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Muito
de propósito deixei para o fim a descrição da vida espiritista de
Bezerra de Menezes.
“Longe
de mim pretender – com que seria ridícula”- repetirei com o seu
biógrafo Acquarone – “apresentar a vida de Bezerra de Menezes
dentro dos processos da análise psíquica. Não.
“Seria tarefa de grave cometimento, capaz de ser realizada
apenas por cérebros consagrados”.
O
seu espírito “altamente iluminado”continua, até hoje, a
dispensar o seu amparo caridoso a todos aqueles que demandam as
tendas espíritas, em busca de bálsamo para o corpo ou de paz para
o espírito”.
Leiamos
ainda Acquarone: - Nascido e criado sob os auspícios do
catolicismo, conservara-o até então, como uma tradição
transmitida pelo amor dos pais.
Como
todo o moço de família do interior nordestino, o seu catolicismo
era, contudo, eivado de fatos espíritas, acontecidos aqui e ali, e
que respingavam a sua adolescência.
No
Norte, aliás onde as crendices de toda a espécie encontram guarida
em seu vasto e variadíssimo folclore, a noção religiosa, entre as
famílias do interior, apresenta-se repleta de acontecimentos
espiritóides e lendas do sobrenatural.
Assim
é que, desde criança, Bezerra se acostumara a ouvir as mais
estranhas narrações, onde apareciam seres extravagantes, como
capetas, mulas sem cabeça. Iaras e quejandas superstições.
As
histórias de almas do outro mundo, de demônios e casas
mal-assombradas, repontavam a miúde,
deixando na alma do garoto estigmas de pavor e sentimentos de
medo.
Em
tudo ele acreditava, como acontece com todos os da sua idade.
Mesmo porque tais baboseiras não eram apenas apresentadas
pela boca dos sertanejos incultos; até as pessoas gradas do local
falavam delas, com o devido respeito supersticioso...
Aos
sete anos, por exemplo, ouvira dizer que as almas dos mortos vêm
constantemente visitar os vivos... Isto causou uma profunda impressão
no cérebro do pequeno, que passou várias noites alarmado e
amedrontado.
Aos
nove anos, na mesma freguesia em que nascera, certa vez, uma moça
conhecida de sua família foi vítima de uma possessão horrível. A infeliz debateu-se, durante dias, em sofrimentos
angustiantes. Chamado o
vigário da localidade, que era o padre Frutuoso, este,
solicitamente compareceu a fim de aplicar o exorcismo com que
costumava restituir a calma ao paciente, em casos tais...
Daquela
vez, porém, o exorcismo nada adiantou; e padre Frutuoso, bem como o
meritíssimo juiz local, declarou solenemente à população que o
diabo havia entrado no corpo daquela moça...
Esta,
no dia seguinte, voltava a si, naturalmente, pois a obsessão
findara.
O
fato, no entanto, causou funda impressão em toda a gente.
Bezerra, pelo menos, dele se lembrava sempre, como a primeira
dúvida que lhe inspirara a ineficiência do catolicismo...
O
curso de Bezerra de Menezes, na Escola de Medicina do Rio de
Janeiro, ficou na vida do “Kardec brasileiro”como uma página
afirmativa da vontade e da fé extremadas que sempre o animaram na
conquista de seus ideais e na consecução de seus sonhos.
Esses
cinco anos foram, efetivamente, sublimados por toda espécie de renúncias
e de sacrifícios, suportados, aliás, com resignação e
serenidade.
Múltiplas
eram, sem dúvida, as necessidades que o cercavam tentando
quebrantar-lhe o ânimo; este porém, ao contato do derrotismo
ambiente, como que se desdobrava, multiplicando forças e acumulando
energias para a luta futura.
Não
fora, portanto, o estímulo da própria vontade, essa espécie de
autopropulsão que impele os indivíduos fortes para o clarão do
ideal colimado, e o nosso pobre estudante teria fatalmente
sucumbido, abafado sob escombros de um fracasso ruidoso...
Pobre,
um dos estudantes mais pobres do seu tempo, viu-se na necessidade de
lecionar, desde o segundo ano,a fim de se poder manter na Faculdade.
Dava aulas, nas horas de intervalo e à noite.
Nos
momentos em que os colegas concediam tréguas ao cérebro, Bezerra
impunha mais trabalho ao seu.
Como
não possuía livros, estudava nas bibliotecas públicas.
Preferia isso a pedir os compêndios dos companheiros.
Não
era por orgulho que assim procedia; muito menos por falta de
simpatias na turma. Nada
disso. É que o seu
temperamento arredio e tímido, ditava-lhe essas atitudes que lhe
foram, em parte, plasmando o caráter de homem habituado a contar
consigo mesmo, embora pudessem os outros contar com o seu esforço,
incondicionalmente.
Destacava-se
dos demais por uma linha de conduta impecável, linha que nunca foi
quebrada em momento algum.
Por
isso mesmo era geral a estima que lhe dedicavam. E causava até certa impressão à turma o aspecto daquele moço
forte, corado e de olhos meigos e inteligentes, que lembrava o tipo
racial dos nórdicos europeus, casando a pujança física à
humildade bondosa da sua alma simples.
Não gostava de “repúblicas”, as famosas repúblicas de
estudantes do seu tempo, onde a estúrdia imperava e o bom senso, as
vezes, periclitava a valer...
Nunca
as freqüentou. Preferia
mesmo viver só, morar no seu quarto pobre, e ali, sem mais ninguém,
estudar sem descanso.
Tudo
isso mais e mais impressionava os colegas que, por fim, se
habituaram a enxergar nele uma espécie de conselheiro e amigo dos
mais avisados. Suas
palavras meditadas, plenas de reflexão e suavidade, eram ouvidas,
em silêncio, pela turma que o cercava, cheia de respeito e admiração.
Dir-se-ia
que já naquela ocasião Bezerra se preparava para ser o guia futuro
dos seus coevos, o chefe espiritual das multidões que o iriam
escutar mais tarde, quando a sua palavra, ungida pela doutrina e
pela fé, tivesse ressonâncias mais estranhas e mais penetrantes...
A
esse tempo um sopro de ateísmo perpassava pelo mundo inteiro.
As idéias heréticas, agitadas pelas filosofias de todas as
épocas, secavam o campo espiritual, como um pampeiro destruidor,
solapando as últimas raízes da fé que ainda resistiam no
pensamento e no coração das massas.
Somente
os pobres de espírito, aqueles que não tentavam devassar o abismo
dos conhecimentos, conservavam ainda o fervor religioso.
Mas
a mocidade estudiosa, essa, a medida que conquistava maior cabedal
de cultura, declarava-se, desde logo, de um ateísmo irrevogável.
As
tertúlias agitavam as “repúblicas”; e os meios acadêmicos, ao
contato dessa onda renovadora de sentimentos, acabou, também, por
convencer-se da vitória antideísta, perdendo a fé que, como ele
mesmo confessava mais tarde, “não era firmada na razão”.
Quanto
a Bezerra de Menezes, a convivência com o ateísmo trouxe-lhe a dúvida...
E desde então um ceticismo brando principiou a crescer e a tomar
vulto no seu pensamento. No
fundo, porém, conservava-se deista e animista.
Sobre
estas questões, aliás, ele nunca se expandia, inteiramente, com os
colegas. Limitava-se a
ouvir e a ler, sobretudo ler muito.
No
seu quarto modesto, cercado pela miséria do ambiente, assistiu a
queda estrepitosa das velhas crendices e das superstições absurdas
que, até àquela data, tanto haviam contribuído para impedir o vôo
do seu espírito e a maior amplitude do seu pensamento.
Há
um fato na vida de Bezerra de Menezes que, de tão citado, já se
tornou por demais conhecido; revela ele, contudo, a primeira
manifestação do mundo invisível ao espírito do então jovem
estudante.
É
o seguinte: certa vez sentia-se o nosso futuro esculápio em sérias
dificuldades financeiras.
Não
havia ninguém a quem ele pudesse pedir.
A única pessoa que as vezes lhe valia em momentos tais era
um alfaiate, velho conhecido da província.
Este, de quando em quando, emprestava-lhe dez ou vinte mil réis,
até que os alunos lhe pagassem as aulas.
Vejamos
como ele próprio relata esses fatos:
“O
que me valia era o alfaiate, a quem pagava um tanto por mês pela
roupa que lhe mandava fazer e que, por minha pontualidade no
pagamento, me supria, de vez em quando, nos meus maiores apuros, uns
vinte ou trinta mil réis, que nunca mais do que isso lhe pedi.
Mas agora precisava de cinqüenta, pois tinha que comprar
botinas e chapéu e alugar, ida e volta, um rossinante.
Oh!, como me batia o coração à idéia do homem abanar-me a
cabeça! Além do vexame, o pesar de não ir à festa do Cardoso, em
casa do tio Anselmo, onde já via, pelo pensamento, brilharem duas
estrelas: os olhos da prima Gertrudinha.
Só esta perspectiva me decidiu na tremenda luta de ir ou não
ir ao meu banqueiro.
À
porta, ia recuar, entendendo que era melhor não me expor a uma
vergonha e, mesmo, na melhor hipótese, não contrair uma dívida
que me cativaria por muito tempo... Mas o caixeiro, que me conhecia,
veio a mim saber o que queria.
“Ala jacta est”. Vencer ou morrer.
Perguntei-lhe: O Sr. Faria está?
Respondeu-me ele: “Embarcou ontem para a Europa, mas se
precisa de alguma coisa, está aí o contra-mestre”.
Foi uma punhalada que me dissipou as fumaças de flamejar no
Itaboraí; mas foi ao mesmo tempo um calmante para minha agitação,
quer de passar por uma vergonha, quer de contrair uma dívida que é
sempre um cancro, de que poucos, quando se torna um hábito, se
salvam. Dever, para
quem se preza, é sempre uma escravidão moral que não se resgata
senão por sacrifícios e que perturba a alma durante toda a sua
permanência. Dei
costas a casa, onde ia prender grande parte do meu futuro, porque
cinqüenta mil réis, para mim, eram tanto como cinqüenta contos
para outros. Voltei
mais alegre do que triste, lembrando-me do que ouvi à minha mãe:
“Boa romaria faz quem em casa fica em paz”.
De
outra feita o caso foi mais sério, pois as taxas na Faculdade
estavam à sua espera. Se
Bezerra não lhes satisfizesse o pagamento arriscava-se a perder o
ano.
E
não era só. O
senhorio, sujeito atrevidaço e sem entranhas, ameaçava pô-lo na
rua.
Desesperado
– uma das poucas vezes em que Bezerra desesperou na vida – e
como não fosse incrédulo, ergueu os olhos ao alto e apelou para
Deus.
Nessa
ocasião bateram à porta. Era
um moço de fisionomia simpática e atitudes polidas que vinha
tratar umas aulas de matemática.
Bezerra recusou, a princípio, confessando mesmo ser esta a
matéria que ele mais detestava.
O visitante relutou; por fim lembrando-se de sua situação
desesperadora, Bezerra resolveu aceitar.
O
moço, sob o pretexto de que podia esbanjar a mesada recebida do
pai, pediu licença para efetuar o pagamento adiantadamente.
Após
alguma relutância, convencido, acedeu.
Combinado o dia e a hora para o início das aulas, o
visitante despediu-se. Bezerra
não cabia em si de contente. Nesse
mesmo dia liquidou o aluguel e as taxas de exame na Faculdade.
Lembrou-se,
porém, do compromisso, e, como não possuísse livro algum sobre a
matéria, correu à Biblioteca e, durante horas, devassou com
sofreguidão os vários pontos para a próxima aula.
Essa,
todavia não se realizou; nem essa nem outra qualquer, pelo simples
motivo de que o discípulo não mais apareceu.
Dias se passaram e... nem viva-alma...
Isto
preocupou sobremaneira o jovem estudante que nunca deixou de se
referir a tal fato como uma das primeiras manifestações do auxílio
que o mundo invisível pode dispensar a qualquer espírito
angustioso.
Em
todo caso, concluía ele, jovialmente – foi essa a única vez em
que estudei a fundo uma lição de matemática; o fato, assim mesmo,
para alguma coisa me serviu”...
Espiritualista
por vocação, todas as vezes que sua alma sensível era posta em
prova, subiam-lhe do subconsciente os eflúvios recalcados de sua
religiosidade. Isto
aconteceu quando o golpe da viuvez o alanceou de forma brutal.
Buscando
consolação, o “médico dos pobres” voltou-se com toda a unção
para o consolo benéfico da religião.
Entrou a ler a Bíblia.
Lia-a
e meditava longamente sobre o mundo de ensinamentos que ali se contém.
Por esta época, 1869, falecia em Paris o Codificador do
Espiritismo, Allan Kardec. Sem
o seu sábio orientador, à imensa coorte de espíritas, legava
Kardec as suas obras.
Assim,
“a grande campanha de fé e de ciência iria continuar por todos
os recantos do globo como a pregação de um evangelho redentor.
Foi
quando deputado, que Bezerra de Menezes teve o primeiro contacto
intelectual com Allan Kardec, lendo o “Livro dos Espíritos”,
que lhe oferecia o conhecido espírita dr. Travassos, em um encontro
na cidade, quando aquele se encaminhava para tomar o bonde, de
retorno ao lar.
Bezerra
morava na Tijuca. Logo
que se instalou no banco, sem distração alguma que lhe amenizasse
o longo trajeto até a casa, abriu displicentemente o volume e
correu os olhos por algumas páginas.
Interessando-se desde logo, monologou: “Ora adeus! Não
irei com certeza para o inferno, só por ler isto!...”
E atirou-se vivamente à leitura.
À
medida que avançava pelo texto afora, uma perplexidade intensa o
invadia. Ouçamo-lo com
as suas próprias palavras: - “L ia.
Mas não encontrava nada que fosse novo para o meu espírito.
Entretanto tudo aquilo era novo para mim!... Eu já tinha
lido ou ouvido tudo o que se achava no “Livro dos Espíritos”...
Preocupei-me seriamente com este fato maravilhoso e a mim mesmo
dizia: parece que eu era espírita inconsciente, ou, como se diz
vulgarmente, de nascença”...
Tal
fato, como vimos, impressionou vivamente o espírito de Bezerra de
Menezes.
Mais
tarde, porém, conseguiu compreender a causa desse fenômeno.
É que ele era um espírito inconsciente, já naquele
tempo...
Por
essa época Bezerra, que fora reeleito para o cargo de vereador em
1864, casara-se, em segundas núpcias, com d. Cândida Augusta de
Lacerda Machado, irmã materna de sua primeira mulher e de quem teve
sete filhos.
Sua
companheira, desta vez, foi aquela que o deveria acompanhar até que
ele cerrasse os olhos, seguindo-o e amparando-o com um desvelo e um
carinho verdadeiramente extraordinários.
Bezerra
multiplicava então a sua atividade, desdobrando-se para atender a
serviços consideráveis.
Na
política, vira o seu nome aclamado na Câmara, para onde fora
eleito deputado geral, em 1867.
Sustentou aí tremendas lutas, combatendo, especialmente, o
famoso ministério Zacarias. Era
um tempo tumultuoso na política do país.
As coisas chegaram
a tal ponto que o Governo Imperial decidiu dissolver a própria Câmara,
no ano seguinte.
Isto
significava a vitória do partido conservador e a queda do partido
liberal. Tal como seu
pai, outrora, na província do Ceará, ele também, como liberal,
sofreu a perseguição dos contrários.
E o domínio dos seus antagonistas se estender por um decênio
longo. Nesse período,
várias eram as empresas que reclamavam a orientação criteriosa e
justa de Bezerra de Menezes.
Basta
dizer que, além da ação política, de forma quase absorvente,
exercia ele o cargo de presidente da “Companhia Carris
Urbanos”’ e da “Estrada de Ferro Macaé-Campos”, da qual era
fundador.
Com
todas essas preocupações, não deixou todavia de prosseguir nas
lutas partidárias, não obstante a Câmara encontrar-se de portas
fechadas. Sua palavra
nos comícios, e sua pena, na imprensa, não tiveram repouso nesses
dez anos. Escrevia
continuamente na “A Reforma”, órgão liberal da Corte.
Voltando
à campanha eleitoral, pois a Câmara fora reconstituída, viu-se
novamente eleito deputado, em 1878, mandato que exerceu por dois
anos, pois que em 1880, era designado para presidente da Câmara
Municipal e líder do seu partido.
Nesta
escala ascencional no tablado da política, Bezerra poderia ainda
ter ocupado lugares de maior destaque, alargando seu horizonte de
ambições e de conquistas.
Mas
é que ele não possuía, positivamente, o estofo ou a estrutura do
homem político; sua espinha, sempre ereta, não se acostumava às
curvaturas com que a sabujice política produz em seus filhos, caráteres
de plasticidade duvidosa...
São
dele as seguintes palavras , insertas no seu livro: “Casamento e
Mortalha”: “A
imprensa, já em declínio para o vergonhoso estado de hoje, vasa
imunda onde se deposita o lixo de todas as paixões ignóbeis;
sentina onde a ralé tem certeza de encontrar os mercenários
instrumentos para satisfazer os seus mais depravados instintos, mas
também o sexto sentido dos povos, como disse Sycies; o fio dourado
da transmissão do pensamento, que já foi uma luz em nossa terra,
quando dirigida pelos homens mais respeitáveis da sociedade, era
dirigida agora pela escória social e acolhia e fazia sua a causa
torpe dos especuladores, que o presidente da Câmara tinha por dever
enxotar do templo”.
Bezerra
sempre se mostrou inamoldável às falsas conjurações do regime.
Principalmente na ocasião em que ele mergulhava o espírito
nos doutos ensinamentos da terceira revelação.
O
Espiritismo como seita e como ciência, continuava a angariar
adeptos, trazendo para o seu seio pessoas de reconhecida relevância
social.
Com
o desenvolvimento da doutrina, todavia, várias dissenções
repontaram entre os seus asseclas...
Esboçavam-se
os primórdios da longa cisão, que amargos frutos haveria de trazer
ao seio da família espírita no Brasil.
É
que os dois partidos, o dos “científicos”e o dos “místicos”,
principiavam a traçar as fronteiras destinadas a limitar, mais
tarde, as atividades de cada um.
Os
primeiros não aceitavam senão os fenômenos espíritas, em sua
intrinsica relação com as leis científicas da física e da metapsíquica;
os demais, que aceitavam a doutrina de Jesus, através da revelação
de Kardec intitulavam-se, os “Cardecistas”.
Conhecidas
já as suas tendências espiritualistas, Bezerra de Menezes passou
logo a ser procurado por membros da família espírita do Brasil.
Dois
partidos se formaram então, àquela época, em 1876, o dos “científicos”
e o dos “místicos”.
Os
primeiros “aceitavam os fenômenos espíritas em sua intrínseca
relação com as leis científicas da física e da metafísica” e
os segundos, aceitando “a doutrina de Jesus, através da revelação
de Kardec, intitulavam-se os “Cardecistas”.
Atendendo
pela primeira vez a um “consulente da doutrina, sobre a orientação
que deveria imprimir ao jornal “Reformador”, na luta travada
entre os dois citados grupos, Bezerra de Menezes, cuja alma já se
encontrava impregnada pela sabedoria calma do mestre, aconselhou o
jornalista a imprimir uma política discreta, sem o nivelamento dos
processos de ataque, mas firme em suas afirmativas.
“Não
combater o ódio com as armas do ódio, aconselhou ele, mas
combate-lo “de preferência com o amor”...
Eram
assim “os” seus ensinamentos.
Foi
da resolução da “família espírita brasileira” ainda sem rumo
certo e disseminada, que nasceu a idéia da fundação de uma
agremiação, a que então, se daria o nome de “Federação Espírita
Brasileira”.
Bezerra
de Menezes, dado o relevo da sua mentalidade, foi um dos primeiros a
ser convidado para dirigir a novel sociedade.
Recusou-se,
por ser avesso a toda a espécie de proeminências, reconhecida como
era a sua incontestável modéstia, e também por não se julgar
ainda suficientemente investido de preparo indispensável para
liderar qualquer movimento, de ordem doutrinária, na Capital.
Rejeitou
todos os cargos, fiel às suas convicções e foi mais longe ainda:
não consentiu que o seu nome figurasse entre os fundadores da
Federação.
“Seu
espírito procurava vasculhar, diz Acquarone, com a curiosidade
peculiar aos homens de ciência, os arcanos da revelação de
Kardec”.
Foi
em 16 de agosto de 1886, - nunca vos esqueçais desta data, - que o
dr. Adolfo Bezerra de Menezes perante um auditório de cerca de duas
mil pessoas da melhor sociedade proclamou a sua adesão ao
Espiritismo.
Foi
atônita, pela surpresa da proclamação do “eminente médico dos
pobres”, do eminente político, do eminente cidadão, do eminente
católico, que a sociedade do Rio de Janeiro recebeu a notícia da
sua conversão.
O
mistério também da sua conversão devera, em grande parcela, ao
louvado médium homeopata espírita, João Gonçalves do Nascimento.
Ouçamos
ainda Acquarone:
João
Gonçalves do Nascimento conquistou, assim, centenas e centenas de
novos prosélitos para a bandeira do verdadeiro cristianismo.
Bezerra
de Menezes, se não foi um deles, ficou a dever, contudo, ao grande
médium, uma parcela considerável da sua convicção.
De fato, embora já viesse ele, há tempos, estudando
atentamente as questões relativas ao espiritismo, não possuía
ainda a persuasão completa, única que pode levar ao conhecimento
perfeito de qualquer doutrina.
Tanto
falaram, porém, aos ouvidos de Bezerra, dos prodígios de João do
Nascimento, que ele decidiu por fim, “tirar a limpo a questão”...
E,
sem mais delongas, enviou também ao médium o seu pedido de
receita, em um pedacinho de papel, onde escrevera os dados indispensáveis:
“Adolfo, tantos anos, residente na Tijuca”.
Mandou
e ficou aguardando. O
resultado não se fez esperar.
Veio logo a resposta. Nela
estava o diagnóstico perfeito, completo, iniludível da terrível
dispepsia que tanto o atormentava!...
Tal
fato calou intensamente no íntimo do médico, que principiou, desde
então, a aprofundar-se mais ainda, na momentosa questão espírita.
Tal
questão invadia o mundo sábio, abalando velhas crenças e trazendo
novas luzes ao espírito dos estudiosos.
Feita
a primeira prova, Bezerra de Menezes – “desde logo aceitou a
imposição da discutida doutrina e assim enveredou, seguro, pelo
novo rumo que lhe traçara a nova ordem de convicções”.
Foi
pela imprensa que ele começou a se bater pela doutrina que ele
julgava pura. No jornal
“O País”, de Quintino Bocaiúva, que mais tarde se tornou um
fervoroso adepto da doutrina, exibiu ele “as primícias
dos seus princípios elevados, revestidos do cavalheirismo da
mais apurada linguagem”.
Em
crônicas seguidas desenvolveu os seus conhecimentos doutrinários,
transmitindo aos seus leitores.
Em estudos outros, em obras lançadas à publicidade, ele se
confirmava o insigne pregador espírita, o intérprete esclarecido
da doutrina cardecista e orientador seguro das instituições
espiritistas.
Com
64 anos de idade foi escolhido para Presidente da Federação Espírita
Brasileira.
A
esse tempo era ele um velho forte, de estatura quase atlética e de
tronco largo, encimado por uma cabeça “leonina”, emoldurada
pela prata dos cabelos e das barbas.
Leiamos
o que escreveu Acquarone, estudando o seu estado de alma naquele período
em que assumia a chefia da “Família Espírita Brasileira”: Quando Bezerra de Menezes ocupou o cargo de presidente da
Federação contava sessenta e quatro anos de idade. Seu ânimo se mantinha ainda inquebrantável e sereno diante
do tumulto dos homens; seu espírito culto e superior pairava com
tranqüilidade acima das paixões menos dignas; contudo, um desgosto
profundo morava-lhe no fundo do coração: o desgosto que lhe trazia
a incompreensão que a humanidade possuía em relação à sua
verdadeira missão na Terra.
Os
homens bons eram ainda muito poucos.
Dentro
do seu imenso desconforto, o “Médico dos Pobres” chegara a
conclusão de que o terreno, onde haviam tombado os conselhos de
Jesus era o mais estéril possível.
Os
comezinhos princípios de solidariedade eram menosprezados por
aqueles que tinham obrigação de pregar aos mais humildes.
O
“amai-vos uns aos outros” perdera-se na Galiléia, como se
perderam os demais preceitos do Mestre.
O lema constituído pelos três dogmas “Deus, Cristo e
Caridade” era uma bandeira inútil, para a qual os homens não
erguiam os olhos e à sombra da qual os pecadores não procuravam
acolhimento.
Bezerra
de Menezes sentia essas coisas todas, em virtude das profundas decepções
sofridas, no transcurso de sua vida.
A
política, que o absorvera durante longos anos e onde ele ingressara
com a melhor das intenções, enchera-o de nojo.
Aprendera
nela coisas edificantes! Vira
como a traição, constituída em moeda corrente, solapava o caráter
e a dignidade dos homens, tornando-os meros conquistadores de posições.
Assistira
ao jogo nefando das paixões, no tablado negro das competições.
Ódio, amor aos ideais inconfessáveis, desrespeito aos princípios
partidários, vinganças e delações, tudo, tudo o que é torpe e
deturpador da justiça e do direito, desfilára-lhe debaixo dos
olhos atonitamente abertos.
Em
sua passagem pela vida pública, Bezerra de Menezes tivera uma visão
profunda do panorama negro das lutas humanas.
Isto,
que para muitos constitui uma escola perniciosa de vícios e de
crimes morais, serviu para dar maior apuro ao caráter do “Médico
dos Pobres”. O que
para uns é um mal, para outros torna-se um bem.
O espírito de Bezerra era um campo magnífico para a cultura
de sensações as mais diversas.
Cadinho
de emoções boas, dentro dele referviam e se fundiam ao mais
variados sentimentos, soldando-se em liga indestrutível.
Seu
caráter se plasmou assim como um verdadeiro broquel, impenetrável
aos golpes traiçoeiros dos seus inimigos.
No entanto, a paisagem moral da política povoada por tantas
paixões egoísticas, enfastiava profundamente o médico altruísta.
E foi cheio de tédio e de repugnância que ele abandonou a
carreira.
Decidiu
então dedicar-se ao bem dos seus semelhantes, exercendo sua
verdadeira profissão e da qual fora tão injustamente afastado pelo
ouro falso, mas tentador, das maquinações políticas.
Estava
velho. Velho e pobre.
Sentia-se contudo forte e saudável.
E os poucos anos que ainda lhe restavam seriam empregados no
apostolado do bem.
Obediente
ao lema da doutrina espírita, muito poderia trabalhar em prol dos
necessitados, de corpo e de espírito.
E, se assim decidiu, melhor executou esse programa íntimo.
Tornou-se
desde então, exclusivamente médico homeopata e a sua figura
avultou como o verdadeiro delegado da aliança espiritual entre Deus
e os homens.
De
1895 a 1900, ano em que o seu espírito se librou no espaço,
Bezerra sagrou o seu nome como o de um verdadeiro “Médico dos
Pobres”.
Chefe
da família espírita na Capital da República, exerceu nesse último
lustro da sua vida uma autêntica missão de apóstolo e de
benfeitor.
De
todo o dinheirão ganho, ao tempo em que dirigia várias companhias
comerciais, nada mais lhe restava.
Vivia pobremente, com a família, em uma casa longínqua dos
subúrbios da Central.
Também
não ambicionava conquistar, outra vez, grandes proventos, só
porque estes pudessem trazer-lhe conforto material.
Seu
espírito, já sublimado pelo sofrimento alheio e pela compreensão
integral da doutrina cristã, estava acrisolado e imáculo.
Recebia
os que o procuravam e deles, na maior parte dos casos, recebia também
um sorriso de gratidão.
De
nada mais necessitava; pois se até o pouco, pouquíssimo que possuía
ainda, era repartido com os demais!
Inúmeros
casos poderiam ser citados como prova da sua ação beneficente em
favor dos necessitados. Seria
no entanto fastidiosa a repetição dos mesmos gestos de profunda
elegância moral do apóstolo.
Porque os gestos, de fato, se repetiam com uma constância
enternecedora.
Quando
Bezerra, por exemplo, era ainda presidente de uma companhia de
carris, deixava certo dia os escritórios da mesma, na rua Sete de
Setembro. Seis horas da
tarde; como dirigente escrupuloso, era sempre o último a sair, após
assistir ao fechamento das portas do escritório.
Dispunha-se a descer a via pública, rumo do largo de São
Francisco de Paula, onde iria tomar o bonde para a Tijuca.
Já
na calçada, Bezerra encontrou um velho conhecido, que o abordou
nervoso e trêmulo.
-Que
é isso meu caro? Que
sucedeu?
O
homenzinho com a fisionomia transtornada e angustiosa, contou que
acabara de perder o filho e que, desempregado, e desprovido de
recursos, vinha precisamente para falar ao velho amigo...
Bezerra
não pediu mais explicações.
Chamou-o para o desvão de uma porta, enfiou a larga mão
ossuda na algibeira da calça e sacou da carteira.
-Toma,
meu “velho”. Leva,
leva isto. É tudo o
que tenho no momento. Espera;
ainda há mais! E
vasculhou os bolsos do colete de onde retirou alguns níqueis.
O infeliz relutou. Mas
Bezerra meteu-lhe a carteira e as moedas no bolso do casaco e, sem
mais conversas, ganhou a rua.
Com
lágrimas nos olhos o amigo se despediu.
Quanto havia na carteira?
Nem mesmo Bezerra o sabia; nem lhe importava saber. Desceu a rua Sete de Setembro e chegou ao largo. Já
instalado no bonde, com o jornal aberto sobre os joelhos, meteu os
dedos nos bolsos do colete e só então se lembrou de que lá não
existia uma moeda sequer!
Calmamente,
saltou e se dirigiu a uma casa conhecida, onde foi pedir, pelo
menos, os trezentos réis da passagem...
Quando
isso não acontecia Bezerra caminhava mesmo a pé, percorrendo, o
longo trajeto da farmácia onde clinicava, na estação do
Riachuelo, até à sua moradia, em São Cristóvão.
Sem
um níquel sequer, arrastava durante o percurso, o seu corpanzil
pesado, de homem forte e hercúleo.
Muitas vezes sentia-se exausto, sopesando o esforço de tão
longas caminhadas. Mas
o médico dos pobres recebia essas provações com o prazer indizível
de um verdadeiro homem de fé.
Torna-se
de qualquer forma inconcebível o fato de um clínico despojar-se de
todos os seus recursos de ocasião e até mesmo dos seus próprios
honorários só para auxiliar e socorrer os clientes pobres que o
procuravam.
A
respeito conta-se até um episódio edificante e que muito concorrerá
para a compreensão do espírito altamente cristão de Bezerra de
Menezes.
É
o seguinte:
Estava
ele, certa manhã em seu consultório, quando recebeu a visita de um
paciente, reconhecidamente rico e admirador do facultativo. Após a consulta, como de costume, este indagou do preço a
pagar; e como de costume, Bezerra esboçou um gesto vago, uma
evasiva cortês.
O
cliente meteu a mão na algibeira e de lá retirou um pequeno
envelope fechado, colocando-o sobre a mesa.
Compreendendo o gesto, o médico agradeceu e...passou a outro
cliente.
Entrou
dessa vez uma pobre mulher, com um filhinho nos braços.
Seu aspecto traduzia a miséria em que vivia.
Fez
a consulta, para si e para o filhinho.
Bezerra deu-lhe a receita e as recomendações da dieta:
ovos, leite, alimentação nutriente...
A
mulher teve um sorriso amargo, e explicou que mal possuía dinheiro
para comprar um pouco de pão.
Bezerra,
como sempre fazia, remexeu os bolsos e nada encontrou, pois já
havia cedido o último tostão.
Olhou em torno, desolado e deu com os olhos no envelope que
estava sobre a mesa. Tomou-o
e o entregou à mulher. –
Leva-o; deve ter qualquer coisa para a sua dieta...
A consulente partiu e o trabalho do médico continuou.
Minutos após volta à sua presença a mesma mulher com a
criança. – Doutor
Bezerra, o senhor se enganou....
-Como
assim, minha filha? - O
senhor me deu em envelope errado. E estendeu para o médico um
pequeno maço de cédulas. –
Aqui tem um conto de réis! O
senhor se enganou.
Bezerra
sorriu e afirmou, bondosamente:
- Não minha filha; não me enganei.
Eu sabia que neste envelope estava um conto de réis!
Dei-o porque não necessito dele agora.
Quanto a você ele lhe poderá ser de muita utilidade.
Nesse
dia, Bezerra de Menezes foi para casa a pé...
(
cont. )
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