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1 – A morte da
libélula – Há oito ou nove anos, ao entrar na Academia para a
nossa honrada sessão das quintas-feiras, encontrei o átrio rumoroso
e festivo. Não havia musica. Não havia flores. Mas havia mais do que
isso, porque o sonorizavam e coloriam as alegrias da mocidade.
Mulheres lindas, e poetas. Achavam-se, em suma, em visita à casa
austera das letras, quatro ou cinco poetisas e declamadoras, que
haviam sido recebidas à porta, com algazarra fraterna, por Olegário
Mariano, Adelmar Tavares e Luiz Carlos, autores, no Brasil, dos mais
belos versos líricos daquele tempo. À minha passagem de prosador
desconfiado e soturno, Olegário me deteve, ruidoso e gentil:
- Vem cá... Eu quero
apresentar-te uma pessoa que te admira muito...
Chamou:
- Cinira... Vem cá!
Era uma linda moça,
quase menina. Morena, grandes e profundos olhos turcos, de veludo
negro, trazia nos traços e, nessa tarde, no vestuário, todos os
atributos de uma jovem princesa oriental. Um gorro da cor dos olhos,
posto garridamente de lado sobre a cabeleira farta e escura,
completava-lhe a graça boêmia, de cigana adolescente. Uma alegria
estouvada de canário solto, assinalava-lhe os gestos, e lhe gorgeava
no sorriso, que lhe vinha da boca fresca, e do marfim dos dentes
miúdos. Toda ela era, enfim, graça infantil e atordoada, de
borboleta que acaba de sair da crisálida e penetra num rosal, tonta
de sol, em luta com o vento em manhã de primavera.
Carmen Cinira acabava
de celebrar, parece, as suas núpcias com a liberdade, e sentia toda
a volúpia da vida, vendo-se moça, inteligente, e formosa. E essa
impressão contribuiu para que eu lhe apertasse a mão enluvada sem
uma palavra de louvor, sem os gabos a que, de certo, se acostumara e
que, efetivamente, merecia, pelos encantos da sua figura. Quando os
homens começam a entrar na velhice, não compreendem mais as vozes da
mocidade. Foi assim, calado, que atravessei o vestíbulo tumultuoso,
deixando-o entregue às mulheres e aos poetas, que têm, na Terra, o
dom da juventude perpétua.
Tempos depois, vim á
saber que a linda moça de olhos turcos que eu vira à entrada da
Academia era casada, e que se havia separado do esposo para dar
maior liberdade ao coração e ao pensamento. Era uma das inumeráveis
libélulas da sociedade moderna, que se não conformam com o ritmo da
vida antiga, e querem beber, de asas livres, todo o ouro do sol e
todo o perfume da Terra. Havia lido os romancistas e os poetas. E o
lar lhe parecera pequeno. Ideára a felicidade descrita nos livros e,
como não a encontrara na quietude da casa modesta, e na intimidade
do homem escolhido, correra para a planície, procurando reter entre
as mãos a sombra da nuvem que passa no céu. Ignorava ela, como
centenas de outras ignoram hoje, e milhares ignorarão amanhã, que a
mulher é frágil, demais, para afrontar, sozinha, as tempestades da
vida, e que se faz mister a cada uma um preparo antecipado, para não
naufragar no oceano.
Em um estudo publicado
em 1931 registrava o escritor comunista Fedor Gladkov um fenômeno
observado na Rússia soviética, entre os mineiros dos Urais. Não
possuindo maquinismos com que retirasse das minas o carvão nelas
acumulado, empregava o governo, para isso, o braço humano. Abertas
em sentido horizontal, as galerias apresentavam, às vezes,
inclinações consideráveis. E os homens, com o cesto à cabeça,
viam-se na contingência de subir, às vezes, dois quilômetros de
ladeiras subterrâneas para trazer à boca da mina a sua carga de
combustível. Os mineiros antigos, embora mais vigorosos, não
resistiam jamais a trabalho tão fatigante. Os adolescentes, porém,
levavam a termo o sacrifício. Como não tinha conhecido as
facilidades antigas não podiam estabelecer o confronto, e realizavam
sem queixa a tarefa moderna. Os outros, no entanto, sucumbiam,
porque haviam vivido em tempo melhor... Com a mulher tem sucedido o
mesmo na sociedade contemporânea. As moças que se vêm criando em
liberdade, olhando a vida face a face desde as primeiras horas da
adolescência, sentem-se à vontade no ambiente tumultuoso que o mundo
agora oferece. Vendo-as alegres, e felizes à sua maneira, as
mulheres procedentes da sociedade que precedeu à Grande Guerra
imaginam que poderão viver com a mesma facilidade. Esquecem-se que
os seus pulmões foram formados com capacidade para outro clima.
Olvidam que elas são peixes de outra água. E deixam o lar. E
dissolvem a família. E vão tombar, lá fora, vencidas, sob os pés da
multidão nova, que passa cantando... Vão em busca da felicidade,
abandonando o único lugar em que ainda podiam encontrá-la.
Carmen Cinira era
moça, mas procedia, parece, de família burguesa, e recatada, que a
educara para a intimidade do lar, sem ambições de glória nem sonhos
de liberdade... E pagou à vida, e ao mundo, o imposto que lhes
devia. Não tendo tido seguimento entre nós o conhecimento por essa
apresentação, não nos cumprimentamos sequer, durante três anos. Eu
lhe parecera, talvez, orgulhoso demais, como pareço a alguns com a
minha timidez, ou estúpido demais, como pareço aos restantes, pela
minha taciturnidade. Até que, um dia, fomos apresentados de novo, na
livraria Freitas Bastos. Conversamos. A moça que eu vira não era,
porém, a mesma. As rosas da face, naturais, outrora, eram agora de
papel. Havia alguma cousa de desânimo, de desencanto, na sua pessoa
e nas suas palavras. O sorriso tornara-se, nos lábios, que o “rouge”
coloria, forçado e triste. E outra vez nos separamos.
Até que há um ano, nos
falamos pela terceira e última vez. Foi, ainda, na livraria. Nova
apresentação. Mas a menina de há oito ou nove anos havia, nela,
desaparecido. Aquela alma, agora em abandono, me despertou simpatia,
me causou pena. Eu não nasci para amigo dos felizes, mas para
confidente dos desgraçados. E foi quando Carmen Cinira descobriu que
eu tinha uma alma, e eu compreendi que ela possuía um coração.
Palestramos dez ou quinze minutos. A sua existência, que fora um
roseiral, era, agora, um deserto. Uma desilusão profunda e
irremediável devastava-lhe as profundidades do ser. A tuberculose
minara-lhe os pulmões, envelhecendo-lhe o corpo jovem.
Considerava-se traída pela Vida. E tinha rugidos de revolta contra
si mesma, rugidos de leôazinha ferida, cujas garras não faziam mal a
ninguém...
Há dias, noticiaram os
jornais, em linhas ligeiras, a morte da poetisa Carmen Cinira. Duas
ou três pequeninas crônicas vieram depois. E nada mais. Eu quero,
porém, deixar-lhe aqui, por minha vez, estas palavras de respeito,
de pena e de saudade. E deixo-as não como lisonja a ela que está
morta, mas como lição às almas como a sua, que ainda se debatem no
mundo.
O vento da primavera
arrebatou a libélula, e partiu-lhe as asas coloridas e franzinas no
espinho das roseiras agrestes. E a jóia voejante, caiu morta.
Chorem-na as rosas de
que ela foi um pouco, vida breve e atormentada, a companheira e
irmã.
2 – Uma flor sobre
um túmulo – Felizes os mortos que, uma semana depois de
sepultados, ainda têm amigos na Terra! – foi a exclamação que me
veio à boca, e nela permaneceu amortalhada em silêncio, há quatro
dias, ao receber meia dúzia de cartas analisando a crônica ligeira,
aqui publicada, sobre Carmen Cinira.
A linda e jovem
poetisa possuía, na verdade, amigas numerosas, e dedicadas. E foram
elas que correram a retificar, amavelmente, alguns dos traços
biográficos da sua desventurada companheira, e a oferecer
informações outras sobre a sua vida e a sua morte, mais
interessantes, na realidade, uma e outra, do que a mim me pareciam.
Uma das retificações
versava sobre o estado civil da morta. Carmen Cinira não era, como
me haviam informado, divorciada, mas viúva, desde o segundo ano de
casamento. O esposo, um atleta, notável jogador de futebol, morrera
tuberculoso, quando contava ainda, e apenas, vinte anos. Moça e
bonita, seu coração bateu, com certeza, novamente, como o pássaro
que tombou da altura, quebrou as asas e ensaia inutilmente o vôo. Os
seus olhos diziam, porém, já, aos homens experientes, o mal que lhe
devorava os pulmões. E é de imaginar o que seria o seu tormento, a
sua agonia moral, vendo estampada em todas as fisionomias o santo
horror da sua intimidade. O seu beijo devia ser um fruto
maravilhoso, com todo o gosto de pomo fresco. Mas esse fruto, de
sabor incomparável, trazia, na polpa, o veneno fatal. Dentro dele
estava a morte. À semelhança de Helena, filha de Tindaro, que, por
onde ia, levava a destruição, ela sentia, talvez, que não podia
amar, porque o seu amor lavraria, contra aquele a quem ela o
consagrasse, a sentença irremediável. O seu carinho, leve como uma
pluma, teria, si ela o dedicasse a alguém, o peso de uma condenação.
Já alguém imaginou, na
verdade, o que seja o tormento moral de uma linda mulher
tuberculosa? Já alguém calculou a tragédia de consciência da
criatura moça que, não querendo sufocar no coração a chama do seu
desejo, sabe que vai pagar com a semente da morte aquele que lhe
trouxer a semente da vida? Carmen Cinira, viúva, aos vinte anos,
enfermeira devotada do esposo tísico, sentiu que se achava condenada
à morte na plena glória da juventude. E voltou-se, de repente, para
a outra vida. Dedicando-se ao Espiritismo, procurou, nele, a
consolação, o conforto. Caminhava para o túmulo, dizem-me os seus
íntimos, quase feliz, e com uma grande doçura de coração. Dois meses
antes de falecer era, já, e apenas, a sombra do que fora. Levada
para São José dos Campos, em São Paulo, quis vir morrer na sua
cidade natal, junto dos que lhe eram afeiçoados. Raro era, já, o dia
em que uma papoula de sangue lhe não vinha desabotoar nos lábios
pálidos, apresando o termo inevitável daquela vida. Na véspera da
morte, pediu papel, e um lápis, e escreveu, então, este soneto, em
que exprimiu toda a força da sua fé e da sua resignação:
VIDA
Vida, que és boa para
tanta gente,
E a tanta gente embriagas de prazer:
Para mim foste má, foste inclemente,
E deixaste-me exausta de sofrer!
Quando, às vezes,
recordo, tristemente,
As agonias do meu pobre ser,
Tu me causas pavor... De tão descrente,
Alegro-me, ao pensar que vou morrer!...
Caiba ao destino a
culpa de ter sido
A minha mocidade um só gemido;
Mas, sei que o meu faminto coração,
Na morte, que, bem
sinto, virá breve,
Há de achar o carinho, que não teve,
E a paz, que tanto mendigou em vão!...
A sua alma havia-se
tornado, de há muito, profundamente religiosa. Para esquecer os
sofrimentos que a Vida lhe oferecia no seu cálice, elevava-se até
aos pés do seu Deus, e a ele se entregava neste...
CREDO
Creio em Deus, que
gerou, sob a magnificência
De um mistério estupendo, a terra e o mar profundo;
Creio em Deus, que revela a singular essência
Na perfeição da flor, nas grandezas do mundo.
Creio em Deus, que
retrata a enorme sapiência
Nas leis universais, na luz do sol fecundo;
Creio em Deus, que demonstra a sua onipotência
Na fé que purifica e alenta o moribundo...
Deus, que fez o
perfume, as flores, a amplidão,
Desde o céu constelado à relva de veludo;
Deus, que o morto levanta, e é carinho e perdão...
Deus, o fanal do Bem,
que chama o pecador,
Que fez a criatura o que, acima de tudo,
Fez a música, o sonho, e os milagres do amor!
No dia da morte, quis
manifestar os seus últimos desejos na Terra. Chamou a velha mãe, e
disse-lhe, tranqüilamente:
- A morte não tarda...
Quando ela chegar, não quero mortalha fúnebre... Vistam-me um dos
meus vestidos brancos... Si não encontrarem envolvam-me num
lençol... O meu caixão deve ser pobre, de terceira classe... Não
desejo lágrimas, nem missas, nem orações... Quero, apenas, que, os
que me quiserem bem, se concentrem, e pensem em mim...
Horas depois, tendo
piorado, pediu que mandassem chamar as suas irmãs. Despediu-se
delas, serenamente, com palavras de consolo e resignação. Estava
certa de que o espírito de seu pai, falecido há muitos anos, viria
ao encontro do seu. De súbito, empalideceu mais. Todos sentiram, em
torno, que era a morte que chegava. Os lábios da moribunda
descerraram-se, porém, e ela exclamou, numa voz em que havia
qualquer cousa de intenso júbilo:
- Meu pai chegou... Eu
o estou vendo... Eu o estou vendo...
E quase num
arrebatamento:
- A vida é um
cárcere... A morte é a liberdade!...
Uma pequena rosa de
sangue veio-lhe, mais uma vez, à boca miúda. Os presentes
ajoelharam-se. Estava morta.
O obscuro homem de
letras que escreve, hoje, esta nova crônica sobre a jovem e formosa
poetisa que tanto sofreu, não a seguiu jamais, quando ela parecia
feliz. Não foi do seu séqüito. Não era da sua amizade. A missão
desse escritor, na Terra, é, porém, confortar os tristes e enfeitar
a sepultura dos mortos.
Recebe, pois, ainda,
Carmen Cinira, estas palavras de saudade e reparação. Elas são o
pólen da flor que ele vem depositar, comovido, sobre a úmida areia
do seu túmulo.
Nota do Editor:
Cinira do Carmo
Bordini Cardoso é o nome completo da poetisa, que nasceu em 1902,
tendo desencarnado em 30 de Agosto de 1933. O livro “Parnaso de
Além-Túmulo” traz algumas de suas poesias, obtidas através da
mediunidade de Chico Xavier, dentre as quais, destacamos:
O Viajor e a Fé
- “Donde vens, viajor
triste e cansado?”
- “Venho da terra estéril da ilusão”.
- “Que trazes?”
- “A miséria do pecado,
De alma ferida e morto o coração.
Ah! Quem me dera a bênção da esperança,
Quem me dera consolo à desventura!”
Mas a fé generosa,
humilde e mansa,
Deu-lhe o braço e falou-lhe com doçura:
- “Vem ao Mestre que ampara os pobrezinhos,
Que esclarece e conforta os sofredores!...
Pois com o mundo uma flor tem mil espinhos,
Mas com Jesus um espinho tem mil flores!”
(Carmen Cinira,
Espírito)
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