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Os
poucos moradores do lugarejo denominado Foug, situado nos arredores
de Toul, na França, alegres e cheios de esperanças de dias mais
promissores e tranqüilos, festejavam a entrada de um novo ano, isto
em 1846.
Nesse mesmo dia, 1º. de Janeiro de 1846 -, na modesta e humilde
morada do casal Joseph e Ana Lúcia Denis, nascia um menino a quem
foi dado o nome de Léon.
Esse Espírito retornava às lides terrenas, em um lar onde as
dificuldades financeiras eram bem agudas, dificuldades essas, aliás,
com que sempre, ora em maior, ora em menor intensidade, viveu o
casal Denis. Isto os obrigava, no propósito de conseguirem uma
situação mais desafogada, a constantes mudanças de uma cidade para
outra.
Mas
o destino deles e do garoto Léon estava marcado. Suas vidas tinham
de ser de lutas, de sacrifícios, de trabalhos pesados.
Léon Denis, sem dúvida por deliberação de seu próprio Espírito, como
mais tarde ele o reconheceu, foi agraciado, pelo destino, com essas
provas que experimentou durante o longo período de oitenta e um
anos, para que, como disse ele, “à custa dos próprios esforços,
lutas e sofrimentos se redimisse do estado de ignorância e de
inferioridade, e se elevasse, de degrau em degrau, primeiramente, na
Terra, e, depois, através das inumeráveis estâncias do céu
estrelado”.
É
Léon Denis quem nos conta, também, em magnífica síntese, o que foi
sua vida. Esse relato encontra-se em seu livro “O Problema do
Ser...”.
“Subi a custo os atalhos da vida; dura foi a minha infância. Cedo
conheci o trabalho manual e os pesados encargos de família. Mais
tarde, em minha carreira de propagandista, muitas vezes me feri nas
pedras do caminho; fui mordido pelas serpentes do ódio e da inveja.
E, agora, chegou para mim a hora crepuscular; vão subindo e me
rodeando as sombras; sinto que minhas forças declinam e os órgãos se
enfraquecem. Nunca, porém, me faltou o auxílio de meus amigos
invisíveis; nunca minha voz os evocou em vão. Desde os meus
primeiros passos neste mundo, a sua influencia envolveu-me. É às
suas inspirações que devo minhas melhores páginas e minhas
expressões mais vibrantes. Compartilharam minhas alegrias e
tristezas e, quando rugia a tempestade, eu sabia que eles estavam
firmes ao meu lado, no meu caminho. Sem eles, sem seu socorro, há
muito tempo que eu teria sido obrigado a interromper a minha marcha,
a suspender o meu labor; mas suas mãos estendidas têm-me amparado,
dirigido na áspera via. Às vezes, no recolhimento do entardecer ou
no silêncio da noite, suas vozes me falam, embalam, confortam;
ressoam na minha solidão como vaga melodia. Ou, então, são sopros
que passam, semelhantes a carícias, sábios conselhos ciciados,
indicações preciosas sobre as imperfeições de meu caráter e os meios
de remediá-las.
Então esqueço as misérias humanas para comprazer-me na esperança de
tornara ver um dia os meus amigos invisíveis, de reuni-me a eles na
luz, se Deus me julgar digno disso, com todos aqueles que tenho
amado e que, do seio dos Espaços, me ajudam a percorrer a via
terrestre.
Ascenda para vós todos, Espíritos tutelares, entidades protetoras,
meu pensamento agradecido, a melhor parte de mim mesmo, o tributo de
minha admiração e de meu amor”.
Em
Léon Denis vamos encontrar o exemplo positivo de quanto pode
conseguir o ser humano através do trabalho e do espírito de força de
vontade. A situação, como dissemos, por demais modesta de seu
honrado pai, não lhe permitiu grandes estudos. Com a idade de 12
anos concluiu o curso primário obrigatório, quando, então, devia
começar o aprendizado de um oficio manual. Esse curso lhe foi
bastante penoso em virtude de não gozar de boa saúde. Com 18 anos
deixou a profissão para se tornar representante comercial, o que lhe
obrigava a viajar constantemente, e isto até quase ao envelhecer.
Quando freqüentava a oficina, em vez de pular e correr à tarde, com
os outros pequenos aprendizes, ou de participar das brincadeiras
próprias da juventude, procurava instruir-se o mais possível. Lia
obras sérias, conseguindo, assim, com esforço próprio, desenvolver
sua inteligência.
Tinha 16 anos de idade quando se fez membro da Loja dos Demófilos de
Tours, e, em face de suas qualidades de assimilação e de sua
eloqüência toda natural, salientou-se, desde logo, como um dos
melhores oradores e dos mais ardentes propagandistas.
Ao
explodir a malfadada guerra de 1870, Léon Denis estava com 24 anos
de idade, mas seu estado de saúde o isentava do serviço militar. Não
obstante, engajou-se, espontaneamente, como soldado. É que ele
professava idéias democráticas bem acentuadas, idéias essas, como
disse Henri Regnault, em seu livro “La Mort n´est pás”, hoje
consideradas, por todos, perfeitamente normais e naturais, eram
tidas, àquela época, como muito avançadas.
Em
1880, Jean Mace fundava a Liga de Ensino. Denis, seduzido pelas
idéias generosas dessa sociedade, a ela se incorporou para, desde
logo, tornar-se a alma do Círculo turonense. Pelas cidades e vilas
que percorria, por força dos seus afazeres, pronunciava conferências
e fundava Círculos e bibliotecas populares. É incalculável o número
de conferências por ele proferidas em França, no propósito de
propagar os fins da Liga de Ensino. Essa sua atividade começou em
1880; em 1884 achou ele conveniente fazer igualmente palestras
visando à maior difusão das idéias espíritas. Nessa oportunidade,
estava com 38 anos de idade, e esse seu trabalho afanoso foi, sem
dúvida alguma, de inestimável valia na difusão dos ensinamentos de
Allan Kardec.
No
intuito de que suas palestras se tornassem bastante eficazes,
escreveu pequena brochura onde explicava, com nitidez e de maneira
simples, o que era o Espiritismo, trabalho esse depois incluído em
“O Porquê da Vida”, dado à publicidade em Setembro de 1885.
Seu
grande desejo de estudar não pode ser concretizado. Se conseguia
alguém que o ensinasse a ler e escrever, em breve tinha de suspender
esses estudos para, com o suor de seu rosto e em trabalho penoso,
ajudar, de alguma forma, a seu pai, na luta do pão nosso de cada
dia; outras vezes a interrupção dos estudos era motivada pelas
continuadas mudanças. Se pai, por fim, fixou-se definitivamente em
Tours, distante 235 quilômetros de Paris, onde então Léon Denis
viveu, lutou, agigantou-se pela inteligência e pelo saber, e onde,
em 12 de Abril de 1927, desencarnou, calma e serenamente, com o
espírito perfeitamente lúcido.
Seu
pai, de caráter brusco, materialista de inclinação, estranho às
especulações intelectuais, jamais compreendeu seu filho. Sua
desencarnação fez que ele mais se afeiçoasse à genitora. Eram dois
seres formando um só coração. Ela era espírita e, com grande e
legítimo contentamento, acompanhava a rápida escensão do filho; seus
menores trabalhos interessavam-na e, em pensamento, o seguia através
de suas continuadas excursões, a serviço da propaganda da doutrina
kardequiana. As cartas enviadas à mães, quase diariamente, são
interessantíssimas e cheias do mais puro amor filial. Ao retornar
dessas excursões, ela o cercava de todos os cuidados e atenções,
procurando tonificá-lo, em virtude dos desgastes físicos com essas
cansativas viagens, ao mesmo tempo que o fazia observar, com toda a
pontualidade, o necessário tratamento para os seus males.
Mas
eis que esse grande e suave encanto de sua vida esfumou-se no espaço
para sempre! Sua velha mãe desencarnara e ele ficou só entre os
homens.
Sua
fé fê-lo suportar a grande dor que lhe apunhalava o coração de filho
amantíssimo, com heroísmo, calma e serenidade, e, embora soubesse
que ela iria fazer muita falta, consolava-se com a certeza de que
seu Espírito, liberto da carne, receberia a devida recompensa,
depois de uma vida de tantas lutas e provações.
Era
seu hábito olhar, com interesse, para os livros expostos nas
livrarias. O livro foi sempre a sua fascinação. Um dia, quando
contava 18 anos de idade, o chamado acaso fez que sua atenção fosse
despertada para uma obra de título inusitado, e cujo assunto,
naturalmente, deveria arrepiar as almas pouco evoluídas. Esse livro
era “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec. Encontro providencial.
Dispondo do dinheiro necessário, adquiriu-o, e, recolhendo-se
imediatamente ao lar, entregou-se com sofreguidão à leitura.
Passemos a palavra ao próprio Denis, e ele nos dirá: “nele encontrei
a solução clara, completa, lógica, acerca do problema universal.
Minha convicção tornou-se firme. A teoria espírita dissipou minha
indiferença e minhas dúvidas”.
É
bem de ver que a leitura desse livro fê-lo despertar de seu
indiferentismo, para os sérios problemas da vida alem da morte; seu
Espírito, nessa hora, sentiu-se sacudido em face dos compromissos
assumidos no Espaço, para iniciar, em breve, o trabalho de
propagação das verdades kardequianas.
“Como tantos outros – disse ele -, procurava provas, fatos precisos,
de modo a apoiar minha fé, mas esses fatos demoraram muito a vir. A
princípio, insignificantes, contraditórios, mesclados de fraudes e
mistificações, que não me satisfizeram, absolutamente, a ponto de,
por vezes, pensar em não mais prosseguir em minhas investigações,
mas, sustentado, como estava, por uma teoria sólida e de princípios
elevados, não desanimei”.
“Parece-me que o Invisível deseja experimentar-nos, afirmou Denis,
medir nosso grau de perseverança, exigir uma certa maturidade de
espírito antes de entregar-nos a seus segredos”.
Encontrava-se ele em seus trabalhos de experimentações, quando
importante acontecimento se verificou em sua vida. Allan Kardec
viera passar alguns dias na pacata cidade de Tours, com seus amigos;
todos os espíritas tourenses foram convidados a recebê-lo e
saudá-lo!
Vejamos como Denis nos relata essa visita: - “Alugáramos, para
recebê-lo e ouvi-lo, uma sala à Rua Paul Louis Courrier, e pedíramos
a necessária autorização à Prefeitura, pois, no Império, severa lei
proibia qualquer reunião de mais de vinte pessoas. Acontece que no
momento fixado, para essa assembléia, fomos informados de que o
nosso pedido fora indeferido. Encarregaram-me, então, de permanecer
no local, a fim de avisar os convidados de que deveriam dirigir-se a
Spirito-Villa, casa do Senhor Rebodin, Rua Santier, onde a reunião
se realizaria, no jardim. Éramos, aproximadamente, trezentos
ouvintes em pé, apertados de encontro às arvores. Sob a claridade
das estrelas, a voz doce e grave de Allan Kardec se fazia ouvir;
podia-se ver a sua fisionomia, iluminada que estava por pequena
lâmpada colocada sobre uma mesa, ao centro do jardim. Falava-nos
sobre a obsessão, quando várias perguntas lhe foram feitas, às quais
respondia sempre bondosamente. Terminada a reunião, todos levaram
inefável recordação desse memorável encontro”.
“No
dia seguinte, voltei a Spirito-Villa, a fim de visitar o Mestre;
encontrei-o trepado em uma escada, ao pé de grande cerejeira,
colhendo frutos que jogava à Madame Allan Kardec, cena bucólica que
o distraia de suas graves preocupações”.
Desde jovem, Léon Denis possuía as qualidades indispensáveis ao
orador: erudição profunda, memória muito feliz, elegância de
expressão, formosura do fraseado, sobriedade do gesto e, acima de
tudo, “pectus” que tornava sua eloqüência particularmente
comunicativa, conquistando, assim, a simpatia do auditório.
Mas, preciso é que se diga, Léon Denis armazenou os mais variados e
profundos conhecimentos, por esforço individual, ao preço de
constante labor; foi, em suma, um autêntico autodidata.
O
trabalho, para ele, era a sua lei, não conhecia outra senão a de
trabalhar e orar por todos.
Jamais desperdiçou um minuto sequer de seu tempo, com distrações
frívolas, às quais a mor parte dos homens recorre para matar a
monotonia do rolar das horas.
Consagrou-se como orador, e orador de grandes e reconhecidos
méritos. Certa vez, em pequena cidade do centro da França, em uma
conferência cuja assistência era um tanto heterogênea, desenvolvia
ele um tema a respeito de Deus, quando um católico o interrompeu,
julgando perturbá-lo: - “Dizeis, gritou ele, que o inferno nada mais
é que produto da imaginação. Pois bem, estive em Nápoles, e vi o
Vesúvio em erupção; é, portanto, uma das bocas do inferno, logo ele
é uma realidade”.
Léon Denis, com ligeiro sorriso de piedade, replicou: - acreditais
que o inferno se encontra no centro da Terra! Mas este mundo aqui
foi, durante longo tempo, uma massa ígnea, um globo de fogo antes de
se tornar sólido e de ser habitado; portanto, Deus criou o inferno
antes de criar o homem, Assim sendo, poderíamos comparar Deus a um
grande senhor de meia idade e que, desejando fundar uma cidade,
começasse por fazer construir, no centro da mesma, a geena, a casa
dos suplícios, o lugar da tortura, para depois dizer a todos: -
Vinde, meus amigos, instalar-vos nesta cidade que preparei com todo
o desvelo e amor! A estas palavras, a assistência em peso foi
sacudida por imensa hilaridade, deixando o interlocutor muito sem
jeito.
Léon Denis adorava a musica, tanto que, no decurso de suas viagens,
jamais deixava, após suas ocupações e quando se lhe oferecia ensejo,
de assistir a uma ópera ou concerto. As vozes dos grandes órgãos e
os cânticos sacros faziam que seu espírito alçasse vôo pelo espaço a
fora e dele regressasse com farta messe de inspirações. Gostava de
dedilhar, ao piano, árias conhecidas, de tirar acordes para seu
próprio devaneio. São dele essas palavras: “para que a alma se
dilate e se desprenda, na embriaguez das alegrias superiores, é bom
que a harmonia venha juntar-se à palavra e ao estilo; é preciso que
a música venha abrir, à inteligência, as vias que levam à
compreensão das leis divinas, à posse da eterna beleza”.
“Muitas vezes, quando tinha de proferir uma conferência em grande
cidade, dirigia-me, ao cair da tarde, a um teatro lírico. Lá, oculto
no fundo de um camarote, completamente insulado, desinteressado de
tudo quanto se passava na platéia e na cena, deixava-me embalar pela
partitura musical. Sob a ação combinada dos instrumentos e das
vozes, uma onda de idéias subia ao meu cérebro, uma floração de
pensamentos e de imagens surgia das profundezas de meu “ego”. E,
nesses momentos, organizava o assunto com riqueza de materiais,
profusão de argumentos, abundancia de forma de expressão, o que não
encontraria no silêncio!”.
Sua
sobriedade era exemplar. Nenhum excesso em seu regime, quase que
exclusivamente vegetariano; não fumava e não fazia uso de bebidas
fermentadas.
“A
água, gostava ele de repetir, é a bebida ideal”. Mas, de seu
cardápio de anacoreta, isentava os hospedes, aos quais gostava de
tratar fidalgamente.
São
suas estas extraordinárias palavras: “não basta crer e saber, é
necessário viver nossa crença, isto é, fazer penetrar na prática
cotidiana da vida os princípios superiores que adotamos”.
Mantinha volumosa correspondência, e, dentre as numerosas cartas que
lhe chegavam diariamente, umas eram verdadeiramente tocantes,
atingindo por vezes o sublime, pela expressão sincera do estado
d´alma dos desesperados; outras, todavia, eram fastidiosas; algumas,
até, testemunhavam incrível ingenuidade.
E
diz-nos Gastou Luce que, certa feita, interrogara ele o Mestre: - “E
ides responder a elas? Porque não, retrucava Denis, com a sua
benevolência costumeira, não se recusa um pedaço de pão ao mendigo
que nos bate à porta. Como recusar, então, uma boa palavra que pode,
de certo modo, tornar-se benfazeja, quando toca uma alma preparada
para a dor!”.
Para bem lhe avaliarmos a paciência e a força de vontade, basta
dizer que aprendeu o Braille, após a guerra de 1914, o que lhe
permitiu ficar ao corrente dos acontecimentos e fixar sobre o papel,
por meio de “grille”, os elementos de capítulos ou artigos que lhe
vinham ao espírito, pois, como todos sabemos, já nessa época de sua
vida, estava, por assim dizer, quase cego.
Foi
sempre, durante sua existência, o maior inimigo da tristeza. Jamais
se aborrecia, amava a juventude, a alegria da alma, índice,
evidente, de boa saúde moral.
A
vida de Léon Denis pode ser conhecida através de suas obras; sua
alma, seu pensamento mais íntimo, tudo está plasmado fielmente em
seus escritos; é impossível separá-lo deles.
Sabemos, por isso, que o seu pensamento de todos os instantes, de
todos os minutos, estava justamente centralizado em Deus. Submetia
todos os seus atos ao veredicto de Deus, sem receio de haver
desmerecido da sua confiança e da sua misericórdia.
“Tudo quanto na Natureza e na Humanidade canta e celebra o amor, a
beleza, a perfeição, tudo que vive e respira é mensagem de Deus. As
forças grandiosas que animam o Universo proclamam a realidade da
Inteligência divina; ao lado delas, a majestade de Deus se manifesta
na História pela ação das grandes Almas que, semelhantes a vagas
imensas, trazem às plagas terrestres todas as potencias da obra de
sabedoria e de amor”.
“Deus está, assim, em cada um de nós, no templo da consciência”.
O
ano de 1882 marca, em realidade, o início de seu apostolado, em o
qual teve de enfrentar a sucessivos obstáculos; o materialismo e o
positivismo que olham para o Espiritismo com ironia e risadas; os
crentes das demais correntes religiosas que não se pejam de uma
aliança com os ateus, para ridicularizá-lo e enfraquecê-lo. Léon
Denis, porém, como bom paladino, enfrenta a tempestade. Os
companheiros invisíveis colocam-se ao seu lado para encorajá-lo e
exortá-lo à luta.
“Coragem amigo, diz-lhe o Espírito de Jeanne, estaremos sempre
contigo para te sustentar e inspirar. Jamais estarás só. Meios
ser-te-ão dados, em tempo, para bem cumprires a tua obra”.
Foi
em 2 de Novembro de 1882, dia dos Mortos, que outro acontecimento de
capital importância se produziu em sua vida: a manifestação, pela
primeira vez, daquele Espírito que, durante meio século, havia de
ser seu guia, seu melhor amigo, seu pai espiritual – Jerônimo de
Praga -, e que lhe disse: - “Vai, meu filho, pela estrada aberta
diante de ti; caminharei atrás de ti para te sustentar”. E como Léon
Denis indagasse se seu estado de saúde o permitiria estar à altura
da tarefa, recebeu esta outra afirmativa: - “Coragem, a recompensa
será mais bela”.
Em
1892 recebeu Léon Denis um convite da Duquesa de Pomar, para falar
de Espiritismo em sua residência, numa dessas manhãs celebres, em
que se reunia Todo-Paris mundano e sábio. Ele ficou indeciso,
temeroso. Depois de muito meditar, pesando as responsabilidades,
aquiesceu ao convite.
É
que o magnífico êxito alcançado com sua obra “Depois da Morte”
situara-o como escritor de primeira ordem. Os grandes jornais e as
revistas ecléticas fizeram-lhe um reclamo inesperado; as tiragens
sucessivas desse livro esgotavam-se rapidamente.
Eis
a notícia publicada por “Le Journal”, de Paris, acerca dessa sua
conferência: - “A reunião de ontem, em casa da Duquesa de Pomar, foi
uma das mais elegantes, ouvindo-se a conferência de Léon Denis sobre
a Doutrina Espírita. De uma eloqüência muito literária, o orador
soube encantar o numeroso auditório, falando-lhe do destino da alma,
que pode, diz ele, reencarnar até sua perfeita depuração. Ele possui
a alma de um Bossuet, soube criar um entusiasmo espiritualista”.
A
principal obra literária de Léon Denis foi a concernente ao
Espiritismo, mas escreveu, outrossim, segundo o testemunho de Henri
Sausse, várias outras, como “Tunísia”, “Progresso”, “Ilha Sardenha”,
etc.
A
partir de fins de 1910, a visão de Léon Denis foi, de dia para dia,
enfraquecendo-se. A operação a que se submeter, dois anos antes, não
lhe proporcionara nenhuma melhora. Suportava, com calma e
resignação, a marcha implacável desse mal que o castigava desde a
juventude. Tudo aceitava com estoicismo e resignação. Jamais o viram
queixar-se. Todavia, bem podemos avaliar quão grande lhe devia ser o
sofrimento.
O
mal físico, para ele, devia ser bem menor do que a angústia que
experimentava pelo fato de não mais poder manejar a pena.
Secretárias ocasionais a substituíam nesse oficio; no entanto, a
grande dificuldade para Denis consistia em rever e corrigir as novas
edições de seus livros e de seus escritos.
Graças, porém, ao seu espírito de ordem, à sua incomparável memória,
superava todos esses contratempos sem molestar ou importunar os
amigos.
Depois da morte de sua genitora, uma empregada tratava de sua
pequena habitação. Ele só exigia uma coisa: a do absoluto respeito
às suas numerosas notas manuscritas, as quais ele arrumava com
meticulosa precaução. E foi justamente por causa dessa sua velha
mania que a Duquesa de Pomar o denominara de “o homem dos pequenos
papéis”.
No
começo do ano seguinte, após despender não pequeno esforço no
preparo da nova edição de “O Problema do Ser”, caiu gravemente
enfermo. Resfriara-se, declarando-se, logo a seguir, a pneumonia. O
tratamento enérgico de seu médico pô-lo de pé dentro de curto lapso
de tempo.
Grande e profunda dor estava reservada, para breve, ao apóstolo do
Espiritismo: a guerra de 1914. Foram cinqüenta meses de lutas, de
esforços, de sacrifícios, em que seu espírito se condoia ao ver
partir para o “front” a maioria de seus amigos. “Coragem, dizia-lhes
ele, cumpre o teu dever. Quanto a mim, com 68 anos de idade,
padecendo de velha doença intestinal e quase cego, estou
impossibilitado de seguir para o campo da luta, mas meu pensamento e
minha fé estarão em constante atividade e em comunhão com os nossos
amigos do Além, que hão de velar pela nossa França”.
E
conta-nos ele que, graças a um excelente médium, cuja clarividência
e sinceridade estavam acima de qualquer suspeita, pôde seguir,
durante mais de três anos, a influência dos Espíritos nos
acontecimentos. Pela incorporação, seus amigos do Espaço e, no
numero deles, um Espírito eminente, comunicavam-lhe de tempos a
tempos, suas apreciações sobre essa terrível guerra, considerada, em
seus dois aspectos, visível e oculto.
Essas práticas levaram-no a escrever certo número de artigos, por
ele publicados na “Revue Spirite”, na “Revue Suisse des Sciences
Psychiques” e no “Echo Fidèle d´un Demi-Siècle”. Através desses
inflamados artigos, Léon Denis extravasou todo o seu grande amor
pela terra em que nasceu, ao mesmo tempo em que oferecia lindas e
expressivas lições de amor, de paciência e de confiança na
misericórdia de Deus, dentro da lei de causa e efeito.
Quando essa guerra mundial de 1914 se aproximava de sua fase
derradeira, “Revue Spirite” passou a publicar, em todos os seus
números, artigos de Léon Denis.
No
ano seguinte iniciava ele nova série de artigos repassados de poesia
profunda, sobre a “voz das coisas”, preconizando o retorno “à
natureza”.
Nessa época um vento forte soprava contra o kardequianismo. O
fenomenismo metapsiquista espalhava, aos quatro ventos, a doutrina
do plano filosófico puro. O Senhor P. Heuzé fazia muito barulho
através de “l´Opinion”, com suas entrevistas e comentários
tendenciosos. Afirmava, prematuramente, que, à medida que a
metapsiquica fosse avançando, o Espiritismo iria, “pari passu”,
perdendo terreno. Sua profecia, no entanto, ainda não se realizou.
Após a vigorosa resposta do Senhor Jean Meyer, pela “Revue Spirite”,
Léon Denis, por sua vez, entrou na discussão, na qualidade de
presidente de honra da União Espírita Francesa, em carta endereçada
ao “Matin”, na qual estabelecia, com admirável nitidez, a diferença
existente entre o Espiritismo e o Metapsiquismo.
No
mês de Outubro, do mesmo ano, aparecia, na “Revue Contemporaine”, a
sua opinião sobre a religião do futuro.
“A
religião, escrevia ele, para ser realmente viva, para que possa
exercer, na ordem social, o grande papel que lhe incumbe: educador e
moralizador deve ser uma síntese alta e clara de todos os
conhecimentos adquiridos pela Humanidade no que diz respeito ao
Universo, à vida, sobre a elevada finalidade da existência e dos
destinos da alma. Este conhecimento é obtido por dois meios: a
ciência de observação e experimentação: que é a obra humana. Depois,
a revelação, que é obra do mundo invisível”.
“É
indispensável que estas duas fontes de ensinamentos estejam acordes
em suas conclusões, e, é adotando-as, que a religião se tornará
verdadeiramente eficaz e responderá às necessidades e aspirações de
uma época”.
Daí
o concluirmos, com Gaston Luce, que o Espiritismo assegurará a
síntese da ciência e da revelação. É por ele que se delinearão as
grandes diretrizes, as formas precisas dessa religião do futuro que
se esboça e se prepara sobre tantos pontos na hora atual; religião
de fraternidade e de amor anunciada há dois mil anos pelo Cristo, e
que os homens ainda não souberam compreender e realizar.
A
partir desse momento, Léon Denis teve de exercer grande atividade
jornalística para responder às criticas e ataques de altos membros
da Igreja Católica, saindo-se, como era de esperar-se, de maneira
brilhante, confundindo os malbaratadores da verdade.
Eis
que chegamos à última fase de sua preciosa, útil e caritativa missão
de verdadeiro apóstolo do Espiritismo. Léon Denis tudo fez,
sacrificando-se mesmo, a fim de espargir as luzes da Terceira
Revelação e levantar bem alto o nome respeitável de seu e nosso
querido Mestre Allan Kardec!
“Graças a ti, Kardec, disse ele, graças à tua obra, após vinte
séculos de silêncio e esquecimento a fé das antigas eras surge na
terra das Gálias e um raio de luz vem dissipar as sombras do
materialismo e da superstição. Druida reencarnado, tu nos revelaste
este grande pensamento sob nova forma, acomodada às exigências da
nossa época”.
Sim, afirmou Denis: - “nunca teve a Humanidade maior necessidade de
uma doutrina que a ampare e console nas horas trágicas. O
Espiritismo oferece o seu raio de luz a todas as almas
entenebrecidas pela tristeza e pelo desespero; ele derrama o balsamo
consolador sobre todas as feridas”.
Léon Denis não só escreveu essa grande verdade, senão que dela
também foi a própria confirmação viva, eloqüente, nesses anos
angustiosos, terríveis e aterradores por que passou a França e a sua
gente, na primeira grande guerra mundial!
As
punhaladas que, de instante a instante, atravessavam seu coração de
patriota, de cristão e de espírita, não foram suficientes para
diminuir ou abafar a sua fé em Deus, nas lições de Jesus, na
revelação codificada por Allan Kardec!
Tanto assim que, quando mais acesa e violenta estava a luta
fratricida, e a França cambaleante, exangue, parecia desaparecer do
mapa, caindo, para sempre, sob o poder do inimigo, escrevia Léon
Denis: -“a guerra, ao mesmo tempo que é a causa de ruínas sem conta,
poderá tornar-se, pelo próprio excesso de sofrimento, motivo de
reerguimento moral.
Uma
dessas conseqüências imprevistas é tornar mais sensível a comunhão
que liga o mundo dos vivos ao dos defuntos. A mor parte dos
combatentes da linha de frente têm consciência do poderoso socorro
que lhes vem do alto; eles lhe atribuem o estado de exaltação que
experimentam nas horas de perigo, a coragem e a confiança
inquebrantável que nunca os abandona e criam neles uma mentalidade
bem diferente dos da retaguarda”.
Numa mensagem àqueles que estavam em plena luta, entre outras
coisas, dizia: - “Velai e lutai. Combateis pelo que neste mundo há
de mais sagrado, por esse princípio de liberdade que Deus colocou no
homem e que ele próprio respeita, a liberdade de pensar e de obrar
sem ter de prestar contas ao estrangeiro”.
“Combateis pela conservação do patrimônio que nos legaram os
séculos, pela casa em que nascestes, pelo cemitério em que jazem
nossos antepassados, pelos campos que nos alimentaram, por todos os
tesouros de arte e de beleza acumulados pelo trabalho lento das
gerações em nossas bibliotecas, museus e catedrais. Combateis para
conservar a nossa língua, esse falar tão meigo que o mundo inteiro
considera como a mais nítida e mais clara expressão do pensamento
humano. Defendeis o lar da família, onde gostais de repousar vosso
espírito e vossa alma; os berços de vossos filhos e os túmulos de
vossos pais”.
“Soldados, vós vos engrandecestes no ponto de vista terreno. Pela
vossa firmeza na provação, pelo vosso heroísmo nos combates,
levantastes aos olhos do mundo o prestígio da França, tornastes mais
brilhante a auréola de glória que lhe orna a fronte. É mister,
agora, aspirar ao céu; cumpre erguer os pensamentos para Deus, fonte
de toda a força e de toda a vida”.
Como se esses golpes não fossem suficientes para por em prova a
fortaleza de seu espírito cristão e sua fé espírita, um novo se
apresentou: Em 25 de Agosto de 1917, desencarna sua velha amiga,
aquela que substituíra sua mãe junto dele, deixando-o, assim,
terrivelmente só na cidade abarrotada de tropas e de soldados
feridos.
Nesse crucial momento de sua jornada terrena, mais grave se
apresentava o cenário da guerra, mas a confiança não o abandonava em
tão terríveis conjunturas. Não vacila um só instante e, tomando da
pena, escreve esta exortação aos espiritistas:
“Espíritas, elevemos as nossas almas à altura dos males que ameaçam
a Pátria e a Humanidade. Nos tempos de provações é que se revelam as
nobres virtudes e as másculas coragens”.
“Todos os adeptos sabem: o pensamento e a vontade são forças”.
“Operando de modo contínuo no mundo dos fluidos, podem adquirir
irresistível poder. Ao mesmo tempo servirão de apoio às legiões de
Espíritos que, há quatro anos, não cessaram, nos dias de perigo, de
impelir e inflamar os nossos defensores, de comunicar-lhes este
impetuoso ardor que o mundo admira. Os nossos protetores invisíveis
no-lo repetem: Uni os vossos pensamentos e os vossos corações! Se de
um a outro extremo do país, todas as vontades, amparadas pela prece,
convergissem para um fim comum, estaria assegurada a vitória”.
“Continuemos inabaláveis e confiantes no bom êxito final. Com todos
os nossos pensamentos e com toda a nossa alma. Sustentemos os nossos
defensores visíveis e invisíveis. Um sopro poderoso passa pela terra
de França, reavivando energias, exaltando os ânimos, suscitando, por
toda a parte, o espírito de heroísmo e sacrifício. Oremos e saibamos
esperar a hora da justiça divina”.
“Por mais penosas que sejam as provações que ainda nos aguardam,
conservemos as nossas firmes esperanças. A grandeza da causa que
servimos, a perspectiva do fim que almejamos atingir, nos ajudarão a
suportar tudo”.
Mas, finalmente a 12 de Novembro de 1918, pode o incansável lutador,
beirando já os setenta e três anos de idade, publicar um artigo
intitulado “Hosana”, e do qual extraímos este tópico:
“Para todos vós, vivos heróicos e mortos gloriosos que combatestes,
lutastes, padecestes por nós; para vós que assegurastes o triunfo da
justiça e da liberdade, neste mundo que inabitável se teria tornado
se a força brutal e a mentira houvessem prevalecido; para todos vós
sobem o hino de reconhecimento, o tributo de admiração, a gratidão
da Humanidade inteira!”.
Em
Março de 1927, quando contava Léon Denis 81 anos de idade, terminara
o manuscrito que intitulou: “O Gênio Céltico e o Mundo Invisível”, e
nesse mesmo mês a “Revue Spirite” publicava, mal podia ele imaginar,
o seu derradeiro artigo, no qual em páginas admiráveis, mostra que a
França, impregnada de celtismo e fundamentalmente cristã, continuará
no mundo, o seu papel de i9ncentivadora, pois que nada de grande, de
sólido e de durável, se edifica sem o seu concurso.
Vejamos, agora, os seus últimos momentos de vida terrena.
Terminada a correção das provas tipográficas de “O Gênio Céltico”,
Léon Denis ditava as linhas finais do prefácio que lhe pedira o
Senhor Jean Meyer, para a nova edição da biografia de Allan Kardec,
quando foi forçado a recolher-se ao leito. Terça-Feira, dia 12 de
Abril, lá pelas 13 horas, respirava com grande dificuldade, pois que
fora novamente acometido de pneumonia.
A
vida parecia abandoná-lo, mas seu estado de lucidez era
perfeito.Suas últimas palavras, pronunciadas com extraordinária
calma, muito embora o fizesse com extrema dificuldade, foram
dirigidas à sua empregada Georgette: - “É preciso terminar, resumir
e... conclusão. (Fazia alusão ao prefácio da biografia.). Enviai a
Meyer... 15”.
Nesse preciso momento, faltaram-lhe completamente as forças para que
pudesse articular outras palavras mais. Apertava muito debilmente as
mãos de seus amigos. Seus olhos constantemente abertos pareciam
fixar o mesmo ponto no Espaço. Que via ele? Que ouvia? Seu rosto
refletia perfeita serenidade. Às 9 horas, subitamente seu Espírito
alou-se finalmente. Todavia, seu semblante parecia ainda em êxtase.
Coisa notável: a expressão de seu olhar não mudara. Assim terminou,
com toda a simplicidade e grandiosidade espiritual, a missão terrena
de Léon Denis.
As
cerimônias fúnebres realizaram-se a 16 de Abril. A seu pedido, o
enterro foi modesto, sem oficio de qualquer igreja confessional. Foi
o pastor Wautier d´Aygalliers quem veio, em nome da amizade que os
unia, colocar o corpo inanimado do querido amigo no esquife e
acompanhá-lo até o Cemitério de La Salle, de Tours, onde, diante do
tumulo, prestou sua suprema homenagem ao Mestre venerado. Falou, em
termos comoventes, dessa vida tão bela e tão nobremente cumprida.
Leu algumas passagens do “Depois da Morte”, e, com profunda emoção,
a prece que, em mensagem, pelo Espírito de Jerônimo de Praga, fora
dada a Léon Denis, oração essa que, a seguir, transcrevemos:
“Meu Deus, vós que sois grande, que sois tudo, deixai cair sobre
mim, humilde, sobre mim que não existo senão pela vossa vontade, um
raio de divina luz. Fazei que, penetrado do vosso amor, me seja
fácil fazer o bem e que eu tenha aversão ao mal; que, animado pelo
desejo de vos agradar, meu espírito vença os obstáculos que se opõem
à vitória da verdade sobre o erro, da fraternidade sobre o egoísmo;
fazei que, em cada companheiro de provações, eu veja um irmão, assim
como vedes um filho em cada um dos seres que de vós emanam e para
vós devem voltar. Dai-me o amor do trabalho, que é o dever de todos
sobre a Terra, e, com o auxílio do archote que colocastes ao meu
alcance, esclarecei-me sobre as imperfeições que retardam meu
adiantamento nesta vida e na vindoura”.
E
Léon Denis, por direito de conquista, muito justo e natural, passou
a ser, depois da desencarnação de Allan Kardec, legítimo chefe do
Espiritismo, ao lado de Gabriel Delanne, Camilo Flammarion e tantos
outros; e tais foram seus sentimentos, seu coração e sua vida
inteiramente dedicada à causa de nossa doutrina que, por consenso
unânime, lhe foi adjudicado o titulo muito honroso de Apóstolo do
Espiritismo.
Cinqüenta e cinco dias após a sua morte, “Le Matin”, jornal
parisiense, de grande circulação e responsabilidade, em seu número
de 6 de Junho de 1927, publicou, em primeira página, excelente
artigo ilustrado com o retrato do Mestre, exaltando-lhe as altas
qualidades morais, seus grandes dotes oratórios e sua profunda e
arraigada convicção na sobrevivência da alma.
Esse artigo assim se iniciava:
O
FIM DE UM SÁBIO
Léon Denis
Apóstolo do Espiritismo
“Até a idade de 81 anos, que então contava ao se extinguir – dizia o
artigo -, estava Léon Denis persuadido de que continuaria, no Além,
colaborando para a evolução da Humanidade, talvez, com maior
assiduidade e mais serenamente ainda do que quando do curso de sua
longa existência de santo laico; Léon Denis foi um comovente exemplo
de fidelidade a seus princípios e de inesgotável bondade”.
Henrique Regnault, em sua já citada obra “La Mort n`est pas”, dá-nos
a conhecer, a respeito da desencarnação de Léon Denis, uma nota
deveras entristecedora e que bem evidencia o espírito de
intolerância, numa demonstração positiva de que os ensinos de Jesus
ainda não foram devidamente assimilados, em espírito e verdade, por
certos representantes da Igreja Católica.
Eis
o que ele escreveu: “Todos os que noticiaram o decesso de Léon Denis
viram nesse acontecimento uma real desgraça e uma grande perda para
a Humanidade. Houve, no entanto, neste concerto de elogios uma nota
dissonante, partida, evidentemente, dos católicos que injustamente
nos têm em conta de adversários e inimigos”.
“O
R. P. Lucien Roure julgou necessário inserir, em “Les Etudes”, um
estudo de 10 páginas sobre a obra de Léon Denis. O número 13 dessa
revista católica contem uma crônica intitulada “Um espírita
doutrinário”; é uma crítica profundamente injusta à obra de nosso
Mestre. Esse artigo foi rebatido pelo Senhor Gaston Luce, através da
“Revue Spirite”, em seu número de Agosto de 1927”.
Em
tradução, oferecemos aos nossos prezados leitores a parte conclusiva
do mesmo:
“Léon Denis coisa alguma acrescentou à doutrina de seus
predecessores. Ao que sabemos, jamais alimentou semelhante
pretensão. Que quereis que se acrescente ao Espiritismo? Ele é a
seiva de todas as religiões, é tão velho quanto elas”.
“O
renovar, o adaptá-lo à mentalidade moderna, e pô-lo, sobretudo, ao
alcance dos humildes, foi a tarefa a que o apóstolo espírita se
dedicou durante toda a sua longa vida”.
“Allan Kardec aguçou a inteligência dos pesquisadores, Léon Denis
tocou o coração das multidões. Nisso está o seu mérito. Ele é
imenso. O Mestre nada reivindicou dos outros. Quando o Senhor Lucien
Roure escreveu que a religião espírita exposta por Léon Denis era a
doutrina da burguesia voltairiana de 1850, renovada pela Liga do
Ensino, enganou-se, ou a paixão o cegou”.
“Burguesia voltairiana? Vede um pouco como o senhor Clément Vautel
trata o Espiritismo e a seu melhor servidor. A Liga do Ensino? Não
se recorda, por acaso, que Léon Denis foi um de seus mais ardorosos
pioneiros?”.
“É
assim que o senhor Lucien Roure investe de maneira heterodoxa, sem
se dar conta de que todas as suas setas levam o veneno da
falsidade”.
“Mal andaríamos nós se nos lastimássemos com isso. Quando ele
conclui, em tom peremptório, que Léon Denis não tem autoridade para
dar crédito ao Espiritismo, devemos sorrir... e passemos a reler o
Mestre”.
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