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Registrou-se no Rio
de Janeiro, no dia 19 de Junho de 1950, a desencarnação do
venerando confrade Dr. Leôncio Correia, que fora presidente da Liga
Espírita do Brasil, posteriormente Liga Espírita do Estado da
Guanabara.
A imprensa diária
tratou largamente da vida pública e literária do eminente
brasileiro e primoroso poeta, cuja existência tanto engrandeceu as
letras nacionais. Republicano histórico, tendo tomado parte na
campanha abolicionista, começou a sua vida pública muito moço, no
Paraná, seu Estado natal, onde se bateu pela implantação da
República. Leôncio Correia era um dos poucos republicanos de 1889,
por ocasião de sua morte. Foi deputado estadual no Paraná, de 1892
a 1897, deputado federal, diretor da Instrução Pública do Rio de
Janeiro, diretor do Colégio Pedro II (Internato) e diretor da
Imprensa Nacional. Durante muito tempo lecionou História Universal
na Escola Normal (hoje Instituto de Educação) do Rio de Janeiro,
da qual foi, mais tarde, Diretor. Na política, na imprensa e na
tribuna, foi sempre um defensor das liberdades públicas. Era
formado em Direito, mas não abraçou a advocacia nem a
magistratura. Ao lado de Machado de Assis, Olavo Bilac, Paula Ney e
outras brilhantes figuras das letras, desenvolveu grande atividade
literária.
Inegavelmente sua
carreira literária é uma das mais fulgurantes e fecundas do
Brasil. Era membro da Academia Paranaense de Letras, do Instituto
Histórico e Geográfico do Paraná, da Academia Carioca de Letras,
da Federação das Academias de Letras, do Instituto Brasileiro de
Cultura, e outras instituições literárias. Deixou diversos livros
publicados, dentre os quais estes: "Barão do Serro Azul",
"A Boêmia do Meu Tempo" (crônica), "Brasilíada"
(poema), "Evocações" (crônica), "Flauta de
Outono" (poesia), "Panóplias" (crônicas),
"Perfis" (soneto), "A Verdade Histórica sobre o 15
de Novembro", "Meu Paraná" (crônicas e versos),
"Vultos e Fatos do Império e da República" (ensaio),
"Parlendas e Palestras" (discursos), etc
Foi pioneiro do Dia da Bandeira, pois em 1907, quando diretor da
Instrução Pública, tornou obrigatório, nas escolas primárias, a
Festa da Bandeira.
Como parte das comemorações do 1o. Centenário do Estado do
Paraná, o Governador Bento Munhoz da Rocha mandou editar as Obras
Completas de Leôncio Correia, prefaciadas por nomes ilustres da
nossa Literatura, como Rodrigo Otávio Filho, Andrade Muricy, Othon
Costa, etc., todos a enalteceram, sob vários aspectos, a fecunda
existência daquele paranaense inesquecível.
Tendo nascido em
Paranaguá, Estado do Paraná, em 1o. de Setembro de 1865,
desencarnou pouco antes de completar 85 anos de idade.
Em sua homenagem, fundou-se na rua Jardim Botânico (Gb) o Instituto
Leôncio Correia, conceituado estabelecimento de ensino primário e
admissão.
Cabe-nos, agora,
tratar de Leôncio Correia como espírita. Em 1922 tomou parte no
Congresso Espírita realizado no Rio de Janeiro. Pertenceu ao
Conselho da Associação Espírita Obreiros do Bem, foi presidente
da Liga Espírita do Brasil no triênio 1939-1942. No dia 15 de
Novembro de 1939, na Associação Brasileira de Imprensa, quando se
comemorou o cinqüentenário da República Brasileira, Leôncio
Correio ocupou a presidência de honra do 1o. Congresso Brasileiro
de Jornalistas Espíritas. Com as luzes de sua cultura e a grandeza
de seu coração, prestigiou diversos movimentos espíritas no Rio
de Janeiro. Na mencionada Liga Espírita, cujos destinos dirigiu com
bondade e elevação espiritual, Leôncio Correia foi o amigo, o
conselheiro abalizado, o companheiro dedicado de sempre. Viveu como
cidadão impoluto e encerrou o ciclo de sua existência terrena com
o espírito tranqüilo e convicto da existência de Deus e da
imortalidade da alma.
Por ocasião do
sepultamento do Dr. Leôncio Correia, no dia 20 de Junho de 1950, no
Cemitério de São João Batista, foram pronunciados diversos
discursos, ouvindo-se os representantes da Academia Carioca de
Letras, do Pen Club do Brasil, do Governo do Paraná, etc., tendo-se
feito representar o próprio Congresso Nacional. Em nome da Liga
espírita do Estado da Guanabara, falou seu presidente, Sr. Aurino
Barbosa Souto. Um dos sonetos abaixo ("Canto de Cisne")
foi recitado pelo Dr. J. Augusto de Miranda Ludolf, que discursou,
à beira do túmulo, em nome da Federação Espírita Brasileira e
do Conselho Federativo Nacional.
A Federação Espírita do Paraná esteve representada na pessoa do
Dr. Lins de Vasconcellos, outro companheiro de saudosa memória.
Canto do Cisne
Cego - completa
escuridão... Tateio
Sem um velho cajado a que me arrime.
Expiação, talvez, de um grande crime,
Mas onde, quando e como pratiquei-o?
Das aves ouço o
matinal gorjeio...
Invejo-as, e essa nobre inveja exprime
Uma resolução firme e sublime
De encarar a hora extrema sem receio.
Ao Pai celestial
minhalma entrego,
Às margens quase da outra vida, cego,
Mas abrasado de infinito amor.
Pelo bom Deus, que
me concede ainda,
Quando minha missão na Terra finda,
Esta bendita luz interior.
Leôncio Correia.
As declarações a
seguir foram escritas pelo Dr. Leôncio Correia em 25 de Fevereiro
de 1948, tendo sido conservadas em envelope fechado até o dia em
que aquele nosso irmão entrou na fase da agonia para a
desencarnação. O Sr. Aurino Souto recebeu-as das mãos da exma.
esposa, na residência desta, à rua Estácio Coimbra, 40, em São
Clemente, Rio de Janeiro, na tarde de 19 de Junho de 195O, quando
ele o encontrou já inconsciente, cercado da família e de amigos.
Eis aí um testemunho edificante, uma página doutrinária de alto
valor moral e filosófico.
Minhas últimas
vontades
Desejo que o meu
enterro seja o mais simples, o mais modesto possível. Aos parentes
e pessoas amigas que tencionem enviar coroas para cobrir o meu
féretro, peço desistirem desse piedoso intento, fazendo distribuir
entre a pobreza as importâncias a tal fim destinadas.
Sobre o pedaço de terra em que tenho de ser enterrado, desejo
apenas uma pedra tosca, com os seguintes dizeres: "Aqui jaz
quem foi Leôncio Correia". A data de meu nascimento, 1-9-1865,
e a data de minha morte.
Aos irmãos rogo dirijam preces ao Pai, em intenção do meu
espírito.
Não quero que ponham luto por motivo da minha morte. A morte não
é o fim, é um princípio, princípio esclarecedor, que explica o
porquê da vida. A mesquinha e pretensiosa inteligência
materialista, na impossibilidade de apreender esta verdade, dá de
ombros com fingida indiferença, sempre que é posto em equação
esse transcendente problema.
Desejo que meu enterro saia da capela do cemitério de São João
Batista, possibilitando assim aos meus amigos pobres ( se é que os
tenho ) poderem dizer-me o derradeiro adeus sem o sacrifício com
despesas de automóvel. Leôncio Correia. - Rio, 25-12-1948.
Poeta, jornalista,
educador, teatrólogo, conferencista, alma de verdadeiro patriota,
Leôncio Correia pôs sempre seu coração ao serviço das nobres
causas, como afirma o acadêmico Francisco Leite, e, "a
semelhança dos majestosos pinheiros de sua terra natal, floriu e
frutificou em poemas, em benemerência, em doçura e piedade".
Em conferência
pronunciada no Centro Paranaense do Rio de Janeiro, em 1955,
Deolindo Amorim disse ser a preocupação imortalista um dos motivos
essenciais da obra poética de Leôncio Correia, transparecendo em
todas as suas expansões, clara ou veladamente, uma concepção de
vida muito acima das limitações terrenas.
Prova-o
exuberantemente, um de seus últimos sonetos, que fala da
Vida Eterna
Jamais se apaga a
luz... Se, acaso, voa
A nuvem, e de um astro o brilho empana,
Extingue-o? A nuvem vai; passa; e se irmana
De novo ao astro a claridade boa.
Se sofre - o crente
as dores abençoa
Como uma esmola, que do céu promana;
É benéfica a dor, pois a alma humana
No sofrimento é que se aperfeiçoa.
A morte é uma
ilusão; é eterna a vida,
Por isso, antes me alegro, que me assusto,
Quando a morte, a cismar nela, convida;
Porque sei que ao
baixar meu corpo ao seio
Da terra, livre o espírito, sem custo,
Já de outros mundos se achará no meio.
Leôncio Correia.
Por ocasião do
90.º aniversário do Poeta, Deolindo Amorim revelou, do homem
espírita, esta página do passado:
"Estávamos no
período crepuscular da ditadura. Não havia liberdade de imprensa,
liberdade de crítica, nem mesmo liberdade religiosa, porque as
sociedades espíritas estavam sob fiscalização policial. Leôncio
Correia era o presidente da então Liga Espírita do Brasil,
enquanto éramos, como ainda hoje, o secretário-geral. Os diretores
das sociedades espíritas eram obrigados a comparecer à Policia
Central para serem fichados, porque o regime era de arrocho, todas
as formas de liberdade do pensamento estavam abafadas pela censura.
Pois bem, Leôncio Correia, já velho, com sua expressão
respeitável, não faltou ao cumprimento do dever, foi à
repartição policial, e lá deixou as suas impressões digitais, na
qualidade de presidente da Liga Espírita. O funcionário da
Polícia, um tanto espantado, exclamou, com certo ar de estranheza:
"Dr.Leôncio, por aqui?.." e Leôncio Correia, sem perder
a sua serenidade imperturbável, respondeu humildemente: "Que
vou fazer, meu amigo? São ordens..."
Além das
fronteiras da Morte, o poeta continua, vez por outra, a nos deleitar
com suas magníficas produções. Uma delas está publicada no
"Parnaso de Além-Túmulo", obra mediúnica de Francisco
Cândido Xavier. Não vamos transcrevê-las todas. Para encerrarmos
esta singela biografia do saudoso companheiro, cujo centenário de
nascimento foi festivamente lembrado, inclusive com a emissão pelo
D.C.T., de um selo comemorativo, - permita-nos o leitor reproduzir
apenas um soneto do Espírito de Leôncio Correia, psicografado pelo
referido médium e que foi estampado, em 1955, nas páginas do
"Reformador":
Ressurreição
Triste viajante na
floresta escura,
Tateando na estrada erma e sombria,
Alcancei a aflição do último dia,
Esmagado na sombra da amargura.
Mas, além do pavor
da sepultura,
Eis que a paz novamente me sorria...
E, ave exaltando a graça da alegria,
Embriaga-me a luz vibrante e pura!
Glória às dores
da vida transitória!...
Não traduzo o meu grito de vitória,
Por mais que a minha fé se estenda e brade;
Cego que torna a ver, além do mundo,
Canto somente a luz de que me inundo,
Nos caminhos de sol da eternidade.
Leôncio Correia.
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