O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título:
Jean Jacques Rousseau

Autor:
Luiz Gonzaga Pinheiro

Fonte:
“Os Semeadores da Verdade”, Personalidades da Codificação

  PERSONALIDADES

    

A senhora Castel estava ocupada com problemas muito estranhos ao Espiritismo: dispunha-se a escrever sobre assuntos pessoais; quando uma força invisível a constrangeu a escrever o que se segue, apesar do seu desejo de continuar o trabalho começado...

O texto acima, extraído da Revista Espírita do ano de 1861, sob o título “Jean-Jacques Rousseau”, traz uma mensagem desse filósofo sobre a excelência do Espiritismo e a sua utilidade para ressuscitar o espiritualismo.
Rousseau foi um gênio lapidado pelo sofrimento. Aliás, jamais conheci uma pessoa de sensibilidade aguçada que não fosse íntima do sofrimento. A sensibilidade tem a propriedade de exacerbar o que se sente, obrigando o coração a sofrer, por solidariedade, uma dor que não é sua. O nascimento de Rousseau provocou a morte de sua mãe, sendo ele entregue a uma tia que o tomou a seus cuidados ministrando-lhe a sua primeira educação. Mais tarde ele escreveria:

Nasci enfermo e doente; custei a vida a minha mãe, e meu nascimento foi a primeira das minhas infelicidades.

Os acontecimentos trágicos trazem em si fórmulas de acomodação da dor e, ao mesmo tempo, inventam maneiras de direcioná-la para o progresso do Espírito, desde que ele tenha olhos de ver. Por isso dizem sabiamente os simples que Deus sempre coloca ao lado da doença o remédio que a debelará. O pai de Rousseau tinha duas grandes paixões na vida. Uma delas, fator decisivo na formação do filósofo, era o amor pelos livros, verdadeiro buril a rabiscar a alma inquieta do futuro escrito. A outra era a veneração pela esposa morta. A saudade da esposa falecida fazia com que o pai pedisse ao filho para ler em voz alta, antes de dormir, textos escritos por historiadores e moralistas, principalmente Plutarco, autor de Homens Ilustres. Certamente o conteúdo lido impressionou o Espírito daquela criança solitária, que fez dele um abrigo, um sonho, um objetivo.

Aos dez anos Rousseau foi morar como pensionista com um pastor em Genebra. Essa mudança passou a entediá-lo com a monotonia dos trabalhos que lhe mandavam fazer e por ser frequentemente surpreendido lendo às escondidas durante o período de trabalho, veio a desgostar-se com as reprimendas que lhe passavam, motivo pelo qual foi tentar a vida sozinho em outras paisagens. Tinha, nessa ocasião, dezesseis anos de idade. Foi parar em Annecy, na França, onde foi acolhido por madame Warens, personagem que muito o influenciou devido ao amor platônico que passou a nutrir por ela. Em sua companhia, Rousseau entregou-se aos estudos, completando a sua formação de autodidata. Nessa época desponta a sua grande paixão pela música.

A partir de então, aperfeiçoou-se nessa arte, adentrando também pelas experiências da Física, e quase ficando cego em uma delas. Mas a paz não tinha encontro marcado com ele. Quando pensava que encontrara um lar viu “seu amor” apaixonar-se e conviver maritalmente com um jovem suíço, fato que o feriu profundamente.

Novamente pôs o pé na estrada dirigindo-se para Lyon, de onde, após um ano, sua alma inquieta o impeliu para a capital. O destino traçava o rumo do homem que viera ao mundo para seu um dos principais profetas da Revolução Francesa, o preferido pelo próprio Robespierre, apelidado de “O incorruptível”. Sobre ele diria mais tarde Emmanuel Kant:

É necessário ler várias vezes Rousseau, pois só depois de termos deixado de nos seduzir pela magia do seu belo estilo é que poderemos de fato apreciar a profundidade de seus pensamentos.

Como Paulo de Tarso jamais largou o tear, sobrevivendo do seu trabalho, Rousseau tornou-se íntimo da música, vivendo do que ganhava em aulas e da confecção de partituras. Tornou-se amigo de figuras como madame Dupin, do teatrólogo Marivaux, do escritor Fontenelle e de Diderot, este já conhecido pelo seu excelente trabalho na organização da Enciclopédia francesa, monumento intelectual do Século das Luzes. D´Alembert, colaborador de Diderot na direção desse fenomenal evento cultural e científico, quando teve contato com a tão invulgar inteligência de Rousseau, convidou-o para a tarefa de escrever para a Enciclopédia os verbetes sobre música.

Aquela fresta preparada pelo destino foi a entrada triunfal de Rousseau no alicerce da revolução que deixaria o mundo perplexo e cheio de esperança acerca da igualdade, da liberdade e da fraternidade.

A esse tempo, depois de provocar escândalos nos meios conservadores, com sua Carta sobre os cegos, Diderot foi aprisionado por três meses, ocasião em que Rousseau o visitou, lendo para ele, em artigo do jornal Mercure de France, o enunciado da questão proposta pela Academia de Dijon para o prêmio de “Moral” do ano de 1750.

Rousseau compôs quase que imediatamente um texto que ficou famoso, Prosopopéia de Fabrício, no qual criticava a corrupção de costumes, atribuindo-a à civilização. Instigado por Diderot, participou do concurso, obtendo o primeiro prêmio. Foi assim que da obscuridade Rousseau surgiu como o escritor da moda, sempre preocupado em esconder-se das bajulações das quais era objeto. Entre polêmicas e produções musicais ele continuou a compor, presenteando a França com mais uma ópera, O adivinho da aldeia. Esta, apresentada para o rei Luis XV, fez com que este convidasse o autor para uma entrevista cujo objetivo era favorecê-lo com uma pensão. Como a timidez não o permitiu comparecer à entrevista ou talvez porque a sua integridade moral não o permitisse receber dinheiro do povo sem trabalhar, perdeu a tal pensão, que o obrigaria a tecer falsos elogios à burguesia, ou, quem sabe, morrer na guilhotina, como foi a sorte de Lavoisier.

Apesar de Diderot impacientar-se com a suas “esquisitices” e com a sua desatenção às conveniências mundanas, Rousseau continuou escrevendo e provocando polêmicas com suas idéias. A Carta sobre a música francesa, na qual exalta a música italiana e critica a música francesa, e Narciso ou O Amante de si mesmo, sãos dois desses momentos.

Em 1753 a Academia de Dijon lançou novo concurso: Discurso sobre a origem e os fundamentos das desigualdades entre os homens. Desta vez ele não obteve o primeiro lugar, apesar de o novo Discurso ser inegavelmente superior ao primeiro. Todavia, ao plano espiritual interessa os efeitos, não as honrarias ou títulos perecíveis, razão pela qual o, arsenal de idéias que se formava a partir das mãos daquele homem estava de bom tamanho. Mais uma granada se juntaria a outras que seu gênio preparava para a queda da Bastilha e suas palavras aos poucos fariam florescer nas consciências ávidas de justiça o desejo de construir aríetes, foices e martelos.

Desgostoso com a retirada da permanente que a Ópera de Paris lhe concedera, volta à Genebra, sendo acolhido como uma celebridade. No ano seguinte, de retorno a Paris entrega aos editores o manuscrito do Discurso sobre a desigualdade, reacendendo as paixões acerca da liberdade e da igualdade entre os homens.

De desentendimento em desentendimento foi cortando laços com seus antigos companheiros. Voltaire, Diderot e Madame d´Epinay o abandonaram, deixando-o sozinho com seu gênio criativo, ocasião em que publicou suas mais importante sobras: Carta a d´Alembert sobre os espetáculos, crítica contundente ao teatro francês, Júlia ou A nova Heloisa, Do contrato social e Emílio ou Da educação.

Com a publicação dessas obras começou para Rousseau o período de exílio e de perseguição. Emilio foi queimado em praça pública e seu autor condenado à prisao pela audácia di dizer verdades que deveriam ficar veladas. Fugindo para a Suíça foi ameaçado pelos camponeses e de lá bateu em retirada. David Hume o convidou para refugiar-se na Inglaterra, de onde assistiu os acontecimentos violentos que suas obras causavam. O Contrato social foi condenado em Genebra. Emílio, considerado ofensivo à religião católica, foi condenado pelo arcebispo de Paris e Voltaire escreveu uma severa sátira contra o exilado intitulada Carta do Sr. Voltaire ao Dr. J.J. Pansofo.

Introspectivo e nervoso, Rousseau, imaginando-se alvo de uma conspiração internacional comandada pelos filósofos, desentende-se com Hume e, corajosamente, volta a Paris. Escreve então Confissões, na esperança de se defender da “aura” de rejeição que parecia vesti-lo como uma camisa de força, lendo-a ele mesmo no salão de Madame Egmont, causando apenas indiferença nos presentes.

Solitário e magoado, recolheu-se em suas cópias musicais, escrevendo ainda Diálogos e Devaneios de um caminhante solitário, obra em que sua alma mistura a poesia abundante em seu coração como a prosa reveladora de sua intimidade.

Dedicando-se nos últimos anos de sua vida à Botânica, veio a falecer entre folhas e flores, material que não trata com ingratidão nem indiferença os sentimentos alheios. Em 1793, seus restos mortais foram transferidos para o Panteão de Paris, monumento dedicado aos heróis da pátria.

Rousseau foi um escritor polêmico e carregado de paradoxos, mas isso nunca foi preocupação para ele. Era seu estilo de chocar as pessoas. Prefiro ser um homem de paradoxos a ser um homem de preconceitos, argumentava frente a acusação de que sua obra era um amontoado de teses esdrúxulas. A sua palavra tem o afiado aço da navalha que corta rápido e secamente qualquer argumento em favor de privilégios.

O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno lembrou-se de dizer “isto é meu” e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo (...) Há, portanto no fundo das almas um princípio inato de justiça e de virtude de acordo com o qual, apesar de nossas próprias máximas, julgamos boas ou más nossas ações e as alheias e é a esse princípio que chamo consciência.

Foi também um dos grandes inspiradores na busca da justiça social para o planeta. A Constituição americana segue a sua inspiração. A Conjuração Mineira, no Brasil, utilizou-se de suas obras como referencial de luta. São palavras suas:

Toda moralidade de nossas ações está no julgamento que temos de nós mesmos. Se é verdade que o bem seja o bem, é preciso que se ache no fundo de nossos corações como em nossas obras, e a primeira recompensa da justiça é sentir que a praticamos (...) Procuramos sinceramente a verdade? Não concedemos nada ao direito do berço nem à autoridade dos pais e dos pastores, mas submetemos ao exame da consciência e da razão tudo o que nos ensinaram desde a infância.

O que gostaria de dizer um Espírito de tal envergadura sobre a Doutrina Espírita? Vejamos alguns pontos de sua comunicaçao:

A reencarnação e as provas sofridas antes de atingir o fim supremo não são revelações, mas uma confirmação importante.

Aqui o filosofo que sofreu inúmeras perseguições devido a seu estilo contundente e suas verdades cortantes reconhece no sofrimento um fator de elevação. Não o sofrimento gratuito ou masoquista, mas o esforço de subida e de remoção dos obstáculos, cuja persistência na honestidade obriga, às vezes, a que o caminhante verta não apenas o suor, mas também parte do seu sangue. Refere-se igualmente à reencarnação como uma lei natural, justa, equânime, a única capaz de explicar, sem que as sombras da dúvida nublem a consciência de quem a estuda, os intrincados meandros do destino humano.

As verdades morais, as que são o pão da alma, o pão da vida, ficam no pó acumulado dos séculos.

O filosofo coloca como prioridade nas relações sociais entre os indivíduos e entre as nações as verdades morais, sempre relegadas devido aos interesses materialistas desses mesmos indivíduos. Discute-se a política, os interesses privados, ataca-se ou defende-se esta ou aquela personalidade, mas as leis morais, alavanca capaz de ergue o planeta elevando-o à categoria de um mundo verdadeiramente humano, ficam sempre em plano secundário.

A educação e a elevação das almas não passam de quimeras, boas só para encher os lazeres dos sacerdotes, dos poetas, das mulheres, quer como moda, quer como ensinamento.

Aqui o filósofo destaca a educação como propaganda enganosa utilizada em palanques por pessoas inescrupulosas com a finalidade de obter vantagens. O quadro atual não se distancia muito daquele pintado por Rousseau. Os políticos elegem a educação e a saúde como prioridades, mas, ao serem eleitos, são acometidos por estranha amnésia, deixando o povo tão doente e analfabeto como o encontraram.

Como se observa, o verbo do filosofo continua inalterado na defesa da moralização do planeta. A necessidade de elevar-se para o ser supremo deve sensibilizar a todos, segundo ele, para que, tocados pelo respeito à vida e a seu regente, a caminhada das criaturas seja menos ingrata. Ao Espiritismo cabe também a tarefa de ressuscitar o Espiritualismo, fazendo do mundo um local acolhedor, com mais religiosidade do que religiões. Na verdade, o que consegue chamar a atenção de Deus não são os rótulos doutrinários, mas os gestos de fraternidade e de justiça praticados pelos indivíduos.

Rousseau, Espírito preparado para fazer eclodir o Iluminismo na Terra, colocou a consciência como juiz de cada um e a razão como guia de todos. Ao afirmar que deveríamos submeter ao exame da consciência e da razão tudo o que nos ensinassem desde a infância, antecipou-se a Kardec em tais advertências. Sendo anterior ao codificador e sendo este um homem culto e voraz pesquisador, há de se concluir que o encontro entre ambos, através de livros, naturalmente, seria inevitável.

Professor não é somente aquele que, de corpo presente, passa conhecimento para o aprendiz. Por esse prisma podemos considerar Rousseau um dos mestres de Kardec, talvez aquele que lhe transmitiu as sábias advertências sobre a necessidade de passar pelo crivo da razão todo o conhecimento adquirido.

A vida, quando bem direcionada, é tecida com os intrincados da sabedoria divina. O bordado da história tem como artífices Espíritos que, utilizando de nossas linhas tortas, traçam meandros a desaguar invariavelmente em uma vontade maior, a vontade de Deus. Cabe àqueles que possuem “olhos de ver” a glória de decifrar os caminhos utilizados pela invencível diretriz celestial.