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Aristides de Souza
Spínola nasceu em Caetité (Bahia), a 29de agosto de 1850, e faleceu
no Rio de Janeiro aos 9 de julho de 1925.
Filho do Coronel
Francisco de Souza Spínola, que foi deputado geral em três
legislaturas, e de D. Constança Pereira de Souza Spínola. Esta
família ilustre e de prestígio na Bahia criou o filho dentro de
rígidos princípios morais, fazendo-lhe ver o valor de um nome
honrado.
Bem cedo, o menino
revelou-se altamente curioso de tudo que lhe chegasse aos sentidos,
elaborando, às vezes, perguntas bastante embaraçosas e que
demonstravam a viva inteligência de que era dotado.
Sacramento Blake, no
1º. Volume do seu “Dicionário Bibliográfico Brasileiro”, assim se
externou sobre o nosso biografado: “Para dar uma idéia da rara
inteligência que desenvolveu desde seus estudos de humanidades,
seja-me lícito aqui expor um fato que se acha narrado numa notícia
biográfica no periódico A Lei, de setembro de1878: Um dia, lecionava
filosofia o sábio e venerando frei Antonio da Virgem Maria
Itaparica, e, agitando-se questões entre o mestre e seu jovem aluno
Aristides Spínola, aquele, com assombro geral, deixa a cadeira que
ocupava, e oferece-a ao aluno, tomando o lugar deste entre seus
condiscípulos”.
No ano de 1871,
bacharelou-se em Direito, após cursar brilhantemente a Faculdade de
Direito do Recife. A sua aplicação e assiduidade foram tais, que
durante os cinco anos do curso acadêmico não teve uma única falta!
Abriu, em seguida, a banca de advogado em sua terra natal. Fez, por
essa época, diversas excursões pelo interior da Bahia e,
particularmente, pelo vale do São Francisco, com o fim de estudar as
localidades e colher notas para seus estudos históricos.
Bem moço ainda, entrou
na carreira política, tendo sido eleito, em 1878, deputado
provincial pela Bahia. Por indicação do Dr. Aristides César Spínola
Zama, seu primo, foi nomeado, de 1879 a 1880, Presidente da
Província (Estado) de Goiás, tendo ouvido do Imperador D. Pedro II,
quando a este foi agradecer a nomeação, elogiosas referências aos
predicados morais e intelectuais de que já havia dado provas.
Em 1881, na primeira
legislatura de eleição direta, representou a sua terra na Assembléia
Geral do Império. Ganhando prestigio sempre crescente ante o
eleitorado baiano, foi reeleito deputado geral nas legislaturas de
1885 e de 1886 a 1889, sendo que nesta última fora eleito na vaga
aberta pela morte de Pedro Carneiro da Silva.
Ao ser proclamada a
República, em 1889, ocupava ele, o mais jovem dos deputados, o cargo
de 1º. Secretário da Câmara. No regime republicano, depois de haver
pleiteado, por duas vezes, a eleição de deputado federal, só
conseguiu ser reconhecido para a de 1909-1911, dando-se neste último
ano o seu afastamento definitivo da política, para se consagrar
exclusivamente à advocacia e ao estudo e meditação da Doutrina
Espírita, que já o contava de há muito entre seus adeptos mais
fervorosos, sinceros e esclarecidos.
Dentro da política, do
mesmo modo que fora dela, nunca deixou de ser impecável o seu
proceder, o que, de par com a estima dos que a seu lado militavam no
parlamento, lhe assegurou a admiração e o respeito de quantos lhe
apreciavam a ação parlamentar, invariavelmente visando a superior
objetivo, assim como o saber e a moral postos ao serviço dessa ação.
É indubitável que,
dispondo a seu talante de tantos fatores eficientes para a obra do
engrandecimento humano, ele, se em sua alma encontrasse agasalho a
ambição das glórias e grandezas mundanas, houvera sido um dos que os
homens consideram grandes e houvera talvez vivido na opulência e nos
gozos que a riqueza propicia. Tal, porém, não podia acontecer, pois
seu Espírito pairava acima das contingências humanas, em busca de
objetivos mais altos, nobres e duradouros.
Tão logo banhara a
alma com as claridades do Espiritismo, pautou suas atividades
políticas pelos novos ensinos reveladores, até que, soada a hora,
ele a tudo renunciou para se tornar, só e só, servo do Cristo e
diligente obreiro do Espiritismo. Foi este um passo difícil, que
exigiu de Aristides Spínola a virtude da humildade, e diz o
“Reformador”, órgão da FEB, que essa renúncia constituiu “o ponto
culminante da sua trajetória terrena, o grande exemplo, a lição
magnífica que nos legou, lição e exemplo que fazem avultar
imensamente aos nossos olhos a sua grandeza moral e no-lo mostram,
soberbo e admirável, na sua verdadeira grandeza espiritual”.
Foi em 1905 que
Aristides Spínola ingressou na Federação Espírita Brasileira,
convidado pelo então Diretor da Assistência Aos Necessitados, Pedro
Richard.
Eleito para o cargo de
vice-presidente, na vaga do Doutor Geminiano Brazil de Oliveira
Góis, outro espírita ilustre e fiel, Aristides Spínola desenvolveu
naquela Casa toda uma atividade polimorfa e intensa, a ela se
dedicando durante vinte e um anos seguidos, amado por todos os
companheiros que com ele privaram.
Na vice-presidência da
FEB permaneceu de 1905 a 1913. Presidente de 1914 e em 1916 e 1917,
voltando a exercer o cargo de vice-presidente em 1920 e 1921.
Ocupou, de novo, de 1922 a 1924, a direção da Casa, sendo eleito em
1925, para a vice-presidência, cargo que desempenhou até a data de
sua desencarnação, ocorrida aos 9 de Julho do mesmo ano.
Foi, assim, presidente
da Federação Espírita Brasileira durante seis anos e vice-presidente
onze anos e meio. Nunca, porém, solicitou ou disputou nenhum desses
cargos, ou qualquer outro da Diretoria da Federação, fazendo questão
unicamente de prestar-lhe seus serviços, fosse de que maneira fosse,
pronto, declarou-o mais de uma vez, humilde e modesto como de fato
sempre foi, a ocupar o de porteiro se só neste o julgassem apto a
servir.
E dado lhe foi
satisfazer amplamente a esse desejo seu, porquanto, desde o primeiro
dia em que se incorporou à caravana dos que na Federação laboravam,
relevantes e ininterruptos serviços lhe prestou, seja como membro da
sua administração, seja fora de qualquer cargo administrativo.
O que ele queria era trabalhar. E trabalhou sempre, e muito, e
trabalhou bem.
Dentre esses serviços
merecem destacados os que teve ensejo de dispensar-lhe como
advogado, de todas as vezes que o Espiritismo se viu alvejado pela
ciência oficial, sob a forma de perseguições aos médiuns, por
exercício ilegal da medicina.
Em mais de um prélio
memorável, a começar pelo processo de Domingos Filgueiras, em 1905,
revelou-se o discípulo incondicional do Evangelho, o crente
fervoroso que, para desagravar o Espiritismo, não media sacrifícios
de idade, de saúde e vida.
O último caso dessa
natureza verificou-se em 1923, com a vitória de Spínola na ação que
intentaram contra o médium receitista e curador Inácio Bittencourt.
Em todos esses
episódios jurídicos, Aristides Spínola, a quem o amor que consagrava
à Doutrina dos Espíritos levara a especializar-se inigualavelmente
nesse gênero de lides judiciais, encontrou oportunidade para
produzir trabalhos que, tendo sempre conduzido ao triunfo as causas
por ele pleiteadas, ficaram e permanecerão quais padrões
indestrutíveis de sua vastíssima cultura jurídica e do profundo
conhecimento que tinha, não somente do conjunto da Doutrina
Espírita, mas também do espírito de cada um dos princípios que a
alicerçam, do altíssimo objetivo de seus ensinamentos e da sua mais
ampla finalidade.
Todos esses arrazoados
que a sua pena de jurista notável e de crente fervoroso traçou, como
advogado da verdade e do bem contra prejuízos e preconceitos, foram
impressos e folhetos.
Ele foi, perante os
Tribunais da Justiça de nossa terra, o defensor intimorato da
mediunidade perseguida pelo misoneísmo da medicina oficial.
Da sua ilustração e da
vastidão e substancialidade do seu saber, no campo do Direito, diz
sobejamente a unânime reputação que conquistou, ainda jovem, de
jurisconsulto tão eminente e notável, quão probo e desinteressado.
Amante apaixonado da Justiça, por efeito da pureza do seu caráter, e
bem assim pela superioridade dos seus sentimentos de lídimo cristão,
como advogado sempre foi propugnador invariável da justiça, para
cuja vitória jamais conheceu sacrifício que lhe entibiasse o sereno
entusiasmo com que por ela se batia.
Foram, em realidade,
muitas as causas que ele defendeu, algumas das quais, talvez pela
sua importância, saíram publicadas em separatas.
Estudioso de tudo o
que lhe pudesse enriquecer a inteligência pujante e lúcida, servida
por excepcional memória que se lhe conservou fiel até ao termo da
existência, espírito de índole e natureza filosófica, Aristides
Spínola reunia, ao seu saber jurídico, amplo conhecimento de todas
as filosofias, assim espiritualistas, que materialistas, e
palmilhava com firmeza o campo da teologia católica.
Daí vem que as suas
preleções, da tribuna da Federação Espírita Brasileira, pouco
atraentes talvez para os que só se encantam com os discursos de
retumbantes fraseologias, eram, para os que menos catam as belezas e
os rendilhados da forma do que atentam no fundo, eram fecundas
exposições doutrinárias, em que os fatos e exemplos ilustrativos da
tese explanada, ou das afirmações feitas, alternavam como sentenças
e conceitos que maravilhavam pela justeza e sabedoria.
Falando ou escrevendo,
Spínola era a simplicidade e a sobriedade mesmas, qualidades essas
que nada tinham de artificiosas, pois que decorriam das
características mais salientes do seu Espírito: a modéstia e a
humildade revestida de nobreza.
Aí estão, nas coleções
do “Reformador”, seus brilhantes artigos doutrinários, dos quais
ressalta,como traço capital, a faculdade de sintetizar os mais
vastos assuntos, sem que estes sofressem qualquer perda do que
tinham de essencial.
Como jornalista de
irrecusável mérito, Aristides Spínola colaborou em vários jornais.
No “Diário da Bahia” escreveu as narrativas de algumas de suas
excursões realizadas na juventude. Com o pseudônimo Buxton, defendeu
em “A Pedidos” do “Jornal do Comercio”, do Rio de Janeiro, o
Ministério Dantas. Foi um dos fundadores, em 1891, do “Jornal do
Brasil”, onde teve a seu cargo a parte política. Antes, pertencera à
redação de um diário, cremos que “Gazeta da Tarde”, que fora
empastelado em 1897, achando-se Aristides Spínola no edifício do
jornal quando essa violência se consumou.
Em fins de 1917, o Dr.
Edmundo Bittencourt, fundador e diretor do “Correio da Manhã”,
visitou, em companhia de Spínola, a obra assistencial da Federação
Espírita Brasileira, e tão entusiasmado ficou, que espontaneamente
ofereceu uma das colunas do seu conceituado jornal à mesma
Federação, que por muito tempo ali publicou artigos doutrinários e
de propaganda espírita.
Além de alguns
escritos inéditos e muitos outros estampados em periódicos espíritas
e leigos, são de sua pena, entre outras, as seguintes obras:
“Presidência do Barão Homem de Melo. Excursões Administrativas,
Bahia, 1879”; “Relatórios sobre a administração da Província de
Goiás”, Goiás, 1879-1880(2 volumes); “Estudo sobre os índios que
habitam as margens do Araguaia”, memória em que estuda os índios
Carajás e que se acha anexa ao relatório da exploração desse rio
pelo engenheiro J. R. de Morais Jardim, Rio, 1880; “Orçamento do
Ministério da Agricultura”, discurso proferido na sessão da Câmara
dos Senhores Deputados, em 13 de Julho de 1882; “Elemento Servil”,
discursos proferidos em sessões da Câmara, de 22 de Junho e 4 de
Julho de 1883, Rio, 1883. Em 1889, deu a público uma tese que
apresentou no Instituto da Ordem dos Advogados do Brasil, versando
sobre direitos do comerciante no exercício de sua profissão. Sob os
auspícios da Federação Espírita Brasileira, foi editada, em 1902, a
tradução que Spínola fez da obra do Dr. E. Gyel: “Ensaio de Revista
Geral e da Interpretação sintética do Espiritismo”. Em 1915, com o
título “Caridade Perseguida”, fez imprimir um memorial de recurso
criminal.
Sólida erudição
espírita, teológica e espírita, projetaram-lhe o nome dentro e fora
do campo espírita, sendo-lhe admirados o critério e a ponderação com
que resolvia os problemas administrativos, bem como o espírito
evangélico e conciliador nos mais delicados e controvertidos
assuntos.
Aureolado da
simplicidade e da modéstia dos bons, figura exemplar de retidão e
austeridade, assim no trato da vida comum, como no das coisas do
Espiritismo Cristão, o Dr. Aristides de Souza Spínola libertou-se da
prisão carnal com a serenidade e a fé de um verdadeiro discípulo de
Jesus.
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