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Não
é fácil descrever, no curto espaço deste livro, o que foi a bela e
extraordinária obra dessa notabilíssima mulher brasileira, cujo
nome, aureolado de glórias e de bênçãos, permanece indelével nos
anais da História Pátria, com assinalados serviços à sagrada causa
da educação e da instrução das classes menos favorecidas.
Anália Emília Franco
nasceu em Rezende, RJ, a 1º. De Fevereiro de 1856, falecendo na
capital de São Paulo aos 20 de Janeiro de 1919.
Quando tinha cinco
anos, seus pais, Antonio Maria Franco e Tereza Franco, mudaram-se
para São Paulo. Com doze anos, já auxiliava sua mãe no magistério,
com ela colaborando em diversos colégios, nas cidades de
Guaratinguetá e Jacareí e no arraial Minas, Município de Dois
Córregos.
Mais tarde, ingressou
na Escola Nacional Secundária, de São Paulo, diplomando-se
professora. Dedicou-se, desde então, de corpo e alma, ao magistério
público, logo se destacando pelo seu alto tino pedagógico e pelo
extremado carinho para com os alunos. Não havia prazer maior, para
ela, que ensinar. Alguns anos depois, fundava na cidade de São
Carlos um colégio (internato e externato) de ensino primário e
secundário, denominando-o “Santa Cecília”. Esteve também em Taubaté,
onde se iniciou no jornalismo, colaborando ainda no jornal literário
“A Família” e no “Eco das Damas”, ambos do Rio de Janeiro, ao lado
Josefina Álvares de Azevedo, Zalina Rolim, Inês Sabino Mirtes,
Amélia Carolina da Silva e outras escritoras daquele tempo.
Pouco mais se sabe de
sua vida durante esse primeiro período, até 1901. Nesse ano, na data
de 17 de Novembro, Anália Franco inaugurava, com estatutos então
aprovados em Assembléia Geral, a “Associação Feminina Beneficente e
Instrutiva do Estado de São Paulo”. Na realidade, esta Associação
fora organizada antes da mencionada data. Tanto é verdade, que num
despacho assinado a 29 de Outubro de 1901, favoravelmente a uma
representação subscrita em 17 de Setembro por 200 sócias daquela
entidade, o Secretário dos Negócios do Interior e da Justiça de São
Paulo congratulava-se pela nobre iniciativa de Anália Franco, pondo
à disposição da novel agremiação o edifício da escola do 8º.
Distrito, para nele funcionarem as primeiras escolas maternais.
Destinada, de início,
a amparar, instruir e educar as crianças pobres e indigentes da
capital paulista, sem qualquer distinção de crença ou raça, essa
Associação Feminina teve em sua presidência, de 1901 a 1919, a
grande benfeitora Anália Franco, que, reagindo contra o
indiferentismo do meio, tomou a si, com a fé e a energia de um
apóstolo, a sagrada tarefa de erradicar o analfabetismo e combater a
miséria e a ignorância que flagelam as ínfimas camadas sociais. Essa
Associação acentuava ela, “não visa tão somente a amparar e educar
os desvalidos; tem um fim mais elevado, que é reunir em torno de uma
idéia santa todas as senhoras de inteligência e boa vontade, para
trabalharem de comum acordo no bem social”.
Ao que tudo indica, a
essa época Anália Franco já era espírita, mas extremamente liberal e
tolerante, tanto assim que à sua obra jamais imprimiu caráter
nitidamente espírita, mesmo porque, conforme ela própria explicava,
recebendo a Associação crianças de todas as crenças religiosas,
bastava o ensino das verdades fundamentais das religiões em geral,
como a existência de Deus, a imortalidade da alma, e o ensino da
mais pura moral, para despertar no coração delas a atividade
espiritual no sentido do amor a Deus e ao próximo.
Com uma tenacidade sem
par, e rodeada de um grupo de cooperadoras e auxiliares que muito a
ajudaram, Anália Franco deu início ao vasto programa que tinha em
mente. Conforme ela mesma havia dito, “conceber o bem não basta; é
preciso fazê-lo frutificar!”.
O período de
organização foi exaustivo para a grande missionária, que era
obrigada, muitas vezes, a exercer todos os cargos, por força de
circunstâncias inerentes a uma associação recém-criada e que ainda
não inspirava confiança em todos.
Em fins de 1903, o
senador paulista Dr. Paulo Egídio de Oliveira Carvalho, notável
jurisconsulto e homem de letras, pronunciava no Senado brilhante
discurso em que punha os seus colegas a par do alcance social do
empreendimento “audaz” que a “Associação Feminina” e sua fundadora
levavam adiante no Estado, numa promoção – acrescentava ele – das
mais benéficas ao País.
Num certo trecho do
seu discurso, o Senador Doutor Paulo Egídio, referindo-se, de modo
especial, a Anália Franco, afirmou, cheio de admiração por esse
vulto: “... realmente, não conheço no Brasil uma senhora da sua
estatura em dedicação e espírito”. E mais adiante: “Esta mulher está
fazendo o que os mais intrépidos homens não fizeram ainda”.
Em sessão de 4 de
Agosto de 1904, o mesmo senador enaltecia novamente a figura
apostólica de Anália Franco, a sua vontade heróica, a sua energia, a
sua rara abnegação à causa da instrução pública no Estado de São
Paulo, terminando por solicitar ao Senado maior consignação de verba
à “Associação Feminina Beneficente e Instrutiva”.
Seis anos depois de
fundada essa Instituição já mantinha e orientava 22 escolas
maternais e 2 noturnas, só na capital paulista, enquanto cinco
escolas maternais funcionavam no interior do Estado bandeirante.
Todas ministravam a instrução e a educação a cerca de 2.000 crianças
pobres. Afora isso, estava em pleno funcionamento um Liceu Feminino
Noturno na cidade de São Paulo, com uma freqüência de mais de 100
alunas, e outro em Santos.
Os cursos do referido
Liceu Feminino, que igualmente formavam professoras para as escolas
maternais, foram inaugurados em 25 de Janeiro de 1902, nos salões do
Largo do Arouche ns. 58 e 60 tendo presidido à sessão solene da
instalação o Secretário de Negócios do Interior e da Justiça de São
Paulo, o Doutor Bento Bueno, que fez lisonjeiras referências à
“Associação Feminina”, prometendo dispensar-lhe o apoio que
estivesse ao seu alcance.
Foi esse generoso
homem público que deu nome à primeira escola maternal criada por
Anália Franco.
As professoras de
todas essas casas de ensino, geralmente normalistas, trabalhavam
gratuitamente na benemérita cruzada dirigida por Anália Franco, a
“alma mater” da Instituição, a quem nunca faltou o incentivo de
respeitáveis órgãos da imprensa brasileira.
A grande benfeitora
encontrou sempre a defesa esclarecida, justa e espontânea, por parte
da imprensa digna, quer da capital e cidades do interior do Estado
de São Paulo, quer de outros Estados do Brasil. Na capital paulista,
podemos citar “O Estado de São Paulo”, o “Correio Paulistano”, “O
Comércio”, o “Diário Popular”, a “Platéia”, etc.; em Santos, a
“Tribuna de Santos”; em Ribeirão Preto, o “Diário da Manhã” e a
“Cooperação”; em Jaú, “O Correio de Jaú”; em Dois Córregos, “A
Republica” e “O Bandeirante”; e assim por diante.
Alguns jornais
católicos, sabendo que Anália Franco era espírita, não poupavam a
ela e à sua obra criticas mordazes. O órgão católico “São Paulo”, da
cidade de mesmo nome, atacava de rijo a “Associação Feminina”,
dizendo que aí a caridade era um embuste e que os católicos não
podiam concorrer para a fundação e manutenção das Escolas Maternais,
“em extremo perigosas para os sentimentos religiosos das crianças”.
Em defesa da Instituição e sua fundadora, contra as inverdades
propaladas pelo clero, levantaram-se vários órgãos da imprensa
leiga, como “O Correio de Jaú” e o “Atibaiense”. Este último
publicou, em seu número de 15 de Março de 1908, sob o título “Ao
cair do Crepúsculo”, excelente artigo, do qual transcrevemos o
trecho abaixo:
... “E quantas Joanas
D´Arc existiram, quantas existem e quantas ainda existirão! Aqui,
bem perto, temos uma verdadeira benemérita que, cercada de almas
altruísticas, trabalha com o fito de afastar as desgraçadas crianças
das cruéis garras do vício e da perniciosa atmosfera das tascas,
fundando escolas maternais, asilos e creches, oficinas, etc.”.
“Ela faz o descrente
voltar-se para o Criador; transforma a humilde casa do pobre; enche
de verdadeiro prazer as suas encantadoras crianças, dando-lhes
instrução, fé, muita resignação e explicando-lhes o porquê da vida”.
“Hoje ainda existem
alguns restos das satânicas fogueiras e dos fariseus de outrora: são
perseguições, calúnias, ódios, vinganças e uma infinidade de
torpezas que movem aqueles que não lêem pela cartilha da Igreja...”.
“E se ainda existissem
as fogueiras, onde tantas torturas eram infligidas em nome do Deus
de bondade e amor, talvez que essa nova missionária já tivesse sido
devorada pelas chamas do fogo da heresia...”.
É de certa forma
compreensível a atitude hostil do clero católico, levando-se em
conta que a Igreja, àquela época, nada ou quase nada fazia de
semelhante no território brasileiro. Além do mais, era grande e
geral a simpatia do povo para com a obra de Anália Franco, e muitos
intelectuais exaltavam-lhe o pioneirismo no que diz respeito aos
eficientes métodos educacionais introduzidos em suas instituições. O
conceituadíssimo Doutor Alberto Melo Seabra declarava, já em 12 de
Outubro de 1902, pela revista “Educação”, de São Paulo: “O que a
“Associação Feminina” já está fazendo em favor da instrução popular
é digno do mais fervoroso aplauso. Movimentos assim dirigidos,
impulsionados por móveis tão humanitários, só podem trazer simpatias
à causa da mulher no Brasil”.
Todo esse trabalho
desenvolvido por Anália Franco manteve-se, no começo, não à custa
dos cofres públicos, mas da benevolência popular e de um grupo de
sócios e benfeitores que supriam as necessidades da Instituição. As
próprias diretoras deram provas de boa vontade para o
engrandecimento da obra e Anália Franco empregava parte de seus
vencimentos de professora pública nas despesas inadiáveis.
Em 1º. De Março de
1903, saía a lume o primeiro número da “Revista da Associação
Feminina”, órgão literário e educativo fundado e dirigido por Anália
Franco. Atreves desse periódico, e de um outro – “Álbum das Meninas”
-, que ela publicava desde 1898, às expensas dos seus modestos
honorários, fazia-se a divulgação e a propaganda dos objetivos
humanitários que se tinham em vista, atraindo, com isso, novas
colaboradoras para a obra.
Concretizando um sonho
de muitos anos, Anália Franco criava, afinal, em meados de 1903, um
Asilo-Creche, o primeiro de outros futuros, espalhados por diversas
cidades. Nessa nova organização, eram amparadas as viúvas, as mães
abandonadas e seus filhos, os órfãos em geral, etc. Com o correr do
tempo, Anália ali montaria oficinas de tipografia, de costura, de
flores artificiais, de chapéus, bem como daria aulas de musica, de
escrituração mercantil, etc. “O nosso fim – esclarecia ela – é
procurar diminuir cada vez mais em nosso meio a necessidade da
esmola, pelo desenvolvimento da educação e do trabalho, de que
provêm o bem-estar e a moralidade das classes pobres”.
Merecendo-lhe carinho
todo especial a educação do povo, em diversas ocasiões conclamou as
senhoras brasileiras a se unirem a esse movimento de redenção da
ignorância e da miséria. “Eduquemos e amparemos – frisava sempre
Anália Franco – as pobres crianças que necessitam do nosso auxílio:
arrancando-as das trilhas dos vícios, tornando-as cidadãos úteis e
dignos para o engrandecimento de nossa Pátria”.
Seu apelo, ouvido por
muitas distintas damas da sociedade brasileira, permitiu-lhe
multiplicar o número de escolas, asilos e creches. No Estado de São
Paulo trabalharam, com entusiasmo, os espíritos operosos e
inteligentes de Eunice Caldas, Clélia Rocha, Rosina Nogueira Soares
e um sem número de outras dedicadas cooperadoras; no Rio Grande do
Sul, destacou-se a esforçada propagandista Andradina de Oliveira,
poetisa de grandes méritos; em Santa Catarina, Maria Marta Hoffman,
senhora altamente humanitária, doou uma chácara de sua propriedade à
primeira escola maternal ali instalada; em Minas Gerais, sobressaiu
a educadora Vicencinha Scoles; e, pelos Estados afora, surgiam
zelosas senhoras em apoio ao movimento dirigido pela valorosa
missionária.
A inteligente
escritora Adelina Amélia Lopes Vieira, membro do Congresso de
Instrução do Rio de Janeiro, quando foi a São Paulo visitar e
estudar o Asilo-Creche e as Escolas Maternais, dentre as impressões
exaradas no livro de visitantes, deixou a seguinte: “Viajando pela
Europa, onde fui estudar o melhor método para estabelecer creches e
escolas maternais no Rio, não encontrei nenhum instituto que melhor
se adaptasse ao nosso meio e índole, do que os congêneres mantidos
com verdadeiro êxito pela benemérita Associação Feminina Beneficente
e Instrutiva de São Paulo”.
Pelo espaço de quinze anos, Anália dirigiu a revista “A Voz
Maternal”, por ela mesma fundada em 1903. Era impressa por um grupo
de asiladas e chegou a ter a tiragem mensal de 6.000 exemplares, bem
grande para a época. Nas páginas desse periódico ela não se cansava
de falar à alma feminina, despertando-lhe o interesse pelas questões
sociais, máxime para o impostergável problema da alfabetização e
educação da criança.
Outra publicação,
muito útil, também mensal, intitulava-se “Manual Educativo”,
denominação mudada, depois, para “Novo Manual Educativo”. Era
redigida por Anália Franco e impressa em fascículos brochados, com
uma tiragem de cinco a seis mil exemplares mensais, distribuídos
graciosamente aos alunos.
Apesar das verbas com
que os Poderes Executivo e Legislativo do Estado de São Paulo
auxiliavam a “Associação Feminina”, verbas conseguidas à custa de
exaustivos esforços, inúmeras vezes ela atravessou períodos
aflitivos, pela insuficiência de recursos para suprir as
necessidades de tantas instituições. Afora esses percalços, a
Associação enfrentou durante toda a sua existência, as criticas
daqueles que nada fazem, dos demolidores e caluniadores, enchendo a
alma de Anália Franco de funda tristeza, não de desânimo.
Contrariando tais
derrotistas empedernidos, levantaram-se dezenas de pessoas ilustres
e idôneas, entre professores, juizes, médicos, inspetores escolares,
jornalistas, vereadores, deputados e senadores, as quais
espontaneamente externavam em suas visitas às instituições de Anália
Franco, as mais altas expressões de elogio e incentivo.
Conta o Doutor Oscar
R. Tollens, redator-chefe de “A Capital”, que esse jornal
independente recebera grave denúncia contra a “Associação Feminina”
e que ele mesmo se dispôs a verificar-lhe, in loco, a procedência.
Eis o que ele escreveu a propósito de sua visita:
“A calúnia, posso
afirmá-lo, não vingou desta vez. Ela foi esmagada pela verdade
patente que tudo ali atesta elevadamente”.
“Não sei que mais
elogiar, se a prática do bem, da virtude, dos nobres e humanitários
exemplos dos diretores dessa casa de caridade, se a limpeza, a
higiene, o cuidado e o zelo que nela se observam, dispensando-se
todos os carinhos àqueles que sob o seu teto benfazejo se abrigam”.
“Hoje, sinto-me bem
por ter podido repelir uma calúnia contra esse estabelecimento, a
qual, por algum tempo, me deixou dúbio, naturalmente por ignorância
do que se passava”.
“Agora, resta-me
apenas felicitar D. Anália Franco e o Senhor Francisco Bastos,
desejando-lhes todas as recompensas de que são altamente
merecedores”.
“Felizmente triunfou a
verdade e é, precisamente nela, que está a maior vitória dos
beneméritos diretores desse útil estabelecimento”.
A fé e a dedicação de
Anália Franco não esmoreceram jamais. O trabalho era a essência
mesma de sua vida. Estava sempre a idealizar novos planos em
beneficio da criatura humana. Outros empreendimentos vieram
juntar-se aos que, havia anos, produziam apreciáveis frutos. Surge
um Albergue Diurno, aos cuidados do qual ficavam os filhos das
mulheres que trabalhavam fora de casa e que não tinham onde
deixá-los. Cresceu a Biblioteca Escolar da “Associação”, com novos e
valiosos donativos em livros didáticos, ofertados até pelo governo
estadual. Abriu-se uma Escola Noturna para analfabetos adultos. No
Asilo-Creche foram instalados novos e diferentes cursos para as
asiladas, inclusive de enfermagem, preocupando-se Anália Franca com
o ensino profissional entre as internadas, a fim de que um dia,
quando houvessem de deixar aquele estabelecimento, para enfrentar o
mundo, não lhes faltasse um ganha-pão honesto.
Em 1906, devido a
grandes dificuldades financeiras, Anália Franco abria o “Bazar da
Caridade”, para a venda ao público dos trabalhados manufaturados no
Asilo. “Muitos dias hei passado verdadeiras agonias – confessava ela
-, por ver aumentar o número de desprotegidos, sem conseguir
aumentar os subsídios”.
Um pouco mais tarde,
após passar essa fase de desequilíbrio, Anália Franco adquiriu, a
baixo preço, em prestações, uma fazenda situada no bairro da Mooca,
na cidade de São Paulo, e ali instalou a Colônia Regeneradora
“D.Romualdo”. Esta colônia abrigou, a princípio, mulheres
arrependidas, nelas se incutindo as virtudes que esclarecem e o amor
ao trabalho, preparando-as, através de diferentes ofícios
ministrados por professoras especializadas, para vencerem dignamente
na vida. Dessa casa benfazeja, saíram centenas de criaturas
regeneradas, e ali se organizou excelente Grupo Dramático Musical e
uma Orquestra.
Em 1914, Anália Franco
criava a Liga Educativa Maria de Nazaré, destinada a auxiliar, nas
localidades do interior do Estado de São Paulo, as escolas
maternais, creches, asilos e colônias fundadas pela Associação
Feminina Beneficente e Instrutiva.
Era bem animadora a
situação geral, com perto de trinta Escolas Maternais funcionando só
na capital de São Paulo, e com Asilos, Creches e Escolas espalhadas
em mais de vinte cidades dos Estados de São Paulo e Minas Gerais,
totalizando, segundo alguns biógrafos (entre os quais o próprio
esposo de Anália, Senhor Francisco Bastos), a casa de setenta
instituições supervisionadas por Anália Franco, quando irrompeu a
Primeira Guerra Mundial. O Brasil imediatamente sentiu-lhe os
reflexos em sua vida econômica. Medidas severas de poupança foram
ordenadas pelo Governo, com acentuada redução das subvenções às
entidades assistenciais. Os preços das mercadorias subiram
assustadoramente, devorando as economias populares. Na mesma
proporção, diminuíram os auxílios particulares que as instituições
de Anália Franco recebiam.
Nessa ocasião, com a
grave responsabilidade da manutenção de centenas de crianças, e com
o espírito angustiado ante a idéia de que a fome viesse bater às
portas das casas de recolhimento dos seus protegidos, Anália Franco
não se deixou abater e, apesar dos seus 58 anos de idade, lançou mão
de todos os meios para que o pão não faltasse à sua grande família
espiritual.
Conforme escreveu o
Professor Ulisses Paranhos, ilustre médico de Santos (SP), “as
energias de Anália Franco cresceram, a sua força de vontade
multiplicaram-se, parecendo que um quid divino movia aquele
pequenino corpo, já minado pela doença física”.
Organizou festas,
insistiu junto a velhas amizades, bateu a todas as portas e, por
algum tempo, conseguiu remediar a situação. Mas esses recursos
chegaram ao fim, e a bolsa do povo estava esgotada. Não fosse Anália
Franco um espírito forte, iria entregar as chaves de suas escolas e
asilos ao Governo, para que este providenciasse a alimentação das
crianças. Ela, porém, não procedeu assim. Em tal emergência, fez o
seguinte: acompanhada do corpo docente do Asilo-Creche, do seu
esposo Francisco Antônio Bastos, homem dedicadíssimo à obra da
“Associação Feminina”, da Banda Feminina “Regente Feijó” e do Grupo
Dramático Musical da Colônia Regeneradora “Dom Romualdo”, Anália
Franco foi, numa ronda de caridade, percorrer várias cidades de São
Paulo e vilarejos remotos, objetivando angariar donativos para
suprir as prementes necessidades da Associação. Encontrando, em
todas as localidades, carinhosa acolhida por parte das autoridades e
do povo em geral, Anália Franco pode amealhar alguns recursos para
minorar a situação.
Certamente é dessa
ocasião um fato de profunda beleza espiritual, narrado pelo
correspondente de “O Estado de São Paulo”, em Ribeirão Preto.
Evocando a vida e a obra do Padre Euclides Gomes Carneiro, a quem se
devem notáveis obras assistenciais em diversas cidades bandeirantes,
bem como a fundação, em Ribeirão Preto, da Associação Catequista
Voluntários, que se transformaria, mais tarde, na Sociedade Legião
Brasileira, o referido correspondente relembrava mais adiante, a
passagem abaixo, transcrita de “O Estado de São Paulo”, de 25 de
Abril de 1967:
“Assistimos, há mais
de quarenta anos, a um episodio que ficou para sempre gravado em
nossa memória”.
“O fato verificou-se
em uma das dependências da Sociedade Legião Brasileira. Dona Anália
Franco, emérita educadora, que se entregava, de corpo e alma, à
prática do bem, havia chegado, fazia poucos dias, a Ribeirão Preto,
acompanhada da banda musical “Operárias do Bem”, formada de moças e
meninas pertencentes a um orfanato da cidade mineira de Uberaba.
Viera a convite do líder espírita Alexandre Gomes de Abreu. Uma vez
em Ribeirão Preto, Dona Anália Franco procurou conhecer pessoalmente
o Padre Euclides, cuja fama de caridoso já havia, de há muito,
transposto os lindes desta cidade. Para tanto, dirigiu-se à
Sociedade Legião Brasileira, onde o encontraria. Em se tratando de
uma espírita convicta, os dirigentes da Legião receavam que algo de
desagradável pudesse verificar-se quando o Padre Euclides, como era
do seu hábito, chegasse à Sociedade”.
“Demonstraram, por
esse receio, que ainda não conheciam bem o virtuoso sacerdote. Dona
Anália, ao vê-lo chegar, foi ao seu encontro, cumprimentando-o sem
exagero, ao mesmo tempo em que lhe dizia: - Padre Euclides, eu vim a
Ribeirão Preto para aprender, com o Senhor, a praticar a caridade. –
Dona Anália, respondeu-lhe o sacerdote, a senhora está enganada; não
veio aprender, mas sim ensiná-la. Eu tenho esta batina, que me abre
nuitas portas e até mesmo muitas bolsas. A senhora professa uma
doutrina, tão nobre quanto qualquer outra, mas ainda pouco
compreendida e que lhe dificulta os passos. Mas eu e a senhora
seguimos o mesmo caminho, procurando minorar o sofrimento alheio.
Esta é a verdadeira lei de Deus”.
“Depois desse
encontro, o mal-estar dissipou-se por completo e a cordialidade
reinou entre os presentes, demonstrando que a caridade, quando
verdadeira, como a praticavam o padre Euclides e Dona Anália Franco,
une os corações e os transporta ao Criador”.
“No dia seguinte, era
o padre Euclides quem visitava D. Anália Franco e as “Operarias do
Bem”. Como não podia deixar de ser, foi ele recebido com vivas
demonstrações de simpatia. Sua visita tinha uma finalidade:
levar-lhes o primeiro donativo que receberiam em Ribeiro Preto”.
O mundo convulsionado
pela guerra iria passar por outra desgraça próxima. Mortífera
pandemia de gripe surgiu na Europa e em pouco tempo atingia o Brasil
com o nome de “gripe espanhola”. Houve então, em 1918, terrível
mortandade em São Paulo. Caíram doentes todas as asiladas.
Esvasiaram-se as escolas. Sem possibilidades financeiras para melhor
atender às suas doentinhas, ela se confia a Deus e põe-se a
tratá-las com passes, água efluviada e algum “chazinho” caseiro. Com
a ajuda do Alto, conseguiu salvar todas elas, à exceção de quatro ou
cinco meninas, que haviam sido entregues aos seus cuidados já
bastante debilitadas.
Em comovedora carta
dirigida à Professora Clélia Rocha, então diretora do Asilo de
Dourados (SP) e excelente auxiliar de Anália Franco, esta assim se
expressava em 21 de Junho de 1918:
“Estou lutando com
enorme falta de recursos para o sustento do meu pessoal e dos asilos
mal administrados. Imagine que se não fora o raiozinho de fé que
tenho, era para enlouquecer. Só aqui tenho 140 bocas para sustentar,
sem receber as verbas e sem contar senão com as escassas esmolas. A
minha situação nunca foi tão precária como atualmente. O clero, não
podendo com o povo, insuflou o Governo contra mim, de modo que nem
os meus ordenados, que tanto auxiliavam o sustento das crianças
aqui, nem isso eu recebi. Os espetáculos, com a baixa do café, estão
dando a terça parte do que davam. Enfim, a crença espírita é que me
sustenta ainda neste mar de sofrimentos e lutas. Todos os dias peço
a Deus que me dê forças para não perder a coragem”.
Quando, e, fins de
1918, o surto epidêmico declinava, em São Paulo, as abrigadas na
Colônia Regeneradora “Dom Romualdo”, passa a ter a gripe, já então
atenuada em sua virulência, mas exigindo ainda tratamento cuidadoso.
Anália Franco, em carta ao Doutor Antonio Ribeiro, de Uberaba,
escrita em 14 de Dezembro de 1918, dizia, entre outras coisas
tristes: “... eis que a malsinada gripe transformou o meu asilo num
verdadeiro hospital. Estamos com 80 gripadas. Só eu e Bastos é que
estamos de pé para tratá-las. Imagine a nossa aflição e os nossos
trabalhos”.
Malgrado todos esses
dolorosos contratempos, a valiosa missionária nutria ainda o grande
desejo de criar um asilo e colégio na cidade de Uberaba (MG), e já
havia destacado a Professora Clélia Rocha para dirigir o mesmo. A
última carta que redigiu sobre o assunto, dizendo ao Doutor Antonio
Ribeiro de sua ansiedade por solver o compromisso dela em Uberaba,
foi datada de 26 de Dezembro de 1918. Animava-a, também, a resolução
de ir ao Rio de Janeiro, a fim de aí fundar um estabelecimento de
educação, em moldes puramente espíritas.
As noites passadas em
claro, junto aos “filhos” de sua grande família, os angustiantes
problemas que pesavam sobre a sua alma, tudo isso concorreu para
enfraquecer-lhe as forças orgânicas, levando-a a desencarnar na
capital de São Paulo, aos 20 de Janeiro de 1919.
Paciente, carinhosa,
humilde, dedicadíssima ao bem do próximo, assim era Anália Franco.
“Não teve filhos, mas foi uma grande Mãe” – afirmou a Doutora
Adalzira Bittencourt em sua obra “A Mulher Paulista na História”
(1954). À sua energia e dinamismo aliava um espírito grandemente
compreensivo e meigo. As criancinhas asiladas chamavam-lhe – mãe.
Repetia sempre que os seus triunfos eram devidos à infinita
misericórdia do Pai. Muito simples no trajar, sem nenhuma vaidade,
declarou certa vez que o valor da mulher não se afere pela beleza
aparente e atrativos exteriores, mas sim, pelos grandes ideais que
lhe enchem o cérebro e pelos nobres sentimentos que lhe impulsionam
o coração”.
Anália Franco, além de
emérita educadora, cuja obra foi, no dizer do senador Doutor José
Luis de Almeida Nogueira, “altamente humanitária e civilizadora”,
revelou-se também como jornalista, poetisa, romancista, musicista,
teatróloga, contista e conferencista.
Fundou e redigiu
vários periódicos educativos, cujos nomes já foram aqui referidos,
tendo colaborado em publicações como “A Semana”, de Valentim
Magalhães, “A Família” e o “Eco das Damas”, todas três do Rio de
Janeiro, “A Educação”, de São Paulo, o “Almanaque das Senhoras”, de
Lisboa, e em jornais de inúmeras cidades do interior do Estado de
São Paulo.
Escreveu os romances:
“A Égide Materna”, “A Filha Adotiva” e “A Filha do Artista”. Sobre
este último publicaram artigos enaltecedores Leopoldo de Freitas, de
“O Diário Popular”, de São Paulo, e B. Florêncio de “O Baluarte de
Campinas”.
Autora de poesias,
comédias, diálogos, operetas, canções, cançonetas, dramatizações
escolares e contos cômicos, tudo produziu com o objetivo de distrair
e educar os asilados. Segundo as palavras da Dra. Adalzira
Bittencort, notável escritora, poetisa e educadora paulista, Anália
Franco “esbanjou talento e coração para alegrar, amar e educar as
crianças pobres do nosso Brasil”.
Das peças para teatro
que escreveu, levadas à cena nos teatrinhos das suas instituições de
São Paulo e de cidades do interior do Estado, podemos citar: “A
Escolinha”, em 1 ato; “A Feiticeira”, drama em três atos; “A
Caipirinha”, comédia em 1 ato; etc.
É vasta a sua produção
de obras didáticas, das quais mencionaremos as seguintes: “Manual
das Mães”, para o 2º. Ano elementar 1ª. Série, fascículos 1º. E 2º;
“Lições aos Pequeninos”; “Manual Para as Creches e Escolas
Maternais”; “Noções de Geografia Elementar”; “Brevíssimo Resumo de
Aritmética”, “Primeiras Lições Para as Escolas Maternais”, dois
fascículos; “Quartas Lições Para as Escolas Maternais”, 3
fascículos; etc.
São também de sua
autoria o magnífico opúsculo intitulado “As Preleções de Jesus”,
escrito em 1901, e que vale por um tratado moral-filosófico; “O
Regulamento das Escolas Maternais”; “O Ensino Popular em São Paulo”,
entrevista ao jornal “Jaú Moderno”; “Programa para a fundação de
Escolas Maternais e Regime Interno do Asilo Creche”; e o folheto
espírita: “Habilitação à Assistência das Sessões de Espiritismo”,
com perguntas e respostas, elaborado em 1912, por ela e seu marido,
e reeditado em 1924 e 1932.
Tamanha fecundidade de
trabalho numa mulher é verdadeiramente extraordinário. Anália Franco
deu atestado eloqüente, naqueles tempos em que a mulher brasileira
ainda não se achava emancipada de preconceitos seculares, de que a
criatura feminina pode ser não apenas mãe, esposa, filha ou irmã,
mas igualmente num sentido mais geral, a ativa cooperadora de todos
os grandes ideais humanos.
“Depois do pensamento
e da palavra de Deus – salientou Anália Franco -, nada é mais belo e
mais nobre do que a missão do verdadeiro educador da infância”.
“A abnegação, o
desinteresse e o sacrifício deve ser a única divisa da pessoa a quem
Deus e a sociedade concederam tantas prerrogativas. O seu
ministério, todo moral, e a dignidade das suas funções medem-se pela
profundidade das suas responsabilidades”.
“O mais sagrado de
todos os interesses sociais – continua a mestra paulista – é a
educação popular e é por isso que os espíritos verdadeiramente
humanitários consideram esta missão como um dos poderosos meios de
fazer o bem”.
Tais palavras se
ajustam perfeitamente a quem as escreveu. A bela e grandiosa missão
social de Anália Franco em terras brasileiras, inspirada nos mais
puros sentimentos da Caridade em ação, não encontra paralelo em
nossa história assistencial de iniciativa particular. Expressam bem
a nobreza desse espírito missionário essa linhas de F, Curio de
Carvalho:
“Como o astro que,
riscando o céu, deixa, após si, o sulco luminoso de sua passagem,
também Anália Franco, em sua peregrinação no mundo, deixou entre
nós, em cada curva do caminho, os traços indeléveis de sua jornada.
Legou a todos nós um exemplo vivo de virtudes”.
Muito ainda se poderia
escrever sobre a admirável personalidade da Professora Anália
Franco, mui justamente venerada no Estado de São Paulo e amada em
todo o Brasil espírita, mas cremos suficiente a biografia que
traçamos dessa educadora de inegáveis méritos, cuja vida nobilíssima
se tornou, no dizer do Doutor Ulisses Paranhos, um padrão para a
mulher brasileira, e cuja missão na Terra foi sempre um verdadeiro e
constante evangelho de beneficência e bondade, fazendo jus ao
cognome que lhe deram: “Anjo da Caridade”.
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