norte-americano Henry Slade esteve no Rio de
Janeiro, em 20 de junho de 1888, uma Comissão da Federação Espírita
Brasileira dirigiu-se certo dia ao local onde ele se hospedara.
Eis, a seguir, o relato do que aconteceu nessa visita, feito por
Bezerra de Menezes nas páginas do Reformador de 15 de Março de 1889:
-
Seria uma hora da tarde, quando eu, o Dr. Saião, o médium Nascimento
e o Professor Alexandre nos apresentamos na casa de pensão, morro da
Glória, onde se achava Slade hospedado.
Acolhidos amavelmente, ficaram na sala de recepção Nascimento e
Alexandre, levando-nos a mim e a Saião para uma saleta, onde havia
uma mesa, sobre a qual estavam duas ardósias.
Deu
uma a Saião e outra a mim, para que as examinássemos e limpássemos,
o que foi feito com o maior cuidado, e, sem que mais permitíssemos
que Slade nelas tocasse, demos princípio ao trabalho.
A
saleta tinha uma janela aberta para fora, de modo que a luz do dia
lhe dava a mais completa claridade.
Slade mandou Saião depor sua ardósia sobre a mesa, pôs sobre ela uma
insignificante porção de lápis, e disse-me que assentasse a minha
ardósia sobre a outra, de modo que a partícula de lápis ficou entre
as duas.
Feito isto, mandou-me tomar as duas pedras com a mão direita, de
modo a tê-las unidas, e levou minha mão com as pedras à altura do
meu ombro esquerdo, onde as opoiei.
Slade colocou suas duas mãos sobre a mesa, e com as duas de Saião e
a minha esquerda, formou a cadeia magnética.
Começamos a ouvir estalidos na mesa, e em menos de dois minutos
ouvimos, entre as pedras, bem sensivelmente, o cricri do lápis.
Assim que cessou o ruído, eu abri as pedras, e encontrei, na face
interna de uma, duas comunicações separadas por um traço de lápis.
A
primeira, assinada por L. de Mond, estava escrita em francês, e
dizia:
“Un
homme sage est au dessus de toutes les injures qu´on peut lui dire.
La grande reponse qu´on doit faire aux outrages c´est la moderation
et la patience”.
Parece que o Espírito escolheu um conceito adequado às minhas
condições.
A
segunda escrita em inglês, continha estas palavras:
“Yes, my friends, the above is quite truzf all men would act to the
above it would be much better for all.
I´am
Dr. “Davis”.
Por
minha honra afirmo que este fato estupendo passou-se como o refiro,
e o pode confirmar o ilustre Dr. Saião.
Não
tendo as pedras que limpamos saído de minhas mãos, e tendo eu ouvido
claramente o ruído do lápis sobre o meu ombro, tenho certeza de que
nenhum dos três presentes foi autor daquelas notáveis comunicações.
(a)
Dr. Bezerra de Menezes.
*
O
“Grupo Ismael”.
A
Sociedade de Estudos Espíritas Deus, Cristo e Caridade, fundada em
23 de Março de 1876, vivia nos anos de 1879 a 1880 num ambiente de
discórdias decorrentes da vaidade e do orgulho de alguns dos seus
membros, que chegaram mesmo a mudar o título da referida associação
para Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade. Já antes, dela
haviam saído duas sociedades, que desapareceram em 1879:
“Congregação Anjo Ismael”, surgida em 20 de Maio de 1877, e o “Grupo
Espírita Caridade”, instalado em 8 de Junho de 1878. Em virtude dos
últimos fatos, certos componentes se apartaram dela, e fundaram em
1880 o “Grupo Espírita Fraternidade”.
Numa tentativa de conciliação cristã, Saião, unido a bons
companheiros, convida a todos para uma reunião a 6 de Junho de 1880.
A ela compareceram vinte e quatro membros de ambas as Sociedades, os
quais procuraram estudar diversos problemas, objetivando a união
para mais eficiente divulgação da Doutrina.
Apesar dos esforços e da boa vontade de Saião e dos prudentes
conselhos dos Guias Espirituais, os membros presentes às reuniões
não souberam conservar aquele espírito que o Evangelho ensina. Cada
qual emitia seu ponto de vista, sem aquela tolerância que Kardec
praticou, e em pouco tempo a desarmonia se acentuou, a todos
convencendo da improbabilidade de se chegar ao resultado em mira.
Diante de tudo isto, Saião, inspirado pelos Maiores da
Espiritualidade, funda um Grupo destinado ao estudo e à prática dos
Evangelhos (denominado “Grupo Ismael”, desde que se incorporou à
Federação Espírita Brasileira), cuja primeira reunião data de 15 de
Julho de 1880, em seu escritório, à Rua Luís de Camões, num sobrado,
junto ao antigo n. 5. Dessa primeira sessão participaram, além de
Saião, como diretor dos trabalhos, os seguintes médiuns, todos de
grande fé e de elevada moral: Frederico Pereira da Silva Junior,
João Gonçalves do Nascimento, Manuel Antonio dos Santos Silva,
Francisco Leite de Bittencourt Sampaio e sua esposa Isabel Maria de
Araújo Sampaio. Vários Espíritos superiores se fizeram ouvir nesta
memorável noite, entre eles o glorioso Ismael, que assim principiou
sua mensagem, por intermédio do médium Frederico:
“Assim é, amigos e companheiros de trabalho: eu folgo, eu me rio de
contentamento quando vos vejo reunidos, empregando todos os
esforços, na altura de vossas forças, para reabilitar o Espiritismo
ainda em começo no Brasil, e no entanto já desnaturado pelos homens
que não se sabem governar pela razão e pelo bom-senso, pelas leis
traçadas pelo Divino Mestre.
Eu
folgo e me junto convosco para ver se podemos realçar os brilhos
dessa doutrina por sobre a Humanidade inteira, até hoje esquecida
das lições do Divino Mestre”.
As
reuniões do Grupo eram realizadas às sete horas da noite, no mesmo
horário das de hoje, e aquele núcleo evangélico dentro de poço tempo
ficou conhecido como o “Grupo dos Humildes”, ou “Grupo de Saião”.
Inúmeras instruções foram fornecidas posteriormente pelos Guias,
sendo que na segunda sessão o Espírito de Frei José dos Mártires
comunica estar encarregado de auxiliar o “irmão Saião em seus
trabalhos”, devido aos laços que a ele o prendiam, de passadas
existências.
Estava assim consolidada no Brasil a célula máter do Anjo Ismael,
cuja existência já vai para quase um século, e onde milhares e
milhares de Espíritos têm encontrado a estrada da salvação. Nesse
Grupo, Ismael estabeleceu a torre de defesa de toda a Federação
Espírita Brasileira.
*
Seus Livros
“Neles encontrareis o que há de mais adiantado em Espiritismo,
colhido na seara bendita, com a alma cheia de amor, humildade e fé,
as virtudes que enastram a coroa do discípulo de Jesus, votado à
obra do Mestre Divino, com o coração cheio ,de energias e de
caridade evangélica”.
Saião, mais tarde, em 1893, reuniu os trabalhos processados em
cinqüenta e nove sessões, repletos de belíssimas e instrutivas
comunicações dadas por Espíritos de grande luz, e deu publicidade a
um livro de 400 páginas, intitulado “Trabalhos Espíritas de um
pequeno grupo de crentes humildes”.
Passam-se os anos, e em janeiro de 1897 Saião publica mais um livro
de sua lavra: “Estudo dos Evangelhos em Espírito e Verdade”, obra
que em 1902 saiu em segunda edição refundida e aumentada, agora com
novo título, que até hoje conserva: “Elucidações Evangélicas à Luz
da Doutrina Espírita”.
Datado de Abril de 1896, há um excelente prefácio de Saião dirigido
ao leitor e que assim principia:
“Da
árvore do bem, a cuja sombra repousei um dia, cansado das fadigas de
uma existência atribulada, colhi os dulçurosos frutos, que hoje
convosco reparto”.
“Em
maior abundância quisera dar - vo-los; infelizmente, a hora da
colheita não foi ao levantar da aurora, mas sim ao cair da tarde”.
“Poucos, esses mesmos não seriam colhidos, se de Jesus a luz bendita
não viesse afugentar da noite as trevas, que já se apropinquavam no
horizonte e que me envolveriam em meio dos meus labores”.
“As
páginas deste humílimo livro simbolizam os frutos de que vos falo.
Nela encontrareis as doçuras de uma outra vida; nelas encontrareis o
remanso das vossas dores, se porventura sofreis”.
*
Reformador de 1º. De Fevereiro de 1898 publicou longa crítica sobre
o livro recém-aparecido, da qual extraímos estes breves trechos:
“Altíssima é a missão dos que foram escolhidos para fazerem na Terra
a obra de Deus: a divulgação do Evangelho segundo o Espiritismo; e
dentre aqueles missionários espalhados por toda a Terra
levantaram-se entre nós, Bittencourt Sampaio, com a sua “Divina
Epopéia”, e Antonio Luís Saião, com os “Estudos dos Evangelhos”.
“Aquele limitou seu trabalho, que é monumental, ao Evangelho de São
João. Este ergueu seu monumento sobre os de S. Mateus, S. Marcos e
S. Lucas. Um completa o outro e ambos dão a luz, que a geração
hodierna pode suportar, sobre a doutrina cristã, cujos horizontes se
estendem, como é de mister, àquela luz, ao magno esforço dos dois
atletas da revelação espírita”.
“Seus trabalhos podem ser ditos: perfeito resumo da interpretação
dos Evangelhos em espírito e verdade, segundo Roustaing, corrigido e
aumentado em certos pontos, sempre sob a assistência dos Altos
Espíritos”.
“O
Reformador felicita o autor, felicita os espíritas, felicita a
Humanidade, pelo aparecimento de mais um, astro de luz no horizonte
da Terra!”.
Bezerra de Menezes, sob o pseudônimo de Max, respondendo pela
“Gazeta de Notícias” de 6 de Abril do mesmo ano, a uma consulta
quanto à adoção das obras de Saião nos Grupos Espíritas, fez extensa
e luminosa exposição esclarecedora comparando Kardec e Roustaing, e,
ao referir-se à “Elucidações Evangélicas”, declarou:
“O
livro de Saião é um resumo do Roustaing, com as vantagens de Allan
Kardec. É, portanto, correto e adiantado, sob o ponto de vista
doutrinário – e é claro e conciso sob o ponto de vista do método”.
“Por outra: contém as idéias de Roustaing e o método incomparável de
Allan Kardec”.
“Quem compreende a progressividade da revelação não pode recusar
preito a Roustaing – e quem quiser colher, em Roustaing, os frutos
preciosos de sua inspiração, muito lucrará estudando o livro (os
livros) de Saião”.
“È
chave de ouro, que ninguém deve desprezar – e que, além de ser tal,
encerra observações e práticas que, por si só, recomendariam o
hercúleo esforço do Anteu do Espiritismo no Brasil”.
*
Alguns Excertos de Saião
“O
Evangelho é o livro do coração; cura as feridas do sentimento,
porque destila o amor de Jesus-Cristo; consola o desconforto dos
aflitos, porque dele se evola a essência da verdade divina,
gradativamente propiciada aos filhos de Deus, para a escalada
gloriosa do futuro. Poe ele, é certo, aumenta a criatura o seu
patrimônio intelectual, com conhecimentos puramente espirituais;
porém, a sua finalidade máxima é formar o patrimônio moral da
Humanidade”.
“Todas as pessoas que almejam ser espíritas devem convencer-se de
que a Doutrina Espírita veio cumprir a grandiosa missão de conduzir
a Humanidade à perfeição, a essa perfeição que impulsiona o homem a
amar o seu Mestre, o seu Salvador”.
“A
Doutrina Espírita é a fonte donde sai a água viva para saciar a
sede, qual a oferecida por Jesus à Samaritana, e que virá a ser, em
quem a beba, uma fonte de água, que salte para a vida eterna (João,
4:10 a 14)”.
“A
Doutrina Espírita, como ciência, nos ensina a conhecer as causas e
os efeitos, aplicando o critério da nossa razão, com as regras da
lógica e os princípios das verdades demonstradas; e nos dá o
conhecimento, a compreensão, a consciência, a convicção das verdades
eternas. E sobre essa base sólida construímos o edifício inabalável
das nossas crenças, da nossa fé, das nossas esperanças, da justiça,
da piedade e, assim, temos o fio que nos liga a Deus. Essa ligação,
profunda, íntima, nos impõe um culto, qual o que não podemos deixar
de render a tudo que é grande, imponente e sublime!”.
“Eis em que consiste a religião; eis a razão por que dizem a verdade
os que sustentam que o Espiritismo é uma ciência e ao mesmo tempo
uma religião”.
“Toda a nossa felicidade está na verdadeira orientação traçada por
Nosso Senhor Jesus-Cristo, isto é, na prática dos seus ensinamentos,
bebida diretamente na fonte pura dos seus Evangelhos, entendidos em
espírito e verdade, como nos ensinam as Estrelas que baixam do Céu,
representantes do Consolador, do Espírito da Verdade”.
“A
verdadeira orientação do espírita está em estudar, compreender e
praticar os Evangelhos e assim limpar o seu coração, para dele fazer
o tabernáculo onde habite Jesus”.
*
Sua
Desencarnação
Estava o grande trabalhador da causa espiritista com setenta e
quatro anos de peregrinação terrestre, quando repentina enfermidade,
de alguns dias apenas, o convocou para a pátria espiritual, para a
vida imortal,
Era
ele uma voz ponderada e firme na pregação dos princípios
evangélicos, e devemos frisar que sob este aspecto o Espiritismo no
Brasil muito lhe deve.
No
Além, seu luminoso Espírito continua, como ardoroso apóstolo do
Evangelho, a edificar filhos transviados da Verdade, tão só com o
amor que espontaneamente se lhe irradia do coração.
Sob
o pseudônimo de “Discípulo de Max”, a alma bondosa de Pedro Richard
apologizou (e ninguém melhor o faria), com sinceridade e justa
admiração, a existência e a obra do venerando pregador cristão, de
quem fora por longos anos companheiro fiel e a quem sucedeu na
direção do “Grupo Ismael”.
É
uma página rica de ensinamentos, e que não poderemos deixar de aqui
transcrever do “Reformador” de 15 de Abril de 1903:
“Mais um trabalhador da santa cultura de Nosso Senhor Jesus-Cristo
cai na arena”.
“Tomba o corpo, mas surge o Espírito em toda a plenitude da vida,
pujante e forte, e cheio da misericórdia que a mancheias derrama o
nosso Divino Mestre sobre todos os seus discípulos, que à custa de
lutas encarniçadas contra os arrastamentos da matéria e preconceitos
sociais, e de sofrimentos necessários e sempre merecidos, de fracos
se fizeram fortes, de pequenos se fizeram grandes”.
“A
vida de um justo é sempre um exemplo a seguir-se”.
“É
preciso que a família espírita conheça a vida dos seus irmãos, que
nesta peregrinação souberam cumprir o seu dever de verdadeiros
cristãos, a fim de que exemplos tão salutares possam ser
aproveitados pelos nossos espíritos, que, assim estimulados, hão-de
procurar imitá-los”.
“Ontem era Bittencourt Sampaio, Bezerra de Menezes, Maia de Lacerda,
etc.; hoje é Saião que, abandonando o casulo grosseiro da matéria,
surge dourada borboleta a singrar o espaço infinito, em bisca da
Grande Luz”.
“Agora, que desapareceu o homem e que, portanto, já não pode ser
atingido pelo orgulho e pela vaidade, podemos falar abertamente dosa
seus feitos, para que sirvam de lição à família espírita”.
“Antônio Luís Saião pediu ao nosso Criador a maior e a mais perigosa
das provas que pode um Espírito pedir: a riqueza material,
comprometendo-se, porém, a adquiri-la à custa de muito trabalho e
fazer-se espírita, para pregar a doutrina de Jesus, pelos exemplos
de toda a ordem, notadamente pelo desprendimento dos bens terrestres
que lhe fossem proporcionados pela riqueza adquirida. E, de fato, é
a riqueza a prova mais perigosa e o compromisso mais sério que pode
um Espírito tomar, pelos embaraços cruéis que lhe opõem os dois
grandes inimigos da alma: o orgulho e a vaidade, além das exigências
a quer todo instante nos obriga uma sociedade como a nossa, sem
crença e sem moral”.
“Para se avaliar a grandeza da prova pedida por Saião, basta que nos
lembremos das palavras de Jesus aos seus apóstolos, a propósito do
mancebo rico que o consultou sobre o que necessitava fazer para
salvar-se”.
“Disse o Divino Mestre aos seus discípulos, depois de aconselhar o
moço: - Mais depressa passa um camelo pelo fundo de uma agulha, do
que se salva um rico”.
“Bem se vê que esta luminosa sentença não pode comportar a tradução
servil que as letras lhe emprestam. É um tropo empregado por Jesus
para significar à Humanidade a dificuldade com que tem de lutar um
Espírito, que para esta existência trouxe a prova da riqueza para se
salvar. Notemos bem: a dificuldade e nunca a impossibilidade”.
“Pois, meus irmãos, graças ao nosso Pai, soube Saião desempenhar-se
brilhantemente desempenhar-se do compromisso que tomou, e salvou-se,
porque perseverou até ao fim, tendo em toda a sua vida uma única
preocupação: servir ao nosso Bom Senhor. E não é lícito por em
dúvida a sua salvação, porque disse o Divino Pastor: - Aquele que
perseverar até ao fim, será salvo”.
*
“Tracemos um bosquejo, se bem que imperfeito, da sua passagem pela
Terra.
Antônio Luís Saião encarnou em meio muito pobre e só à custa de
muitos sacrifícios materiais conseguiu formar-se em Direito, na
Academia de São Paulo.
Quem desconhece o que é a vida de um estudante pobre, que nem livros
tem para estudar, e que é obrigado a comer e a pagar a moradia à sua
custa?! E o que veste e o que calça? Pobrezinho! Usa a roupa e o
calçado, ora um tanto apertados, ora mais largos, dos seus
companheiros de república que, generosos e bons, como sói ser a
mocidade acadêmica, têm-no em geral em alta consideração. Nem uma
vela para estudar à noite, nem um vintém no bolso! Enquanto os
colegas se divertem nos teatros, bailes e serenatas, ele estuda à
luz do lampião da sala da república, ou pede ao sono reparador o
descanso de que necessita o seu corpo depauperado de forças nas
lutas do dia.
Vencendo todas as dificuldades, formou-se em Direito e veio para
esta capital exercer a sua profissão, e dela escolheu a parte mais
simpática e mais sã, qual seja a defesa dos criminosos, da tribuna
do Júri, que então era ilustrada pelos vultos eminentes de Busch
Varela, Ferreira Viana e outros luminares da jurisprudência, e que
naqueles tempos souberam fazer renome.
Saião, enfrentando com tais competidores, jamais se deixou ficar na
retaguarda e fez-se notável advogado.
Discípulo de Max”.
*
Trabalhador incansável e extremamente econômico, conseguiu fazer
fortuna, poupando e guardando as parcas economias que lhe sobravam
das suas restritas necessidades materiais.
Talento modesto, aliado ao desejo de bem servir ao Senhor, jamais se
deixou atingir pelo orgulho e pela vaidade, ou pelas sugestões do
fausto e da orgia. Seu vestuário sempre foi sério, simples e
decente, sua alimentação sólida, parca e sóbria.
Em
1878, mais ou menos, se fez espírita.
Teve então de travar luta titânica contra as suas tendências
católico-romanas, não compatíveis com os Evangelhos de Jesus, que
acabava de abraçar, e, sobretudo, contra os preconceitos
sociais-religiosos, que naqueles tempos pareciam insuperáveis.
Tomou para seu companheiro e mestre o seu colega Bittencourt
Sampaio, que aqui na Terra tão bem soube orientá-lo e, no espaço,
depois que para lá foi, melhor soube encaminhá-lo com seus conselhos
diários e ampará-lo com a sua ascendência moral.
Feita a aliança espiritual entre os dois servos do Senhor, tiveram
que lutar heroicamente contra as traiçoeiras ciladas que lhes
armavam a todo o instante os Espíritos das trevas, com o intuito
perverso de separá-los.
A
luta foi encarniçada e tantos foram os estratagemas de que usaram os
inimigos do espaço, para romper o laço que ligava esses dois
espíritos aqui na Terra, que narrá-los é impossível. Mais de uma vez
teve Saião de por em prova a sua humildade, para evitar que se
quebrasse um só dos elos da cadeia que o prendia ao seu mestre e
amigo.
Seu
lar, nos tempos ignominiosos da escravidão, era o céu dos
desgraçados que tinham pedido a prova de ser escravos.
Não
se acolhiam, para de escravizados ficarem livres, pois eram tratados
pelo “senhor” como irmãos e amigos e se constituíram membros da sua
família. Que o digam os Moisés, os Celestinos e as Joanas, cujos
filhos eram por ele acalentados e muitas vezes nos seus próprios
braços entregavam o Espírito ao Criador.
Pela modéstia do seu viver e porque não se imiscuía nas lutas
egoísticas dos homens, a sociedade, que não o compreendia, supunha-o
usurário. Ele, usurário! Ele que repartia prodigamente com os
necessitados os seus haveres!
Mas, porque seguia o preceito evangélico: “a mão direita não deve
ver o que dá a esquerda”, Saião era um usurário!
Bem
fizeste, amigo! Bem soubeste fazer!
A
sua bolsa sempre esteve aberta à verdadeira necessidade. Jamais
irmão algum que lhe pediu pão, ou lhe solicitou abrigo, passou fome
ou se viu privado de teto. Bastava saber onde estava a miséria, para
que Saião corresse pressuroso a ampará-la.
Os
seus atos de caridade são inúmeros. Citá-los é impossível;
descrevê-los, ocioso. Apenas me limitarei a contar um. Ei-lo:
Uma
vez em que o médium Guimarães foi a um miserável quarto de verta
casa, numa das ruas desta Capital, levar a uma pobre enferma os
recursos mediúnicos que reclamava o seu estado de saúde, viu, ao
entrar, que alguém se ocultara atrás da porta; instigado pela
curiosidade, procurou ver quem era e pôde então lobrigar a cabeça do
velho Saião, que ali fora repartir com a desgraçada a moeda material
e levar-lhe ao mesmo tempo o conforto espiritual que com tanta
dedicação soube haurir nos Evangelhos.
A
sua vida espírita foi cheia de episódios e lutas impossíveis de
descrever num modestíssimo escrito de jornal. Contudo, esforçar-me–ei
para contar alguns.
Saião e Bittencourt Sampaio pertenceram à Sociedade “Deus, Cristo e
Caridade” até o dia em que uma divergência determinou a saída dos
membros que não se deixaram arrastar pelo orgulho da ciência. Foi
então quando resolveram fazer, no dia 6 de Junho de 1880, uma
reunião em sua casa, a fim de concertarem a respeito do destino que
deveriam tomar, e o resultado foi a fundação do “Grupo dos
Humildes”, vulgarmente conhecido por “Grupo Saião”, dirigido
espiritualmente pelo anjo Ismael e materialmente por ele, Saião.
O
que se passou na primeira fase desse Grupo está minuciosamente
descrito no seu livro inicial, intitulado “Trabalhos Espíritas”. Foi
tempestuosa e, por isso, muitas lágrimas custou ao pobre do Saião.
A
segunda fase foi mais calma e deu-lhe ensejo a que publicasse o seu
segundo livro, que denominou “Estudos Evangélicos”, livro que tantos
e tão relevantes serviços tem prestado aos que se entregam ao estudo
da Doutrina Espírita. Foi quando desencarnou o bom Bittencourt
Sampaio.
Desde essa data entrou o Grupo na sua terceira fase, que não foi
para Saião tão tempestuosa quanto a primeira, mas que se
caracterizou pela luta que ele teve de sustentar com os Espíritos
das trevas, quando o Grupo sucessivamente recebeu os livros “Jesus
Perante a Cristandade” e “De Jesus Para as Crianças”, ditados pelo
Espírito de Bittencourt Sampaio e publicados por Saião, e iniciou o
“Do Calvário Ao Apocalipse”.
Ele
pressentiu o termo da sua jornada sobre a Terra poucos dias antes da
sua partida para as regiões espirituais.
\isto vos posso afirmar, leitor, pela seguinte previsão:
Tendo-se esgotado a edição dos “Estudos Evangélicos”, ele os
reeditou com o título “Elucidações Evangélicas”, e enriqueceu-o com
muitas e belíssimas comunicações recebidas no Grupo, que vieram
trazer aos diversos pontos evangélicos, por ele estudados, muita luz
de intenso clarão.
Este livro saiu do prelo, e, apresentando um exemplar a um confrade,
disse-lhe ele:
“Este é o último canto do cisne”.
E o
foi, de fato. Dias depois, deixava o fardo pesado da matéria e voava
para a verdadeira pátria, onde foi receber do nosso Divino Mestre o
prêmio de tanta luta e de tantos sacrifícios sofridos sem revolta e
nem queixume.
Se
a sua vida foi um exemplo perene, digno de ser por nós imitado, a
sua desencarnação não o é menos.
Durante a enfermidade que o acometeu, se acusava grandes
sofrimentos, não se queixava jamais; ao contrário, dizia sempre que
se fizesse a vontade de Deus! O seu desprendimento foi calmo e mesmo
sem contrações. Desencarnou como um justo, balbuciando uma Ave
Maria.
Assim vivem e assim desencarnam os verdadeiros discípulos de Nosso
Senhor Jesus-Cristo.
Discípulo de Max.
Homenagem de um poeta.
Concluiremos este esboço biográfico com o soneto que, em vida,
Casimiro Cunha, o brilhante bardo vassourense, dedicou ai extinto;
Antônio Saião
“Alma, trocaste a noite pela aurora!
Pomba, volveste ao teu pombal divino!
Rosa desprendes um olor mais fino!
Astro, fulguras com mais brilho agora!”.
Após a diurna lida o Sol fulgura
Com mais vivo fulgor no firmamento,
E depois, reclinando a fronte pura
Num tálamo de fogo, altivo e lento,
Repousa, e na manhã seguinte, a escura
Noite espancando, e sacudindo ao vento
Feixes de luz, prossegue na cultura
Dos mornos raios que nos dão alento.
Assim, após a humana lida rude,
Volvendo em paz aos céus, onde a virtude
As forças da alma sem cessar renova,
Descansaste; e, decerto, mais fecundo,
Amanhã voltarás ao nosso mundo,
Incansável cultor da ciência nova!
Vassouras, Maio de 1903.
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