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A mediunidade de Eusapia Palladino
marca um estágio importante na história da pesquisa psíquica, porque
foi ela a primeira dos médiuns de fenômenos físicos a ser examinada
por um grande número de homens de ciência. As principais
manifestações que ocorreram com ela consistiam no movimento de
objetos sem contato, a levitação de uma mesa e outros objetos, a
levitação do médium, o aparecimento de mãos materializadas, de
rostos, de luzes, além da execução de músicas em instrumentos, mas
sem contato humano. Todos esses fenômenos ocorreram, como vimos,
muito anteriormente com o médium D. D. Home, mas quando Sir William
Crookes convidou seus colegas para que viessem examiná-lo, eles
declinaram do convite. Agora, pela primeira vez esses fatos
estranhos eram submetidos a prolongada investigação por homens de
reputação na Europa. Desnecessário é dizer que esses
experimentadores inicialmente eram cépticos no mais alto grau e os
chamados testes – freqüentemente mesquinhas precauções que
comprometem o objetivo visado – estavam na ordem do dia. Nenhum
médium em todo o mundo foi mais duramente examinado do que essa
mulher e, desde que foi capaz de convencer a grande maioria dos
assistentes, é claro que a sua mediunidade não era do tipo comum.
Desnecessário dizer que nenhum pesquisador deveria ser admitido à
sala das sessões sem, pelo menos, um conhecimento elementar das
complexidades da mediunidade e das corretas condições para a sua
manifestação ou sem, por exemplo, uma compreensão da verdade básica
que não é o médium só, mas igualmente os assistentes, que são
fatores no êxito da experiência. Nem um só homem de ciência em mil
reconhece isto; e o fato de ter Eusapia triunfado a despeito dessa
tremenda desvantagem, é um eloqüente tributo à sua força.
A carreira mediúnica dessa
napolitana humilde e iletrada, de tão grande interesse e de extrema
importância quanto aos resultados, ainda oferece outro exemplo da
humildade empregada como instrumento para esmagar os sofismas dos
sábios. Eusapia nasceu a 21 de janeiro de 1854 e morreu em 1918.
Sua mediunidade começou a manifestar-se quando tinha cerca de
catorze anos. A mãe morrera quando ela nasceu e o pai quando ela
estava com doze anos. Em casa de amigos, com quem foi morar,
persuadiram-na a que se sentasse à mesa com outras pessoas. No fim
de dez minutos, a mesa foi levitada, as cadeiras começaram a dançar,
as cortinas da sala a ser puxadas, os copos e garrafas a se
moverem. Cada assistente foi examinado por sua vez, para se
descobrir quem era responsável pelos movimentos; no fim constatou-se
que Eusapia era o médium. Ela não tomou interesse nas experiências
e só consentiu em fazer novas sessões para agradar aos hóspedes e
evitar ser mandada para um convento. Só aos vinte e dois ou vinte e
três anos é que começou a sua educação espírita e então, de acordo
com Flammarion, foi dirigida por um ardoroso espírita, Signor
Damiani.
Em conexão com esse período Eusapia
relata um incidente interessante. Em Nápoles uma senhora inglesa
que se havia casado com o Sr. Damiani foi aconselhada por um
Espírito que dava o nome de John King, a procurar uma senhora
chamada Eusapia, num determinado endereço. Disse que se tratava de
uma poderosa médium, através da qual ele pretendia manifestar-se. A
Sra. Damiani foi ao endereço marcado e encontrou Eusapia Palladino,
de quem jamais ouviu falar. As duas senhoras fizeram uma sessão e
John King controlou a médium, de quem passou, daí em diante, a ser o
guia.
Sua primeira apresentação ao mundo
cientifico europeu foi através do Professor Chiaia, de Nápoles, que
em 1888 publicou num jornal de Roma uma carta ao Professor Lombroso,
dando detalhes de suas experiências e convidando esse célebre
alienista a fazer investigações diretas com a médium. Só em 1891
Lombroso aceitou o convite e em fevereiro daquele ano fez duas
sessões com Eusapia, em Nápoles. Converteu-se e escreveu: “Estou
cheio de confusão e lamento haver combatido com tanta persistência a
possibilidade dos fatos chamados espíritas”. Sua conversão levou
muitos cientistas importantes da Europa a investigar e daí em diante
a Sra, Palladino esteve ocupada durante muitos anos em sessões
experimentais.
As
sessões de Lombroso em Nápoles em 1891, foram seguidas pela Comissão
de Milão em 1892, que contava com o Professor Schiaparelli, Diretor
do Observatório de Milão, o Professor Gerosa, Catedrático de Física,
Ermacora, Doutor em Filosofia Natural, Aksakoff, Conselheiro de
Estado do Tzar da Rússia, Charles Du Prel, Doutor em Filosofia de
Munique, e o Professor Charles Richet, da Universidade de Paris.
Foram realizadas dezesseis sessões. Depois veio a investigação em
Nápoles, em 1893; em Roma, entre 1893 e 1894; em Varsóvia e na
França, em 1894 – esta última sob a direção do Professor Richet, de
Sir Oliver Lodge, de Mr. F. W. H. Myers e do Dr. Ochorowicz; em
1895, em Nápoles, e no mesmo ano na Inglaterra, em Cambridge, em
casa de Mr. Myers, em presença do Professor e de Mrs. Sidgwick, de
Sir Oliver Lodge e do Dr. Richard Hodgson. Foram continuadas em
1895, na França, em casa do Coronel de Rochas; em 1896 em Tremezzo,
em Auteuil e em Choisy Yvrac; em 1897 em Nápoles, Roma, Paris,
Montfort e em Bordéus; em Paris, em novembro de 1898, em presença de
uma comissão de cientistas, composta dos senhores Flamarem, Chrales
Richet, A de Rochas, Victorien Sardou, Jules Claretie, Adolphe
Bisson, Gabriel Delanne, G. de Fontenay e outros, também em 1901 no
Clube Minerva de Genebra, em presença dos Professores Porro,
Morselli, Bozzano, Venzano, Lombroso, Vassalo e outros. Houve
muitas outras sessões experimentais com homens de ciência, tanto da
Europa quanto da América.
Em sua carta ao Professor Lombroso,
já referida, o Professor Chiaia fez uma vívida descrição dos
fenômenos que ocorriam com Eusapia. Convidou-o a observar um caso
especial, que considera digno de atenção da mente de Lombroso, e
continua:
“Refiro-me ao caso de uma mulher
inválida, da mais humilde camada social. Tem cerca de trinta anos e
é muito ignorante; seu olhar nem é fascinante, nem dotado daquele
poder que os modernos criminalistas chamam irresistível. Mas quando
ela quer, seja de dia ou noite, pode divertir um grupo durante uma
hora ou mais, com os mais curiosos fenômenos. Tanto amarrada a uma
cadeira, quanto segura pelas mãos dos assistentes, atrai a si móveis
e objetos que a cercam, levanta-os, mantendo-os suspensos no ar,
como o féretro de Maomé, e fá-los descer novamente com um movimento
ondulatório, como se obedecessem à sua vontade. Aumenta ou diminui
à vontade o seu peso. Ouvem-se arranhaduras e batidas nas paredes,
no teto, no soalho, com muito ritmo e cadência. Em resposta a
perguntas dos assistentes, algo como jatos de eletricidade emana de
seu corpo e a envolve ou aos espectadores dessas cenas
maravilhosas. Desenha sobre cartões que os outros seguram, aquilo
que se deseja – figuras, assinaturas, números, sentenças – apenas
estirando a mão na direção indicada. Se se colocar num canto da
sala uma bacia contendo uma camada fina de cal, no fim de algum
tempo aí se encontra a impressão de uma pequena ou de uma grande
mão, um rosto, de frente ou de perfil, do qual se poderia tirar um
molde. Assim tem sido conservados retratos tirados de vários
ângulos e os que desejam podem assim fazer sérios estudos. Essa
mulher ergue-se no ar, sejam quais forem as amarras que a
sustentam. Parece librar-se no ar como se sobre um colchão,
contrariando todas as leis da gravidade. Toca instrumentos de
música – órgãos, sinos, tamborins – como se eles tivessem sido
tocados por suas mãos ou movidos pelo sopro de invisíveis
gnomos... "Essa mulher por vezes aumenta a sua estatura de mais de
dez centímetros.“
Como vimos, o Professor Lombroso
interessou-se bastante por essa descrição e investigou. O
resultado foi que se converteu. A Comissão de Milão, que foi a
seguinte a experimentar, em 1892, assim diz em seu relatório:
“É
impossível dizer o número de vezes que uma mão apareceu e foi tocada
por um de nós. Basta dizer que a dúvida já não era possível.
Realmente era uma mão viva que víamos e tocávamos, enquanto, ao
mesmo tempo, o busto e os braços do médium estavam visíveis e suas
mãos eram seguras pelos que se achavam ao seu lado”.
Muitos fenômenos ocorreram à luz de
duas velas ou lâmpadas de óleo e as mesmas ocorrências foram
testemunhadas em plena luz, quando o médium estava em transe. O Dr.
Ochorowicz persuadiu Eusapia a visitar Varsóvia em 1894 e as
experiências aí foram feitas em presença de homens e senhoras
eminentes nos círculos científicos e filosóficos. O relato dessas
sessões diz que levitações parciais e completas da mesa e muitos
outros fenômenos físicos foram conseguidos. Essas levitações se
deram quando os pés do médium eram vistos à luz ou quando eram
amarrados e seguros por um assistente ajoelhado debaixo da mesa.
Depois das sessões em casa do
Professor Richet, em 1894, na Ilha de Roubaud, fazendo um relatório
à Sociedade de Pesquisas da Inglaterra, disse Sr.Oliver Lodge:
Conquanto os fatos devam ser
explicados, sou forçado a admitir a sua possibilidade. Em minha
mente não há mais lugar para dúvidas. Qualquer pessoa sem
invencível preconceito que tenha tido a mesma experiência terá
chegado à mesma larga conclusão, isto é, que atualmente acontecem
coisas consideradas impossíveis... O resultado de minha experiência
é convencer-me de que certos fenômenos geralmente considerados
anormais, pertencem à ordem natural e, como um corolário disto, que
esses fenômenos devem ser investigados e verificados por pessoas e
sociedades interessadas no conhecimento da natureza.
Na sessão em que Sir Oliver Lodge
leu o seu relatório, Sir William Crookes chamou a atenção para a
semelhança entre os fenômenos que ocorriam com Eusápia e os que se
davam em presença de Daniel D. Home.
O relatório de Sir Oliver Lodge foi
combatido pelo Dr. Richard Hodgson, então presente nos Estados
Unidos, e, como conseqüência, Eusápia Palladino e o Dr. Hodgson
foram convidados para uma série de sessões na Inglaterra, em
Cambridge, as quais se realizaram em agosto e setembro de 1895, em
casa de Mr. F. W. Myers. Essas “experiências de Cambridge”, como
foram chamadas, na sua maioria foram mal sucedidas e alegou-se que a
médium foi seguidamente pilhada em fraude. Escreveu-se muito pró e
contra, na acesa controvérsia que se seguiu. Basta dizer que
observadores competentes recusaram esse veredicto contra Eusapia, e
condenaram formalmente os métodos empregados em Cambridge pelo grupo
de experimentadores.
É interessante lembrar que um
repórter americano, por ocasião da visita de Eusápia aos Estados
Unidos em 1910, lhe perguntou à queima-roupa se alguma vez havia
sido surpreendida em fraude. Eusapia respondeu francamente: “Muitas
vezes dizem que sim. O senhor vê, é assim. Alguns dos que estão à
mesa esperam truques; na verdade os desejam. Eu estou em transe.
Nada acontece. Eles ficam impacientes; pensam em truques, e eu – Eu
– automaticamente respondo. Mas não é freqüente. Apenas querem que
eu os pratique. Eis tudo”. Isso parece uma engenhosa adaptação de
uma defesa, que Eusápia ouviu outros fazerem a favor dela. Ao mesmo
tempo há nisso, inquestionavelmente, um elemento de verdade, que é o
aspecto psicológico da mediunidade ainda pouco compreendido.
Em relação ao caso podem ainda
fazer-se duas observações importantes. Primeiro, como bem indicou o
Dr. Hereward Carrington, várias experiências conduzidas com o fito
de repetir os fenômenos por meios fraudulentos resultaram em
completo fracasso em quase todos os casos. Em segundo lugar, ao que
parece, os assistentes das sessões de Cambridge eram completamente
ignorantes da existência e do modo de agir daquilo que pode ser
chamado de “alavanca ectoplásmica”, fenômeno observado no caso de
Slade e de outros médiuns. Diz Carrington: -Todas as objeções de
Mrs. Sidwick podem ser resolvidas se admitirmos, em certas ocasiões,
um terceiro braço, que produz esees fenômenos e que se recolhe ao
seu próprio corpo quando esses se realizaram-. Agora, por mais
estranho que pareça, é justamente essa a conclusão a que conduzem
abundantes indicações. Já em 1884 Sir Oliver Lodge viu aquilo que
descreve como “uma aparência de membros extra”, em continuação do
corpo de Eusapia ou muito junto a este. Com essa segurança que
muitas vezes a ignorância se permite, o comentário editorial no
Jornal da Sociedade de Pesquisas Psíquicas, no qual foi publicado o
relato de Sir Oliver, diz: “É absolutamente necessário observar que
a continuidade dos membros do” Espírito “com o corpo do médium é,
prima facie, uma circunstancia altamente sugestiva de fraude”.
Mas, posteriores cientistas
investigadores confirmam amplamente a suposição de Sir Oliver Lodge.
Declara o Professor Botazzi:
De outra feita, mais tarde, a mesma
mão se colocou sobre o meu antebraço direito, sem fazer pressão.
Nessa ocasião não só levei a mão esquerda para o lugar, como olhei,
de modo que podia ver e sentir ao mesmo tempo: e vi uma mão humana,
de cor natural, e com os meus dedos senti os dedos e as costas de
uma mão tépida nervosa e áspera. A mão se dissolveu – eu vi com os
próprios olhos – retraindo-se como se para dentro do corpo da
senhora Palladino, descrevendo uma curva. Confesso que tive dúvidas
se a mão esquerda da senhora Palladino se tinha libertado da minha
direita, para alcançar o meu antebraço, mas no mesmo instante fui
capaz de provar a mim mesmo que essa dúvida não tinha fundamento,
porque nossas duas mãos permaneciam em contato, como de costume. Se
todos os fenômenos observados nessas sete sessões desaparecessem da
minha memória, eu jamais esqueceria este.
Em 1907 o Professor Galeotti viu
aquilo a que chamou o duplo do braço esquerdo do médium. E
exclamou: “Olhem! Eu vejo dois braços esquerdos, de idêntica
aparência! Um está sobre a mesinha e é tocado pelo senhor Bottazi e
o outro parece que sai de seu ombro – para se aproximar dela,
toca-la e voltar a fundir-se novamente em seu corpo. Isto não é uma
alucinação”.
Numa sessão em julho de 1905, em
casa do senhor Berisso, quando as mãos de Eusápia eram inteiramente
controladas e visíveis a todos, o Dr. Venzano e outros presentes
“viram distintamente uma mão e um antebraço, coberto por uma manga
escura que saía da frente e da parte superior do ombro direito da
médium”.
Como contribuição para o estudo das
complexidades da mediunidade, principalmente de Eusápia, o caso
seguinte merece séria atenção. Numa sessão com o Professor Morselli,
Eusapia tinha sido apanhada libertando-se da mão do professor e
tentando apanhar uma corneta que se achava sobre a mesa. Foi
obstada de o fazer. Então, diz o relatório:
“Neste momento, quando certamente
mais rigoroso era o controle, a corneta foi erguida da mesa e
desapareceu dentro da cabine, passando entre a médium e o Dr.
Morselli. Evidentemente a médium tinha tentado fazer com a mão o
que a seguir fez mediunicamente. Um esforço tão fútil e tão inútil,
para fraudar é inexplicável. Não há dúvidas a respeito; desta vez a
médium não tocou, nem podia tocar na corneta; e, mesmo que a tivesse
alcançado, não a teria levado para a cabine, que fica às suas
costas”.
Deve ser lembrado que o canto da
sala tinha uma cortina, que formava a chamada cabine, isto é, um
recinto fechado para reunir força, e que Eusápia, ao contrário dos
outros médiuns, sentava-se do lado de fora, a cerca de trinta
centímetros, ficando a cortina às suas costas.
Em
1895 a Sociedade de Pesquisas Psíquicas tinha decidido que todos os
fenômenos de Eusápia eram fraudulentos e não queria mais contato com
ela. Mas no continente europeu grupo após grupo de cientistas
investigadores, tomando as mais rigorosas precauções, atestaram os
dons de Eusápia. Então em 1908 a referida Sociedade decidiu
examinar a médium mais uma vez. Nomeou três de seus cépticos mais
capacitados. Um deles, Mr. W. W. Baggally, membro do Conselho,
tinha investigado os fenômenos psíquicos por mais de trinta e cinco
anos e, durante esse tempo – com exceção, talvez, de uns poucos
incidentes numa sessão com Eusápia, poucos anos antes – jamais havia
testemunhado um único fenômeno físico legitimo. “Em todas as suas
investigações sempre tinha verificado fraudes e nada mais que
fraudes”. Ainda mais, era um hábil ilusionista. Mr. Everard
Fielding, secretário honorário da Sociedade, tinha feito
investigações por alguns anos, mas “durante todo esse tempo jamais
tinha visto um fenômeno físico que lhe parecesse conclusivamente
provado”, a não ser, talvez, um caso em sessão com Eusapia. O Dr.Hereward
Carrington, o terceiro nomeado, conquanto tivesse assistido a
inúmeras sessões, podia dizer que até assistir a uma sessão com
Eusapia, “jamais tinha visto uma única manifestação de ordem física
que pudesse considerar autentica”.
À primeira vista esse registro dos
três investigadores parece esmagador para o que pensavam os
Espíritas. Mas nas investigações de Eusapia Palladino esse trio de
cépticos teve o seu Waterloo. A história completa de sua longa e
paciente pesquisa desse médium em Nápoles encontra-se no livro do
Dr. Hereward Carrington “Eusapia Palladino and her Phenomena”
(1909).
Como prova da cuidadosa
investigação dos cientistas do continente, devemos lembrar que o
Professor Morselli observou nada menos que trinta e nove tipos
diversos de fenômenos que se passavam com Eusapia Palladino.
Os incidentes que se seguem devem
ser lembrados porque bem podem ser classificados sob o titulo de
“Provas malucas”. De uma sessão em Roma, em 1894, em presença do
Professor Richet, do Dr. Notzing, do Professor Lombroso e de outros,
o relatório diz o seguinte:
Esperando obter o movimento de um
objeto sem contacto, colocamos um pedacinho de papel dobrado em
forma de A sob um copo em
cima de um disco de papelão fino... Nada se tendo verificado, não
quisemos fatigar a médium e deixamos as coisas em cima de uma grande
mesa. Então tomamos os nossos lugares em redor da mesinha, depois
de havermos fechado cuidadosamente todas as portas, cujas chaves
pedimos aos convidados que guardassem nos bolsos, para que não nos
acusassem de não havermos tomado todas as precauções.
A luz foi apagada. Logo ouvimos
soar o copo sobre a mesa e tendo acendido uma luz, encontramo-lo em
nosso meio e na mesma posição, emborcado e cobrindo o pedacinho de
papel. Só que o papelão estava faltando. Em vão o procuramos.
Terminada a sessão conduzi os convidados mais uma vez para a
antecâmara. O Sr. Richet foi o primeiro a abrir a porta, bem
aferrolhada por dentro. Qual não foi a sua surpresa quando
percebeu, perto da soleira da porta e do outro lado, na caixa da
escada, o disco que tanto procuramos! Apanhou-o e todos
reconheceram o papelão que fora posto debaixo do copo.
Uma forte prova digna de registro é
a de que o Sr. De Fontenay fotografou várias mãos que apareciam
sobre a cabeça de Eusapia e numa das fotografias as mãos da médium
aparecem bem seguras pelos investigadores. Essas fotografias são
reproduzidas nos “Annals of Psychical Science”, de abril de 1908.
Na sexta e última sessão dessa
série em Gênova, com o Professor Morselli, em 1906/7, foi obtida uma
prova decisiva. A médium estava amarrada no divã com uma larga
faixa, como as camisas de força usadas nos asilos. Morselli, com a
experiência de um alienista, realizou a operação e ainda amarrou-lhe
os punhos e os tornozelos. Depois foi acesa uma lâmpada vermelha de
dez velas. A mesa, que estava livre de qualquer contacto, movia-se
de vez em quando, foram vistas pequenas luzes e uma mão. Num dado
momento, abriu-se uma cortina em frente à cabine, deixando ver a
médium estirada e bem amarrada. Diz o relatório:
Os fenômenos eram inexplicáveis, de
vez que, dada a sua posição, qualquer movimento era impossível.
Em conclusão, aqui estão os relatos
de dois casos, entre muitos, de materializações convincentes. O
primeiro é descrito pelo Dr. Joseph Venzano, nos “Annals of
Psychical Science”, de setembro de 1907. Havia a luz de uma vela,
que permitia se visse as figura da médium:
A despeito das pouca luz, eu podia
ver distintamente a Senhora Palladino e meus companheiros. De
súbito, percebi que detrás de mim havia uma forma, bastante alta,
que estava inclinando a cabeça sobre o meu ombro esquerdo e
soluçando violentamente, tanto que os presentes ouviam os soluços:
beijava-me repetidas vezes. Percebi claramente os traços
fisionômicos, que me tocavam o rosto e senti os seus cabelos finos e
abundantes em contacto com a minha face esquerda, de modo que eu
tinha certeza que era uma mulher. Então a mesa começou a mover-se
e pela tiptologia deu o nome de uma ligação de família, de todos
desconhecida, exceto por mim. Tinha morrido algum tempo antes e,
devido a uma incompatibilidade temperamental houve sérios desacordos
com ela. Eu estava tão longe de esperar essa resposta tiptológica
que a princípio pensei que fosse mera coincidência de nome; mas
enquanto mentalmente eu fazia tal reflexão, senti uma boca, com o
sopro quente, tocar-me a orelha esquerda e sussurrar, em voz baixa,
em dialeto genovês, uma porção de frases que os assistentes podiam
ouvir. Essas sentenças foram interrompidas por um soluço e o tema
era, repetidamente, o pedido de perdão de injúrias feitas a mim, com
uma riqueza de detalhes ligados a assuntos familiares que só
poderiam ser conhecidos da pessoa em questão. O fenômeno parecia
tão real que me vi obrigado a responder aos pedidos de desculpas com
frases afetuosas e, por meu turno, pedir perdão se qualquer
ressentimento pelos mal-entendidos tinham sido excessivos. Mal eu
tinha pronunciado as primeiras silabas e duas mãos, com excessiva
delicadeza, se aplicaram sobre os meus lábios, evitando que eu
continuasse. Então a forma me disse obrigado, abraçou-me, beijou-me
e desapareceu.
Com outros médiuns tem havido
melhores materializações do que esta e com melhor luz; mas no caso
havia uma prova interior e mental de identidade.
O último exemplo que daremos
ocorreu em Paris, em 1898, numa sessão em que se achava presente
Flammarion, quando o sr. Le Bocain de dirigiu em árabe a um Espírito
materializado e disse: “Rosália, se és tu que te encontras entre
nós, puxa-me três vezes o cabelo na parte posterior da cabeça”.
Cerca de dez minutos depois e quando o sr. Le Bocain quase havia
esquecido o pedido, sentiu que lhe puxavam o cabelo três vezes,
exatamente como havia pedido. E disse: “Certifico este fato que,
além disso, constituiu para mim a mais convincente prova da presença
de um Espírito familiar junto a mim”. E acrescenta que é
desnecessário dizer que Eusapia não sabe árabe.
Os adversários e uma parte dos
pesquisadores de psiquismo acham que os fenômenos que ocorrem numa
sessão têm pouco valor probante, porque os observadores comuns não
conhecem os recursos dos mágicos. Em 1910, em New York, o Dr.
Hereward Carrington levou a uma sessão de Eusapia Mr. Howard
Thurston, que descreve como o mais notável mágico da América. Mr.
Thurston que, com o seu assistente, controlava as mãos e os pés da
médium em boa luz, descreve: “Fui testemunha pessoal das levitações
da mesa da Senhora Palladino... e estou absolutamente convencido de
que os fenômenos que vi não eram devidos à fraude e não foram
executados nem por seus pés, nem por seus joelhos ou mãos”.
Ele se prontificou a dar mil
dólares a uma instituição de caridade se provassem que essa médium
não era capaz de levitar uma mesa sem um dispositivo para truque ou
frade.
Perguntar-se-á qual o resultado de tantos anos de investigação com
essa médium. Certo número de cientistas, sustentando com Sir David
Brewster que o Espírito seria a última hipótese que admitiriam,
inventaram hipóteses engenhosas para explicar os fenômenos, de cuja
autenticidade estavam convencidos. O Coronel de Rochas procurou
explicá-los pelo que chamou “exteriorização da motricidade”. O Sr.Le
Bocain falava de uma teoria dinâmica da matéria; outros pensavam
numa “força ectênica” e numa “consciência coletiva” ou na ação da
mente subconsciente; mas aqueles casos, bem autenticados, onde a
operação de uma inteligência independente se mostrava claramente,
tornou insustentáveis essas tentativas de explicação. Vários
experimentadores foram forçados a aceitar a hipótese espírita como a
única que explicava todos os fatos de maneira razoável. Diz o Dr.
Venzano: “No maior número de formas materializadas por nós
percebidas, quer pela vista, quer pelo tato, ou pela audição,
foi-nos possível reconhecer pontos de semelhança com pessoas mortas,
geralmente nossos parentes, desconhecidos da médium e apenas
conhecidos dos presentes relacionados com os fenômenos”.
O Dr.
Hereward Carrington vacila.
Considerando a
opinião der Mrs. Sidgwick de que é inútil especular se os fenômenos
são de caráter espírita ou se representam “alguma lei biológica
desconhecida”, até que os fatos se hajam estabelecido por si mesmos,
diz: “Devo dizer que, antes de eu mesmo realizar sessões, também
concordava com o ponto de vista de Mrs. Sidgwick”. E acrescenta:
“Minhas próprias sessões me convenceram finalmente e de modo
conclusivo de que os fenômenos verdadeiros devem ocorrer, e que,
neste caso, a questão de sua interpretação se esclarece à minha
frente... Penso que não só a hipótese espírita se justifica como uma
teoria aceitável, mas que é, de fato, a única capaz de uma
explicação racional dos fatos”.
Como dissemos de
inicio, a mediunidade de Eusapia Palladino era semelhante à de
outros, mas tinha ela a vantagem de chamar a atenção de homens de
influência, cujo relato público de seus fenômenos teve um prestígio
de que não gozaram as descrições feitas por gente menos conhecida.
Especialmente Lombroso registrou as suas convicções na conhecida
obra: “Morte – E depois?, aparecida em 1909. Eusapia foi o
instrumento de demonstração de certos fatos não aceitos pela
ortodoxia científica. Para o mundo é mais fácil negar esses fatos
do que os explicar – o que constitui a norma geralmente seguida.
Aqueles que procuram
explicar toda a mediunidade de Eusapia por meio do hábito aparente
de enganar, consciente ou inconscientemente, os assistentes, apenas
procuram enganar-se a si mesmos. Que houve esses truques é fora de
dúvida. E Lombroso, que endossa a legitimidade de sua mediunidade,
assim descreve os truques:
“Muitos são os
engenhosos truques que ela emprega, quer no estado de transe, isto
é, inconscientemente, quer não. Por exemplo, libertando uma das
mãos, seguras pelos controladores, com o objetivo de mover objetos
próximos; fazendo toques; levantando devagarzinho as pernas da mesa,
quer com os joelhos, quer com um pé; fingindo arranjar os cabelos e
aproveitando a circunstância para colocar uma mecha sobre o prato de
uma balança pesa-cartas, a fim de o mover. Foi vista por Faifofer,
antes da sessão, colhendo furtivamente flores num jardim, para
fingir algum transporte, aproveitando a obscuridade da sala... E
ainda a sua profunda tristeza é a de ser acusada de trapaça durante
a sessão – por vezes, também, acusada injustamente, força é
confessar, porque agora temos certeza de que membros fantásticos são
ajustados ao seu corpo e atuam como substitutos, quando foram sempre
tomados como sendo os seus próprios membros, apanhados no momento de
realizar uma trapaça”.
Em sua visita à
América, já no seu declínio, quando os seus dons estavam em declínio
também, foi pilhada nesses truques e de tal modo ofendeu os
assistentes que estes se afastaram; mas Toward Thurston, o famoso
ilusionista, diz que resolveu por tudo isto de lado e continuar a
sessão, cujo resultado foi uma autêntica materialização. Outro
conhecido assistente depõe que no próprio instante em que a
censurava por mover um objeto com a mão, outro objeto, bastante
longe dela, moveu-se ao longo da mesa. Seu caso é na verdade
peculiar; pois deve ser dito com mais verdade a seu respeito, do que
em relação a qualquer outro médium, que ficou provado que possuía
poderes psíquicos e também que, mais do que nenhum outro aproveitou
esses poderes para enganar. Nisto, como sempre, o que conta é o
resultado positivo.
Eusapia tinha uma depressão característica do parietal, causada, ao
que se diz, por um acidente na infância. Tais defeitos físicos muito
comumente estão associados com poderosa mediunidade. É como se a
fraqueza física causasse aquilo que pode ser descrito como um
deslocamento da alma, de modo que esta fica mais destacada e capaz
de ações independentes. Assim, a mediunidade de Mrs. Piper
seguiu-se a duas operações internas; a de Home acompanhou a sua
diátese tuberculosa. Muitos outros casos podem ser citados. Sua
natureza era histérica, impetuosa e irrequieta, mas possuía alguns
traços bonitos. Dela diz Lombroso que possuía “uma singular bondade
de coração, que a levava a distribuir o que ganhava com os pobres e
com as crianças, para aliviar os seus infortúnios, o que a impelia a
sentir uma ilimitada piedade pelos velhos e pelos doentes, a ponto
de passar noites em claro, pensando neles. A mesma bondade de
coração a leva a proteger os animais que estão sendo maltratados,
advertindo asperamente o cruel opressor”. Esta passagem deve chamar
a atenção dos que pensam que as forças psíquicas cheiram a diabo.
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