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Minhas senhoras,
meus senhores:2
Muitas pessoas que se
interessam pelo Espiritismo manifestam muitas vezes o pesar de não
possuírem senão muito imperfeito conhecimento da biografia de Allan
Kardec, e de não saberem onde encontrar, sobre aquele a quem
chamamos Mestre, as informações que desejariam conhecer. Pois é para
honrar Allan Kardec e festejar a sua memória que nos achamos hoje
reunidos, e mesmo sentimento de veneração e de reconhecimento faz
vibrar todos os corações. Em respeito ao fundador da filosofia
espírita, permiti-me, no intuito de tentar corresponder a tão
legítimo desejo, que vos entretenha alguns momentos com esse Mestre
amado, cujos trabalhos são universalmente conhecidos e apreciados, e
cuja vida íntima e laboriosa existência são apenas conjeturadas.
Se fácil foi a todos
os investigadores conscienciosos inteirarem-se do alto valor e do
grande alcance da obra de Allan Kardec pela leitura atenta das suas
produções, bem poucos puderam, pela ausência até hoje de elementos
para isso, penetrar na vida do homem íntimo e seguí-lo passo a passo
no desempenho da sua tarefa, tão grande, tão gloriosa e tão bem
preenchida.
1
Seu verdadeiro nome é Hippolyte Léon
Denizard Rivail, conforme estudo de autoria de Zêus Wantuil,
inserto em “Reformador” de abril de 1963, p.p. 95/6, intitulado
“Kardec e seu nome civil”. Nota da FEB.
2
Conservamos no presente trabalho a forma
de conferência que lhe deu Henri Sausse, lendo-a por ocasião da
solenidade com que os espíritas de Lião celebraram, a 31 de março de
1896, o 27° aniversário do decesso de Allan Kardec. -
Nota do Tradutor.
BIOGRAFIA DE ALLAN
KARDEC 2
Não somente a
biografia de Allan Kardec é pouco conhecida, senão que ainda está
por ser escrita. A inveja e o ciúme semearam sobre ela os mais
evidentes erros, as mais grosseiras e as mais impudentes calúnias.
Vou, portanto, esforçar-me por mostrar-vos, com luz mais verdadeira,
o grande iniciador de quem nos desvanecemos de ser discípulos.
Todos sabeis que a
nossa cidade se pode honrar, a justo título, de ter visto nascer
entre seus muros esse pensador tão arrojado quão metódico, esse
filósofo sábio, clarividente e profundo, esse trabalhador obstinado
cujo labor sacudiu o edifício religioso do Velho Mundo e preparou os
novos fundamentos que deveriam servir de base à evolução e à
renovação da nossa sociedade caduca, impelindo-a para um ideal mais
são, mais elevado, para um adiantamento intelectual e moral seguros.
Foi, com efeito, em
Lião, que, a 3 de outubro de 1804, nasceu de antiga família lionesa,
com o nome de Rivail, aquele que devia mais tarde ilustrar o nome de
Allan Kardec e conquistar para ele tantos títulos à nossa profunda
simpatia, ao nosso filial reconhecimento.
Eis aqui a esse
respeito um documento positivo e oficial:
“Aos 12 do
vindemiário 3
do ano XIII, auto do nascimento de Denizard
Hippolyte-Léon Rivail, nascido ontem às 7 horas da noite, filho de
Jean Baptiste-Antoine Rivail, magistrado, juiz, e Jeanne Duhamel,
sua esposa, residentes em Lião, rua Sala n° 76.
“O sexo da criança foi
reconhecido como masculino.
“Testemunhas maiores:
“Syriaque-Frédéric
Dittmar, diretor do estabelecimento das águas minerais da rua Sala,
e Jean-François Targe, mesma rua Sala, à requisição do médico Pierre
Radamel, rua Saint-Dominique n° 78.
3
Veja-se “Reformador” de abril de 1947,
pág, 85.
“Feita a leitura, as
testemunhas assinaram, assim como o Maire da região do Sul.
“O presidente do
Tribunal, (assinado) : Mathiou.”
O futuro
fundador do Espiritismo recebeu desde o berço um nome querido e
respeitado e todo um passado de virtudes, de honra, de probidade;
grande número dos seus antepassados se tinham distinguido na
advocacia e na magistratura, por seu talento, saber e escrupulosa
probidade. Parecia que o jovem Rivail devia sonhar, também ele, com
os louros e as glórias da sua família. Assim, porém, não foi,
porque, desde o começo da sua juventude, ele se sentiu atraído para
as ciências e para a filosofia. Rivail Denizard fez em Lião os seus
primeiros estudos e completou em seguida a sua bagagem escolar, em
Yverdun (Suíça), com o célebre professor Pestalozzi, de quem cedo se
tornou um dos mais eminentes discípulos, colaborador inteligente e
dedicado. Aplicou-se, de todo o coração, à propaganda do sistema de
educação que exerceu tão grande influência sobre a reforma dos
estudos na França e na Alemanha. Muitíssimas vezes, quando
Pestalozzi era chamado pelos governos, um pouco de todos os lados,
para fundar institutos semelhantes ao de Yverdun, confiava a
Denizard Rivail o encargo de o substituir na direção da sua escola.
O discípulo tornado mestre tinha, além de tudo, com os mais
legítimos direitos, a capacidade requerida para dar boa conta da
tarefa que lhe era confiada. Era bacharel em letras e em ciências e
doutor em medicina, tendo feito todos os estudos médicos e defendido
brilhantemente sua tese.4
Lingüista insigne, conhecia a fundo e
falava corretamente o alemão, o inglês, o italiano e o espanhol;
conhecia também o holandês, e podia facilmente exprimir-se nesta
língua.
4
Ver “Reformador” de março de 1958, pág. 67.
Denizard Rivail era um
alto e belo rapaz, de maneiras distintas, humor jovial na
intimidade, bom e obsequioso. Tendo-o a conscrição incluído para o
serviço militar, ele obteve isenção e, dois anos depois, veio fundar
em Paris, à rua de Sèvres n° 35, um estabelecimento semelhante ao de
Yverdun. Para essa empresa se associara a um dos seus tios, irmão de
sua mãe, o qual era seu sócio capitalista. No mundo das letras e do
ensino, que freqüentava em Paris, Denizard Rivail encontrou a
senhorita Amélia Boudet, professora com diploma de 1ª classe.
Pequena, mas bem proporcionada, gentil e graciosa, rica por seus
pais e filha única, inteligente e viva, ela soube por seu sorriso e
predicados fazer-se notar pelo Sr. Rivail, em quem adivinhou, sob a
franca e comunicativa alegria do homem amável, o pensador sábio e
profundo, que aliava grande dignidade à mais esmerada urbanidade.
O registro civil nos
informa que:
“Amélie Gabrielle
Boudet, filha de Julien-Louis Boudet, proprietário e antigo
tabelião, e de Julie Louise Seigneat de Lacombe, nasceu em Thiais
(Sena), aos 2 do Frimário do ano IV (23 de novembro de 1795).”
A senhorita Amélia
Boudet tinha, pois, mais nove anos que o Sr. Rivail, mas na
aparência dir-se-ia ter menos dez que ele, quando, em 6 de fevereiro
de 1832, se firmou em Paris o contrato de casamento de
Hippolyte-Léon-Denizard Rivail, diretor do Instituto Técnico à rua
de Sèvres (Método de Pestalozzi), filho de Jean-Baptiste Antoine e
senhora, Jeanne Duhamel, residentes em Château-du-Loir, com
Amélie-Gabrielle Boudet, filha de Julien Louis e senhora Julie
Louise Seigneat de Lacombe, residentes em Paris, 35 rua de Sèvres.
O sócio do Sr. Rivail
tinha a paixão do jogo; arruinou o sobrinho, perdendo grossas somas
em Spa e em Aix-la-Chapelle. O Sr. Rivail requereu a liquidação do
Instituto, de cuja partilha couberam 45.000 francos a cada um deles.
Essa soma foi colocada pelo Sr. e Sra. Rival em casa de um dos seus
amigos íntimos, negociante, que fez maus negócios e cuja falência
nada deixou aos credores.
Longe de desanimar com
esse duplo revés, o Sr. e Sra. Rivail lançaram-se corajosamente ao
trabalho. Ele encontrou e pôde encarregar-se da contabilidade de
três casas, que lhe produziam cerca de 7.000 francos por ano; e,
terminado o seu dia, esse trabalhador infatigável escrevia à noite,
ao serão, gramáticas, aritméticas, livros para estudos pedagógicos
superiores; traduzia obras inglesas e alemãs e preparava todos os
cursos de Levy-Alvarès, freqüentados por discípulos de ambos os
sexos do
faubourg Saint-Germain. Organizou também
em sua casa, à rua de Sèvres, cursos gratuitos de química, física,
astronomia e anatomia comparada, de 1835 a 1840, e que eram muito
freqüentados.
Membro de várias
sociedades sábias, notadamente da Academia Real d’Arras, foi
premiado, por concurso, em 1831, pela apresentação da sua notável
memória:
Qual o sistema de
estudo mais em harmonia com as necessidades da época?
Dentre as suas
numerosas obras convém citar, por ordem cronológica: Plano
apresentado para o melhoramento da instrução pública, em 1828;
em 1829 5,
segundo o método de Pestalozzi, ele publicou, para uso das mães de
família e dos professores, o Curso prático e teórico de aritmética;
em 1831 fez aparecer a Gramática francesa clássica; em 1846 o
Manual dos exames para obtenção dos diplomas de capacidade,
soluções racionais das questões e problemas de aritmética e
geometria; em 1848 foi publicado o Catecismo gramatical da língua
francesa; finalmente, em 1849, encontramos o Sr. Rivail
professor no Liceu Polimático, regendo as cadeiras de Fisiologia,
Astronomia, Química e Física. Em uma obra muito apreciada resume
seus cursos, e depois publica: Ditados
normais dos exames na Municipalidade e na Sorbona; Ditados especiais
sobre as dificuldades ortográficas.
5
Houve engano dos biógrafos. Não foi em 1829,
mas em 1824. Ver “Reformador” de 1952, págs. 77 e 79. –Nota da FEB.
Tendo sido essas
diversas obras adotadas pela Universidade de França, e vendendo-se
abundantemente, pôde o Sr. Rivail conseguir, graças a elas e ao seu
assíduo trabalho, uma modesta abastança. Como se pode julgar por
esta muito rápida exposição, o Sr. Rivail estava admiravelmente
preparado para a rude tarefa que ia ter que desempenhar e fazer
triunfar. Seu nome era conhecido e respeitado, seus trabalhos
justamente apreciados, muito antes que ele imortalizasse o nome de
Allan Kardec.
Prosseguindo em sua
carreira pedagógica, o Sr. Rivail poderia viver feliz, honrado e
tranqüilo, estando a sua fortuna reconstruída pelo trabalho
perseverante e pelo brilhante êxito que lhe havia coroado os
esforços; mas a sua missão o chamava a uma tarefa mais onerosa, a
uma obra maior, e, como teremos muitas vezes ocasião de o
evidenciar, ele sempre se mostrou à altura da missão gloriosa que
lhe estava reservada. Seus pendores, suas aspirações, tê-lo-iam
impelido para o misticismo, mas a educação, o juízo reto, a
observação metódica, conservaram-no igualmente ao abrigo dos
entusiasmos desarrazoados e das negações não justificadas.
oi em 1854 que o Sr.
Rivail ouviu pela primeira vez falar nas mesas girantes, a princípio
do Sr. Fortier, magnetizador, com o qual mantinha relações, em razão
dos seus estudos sobre o Magnetismo. O Sr. Fortier lhe disse um dia:
“Eis aqui uma coisa que é bem mais extraordinária: não somente se
faz girar uma mesa, magnetizando-a, mas também se pode fazê-la
falar. Interroga-se, e ela responde.”
- Isso, replicou o Sr.
Rivail, é uma outra questão; eu acreditarei quando vir e quando me
tiverem provado que uma mesa tem cérebro para pensar, nervos para
sentir, e que se pode tornar sonâmbula. Até lá, permita-me que não
veja nisso senão uma fábula para provocar o sono.
Tal era a princípio o
estado de espírito do Sr. Rivail, tal o encontraremos muitas vezes,
não negando coisa alguma por parti pris, mas pedindo provas e
querendo ver e observar para crer; tais nos devemos mostrar sempre
no estudo tão atraente das manifestações do Além.
Até agora, não vos
falei senão do Sr. Rivail, professor emérito, autor pedagógico de
renome. Nessa época, porém, da sua vida, de 1854 a 1856, um novo
horizonte se rasga para esse pensador profundo, para esse sagaz
observador. Então o nome de Rivail se obumbra, para ceder o lugar ao
de Allan Kardec, que a fama levará a todos os cantos do globo, que
todos os ecos repetirão e que todos os nossos corações idolatram.
Eis aqui como Allan
Kardec nos revela as suas dúvidas, as suas hesitações e também a sua
primeira iniciação:
“Eu me encontrava,
pois, no ciclo de um fato inexplicado, contrário, na aparência, às
leis da Natureza e que minha razão repelia. Nada tinha ainda visto
nem observado; as experiências feitas em presença de pessoas
honradas e dignas de fé me firmavam na possibilidade do efeito
puramente material; mas a idéia, de uma mesa falante, não me
entrava ainda no cérebro.
“No ano seguinte - era
no começo de 1855 - encontrei o Sr. Carlotti, um amigo de há vinte e
cinco anos, que discorreu acerca desses fenômenos durante mais de
uma hora, com o entusiasmo que ele punha em todas as idéias novas. O
Sr. Carlotti era corso de origem, de natureza ardente e enérgica; eu
tinha sempre distinguido nele as qualidades que caracterizavam uma
grande e bela alma, mas desconfiava da sua exaltação. Ele foi o
primeiro a falar-me da intervenção dos Espíritos, e contou-me tantas
coisas surpreendentes que, longe de me convencerem, aumentaram as
minhas dúvidas. - Você um dia será dos nossos - disse-me ele. – Não
digo que não, respondi-lhe eu -; veremos isso mais tarde.
“Daí a algum tempo,
pelo mês de maio de 1855, estive, em casa da sonâmbula Sra. Roger,
com o Sr. Fortier, seu magnetizador. Lá encontrei o Sr. Pâtier e a
Sra. Plainemaison, que me falaram desses fenômenos no mesmo sentido
que o Sr. Carlotti, mas noutro tom.
O Sr. Pâtier era
funcionário público, de certa idade, homem muito instruído, de
caráter grave, frio e calmo; sua linguagem pausada, isenta de todo
entusiasmo, produziu-me viva impressão, e, quando ele me convidou
para assistir às experiências que se realizavam em casa da Sra.
Plainemaison, rua Grange-Batelière n° 18, aceitei
com solicitude. A entrevista foi marcada para a terça-feira
6 de maio, às 8
horas da
noite.
“Foi aí, pela primeira
vez, que testemunhei o fenômeno das mesas girantes, que saltavam e
corriam, e isso em condições tais que a dúvida não era possível.
“Aí vi também alguns
ensaios muito imperfeitos de escrita mediúnica em uma ardósia com o
auxílio de uma cesta. Minhas idéias estavam longe de se haver
modificado, mas naquilo havia um fato que devia ter uma causa.
Entrevi, sob essas aparentes futilidades e a espécie de divertimento
que com esses fenômenos se fazia, alguma coisa de sério e como que a
revelação de uma nova lei, que a mim mesmo prometi aprofundar.
“A ocasião se me
ofereceu e pude observar mais atentamente do que tinha podido fazer.
Em um dos serões da Sra. Plainemaison, fiz conhecimento com a
família Baudin, que morava então à rua Rochechouart. O Sr. Baudin
fez-me oferecimento no sentido de assistir às sessões hebdomadárias
que se efetuavam em sua casa, e às quais eu fui, desde esse momento,
muito assíduo.
“Foi aí que fiz os
meus primeiros estudos sérios em Espiritismo, menos ainda por efeito
de revelações que por observação. Apliquei a essa nova ciência, como
até então o tinha feito, o método da experimentação; nunca formulei
teorias preconcebidas; observava atentamente, comparava, deduzia as
conseqüências; dos efeitos procurava remontar às causas pela
dedução, pelo encadeamento lógico dos fatos, não admitindo como
válida uma explicação, senão quando ela podia resolver todas as
dificuldades da questão.
6
Esta data ficou em branco no manuscrito de
Allan Kardec. -
Nota do Autor.
Foi assim que sempre
procedi em meus trabalhos anteriores, desde a idade de quinze a
dezessete anos. Compreendi, desde o princípio, a gravidade da
exploração que ia empreender. Entrevi nesses fenômenos a chave do
problema tão obscuro e tão controvertido do passado e do futuro, a
solução do que havia procurado toda a minha vida; era, em uma
palavra, uma completa revolução nas idéias e nas crenças; preciso,
portanto, se fazia agir com circunspeção e não levianamente, ser
positivista e não idealista, para me não deixar arrastar pelas
ilusões.
“Um dos primeiros
resultados das minhas observações foi que os Espíritos, não sendo
senão as almas dos homens, não tinham nem a soberana sabedoria, nem
a soberana ciência; que o seu saber era limitado ao grau do seu
adiantamento, e que a sua opinião não tinha senão o valor de uma
opinião pessoal. Esta verdade, reconhecida desde o começo, evitou-me
o grave escolho de crer na sua infalibilidade e preservou-me de
formular teorias prematuras sobre a opinião de um só ou de alguns.
“Só o fato da
comunicação com os Espíritos, o que quer que eles pudessem dizer,
provava a existência de um mundo invisível ambiente; era já um ponto
capital, um imenso campo franqueado às nossas explorações, a chave
de uma multidão de fenômenos inexplicados. O segundo ponto, não
menos importante, era conhecer o estado desse mundo e seus costumes,
se assim nos podemos exprimir. Cedo, observei que cada Espírito, em
razão de sua posição pessoal e de seus conhecimentos, desvendava-me
uma fase desse mundo, exatamente como se chega a conhecer o estado
de um país interrogando os habitantes de todas as classes e
condições, podendo cada qual nos ensinar alguma coisa e nenhum deles
podendo, individualmente, ensinar-nos tudo. Cumpre ao observador
formar o conjunto, com o auxílio dos documentos recolhidos de
diferentes lados, colecionados, coordenados e confrontados entre si.
Eu, pois, agi com os Espíritos como teria feito com os homens: eles
foram, para mim, desde o menor até o mais elevado, meios de colher
informações e não reveladores predestinados.”
A estas informações,
colhidas nas Obras Póstumas de Allan Kardec, convém
acrescentar que a princípio o Sr. Rivail, longe de ser um entusiasta
dessas manifestações e absorvido por outras preocupações, esteve a
ponto de as abandonar, o que talvez tivesse feito se não fossem as
instantes solicitações dos Srs. Carlotti, René Taillandier, membro
da Academia das Ciências, Tiedeman-Manthèse, Sardou, pai e filho, e
Diddier, editor, que acompanhavam havia cinco anos o estudo desses
fenômenos e tinham reunido cinqüenta cadernos de comunicações
diversas, que não conseguiam pôr em ordem. Conhecendo as vastas
e raras aptidões de síntese do Sr. Rivail, esses senhores lhe
enviaram os cadernos, pedindo-lhe que deles tomasse conhecimento e
os pusesse em termos -, os arranjasse. Este trabalho era árduo e
exigia muito tempo, em virtude das lacunas e obscuridades dessas
comunicações; e o sábio enciclopedista recusava-se a essa tarefa
enfadonha e absorvente, em razão de outros trabalhos.
Uma noite, seu
Espírito protetor, Z., deu-lhe, por um médium, uma comunicação toda
pessoal, na qual lhe dizia, entre outras coisas, tê-lo conhecido em
uma precedente existência, quando, ao tempo dos Druidas, viviam
juntos nas Gálias.
Ele se chamava, então,
Allan Kardec, e, como a amizade que lhe havia votado só fazia
aumentar, prometia-lhe esse Espírito secundá-lo na tarefa muito
importante a que ele era chamado, e que facilmente levaria a termo.
O Sr. Rivail, pois,
lançou-se à obra; tomou os cadernos, anotou-os com cuidado. Após
atenta leitura, suprimiu as repetições e pôs na respectiva ordem
cada ditado, cada relatório de sessão; assinalou as lacunas a
preencher, as obscuridades a aclarar, e preparou as perguntas
necessárias para chegar a esse resultado.
“Até então, diz ele
próprio, as sessões em casa do Sr. Baudin não tinham nenhum fim
determinado; propus-me, aí, fazer resolver os problemas que me
interessavam sob o ponto de vista da filosofia, da psicologia e da
natureza do mundo invisível.
Comparecia a cada
sessão com uma série de questões preparadas e metodicamente
dispostas: eram respondidas com precisão, profundeza e e modo
lógico. Desde esse momento as reuniões tiveram caráter muito
diferente, e, entre os assistentes, encontravam-se pessoas sérias
que tomaram vivo interesse pelo trabalho.
Se me acontecia
faltar, ficavam as sessões como que tolhidas, tendo as questões
fúteis perdido o atrativo para o maior número. A princípio eu não
tinha vista senão a minha própria instrução; mais tarde, quando vi
que tudo aquilo formava um conjunto e tomava as proporções de uma
doutrina, tive o pensamento de o publicar, para instrução de todos.
Foram essas mesmas questões que, sucessivamente desenvolvidas e
completadas, fizeram a base de O Livro dos Espíritos.”
Em 1856, o Sr. Rivail
freqüentou as reuniões espíritas que se realizavam à rua Tiquetone,
em casa do Sr. Roustan, com Mlle. Japhet, sonâmbula, que obtinha
como
médium comunicações muito interessantes, com o auxílio da cesta
aguçada 7
; fez
examinar por esse médium as comunicações obtidas e postas
precedentemente em ordem. Esse trabalho foi efetuado, a princípio,
nas sessões ordinárias; mas a pedido dos Espíritos, e para que fosse
consagrado mais cuidado, mais atenção a esse exame, foi continuado
em sessões particulares.
“Não me contentei com
essa verificação, diz ainda Allan Kardec, que os Espíritos me haviam
recomendado. Tendo-me as circunstâncias posto em relação com outros
médiuns, toda vez que se oferecia ocasião, eu a aproveitava para
propor algumas das questões que me pareciam mais melindrosas. Foi
assim que mais de dez médiuns prestaram seu concurso a esse
trabalho. E foi da comparação e da fusão de todas essas respostas,
coordenadas, classificadas e muitas vezes refeitas no silêncio da
meditação, que formei a primeira edição de O Livro dos Espíritos,
a qual apareceu em 18 de abril de 1857.”
7
Arranjada em forma de bico. -
Nota do Tradutor.
Esse livro era em
formato grande, in-4, em duas colunas, uma para as perguntas e
outra, em frente, para as respostas. No momento de publicá-lo, o
autor ficou muito embaraçado em resolver como o assinaria, se com o
seu nome -Denizard- Hippolyte-Léon Rivail, ou com um pseudônimo.
Sendo o seu nome muito conhecido do mundo científico, em virtude dos
seus trabalhos anteriores, e podendo originar uma confusão, talvez
mesmo prejudicar o êxito do empreendimento, ele adotou o alvitre de
o assinar com o nome de Allan Kardec que, segundo lhe revelara o
guia, ele tivera ao tempo dos Druidas.
A obra alcançou tal
êxito que a primeira edição foi logo esgotada. Allan
Kardec reeditou-a em 1858 8
sob a forma atual in-12, revista,
correta e
consideravelmente aumentada.
No dia 25 de março de
1856 estava Allan Kardec em seu gabinete de trabalho, em via de
compulsar as comunicações e preparar o O Livro dos Espíritos,
quando ouviu ressoarem pancadas repetidas no tabique; procurou, sem
descobrir, a causa disso, e em seguida tornou a pôr mãos à obra. Sua
mulher, entrando cerca das dez horas, ouviu os mesmos ruídos;
procuraram, mas sem resultado, de onde podiam eles provir. Moravam,
então, à rua dos Mártires n° 8, no segundo andar, ao fundo.
“No dia seguinte,
sendo dia de sessões em casa do Sr. Baudim, escreve Allan Kardec,
contei o fato e pedi a explicação dele.
Pergunta: - Ouvistes o
fato que acabo de narrar; podereis dizer-me a causa dessas pancadas
que se fizeram ouvir com tanta insistência?
Resposta: - Era o teu
Espírito familiar.
P. - Com que fim,
vinha ele bater assim?
R. - Queria
comunicar-se contigo.
P. - Poderei dizer-me
o que queria ele?
R. - Podes perguntar a
ele mesmo, porque está aqui.
8
A 2ª edição foi impressa em 1860, e não 1858.
- Nota da
FEB.
P. - Meu Espírito
familiar, quem quer que sejais, agradeço-vos terdes vindo
visitar-me. Quereis ter a bondade de dizer-me quem sois?
R. - Para ti
chamar-me-ei a Verdade, e todos os meses, durante um quarto
de hora, estarei aqui, à tua disposição.
P. - Ontem, quando
batestes, enquanto eu trabalhava, tínheis alguma coisa de particular
a dizer-me?
R. - O que eu tinha a
dizer-te era sobre o trabalho que fazias; o que escrevias me
desagradava e eu queria fazer-te parar.
NOTA - O que eu
escrevia era precisamente relativo aos estudos que fazia sobre os
Espíritos e suas manifestações.
P. - A vossa
desaprovação versava sobre o capítulo que eu escrevia, ou sobre o
conjunto do trabalho?
R. - Sobre o capítulo
de ontem: faço-te juiz dele. Torna a lê-lo esta noite;
reconhecer-lhe-ás os erros e os corrigirás.
P. - Eu mesmo não
estava muito satisfeito com esse capítulo e o refiz hoje. Está
melhor?
R. - Está melhor, mas
não muito bom. Lê da terceira à trigésima linha e reconhecerás um
grave erro.
P. - Rasguei o que
tinha feito ontem.
R. - Não importa. Essa
inutilização não impede que subsista o erro. Relê e verás.
P. - O nome de
Verdade que tomais é uma alusão à verdade que procuro?
R. - Talvez, ou, pelo
menos, é um guia que te há de auxiliar e proteger.
P. - Posso evocar-vos
em minha casa?
R. - Sim, para que eu
te assista pelo pensamento; mas, quanto a respostas escritas em tua
casa, não será tão cedo que as poderás obter.
P. - Podereis vir mais
freqüentemente que todos os meses?
R. - Sim; mas não
prometo senão uma vez por mês, até nova ordem.
P. - Animastes alguma
personagem conhecida na Terra?
R. - Disse-te que para
ti eu era a Verdade, o que da tua parte devia importar discrição;
não saberás mais que isto.”
De volta a casa, Allan
Kardec apressou-se a reler o que escrevera e pôde verificar o grave
erro que com efeito havia cometido. A dilação de um mês, fixada para
cada comunicação do Espírito Verdade, raramente foi
observada. Ele se manifestou freqüentemente a Allan Kardec, mas não
em sua casa, onde durante cerca de um ano não pôde este receber
nenhuma comunicação por médium algum e, cada vez que ele esperava
obter alguma coisa, era obstado por uma causa qualquer e imprevista,
que a isso se vinha opor.
Foi a 30 de abril de
1856, em casa do Sr. Roustan, pela médium Mlle. Japhet, que Allan
Kardec recebeu a primeira revelação da missão que tinha a
desempenhar.
Esse aviso, a
princípio muito vago, foi precisado no dia 12 de junho de 1856, por
intermédio de Mlle. Aline C., médium. A 6 de maio de 1857, a Sra.
Cardone, pela inspeção das linhas da mão de Allan Kardec, confirmou
as duas comunicações precedentes, que ela ignorava. Finalmente, a 12
de abril de 1860, em casa do Sr. Dehan, sendo intermediário o Sr.
Croset, médium, essa missão foi novamente confirmada em uma
comunicação espontânea, obtida na ausência de Allan Kardec.
Assim, também, se deu
a respeito do seu pseudônimo. Numerosas comunicações, procedentes
dos mais diversos pontos, vieram reafirmar e corroborar a primeira
comunicação obtida a esse respeito.
Urgido pelos
acontecimentos e pelos documentos que tinha em seu poder, Allan
Kardec formara, em razão do êxito de O Livro dos Espíritos, o
projeto de criar um jornal espírita. Havia-se dirigido ao Sr.
Tiedeman, para solicitar-lhe o concurso pecuniário, mas este não
estava resolvido a tomar parte nessa empresa. Allan Kardec perguntou
aos seus guias, no dia 15 de novembro de 1857, por intermédio da
Srta. E. Dufaux, o que deveria fazer.
Foi-lhe respondido que
pusesse a sua idéia em execução e que não se inquietasse com o
resto.
“Apressei-me em
redigir o primeiro número, diz Allan Kardec, e o fiz aparecer no dia
1° de janeiro de 1858, sem nada dizer a pessoa alguma. Não tinha um
único assinante, nem sócio capitalista. Fi-lo, pois, inteiramente
por minha conta e risco, e não tive de que me arrepender, porque o
êxito ultrapassou a minha expectativa. A partir de 1° de janeiro, os
números se sucederam sem interrupção, e, como o previra o Espírito,
esse jornal se me tornou em poderoso auxiliar.
Reconheci, mais tarde,
que era uma felicidade para mim não ter tido um sócio capitalista,
porque estava mais livre, enquanto que um estranho interessado teria
pretendido impor-me as suas idéias e a sua vontade e poderia
embaraçar-me a marcha. Só, eu não tinha que prestar contas a
ninguém, por mais onerosa que, como trabalho, fosse a minha tarefa.”
E essa tarefa devia ir
sempre crescendo em labor e em responsabilidades, em lutas
incessantes contra obstáculos, emboscadas, perigos de toda sorte. À
medida, porém, que a lide se tornava mais áspera, esse enérgico
trabalhador se elevava, também, à altura dos acontecimentos, que
nunca o surpreenderam; e durante onze anos, nessa Revista Espírita,
que acabamos de ver como começou tão modestamente, ele afrontou
todas as tempestades, todas as emulações, todos os ciúmes que não
lhe foram poupados, como ele mesmo relata e como lhe fora anunciado
ao ser-lhe revelada a sua missão. Essa comunicação e as reflexões de
que as anotou Allan Kardec nos mostram, sob um prisma pouco
lisonjeiro, a situação naquela época, mas fazem também ressaltar o
grande valor do fundador do Espiritismo e o seu mérito em ter sabido
triunfar:
Médium, Mlle. Aline C.
- 12 de junho de 1856:
P. - Quais são as
causas que me poderiam fazer fracassar? Seria a insuficiência das
minhas aptidões?
R. - Não; mas a missão
dos reformadores é cheia de escolhos e perigos; a tua é rude;
previno-te, porque é ao mundo inteiro que se trata de agitar e de
transformar.
Não creias que te seja
suficiente publicar um livro, dois livros, dez livros, e ficares
tranqüilamente em tua casa; não, é preciso te mostrares no conflito;
contra ti se açularão terríveis ódios, implacáveis inimigos tramarão
a tua perda; estarás exposto à calúnia, à traição, mesmo daqueles
que te parecerão mais dedicados; as tuas melhores instruções serão
impugnadas e desnaturadas; sucumbirás mais de uma vez ao peso da
fadiga; em uma palavra, é uma luta quase constante que terás de
sustentar com o sacrifício do teu repouso, da tua tranqüilidade, da
tua saúde e mesmo da tua vida, porque tu não viverás muito tempo.
Pois bem. Mais de um recua quando, em lugar de uma vereda florida,
não encontra sob seus passos senão espinhos, agudas pedras e
serpentes. Para tais missões não basta a inteligência. É preciso
antes de tudo, para agradar a Deus, humildade, modéstia,
desinteresse, porque abatem os orgulhosos e os presunçosos. Para
lutar contra os homens, é necessário coragem, perseverança e firmeza
inquebrantáveis; é preciso, também, ter prudência e tato para
conduzir as coisas a propósito e não comprometer-lhes o êxito por
medidas ou palavras intempestivas; é preciso, enfim, devotamento,
abnegação, e estar pronto para todos os sacrifícios.
“Vês que a tua missão
está subordinada a condições que dependem de ti.
Espírito Verdade.”
NOTA - (É Allan Kardec
que assim se exprime):
“Escrevo esta nota no
dia 1° de janeiro de 1867, dez anos e meio depois que esta
comunicação me foi dada, e verifico que ela se realizou em todos os
pontos, porque experimentei todas as vicissitudes que nela me foram
anunciadas. Tenho sido alvo do ódio de implacáveis inimigos, da
injúria, da calúnia, da inveja e do ciúme; têm sido publicados
contra mim infames libelos; as minhas melhores instruções têm sido
desnaturadas; tenho sido traído por aqueles em quem depositara
confiança, e pago com a ingratidão por aqueles a quem tinha prestado
serviços. A Sociedade de Paris tem sido um contínuo foco de
intrigas, urdidas por aqueles que se diziam a meu favor, e que,
mostrando-se amáveis em minha presença, me detratavam na ausência.
Disseram que aqueles
que adotavam o meu partido eram assalariados por mim com o dinheiro
que eu arrecadava do Espiritismo. Não mais tenho conhecido o
repouso; mais de uma vez, sucumbi; sob o excesso do trabalho,
tem-se-me alterado a saúde e comprometido a vida.
“Entretanto, graças à
proteção e à assistência dos bons Espíritos, que sem cessar me têm
dado provas manifestas de sua solicitude, sou feliz em reconhecer
que não tenho experimentado um único instante de desfalecimento nem
de desânimo, e que tenho constantemente prosseguido na minha tarefa
com o mesmo ardor, sem me preocupar com a malevolência de que era
alvo. Segundo a comunicação do Espírito Verdade, eu devia contar com
tudo isso, e tudo se verificou.”
Quando se conhecem
todas essas lutas, todas as torpezas de que Allan Kardec foi alvo,
quanto ele se engrandece aos nossos olhos e como o seu brilhante
triunfo adquire mérito e esplendor! Que se tornaram esses invejosos,
esses pigmeus que procuravam obstruir-lhe o caminho? Na maior parte
são desconhecidos os seus nomes, ou nenhuma recordação despertam
mais: o esquecimento os retomou e sepultou para sempre em suas
sombras, enquanto que o de Allan Kardec, o intrépido lutador, o
pioneiro ousado, passará à posteridade com a sua auréola de glória
tão legitimamente adquirida.
A Sociedade Parisiense
de Estudos Espíritas foi fundada a 1° de abril de 1858. Até então,
as reuniões se realizavam em casa de Allan Kardec, à rua dos
Mártires, com Mlle. E. Dufaux, como principal médium; o seu salão
poderia conter de quinze a vinte pessoas. Cedo, aí reuniu ele mais
de trinta. Tornando-se, então, esse local muito acanhado e não
querendo onerar Allan Kardec com todos os encargos, alguns dos
assistentes se propuseram formar uma sociedade espírita e alugar um
outro local em que se efetuassem as reuniões. Mas era preciso, para
se poderem reunir, obter o reconhecimento e a autorização da
Polícia.
O Sr. Dufaux, que
conhecia pessoalmente o prefeito de polícia de então, encarregou-se
de dar os passos para esse fim, e, graças ao ministro do Interior, o
general X., que era favorável às novas idéias, a autorização foi
obtida em quinze dias, enquanto que pelo processo ordinário teria
exigido meses, sem grande probabilidade de êxito.
“A Sociedade foi,
então, regularmente constituída e reunia-se todas as terças-feiras,
no local que fora alugado no Palais-Royal, galeria Valois. Aí ficou
durante um ano, de 1° de abril de 1858 a 1° de abril de 1859. Não
podendo lá permanecer por mais tempo, reunia-se todas as
sextas-feiras em um dos salões do restaurante Douix, no Palais-Royal,
galeria Montpensier, de 1° de abril de 1859 a 1° de abril de 1860,
época em que se instalou em sede própria, à rua e passagem Sant’Ana
n° 59.”
Depois de haver dado
conta das condições em que se formou a Sociedade e da tarefa que
teve a desempenhar, Allan Kardec assim se exprime (Revista
Espírita, 1859, pág. 169):
“Empreguei em minhas
funções, que posso dizer laboriosas, toda a solicitude e toda a
dedicação de que era capaz; do ponto de vista administrativo,
esforcei-me por manter nas sessões uma ordem rigorosa e por
imprimir-lhe um caráter de gravidade, sem o qual o prestígio de
assembléia séria teria cedo desaparecido. Agora, que a minha tarefa
está terminada e que o impulso está dado, devo inteirar-vos da
resolução que tomei, de renunciar de futuro a toda espécie de função
na Sociedade, mesmo a de diretor dos estudos; não ambiciono senão um
título - o de simples membro titular, com que me sentirei sempre
feliz e honrado. O motivo da minha determinação está na
multiplicidade dos meus trabalhos, que aumentam todos os dias, pela
extensão das minhas relações; porque, além daqueles que conheceis,
preparo outros trabalhos mais consideráveis, que exigem longos e
laboriosos estudos e não absorverão menos de dez anos; ora, os
trabalhos da Sociedade não deixam de tomar muito tempo, quer para o
preparo, quer para a coordenação e a passagem a limpo. Reclamam
assiduidade muitas vezes prejudicial às minhas ocupações pessoais,
pois que se torna indispensável a iniciativa quase exclusiva que me
tendes deixado.
É a esse motivo, meus
senhores, que eu devo o ter tantas vezes tomado a palavra,
lamentando com freqüência que os membros eminentemente esclarecidos
que possuímos nos privassem das suas luzes. Desde muito tempo
alimentava o desejo de demitir-me das minhas funções: manifestei-o
de modo muito explícito em diversas ocasiões, quer aqui, quer em
particular a muitos dos meus colegas, e especialmente ao Sr. Ledoyen.
Tê-lo-ia feito mais cedo, se não fora o temor de produzir uma
perturbação na Sociedade. Retirando-me no meado do ano, poderiam
acreditar em uma deserção, e era preciso não dar esse prazer aos
nossos adversários.
Desempenhei, portanto,
a minha tarefa até ao fim; hoje, porém, que esses motivos cessaram,
apresso-me em vos dar parte da minha resolução, para não embaraçar a
escolha que fareis. É justo que cada um tenha a sua parte nos
encargos e nas honras.”
Apressemo-nos a
acrescentar que essa demissão não foi aceita e que Allan Kardec foi
reeleito por unanimidade, menos um voto e uma cédula em branco.
Diante desse
testemunho de simpatia, ele se submeteu e se conservou em suas
funções.
Em setembro de 1860,
Allan Kardec fez uma viagem de propaganda à nossa região, e eis aqui
como a ela fez referência na Sociedade Parisiense de Estudos
Espíritas:
“O Sr. Allan Kardec dá
conta do resultado da viagem que acaba de fazer, no interesse do
Espiritismo, e felicita-se pela cordialidade do acolhimento que por
toda parte encontrou, especialmente em Sens, Mácon, Lião e
Saint-Etienne. Observou, em todo lugar em que se demorou, os
progressos consideráveis da doutrina; mas o que sobretudo é digno de
nota, é que em parte alguma viu que dela se fizesse um divertimento,
mas, que, ao contrário, dela se ocupam de modo sério, e que por toda
parte lhe compreendem o alcance e as conseqüências futuras. Há, sem
dúvida, muitos adversários, sendo os mais encarniçados os inimigos
interessados, mas os motejadores diminuem sensivelmente; vendo que
os seus sarcasmos não colocam do seu lado os gracejadores, e que
auxiliam mais do que impedem o progresso das novas crenças, começam
a compreender que nada ganham com isso e que consomem o seu espírito
em pura perda, e assim se calam. Uma frase muito característica
parece ser em toda parte a ordem do dia, e é esta: o Espiritismo
está no ar; só por si desenha ela o estado
das coisas. Mas, é sobretudo em Lião que
são mais notáveis os resultados. Os espíritas são, aí, numerosos em
todas as classes, e na classe operária contam-se por centenas. A
Doutrina Espírita tem exercido sobre os operários a mais salutar
influência, sob o ponto de vista da ordem, da moral e das idéias
religiosas; em resumo, a propagação do Espiritismo marcha com a mais
animadora celeridade.”
No decurso dessa
viagem, Allan Kardec pronunciou um discurso magistral, no
banquete realizado a 19 de setembro de 1860, do qual eis aqui
algumas passagens, próprias a nos interessar, a nós que aspiramos a
substituir dignamente esses trabalhadores da primeira hora:
“A primeira coisa que
me impressionou foi o números de adeptos; eu sabia perfeitamente que
Lião os contava em grande escala, mas estava longe de imaginar que o
número fosse tão considerável, porque é por centenas que eles se
contam, e, em pouco tempo - eu o espero -, já se não poderão contar
mais.
“Se, porém, Lião se
distingue pelo número, não o faz menos pela qualidade, o que ainda
vale mais. Por toda parte não encontrei senão espíritas sinceros,
compreendendo a doutrina sob seu verdadeiro ponto de vista. Há, meus
senhores, três categorias de adeptos: uns que se limitam a crer na
realidade das manifestações e que procuram, antes de tudo, os
fenômenos; o Espiritismo é simplesmente para eles uma série de fatos
mais ou menos interessantes. Os segundos vêem outra coisa nele além
dos fatos, compreendem o seu alcance filosófico, admiram a moral que
deles decorre, mas não a praticam; para eles, a caridade cristã é
uma bela máxima, e nada mais. Os terceiros, finalmente, não se
contentam de admirar a moral: praticam-na e aceitam-lhe as
conseqüências.
Bem convencidos de que
a existência terrestre é uma prova passageira, esforçam-se por
aproveitar esses curtos instantes, para marchar na senda do
progresso que lhes traçam os Espíritos, emprenhando-se em fazer o
bem e em reprimir as suas más inclinações; as suas relações são
sempre seguras, porque as suas convicções os afastam de todo
pensamento do mal; a caridade é, em toda ocasião, a regra da sua
conduta: são esses os verdadeiros espíritas, ou, melhor, os
espíritas-cristãos.
“Pois bem, meus
senhores, eu vo-lo digo com satisfação: ainda não encontrei, aí,
nenhum adepto da primeira categoria; em parte alguma vi que se
ocupassem do Espiritismo por mera curiosidade, com frívolos
intuitos; por toda parte o fim é grave, as intenções são sérias; e,
a crer no que me dizem, há muitos da terceira categoria.
Honra, pois, aos
espíritas lioneses, por terem, assim, entrado largamente nessa senda
progressista, sem a qual o Espiritismo não teria objetivo. Este
exemplo não será perdido, terá suas conseqüências, e não é sem razão
- eu o vejo - que os Espíritos me responderam noutro dia, por um dos
vossos médiuns mais dedicados, posto que dos mais obscuros, quando
eu lhes exprimia a minha surpresa: “Por que te admiras disso? Lião
foi a cidade dos mártires; a fé aí é vivaz; ela fornecerá apóstolos
ao Espiritismo. Se Paris é a cabeça, Lião será o coração.”
Essa opinião de Allan
Kardec, sobre os espíritas lioneses de sua época, é para nós grande
honra, mas deve ser também uma regra de conduta. Devemos
esforçar-nos por merecer esses elogios, aprofundando por nossa vez
as lições do Mestre e, sobretudo, conformando com elas o nosso
proceder. Noblesse oblige, diz um adágio; saibamo-nos
recordar sempre disso e conservar alto e firme o estandarte do
Espiritismo.
Mas, Allan Kardec não
se contentava em atirar flores sobre nossos companheiros; dava-lhes,
sobretudo, sábios conselhos, sobre os quais, por nossa vez,
deveremos meditar.
“Vindo dos Espíritos o
ensino, os diferentes grupos, tantos como os indivíduos, se acham
sob a influência de certos Espíritos, que presidem aos seus
trabalhos, ou os dirigem moralmente.
Se esses Espíritos não
se acham de acordo, a questão está em saber qual é o que merece
maior confiança; será, evidentemente, aquele cuja teoria não pode
provocar nenhuma objeção séria, em uma palavra, aquele que, em todos
os pontos, dá maior número de provas de superioridade. Se tudo nesse
ensino é bom, racional, pouco importa o nome que toma o Espírito; e
a esse respeito a questão de identidade é inteiramente secundária.
Se, sob um nome respeitável, o ensino peca pelas qualidades
essenciais, podeis imediatamente concluir que é um nome apócrifo e
que é um Espírito impostor ou galhofeiro. Regra geral: o nome nunca
é uma garantia; a única, a verdadeira garantia de superioridade é o
pensamento e a maneira porque é ele expresso. Os Espíritos
enganadores tudo podem imitar, tudo, exceto o verdadeiro saber e o
verdadeiro sentimento.
“Acontece muitas vezes
que, para fazer adotar certas utopias, alguns Espíritos fazem alarde
de um falso saber e pensam impô-las, escolhendo no arsenal das
palavras técnicas tudo o que pode fascinar aquele que é facilmente
crédulo. Eles têm, ainda, um meio mais certo: é afetar as
exterioridades da virtude; com o auxílio das grandes palavras -
caridade, fraternidade, humildade - esperam fazer passar os mais
grosseiros absurdos e é o que acontece muitas vezes, quando se não
está precavido. É preciso, pois, evitar o deixar-se seduzir pelas
aparências, tanto da parte dos Espíritos, quanto da dos homens; ora,
eu o confesso, aí está uma das maiores dificuldades; mas, nunca se
disse que o Espiritismo fosse uma ciência fácil; tem seus escolhos
que se não podem evitar senão pela experiência. Para escapar à
cilada, é preciso, antes de tudo, fugir ao entusiasmo que cega, ao
orgulho que leva certos médiuns a acreditarem-se os únicos
intérpretes da verdade; é preciso que tudo seja friamente examinado,
maduramente pesado, confrontado, e, se desconfiamos do próprio
julgamento, o que é muitas vezes mais prudente, é preciso recorrer a
outras pessoas, segundo o provérbio: que quatro olhos vêem melhor do
que dois. Só um falso amor próprio ou uma obsessão podem fazer
persistir em uma idéia notoriamente falsa e que o bom-senso de cada
um repele.”
Eis os conselhos tão
sábios e tão práticos dados por aquele que quiseram fazer passar por
um entusiasta, um místico, um alucinado; e essa regra de conduta,
estabelecida no começo, ainda não foi invalidada, nem pela
observação, nem pelos acontecimentos; é sempre a vereda mais segura,
mais prudente, a única a seguir por aqueles que se querem ocupar do
Espiritismo.
Allan Kardec
trabalhava, então, em O Livro dos Médiuns, que apareceu na
primeira quinzena de janeiro de 1861, editado pelos Srs. Didier &
Cia., livreiros-editores.
O mestre expõe a sua
razão de ser nos seguintes termos, na Revista
Espírita:
“Procuramos neste
trabalho, fruto de longa experiência e de laboriosos estudos,
esclarecer todas as questões que se prendem à prática das
manifestações; ele contém, de acordo com os Espíritos, a explicação
teórica dos diversos fenômenos e condições em que eles se podem
produzir; mas a parte concernente ao desenvolvimento e ao exercício
da mediunidade foi, sobretudo, de nossa parte, objeto de atenção
toda especial.
“O Espiritismo
experimental está cercado de muito mais dificuldades do que se
acredita geralmente, e os escolhos, que aí se encontram, são
numerosos; é o que produz tanta decepção aos que dele se ocupam sem
ter a experiência e os conhecimentos necessários. O nosso fim foi
acautelar os investigadores contra tais dificuldades, nem sempre
isentas de inconvenientes para quem quer que se aventure, com
imprudência, por esse novo terreno. Não podíamos desprezar um ponto
tão capital, e o tratamos com cuidado igual à sua importância.”
O Livro dos
Médiuns é, ainda, o vade-mécum de
quantos se querem entregar
com proveito à prática do Espiritismo experimental; nada apareceu de
melhor nem de mais completo nessa ordem de idéias. É ainda o mais
seguro guia de que nos podemos servir para explorar, sem perigo, o
terreno da mediunidade.
No ano de 1861, Allan
Kardec fez uma nova viagem espírita a Sens, Mácon e Lião, e
verificou que em nossa cidade o Espiritismo atingira a maioridade.
“Com efeito, não é
mais por centenas, diz ele, que aí se contam os espíritas, como há
um ano; é por milhares, ou, para melhor dizer, já se não contam, e
pode-se calcular que, seguindo a mesma progressão, dentro de um ano
ou dois eles serão mais de trinta mil. O Espiritismo, aí, tem feito
adeptos em todas as classes, mas é sobretudo na classe operária que
se tem propagado com maior rapidez, e isso não é de admirar: sendo
essa classe a que mais sofre, volta-se para o lado que lhe oferece
maior consolação. Se aqueles que clamam contra o Espiritismo lhe
oferecessem outro tanto, essa classe se voltaria para eles; mas, ao
contrário, querem tirar-lhe exatamente aquilo que a ajuda a carregar
o seu fardo de miséria. E isto tem sido o meio mais seguro de
perderem as suas simpatias e fazê-la engrossar as nossas fileiras. O
que vimos com os nossos próprios olhos é de tal modo característico
e encerra ensino tão grande, que acreditamos dever consagrar aos
operários a maior parte do nosso relatório.
“No ano passado, só
havia um único centro de reunião, o dos Brotteaux, dirigido por
Dijoux, chefe de oficina, e sua mulher; depois, formaram-se outros
em diferentes pontos da cidade: em Guillotière, em Perrache, em
Croix-Rousse, em Vaise, em Saint-Just, etc., sem contar grande
número de reuniões particulares.
Então, havia apenas
dois ou três médiuns neófitos; hoje os há em todos os grupos e
muitos são de primeira ordem; em um só grupo vimos cinco escreverem
simultaneamente. Vimos, igualmente, um rapaz muito bom médium
vidente, no qual pudemos verificar essa faculdade desenvolvida no
mais alto grau.
“Sem dúvida, muito é
para desejar que se multipliquem os adeptos, mas o que mais vale
ainda do que o número é a qualidade. Pois bem, declaramo-lo bem
alto: não vimos, em parte alguma, reuniões espíritas mais
edificantes do que as dos operários lioneses, quanto à ordem, ao
recolhimento e à atenção que prestam às instruções dos seus guias
espirituais; há homens, velhos, senhoras, jovens, crianças mesmo,
cuja atitude respeitosa contrasta com a sua idade; jamais uma única
criança perturbou por instantes o silêncio das nossas reuniões,
muitas vezes longas; pareciam quase tão ávidas quanto seus pais, em
recolher as nossas palavras.
“Mas, isto não é tudo:
o número das metamorfoses morais é, entre os operários, quase tão
grande quanto o dos adeptos: hábitos viciosos reformados, paixões
acalmadas, ódios apaziguados, lares tornados tranqüilos, em uma
palavra, as mais legítimas virtudes cristãs desenvolvidas, e isso
pela confiança, de agora em diante inabalável, que lhes dão as
comunicações espíritas, no futuro em que não acreditavam; é uma
felicidade para eles assistirem a essas instruções, de que saem
reconfortados contra a adversidade; muitos chegam a galgar mais de
uma légua, sob qualquer tempo, inverno ou verão, tudo arrostando
para não faltarem a uma sessão; é que neles não há a fé vulgar, mas
a baseada sobre uma convicção profunda, raciocinada e não, cega.”
Por ocasião dessa
viagem, um banquete novamente reuniu sob a presidência de Allan
Kardec os membros da grande família espírita lionesa. No dia 19 de
setembro de 1860 os convivas eram apenas uns trinta; a 19 de
setembro de 1861 o número era de cento e sessenta, “representando os
diferentes grupos, que se consideram todos como membros de uma
grande família, entre os quais não existe sombra de ciúme e de
rivalidade, o que - diz o Mestre -, temos, de passagem, grande
satisfação em registrar. A maioria dos assistentes era composta de
operários e toda gente notou a perfeita ordem que não cessou de
reinar um só instante. É que os verdadeiros espíritas põem sua
satisfação nas alegrias do coração e não nos prazeres ruidosos.”
A 14 de outubro do
mesmo ano encontramos Allan Kardec em Bordéus, onde, como em todas
as cidades por que passava, semeava a boa-nova e fazia germinar a fé
no futuro.
Além das viagens e dos
trabalhos de Allan Kardec, esse ano de 1861 permanecerá memorável
nos anais do Espiritismo por um fato de tal modo monstruoso que
quase parece incrível. Refiro-me ao auto-de-fé levado a efeito em
Barcelona, e em que foram queimadas pela fogueira dos inquisidores
trezentas obras espíritas.
O Sr. Maurício
Lachâtre estava nessa época estabelecido como livreiro, em
Barcelona, em relações e em comunhão de idéias com Allan Kardec.
Assim, pediu a este que lhe enviasse certo número de obras
espíritas, para as expor à venda e fazer propaganda da nova
filosofia.
Essas obras, em número
de trezentas aproximadamente, foram expedidas nas condições
ordinárias, com uma declaração em ordem do conteúdo das caixas. À
sua chegada à Espanha, foram os direitos da alfândega cobrados ao
destinatário e arrecadados pelos agentes do governo espanhol; mas a
entrega das caixas não se fez: o bispo de Barcelona, tendo julgado
esses livros perniciosos à fé católica, fez confiscar a expedição
pelo Santo-Ofício.
Uma vez que não
queriam entregar essas obras ao destinatário, Allan Kardec reclamou
a sua devolução; mas a sua reclamação foi de nulo efeito, e o bispo
de Barcelona, erigindo-se em policiador da França, fundamentou a sua
recusa com a seguinte resposta: “A Igreja Católica é universal, e
sendo esses livros contrários à fé católica, o governo não pode
consentir que eles passem a perverter a moral e a religião de outros
países.”
E não somente esses
livros não foram restituídos, mas também os direitos aduaneiros
ficaram em poder do fisco espanhol. Allan Kardec poderia promover
uma ação diplomática e obrigar o governo espanhol a efetuar o
retorno das obras. Os Espíritos, porém, o dissuadiram disso, dizendo
que era preferível para a propaganda do Espiritismo deixar essa
ignomínia seguir o seu curso.
Renovando os fastos e
as fogueiras da idade Média, o bispo de Barcelona fez queimar em
praça pública, pela mão do carrasco, as obras incriminadas.
Eis aqui, a título de
documento histórico, o processo verbal dessa infâmia clerical:
“Aos nove dias de
outubro de mil oitocentos e sessenta e um, às dez horas e meia da
manhã, na esplanada da cidade de Barcelona, no lugar em que são
executados os criminosos condenados à pena última, por ordem do
bispo desta cidade foram queimados trezentos volumes e brochuras
sobre o Espiritismo, a saber:
“A Revista
Espírita, diretor Allan Kardec;
“A Revista
Espiritualista, diretor Piérart;
“O Livro dos
Espíritos, por Allan Kardec;
“O Livro dos
Médiuns, pelo mesmo;
“O que é o
Espiritismo, pelo mesmo;
“Fragmento de
Sonata, ditado pelo Espírito de Mozart;
“Carta de um
católico sobre o Espiritismo, pelo Doutor
Grand;
“A História
de Joanna d’Arc, por ela mesma ditada a
Mlle. Ernance Dufaux;
“A realidade
dos Espíritos demonstrada pela escrita direta,
pelo Barão de
Guldenstubbé.
“Assistiram ao
auto-de-fé:
“Um padre revestido de
hábitos sacerdotais, trazendo em uma das mãos a cruz e, na outra,
uma tocha; “Um tabelião encarregado de redigir o processo verbal do
auto-de-fé;
“O escrevente do
tabelião;
“Um empregado superior
da administração das alfândegas;
“Três mozos
(serventes) da alfândega, encarregados de alimentar o fogo;
“Um agente da
alfândega, representando o proprietário das obras condenadas pelo
bispo;
“Uma multidão
incalculável aglomerava-se nos passeios e cobria a esplanada em que
ardia a fogueira.
“Quando o fogo
consumiu os trezentos volumes e brochuras espíritas, o padre e os
seus ajudantes se retiraram cobertos pelos apupos e as maldições dos
numerosos assistentes, que gritavam: Abaixo a Inquisição!
“Em seguida muitas
pessoas se acercaram da fogueira e apanharam cinzas.”
Seria diminuir o
horror de tais atos, acompanhá-los com a narrativa dos comentários;
constatemos somente que ao clarão dessa fogueira o Espiritismo tomou
um incremento inesperado em toda a Espanha e, como o haviam os
Espíritos previsto, conquistou, aí, um número incalculável de
adeptos. Só podemos, pois, como o fez Allan Kardec, alegrar-nos com
o grande reclamo que esse ato odioso operou em favor do Espiritismo.
A propósito, porém, da propaganda que nós mesmos devemos fazer da
nossa filosofia, nunca deveremos esquecer estes conselhos do Mestre
(Revista Espírita, 1863, pág. 367):
“O Espiritismo se
dirige aos que não crêem ou que duvidam, e não aos que têm fé e a
quem essa fé é suficiente; ele não diz a ninguém que renuncie às
suas crenças para adotar as nossas, e nisto é conseqüente com os
princípios de tolerância e de liberdade de consciência que professa.
Por esse motivo não poderíamos aprovar as tentativas feitas por
certas pessoas para converter às nossas idéias o clero, de qualquer
comunhão que seja. Repetiremos, pois, a todos os espíritas: acolhei
com solicitude os homens de boa-vontade; oferecei a luz aos que a
procuram, porque com os que crêem não sereis bem sucedidos; não
façais violência à fé de ninguém, muito mais quanto ao clero que aos
seculares, porque semeareis em campos áridos; ponde a luz em
evidência, para que a vejam os que quiserem ver; mostrai os frutos
da árvore e deles dai de comer aos que têm fome e não aos que se
dizem saciados.”
Estes conselhos, como
todos os de Allan Kardec, são claros, simples e sobretudo práticos;
cumpre que deles nos recordemos e os aproveitemos oportunamente.
O ano de 1862 foi
fértil em trabalhos favoráveis à difusão do Espiritismo. No dia 15
de janeiro apareceu a pequenina e excelente brochura de propaganda:
O
Espiritismo em sua mais simples expressão.
“O fim desta
publicação, diz Allan Kardec, é apresentar, em quadro muito
resumido, um histórico do Espiritismo e uma idéia suficiente da
doutrina dos Espíritos, para permitir ser compreendido o seu fim
moral e filosófico. Pela clareza e simplicidade do estilo,
procuramos pô-lo ao alcance de todas as inteligências.
Contamos com o zelo de
todos os verdadeiros espíritas, para que lhe auxiliem a
propagação.”- Este apelo foi ouvido, porque a pequena brochura se
espalhou em profusão, devendo muitos a esse excelente trabalho o
terem compreendido o fim e o alcance do Espiritismo.
Tendo os nossos
predecessores no Espiritismo transmitido a Allan Kardec, por ocasião
do Ano-Novo, a expressão dos seus sentimentos de gratidão, eis aqui
como respondeu o Mestre a esse testemunho de simpatia:
“Meus caros irmãos e
amigos de Lião:
“A manifestação
coletiva que tivestes a bondade de transmitir-me, por ocasião do
Ano-Novo, produziu-me vivíssima satisfação, provando-me que
conservastes de mim uma boa recordação; mas, o que me causou maior
prazer, nesse ato espontâneo de vossa parte, foi encontrar, entre as
numerosas assinaturas que nele figuram, representantes de quase
todos os grupos, porque é um sinal da harmonia que reina entre eles.
Sou feliz por ver que compreendestes perfeitamente o fim dessa
organização, cujos resultados desde já podeis apreciar, porque deve
ser agora evidente para vós que uma sociedade única seria quase
impossível.
“Agradeço, meus bons
amigos, os votos que fazeis por mim; eles me são tanto mais
agradáveis quanto sei que partem do coração, e são os que Deus
atende. Ficai, pois, satisfeitos, porque Ele os ouve todos os dias,
proporcionando-me a extraordinária satisfação no estabelecimento de
uma nova doutrina, de ver aquela a que me tenho dedicado engrandecer
e prosperar, em minha vida, com uma rapidez maravilhosa; considero
um grande favor do céu ser testemunha do bem que ela já produz.
“Esta certeza, de que
recebo diariamente os mais tocantes testemunhos, me paga com usura
todos os meus sofrimentos, todas as minhas fadigas; não peço a Deus
senão uma graça, e é a de dar-me a força física necessária para ir
até ao fim da minha tarefa, que longe se encontra de estar
concluída; mas, como quer que suceda, possuirei sempre a maior
consolação, pela certeza de que a semente das idéias novas,
espalhada agora por toda parte, é imperecível; mais feliz que muitos
outros, que não trabalharam senão para o futuro, é-me permitido
contemplar os primeiros frutos.
“Se alguma coisa
lamento, é que a exigüidade dos meus recursos pessoais me não
permita pôr em execução os planos que concebi para um avanço ainda
mais rápido; se Deus, porém, em sua sabedoria, entendeu dispor de
modo diferente, legarei esses planos aos nossos sucessores, que, sem
dúvida, serão mais felizes. A despeito da escassez dos recursos
materiais, o movimento que se opera na opinião ultrapassou toda a
expectativa; crede, meus irmãos, que nisso o vosso exemplo não terá
sido sem influência, Recebei, portanto, as nossas felicitações pela
maneira porque sabeis compreender e praticar a Doutrina.
“No ponto a que hoje
chegaram as coisas, e tendo em vista a marcha do Espiritismo através
dos obstáculos semeados em seu caminho, pode dizer-se que as
principais dificuldades estão superadas; ele conquistou o seu lugar
e está assente sobre bases que de ora em diante desafiam os esforços
dos seus adversários.
“Perguntam como uma
doutrina, que torna feliz e melhor, pode ter inimigos; é natural; o
estabelecimento das melhores coisas choca sempre interesses, ao
começar.
Não tem acontecido
assim com todas as invenções e descobertas que têm revolucionado a
indústria? As que hoje são consideradas como benefícios, sem as
quais não se poderia mais passar, não tiveram inimigos obstinados?
Toda lei que reprime um abuso não tem contra si todos os que vivem
dos abusos?
Como quereríeis que
uma doutrina que conduz ao reino da caridade efetiva não fosse
combatida por todos os que vivem no egoísmo? E sabeis que são eles
numerosos na Terra!
“No começo contaram
sepultá-la com a zombaria; hoje vêem que essa arma é impotente e
que, sob o fogo dos sarcasmos, ela prosseguiu o seu caminho sem
tropeçar. Não acrediteis que se confessem vencidos; não, o interesse
material é tenaz. Reconhecendo que é uma potência com que é
necessário de hoje em diante contar, vão dirigir-lhe assaltos mais
sérios, mas que só servirão diretamente por palavras e atos, e a
perseguirão até na pessoa dos seus adeptos, que eles se esforçarão
por desalentar a poder de embaraços, enquanto que outros,
secretamente e por caminhos disfarçados, procurarão miná-la
surdamente.
“Ficai prevenidos de
que a luta não está terminada; fui avisado de que eles vão tentar um
supremo esforço. Não tenhais, porém, receio: o penhor da vitória
está nesta divisa, que é a de todos os verdadeiros espíritas:
Fora da caridade não há
salvação. Arvorai-a bem alto, porque ela é
a cabeça de Medusa para os egoístas.
“A tática, posta já em
prática pelos inimigos dos espíritas, mas que eles vão empregar com
novo ardor, é tentar dividi-los criando sistemas divergentes e
suscitando entre eles a desconfiança e o ciúme. Não vos deixeis cair
no laço, e tende como certo que quem quer que procure um meio,
qualquer que seja, para quebrar a boa harmonia, não pode ter boa
intenção. É por isso que vos recomendo useis da maior circunspeção
na formação dos vossos grupos, não somente para vossa tranqüilidade,
como no próprio interesse dos vossos labores.
“A natureza dos
trabalhos espíritas exige calma e recolhimento. Ora, não há
recolhimento possível se se está preocupado com discussões e com a
manifestação de sentimentos malévolos. Não haverá sentimentos
malévolos se houver fraternidade; não pode, porém, haver
fraternidade em egoístas, ambiciosos e orgulhosos.
Entre orgulhosos, que
se suscetibilizam e ofendem por tudo, ambiciosos que se sentirão
mortificados se não tiverem a supremacia, egoístas que não pensam
senão em si, a cizânia não pode tardar a introduzir-se, e com ela a
dissolução. É o que desejariam os nossos inimigos, e é o que eles
procuram fazer.
“Se um grupo quer
estar em condições de ordem, de tranqüilidade e de estabilidade, é
preciso que nele reine o sentimento fraternal. Todo grupo ou
sociedade que se formar, sem ter caridade efetiva por base, não tem
validade; enquanto que aqueles que forem fundados de acordo com o
verdadeiro espírito da doutrina olhar-se-ão como membros de uma
mesma família que, não sendo possível habitarem todos sob o mesmo
teto, moram em lugares diferentes. A rivalidade entre eles seria um
contra-senso; ela não poderia existir onde reina a verdadeira
caridade, porque a caridade não se pode entender de duas maneiras.
“Reconhecei, pois, o
verdadeiro espírita na prática da caridade por pensamentos, palavras
e obras, e persuadi-vos de quem quer que nutra em sua alma
sentimentos de animosidade, de rancor, de ódio, de inveja ou de
ciúme, mente a si próprio se tem a pretensão de compreender e
praticar o Espiritismo.
“O egoísmo e o orgulho
matam as sociedades particulares, como matam os novos e a sociedade
em geral...”
Tudo mereceria citação
nestes conselhos, tão justos quão práticos; mas é preciso que nos
limitemos, em razão do tempo de que podemos dispor.
A pedido dos espíritas
de Lião e de Bordéus, Allan Kardec fez, em setembro e outubro, uma
longa viagem de propaganda semeando por toda parte a boa-nova e
prodigalizando conselhos, mas somente aos que lhos pediam; o convite
feito pelos grupos lioneses estava subscrito por quinhentas
assinaturas. Uma publicação especial deu conta dessa viagem de mais
de seis semanas, durante a qual o Mestre presidiu a mais de
cinqüenta reuniões em vinte cidades, onde por toda parte foi alvo do
mais cordial acolhimento e se sentiu feliz por verificar os imensos
progressos do Espiritismo.
A respeito das viagens
de Allan Kardec, como certas influências hostis houvessem espalhado
o boato de que eram feitas a expensas da Sociedade Parisiense de
Estudos Espíritas, sobre cujo orçamento igualmente ele sacava de
antemão todos os seus gastos de correspondência e de manutenção, o
Mestre rebateu, assim, essa falsidade:
“Muitas pessoas,
sobretudo na província, pensaram que as despesas dessas viagens
oneravam a Sociedade de Paris; tivemos que desfazer esse erro quando
se ofereceu a ocasião; aos que ainda o pudessem partilhar,
recordaremos o que afirmamos noutra circunstância (número de junho
de 1862, página 167, Revista
Espírita), que a Sociedade se limita a
prover às suas despesas correntes e não possui
reservas; para que pudesse acumular capital, ser-lhe-ia preciso que
tivesse em mira o número; e isto é o que ela não faz nem quer fazer,
porque o seu fim não é a especulação e porque o número nada
acrescenta à importância dos trabalhos. Sua influência é toda moral
e está no caráter de suas reuniões, que dão aos estranhos a idéia de
uma assembléia grave e séria; aí está o seu mais poderoso meio de
propaganda. Ela, pois, não poderia prover tal despesa. Os gastos de
viagem, como todos os que as nossas relações reclamam para o
Espiritismo, são tirados dos nossos recursos pessoais e das nossas
economias, aumentadas com o produto das nossas obras, sem o qual nos
seria impossível prover a todos os encargos, que são para nós a
conseqüência da obra que empreendemos. Isto é dito sem vaidade e
unicamente para render homenagem à verdade, e para edificação
daqueles aos quais se afigura que nós capitalizamos.”
Em 1862 Allan Kardec
fez também aparecer uma Refutação às críticas contra
o Espiritismo 9,
no ponto de vista do materialismo, da ciência e da religião.
9
Allan Kardec, no livro “Voyage
Spirite en 1862” (Ledoyen, Paris, 1862, Gr.in-8°, 64 p.p.), revela
ter desistido da idéia de publicar o
opúsculo que anunciara um ano antes (Revue Spirite, 1861, dez., p.
371) e que seria intitulado “Réfutation des critiques contre le
Spiritisme au point de vue matérialiste, scientifique et religieux”.
- Nota da FEB.
Em abril de 1864
publicou a Imitação do Evangelho segundo o Espiritismo, com a
explicação das máximas morais do Cristo, sua aplicação e sua
concordância com o Espiritismo. O título dessa obra foi depois
modificado, e é hoje O Evangelho
segundo o Espiritismo.
Aproveitando-se da
época das férias, Allan Kardec fez em setembro de 1864 uma viagem a
Antuérpia e a Bruxelas. Expondo aos espíritas belgas o seu modo de
ver acerca dos grupos e sociedades espíritas, recorda o que já havia
dito em Lião, em 1861: “Vale mais, portanto, haver em uma cidade cem
grupos de dez a vinte adeptos, em que nenhum se arrogue a supremacia
sobre os outros, do que uma única sociedade que a todos reunisse.
Esse fracionamento em nada pode prejudicar a unidade dos princípios,
desde que a bandeira é uma só e que todos se dirigem para um mesmo
fim.”
As sociedades
numerosas têm sua razão de ser sob o ponto de vista da propaganda;
mas, quanto aos estudos sérios e continuados, é preferível
constituírem-se grupos íntimos.
No dia 1° de agosto de
1865, Allan Kardec fez aparecer uma nova obra - O
Céu e o Inferno ou a Justiça Divina segundo o Espiritismo,
na qual são
mencionados numerosos exemplos da situação dos Espíritos, no mundo
espiritual e na Terra, e as razões que motivaram essa situação.
Os admiráveis êxitos
do Espiritismo, seu desenvolvimento quase incrível, criaram-lhe
inúmeros inimigos e, à proporção que ele se foi engrandecendo,
aumentou, também, a tarefa de Allan Kardec. O Mestre possuía uma
vontade de ferro, um poder de combatividade extraordinários; era um
trabalhador infatigável; de pé, em qualquer estação, desde às 4
horas e meia, respondia a tudo, às polêmicas veementes dirigidas
contra o Espiritismo, contra ele próprio, às numerosas
correspondências que lhe eram dirigidas; atendia à direção da
Revista Espírita e da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas,
à organização do Espiritismo e ao preparo das suas obras.
Esse excesso físico e
intelectual esgotou-lhe o organismo, e repetidas vezes os Espíritos
precisam chamá-lo à ordem, a fim de obrigá-lo a poupar a saúde. Ele,
porém, sabe que não deve durar mais que uns dez anos ainda:
numerosas comunicações o preveniram desse termo e lhe anunciaram
mesmo que a sua tarefa não seria concluída senão em nova existência,
que sucederia a breve trecho à sua próxima desencarnação; por isso
ele não quer perder ocasião alguma de dar ao Espiritismo tudo o que
pode, em força e vitalidade.
Em 1867 faz uma curta
viagem a Bordéus, Tours e Orleans; em seguida põe novamente mãos à
obra, para publicar, em janeiro de 1868, A Gênese, os milagres e
as predições segundo o Espiritismo. É das
mais importantes esta obra, porque
constitui, sob o ponto de vista científico, a síntese dos quatro
primeiros volumes já publicados. Allan Kardec ocupa-se, em seguida,
de um projeto de organização do Espiritismo, por meio do qual espera
imprimir mais vigor, mais ação à filosofia de que se fez apóstolo,
procurando desenvolver-lhe o lado prático e fazer-lhe produzir seus
frutos. O objeto constante das suas preocupações é saber quem o
substituirá em sua obra, porque sente que o desenlace está próximo;
e a constituição que elabora tem precisamente por fim prover
às necessidades futuras da Doutrina Espírita.
Desde os primeiros
anos do Espiritismo, Allan Kardec havia comprado, com o produto das
suas obras pedagógicas, 2.666 metros quadrados de terreno na avenida
Ségur, atrás dos Inválidos. Tendo essa compra esgotado os seus
recursos, ele contraiu com o Crédit Foncier um empréstimo de 50.000
francos para fazer construir nesse terreno seis pequenas casas, com
jardim; alimentava a doce esperança de recolher-se a uma delas, na
Vila Ségur, e torná-la-ia depois da sua morte asilo a que se
pudessem recolher na velhice os defensores indigentes do
Espiritismo.
Em 1869 a Sociedade
Espírita era reconstituída e tornada sociedade anônima, com o
capital de 40.000 francos, dividido em quarenta ações, para a
exploração da livraria, da Revista Espírita e das obras de
Allan Kardec. A nova sociedade devia instalar-se no dia 1° de abril,
à rua de Lille n° 7.
Allan Kardec, cujo
contrato de arrendamento na passagem Sant’Ana estava quase a
terminar, contava retirar-se para a Vila Ségur, a fim de trabalhar
mais ativamente nas obras que lhe restava fazer e cujo plano e
documentos se achavam já reunidos. Estava, pois, em todos os
preparativos de mudança de domicílio, quando a 31 de março a doença
de coração que o minava surdamente pôs termo à sua robusta
constituição e, como um raio, o arrebatou à afeição dos seus
discípulos. Essa perda foi imensa para o Espiritismo, que via
desaparecer o seu fundador e mais poderoso propagandista, e lançou
em profunda consternação todos os que o haviam conhecido e amado.
Hippolyte-Léon-Denizard Rivail - Allan Kardec - faleceu em Paris,
rua e passagem Sant’Ana, 59, 2ª circunscrição e mairie de la
Banque, em 31 de março de 1869, na idade de 65 anos, sucumbindo da
ruptura de um aneurisma.
Unânimes sentimentos
acolheram a dolorosa notícia, e numerosíssima
concorrência acompanhou ao Père Lachaise
10, sua
derradeira morada, os despojos
mortais daquele que fora Allan Kardec, daquele que, através dos
tempos, brilhará como um meteoro fulgurante na aurora do
Espiritismo.
10
Ver “Reformador” de abril de 1957, pág. 93.
Quatro orações foram
proferidas à beira do túmulo do Mestre: a primeira, pelo Sr. Levent,
em nome da Sociedade Espírita de Paris; a segunda, pelo Sr. Camille
Flammarion, que não fez somente um esboço do caráter de Allan Kardec
e do papel que cabe aos seus trabalhos no movimento contemporâneo,
mais ainda, e sobretudo,um exame da situação das ciências físicas,
no ponto de vista do mundo invisível, das forças naturais
desconhecidas, da existência da alma e da sua indestrutibilidade. Em
seguida, tomou a palavra o Sr. Alexandre Delanne, em nome dos
espíritas dos centros afastados; e, depois, o Sr. E. Muller, em nome
da família e dos seus amigos, dirigiu ao morto querido os últimos
adeuses.
A senhora Allan Kardec
tinha 74 anos por ocasião da morte de seu esposo.
Sobreviveu-lhe até
1883, ano em que, a 21 de janeiro, se extinguiu, na idade de 89
anos, sem herdeiros diretos.
Erraria quem
acreditasse que, em virtude dos seus trabalhos, Allan Kardec devia
ser uma personagem sempre fria e austera. Não era, entretanto,
assim. Esse grave filósofo, depois de haver discutido pontos mais
difíceis da psicologia e da metafísica transcendental, mostrava-se
expansivo, esforçando-se por distrair os convidados que ele
freqüentemente recebia na Vila Ségur; conservando-se sempre digno e
sóbrio em suas expressões, sabia adubá-las com o nosso velho sal
gaulês em rasgos de causticante e afetuosa bonomia. Gostava de rir
com esse belo riso franco, largo e comunicativo, e possuía um
talento todo particular em fazer os outros partilharem do seu
bom-humor.
Todos os jornais da
época se ocuparam da morte de Allan Kardec e procuraram medir-lhe as
conseqüências. Eis aqui, a título de lembrança, o que a esse
respeito escrevia o Sr. Pagès de Noyez, no Journal de Paris,
de 3 de abril de 1869:
“Aquele que por tão
longo tempo ocupou o mundo científico e religioso sob o pseudônimo
de Allan Kardec, chamava-se Rivail e morreu na idade de 65 anos.
“Vimo-lo deitado num
simples colchão, no meio da sala das sessões a que há tantos anos
ele presidia; vimo-lo com o semblante calmo como se extinguem
aqueles a quem a morte não surpreende e que, tranqüilos quanto ao
resultado de uma vida honesta e laboriosamente preenchida, imprimem
como que um reflexo da pureza de sua alma sobre o corpo que
abandonaram.
“Resignados pela fé em
uma vida melhor, e pela convicção da imortalidade da alma, inúmeros
discípulos tinham vindo lançar um derradeiro olhar àqueles lábios
descorados que, ainda na véspera, lhes falavam a linguagem da Terra.
Mas eles recebiam já a consolação de além-túmulo: o Espírito de
Allan Kardec veio dizer-lhes quais haviam sido as suas comoções,
quais as suas primeiras impressões, quais, dos que o haviam
precedido no além-túmulo, tinham vindo ajudar-lhe a alma a
desprender-se da matéria. Se “o estilo é o homem”, aqueles que
conheceram Allan Kardec em vida não podem deixar de ficar
emocionados pela autenticidade dessa comunicação espírita.
“A morte de Allan
Kardec é notável por uma coincidência estranha. A Sociedade fundada
por esse grande vulgarizador do Espiritismo acabava de desaparecer.
Abandonado o local, retirados os móveis, nada mais restava de um
passado que devia renascer sobre novas bases. No fim da última
sessão, o presidente fizera as suas despedidas; preenchida a sua
missão, retirava-se da luta cotidiana, para se consagrar
inteiramente ao estudo da filosofia espiritualista. Outros, mais
jovens -intrépidos - deveriam continuar a obra e, fortes por sua
virilidade, impor a verdade por sua convicção.
“Para que referir os
detalhes da morte? Que importa o modo por que se partiu o
instrumento, e por que consagrar uma linha a esses fragmentos de ora
em diante mergulhados no turbilhão imenso das moléculas? Allan
Kardec morreu na sua hora própria. Com ele terminou o prólogo de uma
religião vivaz, que, irradiando todos os dias, cedo terá iluminado
toda a Humanidade. Ninguém melhor que ele podia conduzir a bom termo
essa obra de propaganda, à qual era necessário sacrificar as longas
vigílias que alimentam o espírito, a paciência que educa com o
correr do tempo, a abnegação que afronta a estultícia do presente,
para não ver senão a irradiação do futuro.
“Allan Kardec terá,
com suas obras, fundado o dogma pressentido pelas mais antigas
sociedades. Seu nome, apreciado como o de um homem de bem, está há
muito tempo vulgarizado pelos que crêem e pelos que receiam. É
difícil praticar o bem sem chocar os interesses estabelecidos. O
Espiritismo destrói muitos abusos, reanima muitas consciências
doloridas, dando-lhes a certeza da prova e a consolação do futuro.
“Os espíritas choram
hoje o amigo que os deixa, porque o nosso entendimento, por assim
dizer, material, não se pode submeter a essa idéia de
transição; pago, porém, o primeiro tributo
a essa inferioridade do nosso organismo,
o pensador ergue a cabeça e através desse mundo invisível, que ele
sente existir além do túmulo, estende a mão ao amigo, que já não
existe, convencido de que o seu Espírito nos protege sempre.
“O presidente da
Sociedade Espírita de Paris está morto; mas o número de adeptos
cresce todos os dias, e os corajosos, os quais pelo respeito ao
Mestre se deixavam ficar no segundo plano, não hesitarão em se
evidenciarem, por bem da grande causa.
“Esta morte, que o
vulgo deixará passar indiferente, não deixa de ser, por isso, um
grande fato para a Humanidade. Não é mais o sepulcro de um homem, é
a pedra tumular enchendo esse imenso vácuo que o materialismo cavara
aos nossos pés e sobre o qual o Espiritismo esparge as flores da
esperança.”
Um ponto sobre o qual
não atraí a vossa atenção, mas que devo assinalar, é a caridade
verdadeiramente cristã de Allan Kardec; dele se pode dizer que a mão
esquerda ignorou sempre o bem que fazia a direita, e que esta ainda
menos conheceu os botes que à outra atiravam aqueles para quem o
reconhecimento é um fardo excessivamente pesado. Cartas anônimas,
insultos, traições, difamações sistemáticas, nada foi poupado a esse
intrépido lutador, a essa alma grande e varonil que penetrou
integralmente na imortalidade.
O despojo mortal de
Allan Kardec repousa no Père Lachaise, em Paris, sob modesta lápide
erigida pela piedade dos seus discípulos; é aí que se reúnem todos
os anos,
desde 1869 11,
os adeptos que têm guardado fidelidade à memória do Mestre e
conservam preciosamente no coração o culto da saudade.
E já que um sentimento
análogo nos reúne hoje, repitamos bem alto, minhas senhoras, meus
senhores:
Honra! Honra e
glória a Allan Kardec!12
Henri Sausse.
11
Ver “Reformador” de abril de 1957,
pág. 93.
12
Recomendamos, aos que o desejarem,
a leitura da obra “ALLAN KARDEC”
(Meticulosa Pesquisa
Biobibliográfica e Ensaios de Interpretação),
de Zêus Wantuil e Francisco Thiesen, em três volumes, na
qual se encontram valiosos subsídios para o conhecimento da vida e
obra do Mestre Allan Kardec. - Nota da
FEB.
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